{"id":8593,"date":"2020-11-25T15:46:50","date_gmt":"2020-11-25T15:46:50","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/11\/25\/o-que-sao-emocoes-antonio-damasio\/"},"modified":"2020-11-25T15:46:50","modified_gmt":"2020-11-25T15:46:50","slug":"o-que-sao-emocoes-antonio-damasio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/11\/25\/o-que-sao-emocoes-antonio-damasio\/","title":{"rendered":"O QUE S\u00c3O EMO\u00c7\u00d5ES? &#8211; Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\">O que s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es?<strong><br \/><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio em &#8220;O Mist\u00e9rio da Consci\u00eancia&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem exce\u00e7\u00e3o, homens e mulheres de todas as idades, culturas, n\u00edveis de instru\u00e7\u00e3o e econ\u00f4micos t\u00eam emo\u00e7\u00f5es, atentam para as emo\u00e7\u00f5es dos outros, cultivam passatempos que manipulam suas emo\u00e7\u00f5es e em grande medida governam suas vidas buscando uma emo\u00e7\u00e3o, a felicidade, e procurando evitar emo\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. A primeira vista, n\u00e3o existe nada caracteristicamente humano nas emo\u00e7\u00f5es, pois \u00e9 claro que numerosas criaturas n\u00e3o humanas t\u00eam emo\u00e7\u00f5es em abund\u00e2ncia; entretanto, existe algo acentuadamente caracter\u00edstico no modo como as emo\u00e7\u00f5es vincularam-se a ideias, valores, princ\u00edpios e ju\u00edzos complexos que s\u00f3 os seres humanos podem ter, e \u00e9 nessa vincula\u00e7\u00e3o que se baseia nossa sensata percep\u00e7\u00e3o de que a emo\u00e7\u00e3o humana \u00e9 especial. A emo\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o diz respeito apenas aos prazeressexuais ou ao medo que podemos ter de cobras. Diz respeito tamb\u00e9m ao horror que sentimos ao testemunhar o sofrimento e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de ver a justi\u00e7a sendo feita, ao nosso encanto com o sorriso sensual de Jeanne Moreau ou com a densa beleza das palavras e das ideias nos poemas shakespearianos, ao fastio pelo mundo expresso na voz do bar\u00edtono Dietrich Fischer-Dieskau cantando Ich habe genug, de Bach, e aos fraseados ao mesmo tempo mundanos e et\u00e9reos de Maria Jo\u00e3o Pires tocando qualquer pe\u00e7a de Mozart ou Schubert, e ainda \u00e0 harmonia que Einstein buscava na estrutura de uma equa\u00e7\u00e3o. De fato, a emo\u00e7\u00e3o humana, em seu refinamento, \u00e9 desencadeada at\u00e9 mesmo por uma m\u00fasica e por filmes baratos, cujo poder nunca devemos subestimar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impacto humano de todas essas causas de emo\u00e7\u00f5es, refinadas e n\u00e3o t\u00e3o refinadas, e de todas as nuances de emo\u00e7\u00f5es sutis ou n\u00e3o sutis que elas induzem depende dos sentimentos engendrados por essas emo\u00e7\u00f5es. E por interm\u00e9dio destes, que s\u00e3o privados, voltados para dentro, que as emo\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o p\u00fablicas, voltadas para fora, iniciam seu impacto sobre a mente; mas o impacto integral e duradouro dos sentimentos requer a consci\u00eancia, pois somente em conjun\u00e7\u00e3o com o advento de um sentido do self os sentimentos tornam-se conhecidos pelo indiv\u00edduo que os tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns leitores podem ficar intrigados com a distin\u00e7\u00e3o entre \u201csentir\u201d e \u201csaber que temos um sentimento\u201d. O estado de sentir n\u00e3o implica, necessariamente, que o organismo que sente tem plena consci\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o e do sentimento que est\u00e3o acontecendo? Estou supondo que n\u00e3o, que um organismo pode representar em padr\u00f5es neurais e mentais o estado que n\u00f3s, criaturas conscientes, denominamos sentimento, sem jamais saber que existe sentimento. \u00c9 dif\u00edcil conceber essa separa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas porque os significados tradicionais das palavras bloqueiam nossa vis\u00e3o, mas porque tendemos a ter consci\u00eancia de nossos sentimentos. Contudo, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia alguma de que temos ci\u00eancia de todos os nossos sentimentos, mas h\u00e1 muitos ind\u00edcios de que n\u00e3o. Por exemplo, em determinada situa\u00e7\u00e3o, com frequ\u00eancia nos damos conta, de repente, de que estamos ansiosos ou inquietos, satisfeitos ou descontra\u00eddos, e \u00e9 evidente que o estado de sentimento espec\u00edfico do qual tomamos conhecimento nesse instante n\u00e3o come\u00e7ou no momento em que foi conhecido, e sim algum tempo antes. Nem o estado de sentimento nem a emo\u00e7\u00e3o que conduziu a ele haviam se manifestado \u201cna consci\u00eancia\u201d, e mesmo assim estavam ocorrendo como processos biol\u00f3gicos. Essas distin\u00e7\u00f5es podem parecer artificiais \u00e0 primeira vista, embora meu intuito n\u00e3o seja complicar algo simples, mas dividir algo muito complexo em partes mais facilmente abord\u00e1veis. Com o prop\u00f3sito de investigar esses fen\u00f4menos, separo tr\u00eas est\u00e1gios de processamento que fazem parte de um continuum: um estado de emo\u00e7\u00e3o, que pode ser desencadeado e executado inconscientemente; um estado de sentimento, que pode ser representado inconscientemente, e um estado de sentimento tornado consciente, isto \u00e9, que \u00e9 conhecido pelo organismo que est\u00e1 tendo emo\u00e7\u00e3o e sentimento. Creio que essas distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00fateis quando tentamos imaginar os fundamentos neurais dessa cadeia de eventos que ocorre nos seres humanos. Al\u00e9m disso, imagino que algumas criaturas n\u00e3o humanas que exibem emo\u00e7\u00f5es, mas que provavelmente n\u00e3o t\u00eam o tipo de consci\u00eancia que possu\u00edmos, podem muito bem formar as representa\u00e7\u00f5es que denominamos sentimentos sem saber que fazem isso.\u00a0Algu\u00e9m poderia sugerir que talvez dev\u00eassemos ter uma outra palavra para designar os \u201csentimentos que n\u00e3o s\u00e3o conscientes\u201d, mas n\u00e3o temos nenhuma. A alternativa mais aproximada \u00e9 explicar o que queremos dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, a consci\u00eancia tem de estar presente para que os sentimentos influenciem o indiv\u00edduo que os tem, al\u00e9m do aqui e agora imediato. A relev\u00e2ncia desse fato de que as consequ\u00eancias supremas da emo\u00e7\u00e3o e do sentimento humano giram em torno da consci\u00eancia \u2014 n\u00e3o foi adequadamente aquilatada (a estranha hist\u00f3ria das pesquisas sobre emo\u00e7\u00e3o e sentimento, mencionada adiante, possivelmente \u00e9 a causa dessa neglig\u00eancia). A emo\u00e7\u00e3o provavelmente havia se estabelecido na evolu\u00e7\u00e3o antes do aparecimento da consci\u00eancia, e emerge em cada um de n\u00f3s como resultado de indutores que com frequ\u00eancia n\u00e3o reconhecemos conscientemente; por outro lado, os sentimentos produzem seus efeitos supremos e duradouros no teatro da mente consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acentuado contraste entre a condi\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o, que \u00e9 induzida sem que saibamos e se volta para fora, e a condi\u00e7\u00e3o do sentimento humano, que \u00e9 essencialmente conhecido e se volta para dentro, forneceu-me uma perspectiva inestim\u00e1vel para uma reflex\u00e3o sobre a biologia da consci\u00eancia. E existem outras pontes ligando emo\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia. Neste livro, minha suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que, assim como a emo\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia relaciona-se \u00e0 sobreviv\u00eancia do indiv\u00edduo e que, tal como a emo\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia est\u00e1 alicer\u00e7ada na representa\u00e7\u00e3o do corpo. Tamb\u00e9m chamo a aten\u00e7\u00e3o para um fato neurol\u00f3gico curioso: quando a consci\u00eancia est\u00e1 ausente, da consci\u00eancia central para cima, em geral a emo\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 ausente, indicando que, embora emo\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia sejam fen\u00f4menos diferentes, seus alicerces podem estar ligados. Por todas essas raz\u00f5es, \u00e9 importante discutir as caracter\u00edsticas variadas da emo\u00e7\u00e3o antes de come\u00e7armos a tratar diretamente da consci\u00eancia. Antes, por\u00e9m, de esbo\u00e7ar os resultados dessa reflex\u00e3o, farei um excurso sobre a estranha hist\u00f3ria da ci\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o, pois essa hist\u00f3ria pode explicar por que a consci\u00eancia n\u00e3o foi abordada da perspectiva que estou adotando aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXCURSO HIST\u00d3RICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a magnitude das quest\u00f5es \u00e0s quais emo\u00e7\u00e3o e sentimento est\u00e3o associados, seria de esperar que tanto a filosofia como as ci\u00eancias da mente e do c\u00e9rebro houvessem se devotado antes a seu estudo. Surpreendentemente, s\u00f3 agora isso est\u00e1 acontecendo. A filosofia, apesar de David Hume e da tradi\u00e7\u00e3o que com ele se originou, n\u00e3o deu cr\u00e9dito \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e em grande medida a relegou aos reinos desprez\u00edveis dos animais e da carne. Durante algum tempo, parecia que a ci\u00eancia se sairia melhor, mas depois tamb\u00e9m ela perdeu sua chance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do s\u00e9culo XIX, Charles Darwin, William James e Sigmund Freud haviam publicado diversos escritos sobre diferentes aspectos da emo\u00e7\u00e3o, conferindo-lhe um lugar privilegiado no discurso cient\u00edfico. Contudo, por todo o s\u00e9culo XX at\u00e9 bem recentemente, tanto a neuroci\u00eancia como a ci\u00eancia cognitiva trataram a emo\u00e7\u00e3o com grande desd\u00e9m. Darwin encetou um vasto estudo sobre a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es em diferentes culturas e em diferentes esp\u00e9cies e, embora julgasse que as emo\u00e7\u00f5es humanas fossem vest\u00edgios de est\u00e1gios anteriores da evolu\u00e7\u00e3o, ele respeitou a import\u00e2ncia do fen\u00f4meno.\u00a0William James discerniu o problema com admir\u00e1vel clareza e comp\u00f4s um relato que, apesar de incompleto, permanece fundamental. Freud, por sua vez, descortinou gradativamente o potencial patol\u00f3gico dos transtornos emocionais e apregoou sua import\u00e2ncia com grande veem\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias de Darwin, James e Freud quanto ao aspecto do c\u00e9rebro foram, por necessidade, um tanto vagas, mas um contempor\u00e2neo chamado Hughlings Jackson foi mais preciso. Ele deu o primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o a uma poss\u00edvel neuroanatomia da emo\u00e7\u00e3o, sugerindo que o hemisf\u00e9rio cerebral direito dos humanos provavelmente era determinante para a emo\u00e7\u00e3o, no mesmo grau em que o esquerdo era<br \/>determinante para a linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teria sido bastante razo\u00e1vel esperar que, tendo in\u00edcio o novo s\u00e9culo, as ci\u00eancias do c\u00e9rebro, em franco desenvolvimento, tivessem inclu\u00eddo em sua pauta a emo\u00e7\u00e3o e resolvido suas quest\u00f5es. Mas esse avan\u00e7o n\u00e3o ocorreu. Pior ainda, o trabalho de Darwin sobre as emo\u00e7\u00f5es se perdeu, a hip\u00f3tese de James foi injustamente criticada e sumariamente descartada e a influ\u00eancia de Freud desviou-se para outras \u00e1reas. Durante a maior parte do s\u00e9culo XX, a emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve espa\u00e7o nos laborat\u00f3rios. Dizia-se que era subjetiva demais. A emo\u00e7\u00e3o encontrava-se no polo oposto ao da raz\u00e3o, sendo esta, de longe, a mais refinada das capacidades humanas, e presumia-se que a raz\u00e3o era totalmente independente da emo\u00e7\u00e3o. Isso deturpava perversamente o modo como os rom\u00e2nticos viam a humanidade. Situavam a emo\u00e7\u00e3o no corpo e a raz\u00e3o no c\u00e9rebro. A ci\u00eancia do s\u00e9culo XX deixou o corpo de lado, devolveu a emo\u00e7\u00e3o ao c\u00e9rebro mas relegou-o aos estratos neurais inferiores, associados a ancestrais que ningu\u00e9m venerava. No final, n\u00e3o s\u00f3 a emo\u00e7\u00e3o mas at\u00e9 mesmo seu estudo provavelmente n\u00e3o eram racionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem paralelos curiosos \u00e0 neglig\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o pela ci\u00eancia no s\u00e9culo XX. Um desses paralelos \u00e9 a aus\u00eancia de uma perspectiva evolucionista no estudo do c\u00e9rebro e da mente. Talvez seja exagero dizer que a neuroci\u00eancia e a ci\u00eancia cognitiva procederam como se Darwin nunca tivesse existido, mas com certeza a situa\u00e7\u00e3o era parecida com essa at\u00e9 a d\u00e9cada passada. Aspectos do c\u00e9rebro e da mente come\u00e7aram a ser discutidos como se tivessem sido projetados recentemente, por necessidade, para produzir determinado efeito \u2014 mais ou menos como freios ABS instalados em todo carro novo que se preze \u2014, sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o pelos poss\u00edveis antecedentes dos mecanismos mentais e cerebrais. Nos \u00faltimos tempos, a situa\u00e7\u00e3o vem mudando notavelmente. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro paralelo est\u00e1 no descaso pela no\u00e7\u00e3o de homeostasia. A homeostasia associa-se \u00e0s rea\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas coordenadas e em grande medida autom\u00e1ticas que s\u00e3o necess\u00e1rias para manter est\u00e1veis os estados internos de um organismo vivo. Define-se homeostasia como a regula\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da temperatura, da concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio ou do pH em nosso corpo. Muitos cientistas t\u00eam se empenhado em entender a neurofisiologia da homeostasia, em desvendar o nexo da neuroanatomia e da neuroqu\u00edmica do sistema nervoso aut\u00f4nomo (a parte do sistema nervoso que participa mais diretamente da homeostasia) e em elucidar as inter-rela\u00e7\u00f5es entre os sistemas end\u00f3crino, imune e nervoso, cujo trabalho conjunto produz a homeostasia. Mas o progresso cient\u00edfico obtido nessas \u00e1reas teve pouca influ\u00eancia nas concep\u00e7\u00f5es prevalecentes sobre como a mente ou o c\u00e9rebro funcionam. Curiosamente, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o parte integrante da regula\u00e7\u00e3o que denominamos homeostasia. N\u00e3o faz sentido discuti-las sem compreender esse aspecto dos organismos vivos e vice-versa. Neste livro, suponho que a homeostasia seja essencial para a biologia da consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um terceiro paralelo \u00e9 a aus\u00eancia not\u00e1vel de uma no\u00e7\u00e3o de organismo na ci\u00eancia cognitiva e na neuroci\u00eancia. A mente permaneceu ligada ao c\u00e9rebro em uma rela\u00e7\u00e3o um tanto equ\u00edvoca, e o c\u00e9rebro foi consistentemente separado do corpo em vez de ser visto como parte de um organismo vivo e complexo. A concep\u00e7\u00e3o de um organismo integrado \u2014- a ideia de um conjunto composto de um corpo propriamente dito e de um sistema nervoso \u2014&#8211; j\u00e1 aparecia na obra de pensadores como Ludwig von Bertalanffy, Kurt Goldstein e Paul Weiss, mas teve pouco impacto na forma\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es tradicionais de mente e de c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bem verdade que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es nesse vasto panorama. Por exemplo, as suposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Gerald Edelman sobre a base neural da mente fundamentam-se no pensamento evolucionista e reconhecem a regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica; e minha hip\u00f3tese do marcador som\u00e1tico baseia-se em concep\u00e7\u00f5es de evolu\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica e organismo. Mas as suposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que v\u00eam pautando a ci\u00eancia cognitiva e a neuroci\u00eancia n\u00e3o t\u00eam feito muito uso das perspectivas alicer\u00e7adas no organismo e na evolu\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em anos recentes, tanto a neuroci\u00eancia como a neuroci\u00eancia cognitiva finalmente referendaram a emo\u00e7\u00e3o. Uma nova gera\u00e7\u00e3o de cientistas elegeu a emo\u00e7\u00e3o como tema de estudo. Al\u00e9m disso, a presumida oposi\u00e7\u00e3o entre emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aceita sem questionamento. Por exemplo, estudos em meu laborat\u00f3rio mostraram que a emo\u00e7\u00e3o integra os processos de racioc\u00ednio e decis\u00e3o, seja isso bom ou mau. A princ\u00edpio, isso pode parecer contr\u00e1rio \u00e0 intui\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 ind\u00edcios em favor dessa tese. As descobertas prov\u00eam do estudo de v\u00e1rios indiv\u00edduos que eram inteiramente racionais no modo como conduziam suas vidas at\u00e9 o momento em que, em consequ\u00eancia de uma les\u00e3o neurol\u00f3gica em locais espec\u00edficos do c\u00e9rebro, perderam determinada classe de emo\u00e7\u00f5es e, em um desdobramento paralelo important\u00edssimo, perderam a capacidade para tomar decis\u00f5es racionais. Esses indiv\u00edduos ainda podem usar os instrumentos de sua racionalidade e ainda conseguem evocar o conhecimento sobre o mundo que os cerca. Sua capacidade para lidar com a l\u00f3gica de um problema permanece intacta. Ainda assim, muitas de suas decis\u00f5es pessoais e sociais s\u00e3o irracionais, o mais das vezes desvantajosas para eles pr\u00f3prios e para outras pessoas. Supus que neles o delicado mecanismo de racioc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 mais influenciado, inconscientemente e por vezes at\u00e9 mesmo conscientemente, por sinais provenientes do mecanismo neural subjacente \u00e0 emo\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida como hip\u00f3tese do marcador som\u00e1tico, e os pacientes que me levaram a formul\u00e1-la apresentavam les\u00f5es em \u00e1reas espec\u00edficas da regi\u00e3o pr\u00e9-frontal, principalmente nas \u00e1reas ventral e medial e nas regi\u00f5es parietais direitas. Seja em raz\u00e3o de um derrame [acidente vascular cerebral], de um traumatismo craniano ou de um tumor que exigiu excis\u00e3o cir\u00fargica, a les\u00e3o nessas regi\u00f5es estava consistentemente associada ao aparecimento do padr\u00e3o cl\u00ednico que descrevi acima, ou seja, um dist\u00farbio na capacidade de decidir vantajosamente em situa\u00e7\u00f5es que envolvem risco e conflito e uma redu\u00e7\u00e3o seletiva na capacidade de raciocinar emocionalmente nessas mesmas situa\u00e7\u00f5es, enquanto o restante das capacidades emocionais desses pacientes permanecia preservado. Antes da ocorr\u00eancia da les\u00e3o cerebral, os indiv\u00edduos assim afetados n\u00e3o apresentavam esse comprometimento. Seus parentes e amigos perceberam um &#8220;antes&#8221; e um &#8220;depois&#8221;, relacionados ao momento da les\u00e3o neurol\u00f3gica. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas descobertas indicam que uma redu\u00e7\u00e3o seletiva da emo\u00e7\u00e3o \u00e9 no m\u00ednimo t\u00e3o prejudicial para a racionalidade quanto a emo\u00e7\u00e3o excessiva. Certamente n\u00e3o \u00e9 verdade que a raz\u00e3o opere vantajosamente sem a influ\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 prov\u00e1vel que a emo\u00e7\u00e3o auxilie o racioc\u00ednio, em especial quando se trata de quest\u00f5es pessoais e sociais que envolvem risco e conflito. Sugeri que certos n\u00edveis de processamento de emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o provavelmente indicativos do setor do espa\u00e7o de tomada de decis\u00e3o onde nosso racioc\u00ednio pode operar com m\u00e1xima efic\u00e1cia. Mas n\u00e3o sugeri que as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o um substituto para a raz\u00e3o ou que as emo\u00e7\u00f5es decidem por n\u00f3s. \u00c9 \u00f3bvio que como\u00e7\u00f5es emocionais podem levar a decis\u00f5es irracionais. As les\u00f5es neurol\u00f3gicas sugerem simplesmente que a aus\u00eancia seletiva de emo\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema. Emo\u00e7\u00f5es bem direcionadas e bem situadas parecem constituir um sistema de apoio sem o qual o edif\u00edcio da raz\u00e3o n\u00e3o pode operar a contento. Esses resultados e sua interpreta\u00e7\u00e3o puseram em xeque a ideia que descarta a emo\u00e7\u00e3o como se fosse um luxo, um estorvo ou um mero vest\u00edgio evolutivo. Tamb\u00e9m possibilitaram que se visse emo\u00e7\u00e3o como a concretiza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O C\u00c9REBRO CONHECE MAIS DO QUE A<\/strong><br \/><strong>MENTE CONSCIENTE REVELA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A emo\u00e7\u00e3o e o sentimento da emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o, respectivamente, o in\u00edcio e o fim de uma progress\u00e3o, mas a natureza relativamente p\u00fablica das emo\u00e7\u00f5es e a total privacidade dos sentimentos decorrentes indicam que os mecanismos ao longo do continuum s\u00e3o muito diferentes. Admitir uma distin\u00e7\u00e3o entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento \u00e9 \u00fatil para investigarmos minuciosamente esses mecanismos. Propus que o termo sentimento fosse reservado para a experi\u00eancia mental privada de uma emo\u00e7\u00e3o, enquanto o termo emo\u00e7\u00e3o seria usado para designar o conjunto de rea\u00e7\u00f5es, muitas delas publicamente observ\u00e1veis. Na pr\u00e1tica, isso significa que n\u00e3o se pode observar um sentimento em outra pessoa, embora se possa observar um sentimento em si mesmo quando, como ser consciente, seus pr\u00f3prios estados emocionais s\u00e3o percebidos. Analogamente, ningu\u00e9m pode observar os sentimentos que um outro vivencia, mas alguns aspectos das emo\u00e7\u00f5es que originam esses sentimentos ser\u00e3o patentemente observ\u00e1veis por outras pessoas. Al\u00e9m disso, em defesa de meu argumento, \u00e9 poss\u00edvel mencionar que os mecanismos b\u00e1sicos subjacentes \u00e0 emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o requerem a consci\u00eancia, ainda que acabem por us\u00e1-la: a cascata de processos que acarretam uma manifesta\u00e7\u00e3o emocional pode ser ipiciada sem que se tenha consci\u00eancia do indutor da emo\u00e7\u00e3o e muito menos das etapas intermedi\u00e1rias que conduziram a ela, Com efeito, mesmo a ocorr\u00eancia de um sentimento no limitado espa\u00e7o de tempo do aqui e agora \u00e9 conceb\u00edvel sem que o organismo realmente saiba de sua ocorr\u00eancia. \u00c9 verdade que, nesta etapa da evolu\u00e7\u00e3o e em nossa vida adulta, as emo\u00e7\u00f5es ocorrem em um contexto de consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos sentir consistentemente nossas emo\u00e7\u00f5es, e sabemos que as sentimos. A trama de nossa mente e de nosso comportamento \u00e9 tecida ao redor de ciclos sucessivos de emo\u00e7\u00f5es seguidas por sentimentos que se tornam conhecidos e geram novas emo\u00e7\u00f5es, numa polifonia cont\u00ednua que sublinha e pontua pensamentos espec\u00edficos em nossa mente e a\u00e7\u00f5es em nosso comportamento. Mas, embora emo\u00e7\u00e3o e sentimento sejam agora parte de um continuum funcional, conv\u00e9m distinguir as etapas ao longo desse continuum, se pretendemos lograr algum \u00eaxito ao estudar seus fundamentos biol\u00f3gicos. Ademais, como j\u00e1 mencionado, \u00e9 poss\u00edvel que os sentimentos se situem exatamente no limiar que separa o ser do conhecer e, portanto, \u00e9 poss\u00edvel que tenham uma liga\u00e7\u00e3o privilegiada com a consci\u00eancia. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que tenho tanta certeza de que o mecanismo biol\u00f3gico subjacente \u00e0 emo\u00e7\u00e3o independe da consci\u00eancia? Afinal, em nossa experi\u00eancia rotineira, frequentemente parecemos conhecer as circunst\u00e2ncias que levam a uma emo\u00e7\u00e3o. Mas conhecer frequentemente n\u00e3o \u00e9 o mesmo que conhecer sempre. H\u00e1 muitos dados que indicam a natureza encoberta da indu\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o, e ilustrarei esse argumento com alguns resultados experimentais de minhas pesquisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">David, que apresenta um dos mais graves dist\u00farbios de aprendizado e mem\u00f3ria j\u00e1 registrados, n\u00e3o \u00e9 capaz de aprender nenhum fato novo. Por exemplo, \u00e9 incapaz de gravar na mem\u00f3ria uma apar\u00eancia f\u00edsica, um som, um lugar ou uma palavra que sejam novos. Consequentemente, n\u00e3o consegue aprender a reconhecer nenhuma pessoa nova, pelo rosto, pela voz ou pelo nome, nem consegue se lembrar de coisa alguma relacionada ao lugar onde encontrou determinada pessoa ou aos eventos ocorridos entre essa pessoa e ele. O problema de David \u00e9 causado por uma les\u00e3o extensa em ambos os lobos temporais, incluindo uma les\u00e3o na regi\u00e3o denominada hipocampo (cuja integridade \u00e9 necess\u00e1ria para criar a lembran\u00e7a de fatos novos) e na regi\u00e3o conhecida como am\u00edgdala (um agrupamento subcortical de n\u00facleos relacionados \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, que mencionarei nas p\u00e1ginas seguintes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos anos atr\u00e1s, disseram-me que David parecia manifestar, em sua vida cotidiana, prefer\u00eancias e avers\u00f5es consistentes por determinadas pessoas. Por exemplo, no local onde ele viveu a maior parte dos \u00faltimos vinte anos, havia certas pessoas a quem ele preferia recorrer quando queria um cigarro ou uma x\u00edcara de caf\u00e9, e outras a quem ele nunca recorria. A consist\u00eancia desses comportamentos era muito intrigante, considerando que David n\u00e3o era capaz de reconhecer nenhum daqueles indiv\u00edduos, que ele n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia de j\u00e1 ter visto alguma vez qualquer uma daquelas pessoas e que ele n\u00e3o era capaz de lembrar o nome de nenhuma delas ou de indicar qualquer uma se lhe mencionassem um nome. Essa hist\u00f3ria instigante poderia ser mais do que um caso curioso? Decidi investigar, por meio de testes emp\u00edricos. Para isso, em colabora\u00e7\u00e3o com meu colega Daniel Tranel, concebi um experimento que se tornou conhecido em nosso laborat\u00f3rio como experimento do bonzinho\/malvado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante uma semana, conseguimos fazer com que David, em circunst\u00e2ncias totalmente controladas, participasse de tr\u00eas tipos distintos de intera\u00e7\u00e3o humana. Um tipo de intera\u00e7\u00e3o ocorreu com algu\u00e9m extremamente agrad\u00e1vel e simp\u00e1tico que sempre recompensou David, quer ele pedisse alguma coisa, quer n\u00e3o pedisse nada (o &#8220;bonzinho&#8221;). Outra intera\u00e7\u00e3o foi com algu\u00e9m emocionalmente neutro e que incumbiu David de tarefas que n\u00e3o foram agrad\u00e1veis nem desagrad\u00e1veis (o neutro&#8221;). Um terceiro tipo de intera\u00e7\u00e3o envolveu um indiv\u00edduo cujos modos foram bruscos, que disse n\u00e3o a todos os pedidos de David e que lhe aplicou teste psicol\u00f3gico muito ma\u00e7ante, que entediaria at\u00e9 um santo (o &#8220;malvado&#8221;): o teste de n\u00e3o associa\u00e7\u00e3o tardia ao modelo, inventado para estudar a mem\u00f3ria em macacos e provavelmente muito agrad\u00e1vel para quem tem a mente de um macaco. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A encena\u00e7\u00e3o dessas diferentes situa\u00e7\u00f5es foi organizada para ocorrer em cinco dias consecutivos, em ordem aleat\u00f3ria, mas sempre durante um intervalo de tempo determinado, para que a exposi\u00e7\u00e3o total ao bonzinho, ao malvado e ao neutro fosse adequadamente medida e comparada. A encena\u00e7\u00e3o dessa dan\u00e7a complexa exigiu v\u00e1rias salas e diversos auxiliares, os quais, ali\u00e1s, n\u00e3o eram os mesmos que fizeram o papel do bonzinho, do malvado e do neutro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de um tempo, necess\u00e1rio para que todos os encontros fossem bem digeridos, pedimos a David que participasse de duas tarefas. Em uma delas, pedimos que olhasse para conjuntos de quatro fotografias que inclu\u00edam o rosto de um dos tr\u00eas indiv\u00edduos do experimento. Perguntamos ent\u00e3o: &#8220;Qual dessas pessoas voc\u00ea procuraria se precisasse de ajuda?&#8221;. E ainda: &#8220;Quem voc\u00ea acha que \u00e9 seu amigo neste grupo?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O comportamento de David foi surpreendente. Nos casos em que o indiv\u00edduo que havia sido af\u00e1vel com ele estava entre as quatro fotografias, David escolheu o bonzinho em mais de 80% das vezes, indicando claramente que a escolha n\u00e3o foi aleat\u00f3ria \u2014 o acaso, sozinho, teria feito com que David escolhesse cada um dos quatro indiv\u00edduos 25% das vezes. O indiv\u00edduo neutro foi escolhido com uma probabilidade n\u00e3o maior que a do acaso. E o malvado quase nunca foi escolhido, novamente uma viola\u00e7\u00e3o do comportamento aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda tarefa, pedimos a David que olhasse para o rosto dos tr\u00eas indiv\u00edduos e nos dissesse o que sabia sobre eles. Como sempre acontecia com David, nada lhe veio \u00e0 mente. N\u00e3o conseguia se lembrar de j\u00e1 os ter encontrado e n\u00e3o se recordava de nenhuma ocasi\u00e3o em que tivesse interagido com eles. Nem \u00e9 preciso dizer que ele n\u00e3o sabia o nome dos indiv\u00edduos, n\u00e3o sabia apontar para um deles se lhe dissessem um nome e n\u00e3o fazia ideia do que est\u00e1vamos falando quando o questionamos sobre os acontecimentos da semana anterior. Mas, quando lhe perguntamos quem, entre os tr\u00eas, era seu amigo, ele consistentemente escolheu o bonzinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os resultados do teste foram compensadores. Por certo n\u00e3o havia nada na mente consciente de David que lhe fornecesse uma raz\u00e3o clara para escolher corretamente o bonzinho e rejeitar o malvado. Ele n\u00e3o sabia por que escolheu um ou rejeitou o outro. Ele apenas agiu assim. A prefer\u00eancia inconsciente que ele manifestou, por\u00e9m, provavelmente se relacionava \u00e0s emo\u00e7\u00f5es a que ele foi induzido durante o experimento, bem como \u00e0 nova indu\u00e7\u00e3o, inconsciente, de alguma parte dessas emo\u00e7\u00f5es no momento em que ele participava dos testes. David n\u00e3o adquirira conhecimentos novos, do tipo que pode ser mobilizado na mente na forma de uma imagem. Mas algo permanecera em seu c\u00e9rebro, e esse algo p\u00f4de produzir resultados de uma forma n\u00e3o imag\u00e9tica: na forma de a\u00e7\u00f5es e de comportamento. O c\u00e9rebro de David podia gerar a\u00e7\u00f5es comensur\u00e1veis com valor emocional semelhante ao dos encontros originais, valor cuja causa era a recompensa ou a aus\u00eancia de recompensa. Para tornar mais clara essa ideia, citarei uma observa\u00e7\u00e3o que registrei em uma das sess\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o do experimento do bonzinho\/malvado. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">David estava sendo levado para um encontro com o malvado; quando entrou no corredor e viu o indiv\u00edduo \u00e0 sua espera, a alguns metros de dist\u00e2ncia, ele se retraiu, parou por um instante, e s\u00f3 ent\u00e3o permitiu calmamente que o levassem para a sala do teste. Perguntei-lhe ent\u00e3o se havia algum problema, se eu poderia fazer alguma coisa por ele. Por\u00e9m, correspondendo \u00e0 minha expectativa, ele respondeu que n\u00e3o, que ele estava bem \u2014 afinal, nada veio \u00e0 sua mente, exceto, talvez, o senso isolado de uma emo\u00e7\u00e3o sem nenhuma causa que a fundamentasse. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a vis\u00e3o do malvado induziu uma rea\u00e7\u00e3o emocional breve e um sentimento fugaz no aqui e agora. Contudo, na aus\u00eancia de um conjunto de imagens apropriado que explicasse a causa da rea\u00e7\u00e3o, o efeito permaneceu isolado, desconexo e, portanto, imotivado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o duvido que, se tiv\u00e9ssemos prosseguido nessa tarefa semanas a fio, em vez de apenas por uma semana, David teria usado essas rea\u00e7\u00f5es negativas e positivas para produzir o comportamento que melhor se coadunasse com seu organismo, ou seja, consistentemente preferir o bonzinho e evitar o malvado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, n\u00e3o estou afirmando que ele pr\u00f3prio teria feito essa escolha deliberadamente, mas que seu organismo, com a estrutura e as inclina\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, teria adotado exatamente esse comportamento. David teria desenvolvido um tropismo positivo para o bonzinho e um tropismo negativo para o malvado, de modo bem semelhante a como desenvolvia suas prefer\u00eancias no contexto da vida real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa situa\u00e7\u00e3o que descrevi permite-nos outras observa\u00e7\u00f5es. Primeiro, a consci\u00eancia central de David est\u00e1 intacta, e voltaremos a examinar esse assunto no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. Segundo, embora no contexto do experimento do bonzinho\/malvado as emo\u00e7\u00f5es de David tenham sido induzidas inconscientemente, em outros contextos ele sabe o porqu\u00ea de suas emo\u00e7\u00f5es. Quando n\u00e3o precisa depender de suas lembran\u00e7as de<br \/>coisas novas, David percebe que est\u00e1 feliz porque est\u00e1 comendo sua comida predileta ou contemplando uma cena agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro, dada a vasta destrui\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias regi\u00f5es corticais e subcorticais de seu c\u00e9rebro relacionadas \u00e0 emo\u00e7\u00e3o \u2014 como, por exemplo, os c\u00f3rtices pr\u00e9-frontais ventromediais, o prosenc\u00e9falo basal, as am\u00edgdalas \u2014, torna-se evidente que essas regi\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o indispens\u00e1veis para a emo\u00e7\u00e3o ou para a consci\u00eancia. Tamb\u00e9m podemos registrar, para refer\u00eancia futura, que certas estruturas do c\u00e9rebro de David permanecem<br \/>intactas: todo o tronco cerebral, o hipot\u00e1lamo, o t\u00e1lamo, a maior parte dos c\u00f3rtices do c\u00edngulo e praticamente todas as estruturas sensoriais e motoras. Um coment\u00e1rio final: o &#8220;malvado&#8221; de nosso experimento era uma jovem neuropsic\u00f3loga, simp\u00e1tica e bela. Planejamos o experimento desse modo, fazendo-a representar um papel que era o oposto do modo como ela se apresentava, pois quer\u00edamos determinar at\u00e9 que ponto a predile\u00e7\u00e3o manifesta de David pela companhia de mo\u00e7as bonitas poderia contrabalan\u00e7ar a antipatia do comportamento planejado para ela e o fato de que era ela quem dava a David a tarefa ma\u00e7ante (David realmente \u00e9 um tanto mulherengo; surpreendi-o certa vez acariciando o bra\u00e7o de Patricia Churchland e dizendo: &#8220;Sua pele \u00e9 t\u00e3o macia&#8230;&#8221;). Bem, como se pode perceber, nosso inofensivo e perverso plano compensou. Nenhuma beleza natural do mundo teria contrabalan\u00e7ado a emo\u00e7\u00e3o negativa induzida pelos maus modos da &#8220;malvada&#8221; e pela chatice da tarefa que ela impingiu a David.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o precisamos ter consci\u00eancia do indutor de uma emo\u00e7\u00e3o, com frequ\u00eancia n\u00e3o temos e somos incapazes de controlar intencionalmente as emo\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea pode perceber-se num estado de tristeza ou de felicidade e ainda assim n\u00e3o ter nenhuma ideia dos motivos respons\u00e1veis por esse estado espec\u00edfico. Uma investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa pode revelar causas poss\u00edveis, e uma ou outra causa pode parecer mais prov\u00e1vel, por\u00e9m frequentemente voc\u00ea n\u00e3o consegue ter certeza. A causa real pode ter sido a imagem de um acontecimento, uma imagem que tinha o potencial para ser consciente mas n\u00e3o foi, porque voc\u00ea n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o a ela enquanto atentava a alguma outra. Ou essa causa pode n\u00e3o ter sido nenhuma imagem, mas uma altera\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria na composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de seu meio interno, acarretada por fatores t\u00e3o diversos quanto sua sa\u00fade, sua dieta, o clima, seu ciclo hormonal, quanto voc\u00ea se exercitou ou deixou de exercitar-se nesse dia ou mesmo sua preocupa\u00e7\u00e3o com determinado problema. A altera\u00e7\u00e3o teria sido suficientemente substancial para engendrar algumas rea\u00e7\u00f5es e alterar seu estado f\u00edsico, mas n\u00e3o teria sido represent\u00e1vel por imagem, no sentido em que uma pessoa ou uma rela\u00e7\u00e3o podem ser; isto \u00e9, essa altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria produzido um padr\u00e3o sensorial do qual voc\u00ea se daria conta na mente. Em outras palavras, n\u00e3o necessariamente prestamos aten\u00e7\u00e3o \u00e0s representa\u00e7\u00f5es que induzem emo\u00e7\u00f5es e que depois conduzem a sentimentos, independentemente de elas significarem ou n\u00e3o algo externo ao organismo ou algo lembrado internamente. Representa\u00e7\u00f5es do exterior ou do interior podem ocorrer independentemente de um exame consciente e ainda assim induzir rea\u00e7\u00f5es emocionais. Emo\u00e7\u00f5es podem ser induzidas de maneira inconsciente e, assim, afigurar-se ao self consciente como aparentemente imotivadas. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos certo controle sobre uma imagem que gostar\u00edamos que funcionasse como indutora, se ela deve ou n\u00e3o permanecer como alvo de nossos pensamentos. (Quem recebeu uma educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, ou quem frequentou uma escola para atores como o Actors Studio, sabe exatamente do que estou falando.) Podemos n\u00e3o ter \u00eaxito na tarefa, mas o trabalho de remover ou manter o indutor ocorre sem d\u00favida<br \/>alguma na consci\u00eancia. Tamb\u00e9m podemos controlar, em parte, a express\u00e3o de algumas emo\u00e7\u00f5es \u2014 suprimir nossa raiva, disfar\u00e7ar nossa tristeza \u2014, mas a maioria n\u00e3o \u00e9 bem-sucedida nessa tarefa, e por isso gasta um bom dinheiro s\u00f3 para ver atores talentosos controlando a express\u00e3o de suas emo\u00e7\u00f5es (ou perde fortunas num jogo de p\u00f4quer). Por\u00e9m, quando uma representa\u00e7\u00e3o sensorial espec\u00edfica \u00e9 formada, seja ou n\u00e3o parte de nosso fluxo consciente de pensamentos, n\u00e3o temos muita influ\u00eancia sobre o mecanismo indutor da emo\u00e7\u00e3o. Sendo correto o contexto psicol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico, uma emo\u00e7\u00e3o se seguir\u00e1. O acionamento inconsciente de emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m explica por que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil imit\u00e1-las voluntariamente. Como mostrei em O erro de Descartes, o sorriso nascido espontaneamente de um prazer genu\u00edno ou o solu\u00e7o causado espontaneamente pela tristeza s\u00e3o produtos de estruturas cerebrais localizadas em uma regi\u00e3o profunda do tronco cerebral, sob controle da regi\u00e3o do c\u00edngulo. N\u00e3o temos como exercer um controle volunt\u00e1rio direto sobre os processos neurais nessas regi\u00f5es. A imita\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria feita por quem n\u00e3o \u00e9 um ator ex\u00edmio \u00e9 facilmente detectada como fingimento \u2014 alguma coisa sempre falha, quer na configura\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos faciais, quer no tom de voz. O resultado disso \u00e9 que, para a maioria de n\u00f3s que n\u00e3o somos atores, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o um indicador bastante razo\u00e1vel do quanto o meio conduz ao nosso bemestar ou, no m\u00ednimo, do quanto ele assim parece \u00e0 nossa mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos t\u00e3o incapazes de impedir uma emo\u00e7\u00e3o quanto de impedir um espirro. Podemos tentar impedir a express\u00e3o de uma emo\u00e7\u00e3o, e podemos ser bem-sucedidos em parte, por\u00e9m n\u00e3o inteiramente. Alguns, sob a influ\u00eancia cultural apropriada, acabam por tornar-se muito bons nisso, mas, em ess\u00eancia, o que conseguimos adquirir \u00e9 uma capacidade para disfar\u00e7ar algumas das manifesta\u00e7\u00f5es externas de emo\u00e7\u00e3o,<br \/>sem jamais podermos bloquear as mudan\u00e7as autom\u00e1ticas que ocorrem nas v\u00edsceras e no meio interno. Pense na \u00faltima vez em que voc\u00ea ficou comovido com alguma coisa em p\u00fablico e tentou dissimular. Voc\u00ea pode ter se safado se estava no cinema, no escuro, a s\u00f3s com Gloria Swanson, mas n\u00e3o se estava fazendo o elogio f\u00fanebre de algum amigo morto: sua voz o teria tra\u00eddo. J\u00e1 me disseram que a ideia de os sentimentos ocorrerem ap\u00f3s a emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode estar correta, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel suprimir emo\u00e7\u00f5es e ainda assim ter sentimentos. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, obviamente, exceto pela supress\u00e3o parcial de express\u00f5es faciais. Podemos disciplinar nossas emo\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o suprimi-las totalmente; e os sentimentos que temos dentro de n\u00f3s s\u00e3o testemunha desse malogro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>EXCURSO: CONTROLAR O INCONTROL\u00c1VEL<\/strong> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O controle respirat\u00f3rio, sobre o qual precisamos exercer alguma a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria pois a respira\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e a vocaliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, quando falamos e cantamos, usam o mesmo instrumento \u2013, \u00e9 em parte uma exce\u00e7\u00e3o ao controle extremamente limitado que temos sobre o meio interno e as v\u00edsceras. Pode-se aprender a nadar debaixo d&#8217;\u00e1gua, prendendo a respira\u00e7\u00e3o por per\u00edodos cada vez mais longos, mas h\u00e1 limites que nem um campe\u00e3o ol\u00edmpico consegue ultrapassar se quiser permanecer vivo. Os cantores de \u00f3pera defrontam-se com uma barreira semelhante: que tenor n\u00e3o adoraria sustentar o d\u00f3 de peito mais um instantezinho, s\u00f3 para irritar a soprano? Mas nenhum treinamento de laringe e de diafragma permitir\u00e1 que um tenor ou uma soprano transponham a barreira. O controle indireto da press\u00e3o sangu\u00ednea e do ritmo card\u00edaco por meio de procedimentos como o biofeedback tamb\u00e9m s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es parciais. Por\u00e9m, via de regra, o controle volunt\u00e1rio sobre as fun\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas \u00e9 bastante limitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, posso mencionar uma exce\u00e7\u00e3o not\u00e1vel. Anos atr\u00e1s, a brilhante pianista Maria Jo\u00e3o Pires contou-nos o seguinte: quando est\u00e1 tocando, ela \u00e9 capaz de, sob total controle de sua vontade, reduzir ou liberar o fluxo da emo\u00e7\u00e3o em seu corpo. Hanna, minha esposa, e eu pensamos que essa era apenas uma ideia maravilhosamente rom\u00e2ntica, mas Maria Jo\u00e3o garantiu que era capaz disso, e n\u00f3s n\u00e3o acreditamos. Por fim, a hora da verdade chegou, em um palco montado em nosso laborat\u00f3rio. Maria Jo\u00e3o foi conectada a um complexo equipamento psicofisiol\u00f3gico enquanto ouvia breves composi\u00e7\u00f5es musicais escolhidas por n\u00f3s, e submetida a duas condi\u00e7\u00f5es: com a emo\u00e7\u00e3o liberada ou com a emo\u00e7\u00e3o voluntariamente inibida. Seus Noturnos de Chopin tinham sido lan\u00e7ados havia pouco, e como est\u00edmulo usamos algumas pe\u00e7as interpretadas por ela e outras tocadas por Daniel Barenboim. Com a &#8220;emo\u00e7\u00e3o liberada&#8221;, a condut\u00e2ncia de sua pele apresentou numerosos picos e depress\u00f5es, associados de maneira fascinante a v\u00e1rias passagens da m\u00fasica. A seguir, com a &#8220;emo\u00e7\u00e3o reduzida&#8221;, o inacredit\u00e1vel realmente aconteceu. Ela conseguiu uniformizar quase por completo o gr\u00e1fico de condut\u00e2ncia de sua pele, de acordo com sua vontade, e ainda alterar seu ritmo card\u00edaco. Seu comportamento tamb\u00e9m mudou. A composi\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es de fundo foi reajustada, e alguns comportamentos emotivos espec\u00edficos foram eliminados; por exemplo, a movimenta\u00e7\u00e3o da musculatura da cabe\u00e7a e do rosto foi menor. Quando nosso colega Antoine Bechara, n\u00e3o acreditando, repetiu todo o experimento, imaginando que aquilo poderia ter como causa o h\u00e1bito, ela mais uma vez conseguiu. Portanto, existem algumas exce\u00e7\u00f5es, talvez mais frequentes entre aqueles que se distinguem extraordinariamente em seu trabalho de criar magia por meio da emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O QUE S\u00c3O EMO\u00c7\u00d5ES?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A men\u00e7\u00e3o da palavra emo\u00e7\u00e3o em geral traz \u00e0 mente uma das assim chamadas emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias ou universais: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa ou repugn\u00e2ncia. As emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias facilitam a discuss\u00e3o do problema, mas \u00e9 importante notar que existem muitos outros comportamentos aos quais se ap\u00f4s o r\u00f3tuIo &#8220;emo\u00e7\u00e3o&#8221;. Eles incluem as chamadas emo\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias ou sociais, como embara\u00e7o, ci\u00fame, culpa ou orgulho, e tamb\u00e9m o que denomino emo\u00e7\u00f5es de fundo, como bem-estar ou mal-estar, calma ou tens\u00e3o. O r\u00f3tulo &#8220;emo\u00e7\u00e3o&#8221; tamb\u00e9m foi aplicado a impulsos e motiva\u00e7\u00f5es e a estados de dor ou prazer. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um n\u00facleo biol\u00f3gico comum fundamenta todos esses fen\u00f4menos, e pode ser brevemente descrito da seguinte maneira:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1.<\/strong> Emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o conjuntos complexos de rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e neurais, formando um padr\u00e3o; todas as emo\u00e7\u00f5es t\u00eam algum tipo de papel regulador a desempenhar, levando, de um modo ou de outro, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias vantajosas para o organismo em que o fen\u00f4meno se manifesta; as emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas \u00e0 vida de um organismo, ao seu corpo, para ser exato, e seu papel \u00e9 auxiliar o organismo a conservar a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.<\/strong> Mesmo sendo verdade que o aprendizado e a cultura alteram a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es e lhes conferem novos significados, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o processos determinados biologicamente, e dependem de mecanismos cerebrais estabelecidos de modo inato, assentados em uma longa hist\u00f3ria evolutiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.<\/strong> Os mecanismos produtores de emo\u00e7\u00f5es ocupam um grupo razoavelmente restrito de regi\u00f5es subcorticais, come\u00e7ando no n\u00edvel do tronco cerebral e chegando at\u00e9 regi\u00f5es localizadas em uma regi\u00e3o superior do c\u00e9rebro; os mecanismos s\u00e3o parte de um conjunto de estruturas que regulam e representam estados corporais, como ser\u00e1 mostrado no cap\u00edtulo 5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.<\/strong> Todos os mecanismos podem ser acionados automaticamente, sem uma reflex\u00e3o consciente; a varia\u00e7\u00e3o individual, consider\u00e1vel, e o fato de a cultura ter um papel na configura\u00e7\u00e3o de alguns indutores n\u00e3o impedem que as emo\u00e7\u00f5es tenham uma natureza fundamentalmente estereotipada e autom\u00e1tica e uma finalidade reguladora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5.<\/strong> Todas as emo\u00e7\u00f5es usam o corpo como teatro (meio interno, sistemas visceral, vestibular e musculoesquel\u00e9tico), mas as emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m afetam o modo de opera\u00e7\u00e3o de in\u00fameros circuitos cerebrais: a variedade de rea\u00e7\u00f5es emocionais \u00e9 respons\u00e1vel por mudan\u00e7as profundas na paisagem do corpo e do c\u00e9rebro. O conjunto dessas mudan\u00e7as constitui o substrato para os padr\u00f5es neurais que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, se tornam sentimentos de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio ainda mencionar as emo\u00e7\u00f5es de fundo, pois essa denomina\u00e7\u00e3o e esse conceito n\u00e3o s\u00e3o levados em conta pelas discuss\u00f5es tradicionais sobre a emo\u00e7\u00e3o. Quando percebemos que uma pessoa est\u00e1 &#8220;tensa&#8221; ou &#8220;irritadi\u00e7a&#8221;, &#8220;desanimada&#8221; ou &#8220;entusiasmada&#8221;, &#8220;abatida&#8221; ou &#8220;animada&#8221;, sem que nenhuma palavra tenha sido dita para traduzir qualquer um desses poss\u00edveis estados, o que detectamos s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es de fundo. Detectamos emo\u00e7\u00f5es de fundo por meio de detalhes sutis, como a postura do corpo, a velocidade e o contorno dos movimentos, mudan\u00e7as m\u00ednimas na quantidade e na velocidade dos movimentos oculares e no grau de contra\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos faciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os indutores de emo\u00e7\u00f5es de fundo s\u00e3o geralmente internos. Os pr\u00f3prios processos de regula\u00e7\u00e3o da vida podem causar emo\u00e7\u00f5es de fundo, mas estas tamb\u00e9m podem ter como causa processos cont\u00ednuos de conflito mental, expl\u00edcitos ou velados, na medida em que esses processos acarretam a satisfa\u00e7\u00e3o ou a inibi\u00e7\u00e3o constantes de impulsos e motiva\u00e7\u00f5es. Por exemplo, emo\u00e7\u00f5es de fundo podem ser causadas por um esfor\u00e7o f\u00edsico prolongado &#8211; desde ficar euf\u00f3rico depois do jogging at\u00e9 ficar deprimido depois de um esfor\u00e7o f\u00edsico mon\u00f3tono e sem ritmo &#8211; por uma longa reflex\u00e3o sobre uma decis\u00e3o considerada dif\u00edcil \u2014 uma das raz\u00f5es do abatimento do pr\u00edncipe Hamlet &#8211; ou pelo gozo antecipado diante da perspectiva de algo deliciosamente prazeroso que voc\u00ea est\u00e1 esperando. Em suma, certas condi\u00e7\u00f5es de estado interno engendradas por processos f\u00edsicos cont\u00ednuos ou por intera\u00e7\u00f5es do organismo com o meio, ou ainda por ambas as coisas, causam rea\u00e7\u00f5es que constituem emo\u00e7\u00f5es de fundo. Essas emo\u00e7\u00f5es permitem que tenhamos, entre outros, os sentimentos de fundo de tens\u00e3o ou relaxamento, fadiga ou energia, bem-estar ou mal-estar, ansiedade ou apreens\u00e3o. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas emo\u00e7\u00f5es de fundo, as rea\u00e7\u00f5es constitutivas est\u00e3o mais pr\u00f3ximas do n\u00facleo \u00edntimo da vida, e seu alvo \u00e9 mais interno do que externo. Nelas, o principal papel \u00e9 desempenhado pelos perfis do meio interno e das v\u00edsceras. Mas, embora n\u00e3o fa\u00e7am uso do repert\u00f3rio diferenciado de express\u00f5es faciais expl\u00edcitas que facilmente definem as emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e sociais, as emo\u00e7\u00f5es de fundo tamb\u00e9m se expressam em complexas mudan\u00e7as musculoesquel\u00e9ticas, como, por exemplo, em posturas sutis do corpo e na configura\u00e7\u00e3o global dos movimentos corporais.ii A experi\u00eancia ensinou-me que as emo\u00e7\u00f5es de fundo sobrevivem bravamente \u00e0s doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Por exemplo, elas se mant\u00eam em pacientes com les\u00e3o frontal ventromedial, e o mesmo ocorre em pacientes com les\u00e3o na am\u00edgdala. Curiosamente, como ser\u00e1 explicado no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, em geral as emo\u00e7\u00f5es de fundo s\u00e3o comprometidas quando o n\u00edvel b\u00e1sico de consci\u00eancia, a consci\u00eancia central, tamb\u00e9m \u00e9 comprometido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A FUN\u00c7\u00c3O BIOL\u00d3GICA DAS EMO\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a composi\u00e7\u00e3o e a din\u00e2mica precisas das rea\u00e7\u00f5es emocionais sejam moldadas em cada indiv\u00edduo pelo meio e por um desenvolvimento \u00fanico, h\u00e1 ind\u00edcios de que a maioria das rea\u00e7\u00f5es emocionais, se n\u00e3o todas, resulta de uma longa hist\u00f3ria de minuciosos ajustes evolutivos. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o parte dos mecanismos biorreguladores com os quais nascemos equipados, visando \u00e0 sobreviv\u00eancia. Foi por isso que Darwin conseguiu catalogar as express\u00f5es emocionais de tantas esp\u00e9cies e encontrar consist\u00eancia nessas express\u00f5es, e \u00e9 por isso que, em diferentes partes do mundo e em diversas culturas, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o facilmente reconhecidas. \u00c9 bem verdade que, nas diferentes culturas e entre os indiv\u00edduos, existem varia\u00e7\u00f5es nas express\u00f5es, assim como tamb\u00e9m varia a configura\u00e7\u00e3o exata dos est\u00edmulos que podem induzir uma emo\u00e7\u00e3o. Mas o que causa admira\u00e7\u00e3o quando se observa o mundo l\u00e1 do alto, \u00e9 a semelhan\u00e7a, e n\u00e3o a diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, \u00e9 essa semelhan\u00e7a que possibilita as rela\u00e7\u00f5es entre diferentes culturas e permite que a arte, a literatura, a m\u00fasica e o cinema cruzem fronteiras. Essa concep\u00e7\u00e3o baseia-se em larga medida na obra de Paul Ekman. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica das emo\u00e7\u00f5es \u00e9 dupla. A primeira \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de uma rea\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u00e0 situa\u00e7\u00e3o indutora. Em um animal, por exemplo, a rea\u00e7\u00e3o pode ser correr, imobilizar-se, lutar ferozmente contra o inimigo ou iniciar um comportamento prazeroso. Nos humanos, as rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o essencialmente as mesmas, influenciadas \u2014\u2014 espera-se \u2014 pelo racioc\u00ednio e pela sabedoria. A segunda fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica da emo\u00e7\u00e3o \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o do estado interno do organismo de modo que ele possa estar preparado para a rea\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Por exemplo, fornecer um fluxo sangu\u00edneo mais intenso \u00e0s art\u00e9rias das pernas para que os m\u00fasculos recebam oxig\u00eanio e glicose adicionais, no caso de uma rea\u00e7\u00e3o de fuga, ou alterar os ritmos card\u00edacos e respirat\u00f3rios, no caso da imobiliza\u00e7\u00e3o. Nesses casos, e em outras situa\u00e7\u00f5es, o plano \u00e9 primoroso, e a execu\u00e7\u00e3o, muito confi\u00e1vel. Em suma, para certos tipos de est\u00edmulo claramente perigosos ou valiosos, no meio interno ou no externo, a evolu\u00e7\u00e3o reservou uma rea\u00e7\u00e3o condizente, na forma de emo\u00e7\u00e3o. E por esse motivo que, apesar das infinitas varia\u00e7\u00f5es encontradas nas diferentes culturas, entre os indiv\u00edduos e no decorrer de uma vida, podemos predizer com algum \u00eaxito que certos est\u00edmulos produzir\u00e3o certas emo\u00e7\u00f5es. (E por isso que voc\u00ea pode dizer a um colega: &#8220;Conte para ela. Ela ficar\u00e1 muito feliz ao ouvir isso&#8221;.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras, o &#8220;prop\u00f3sito&#8221; biol\u00f3gico das emo\u00e7\u00f5es \u00e9 claro, e as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o um luxo dispens\u00e1vel. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es singulares que integram o mecanismo com o qual os organismos regulam sua sobreviv\u00eancia. Mesmo sendo, na escala evolutiva, bastante antigas, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o um componente de n\u00edvel razoavelmente superior dos mecanismos de regula\u00e7\u00e3o da vida. Esse componente situa-se entre o kit de sobreviv\u00eancia b\u00e1sico (por exemplo, regula\u00e7\u00e3o do metabolismo, reflexos simples, motiva\u00e7\u00f5es, biologia da dor e do prazer) e os mecanismos do racioc\u00ednio superior, ainda fazendo parte, contudo, da hierarquia dos mecanismos de regula\u00e7\u00e3o da vida. Para esp\u00e9cies menos complexas do que a humana, e tamb\u00e9m para os humanos distra\u00eddos, as emo\u00e7\u00f5es realmente produzem comportamentos bem aceit\u00e1veis do ponto de vista da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu n\u00edvel mais b\u00e1sico, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o parte da regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica, sendo mobilizadas para conservar a integridade, cuja perda \u00e9 um pren\u00fancio da morte ou a pr\u00f3pria morte, e para servir de ajuda a uma fonte de energia, abrigo ou sexo. Al\u00e9m disso, como consequ\u00eancia de poderosos mecanismos de aprendizado, como o condicionamento, emo\u00e7\u00f5es de todas as grada\u00e7\u00f5es acabam por ajudar a ligar a regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica e os &#8220;valores&#8221; de sobreviv\u00eancia a muitos eventos e objetos de nossa experi\u00eancia autobiogr\u00e1fica. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o insepar\u00e1veis de nossa ideia de recompensa ou puni\u00e7\u00e3o, prazer ou dor, aproxima\u00e7\u00e3o ou afastamento, vantagem ou desvantagem pessoal. Inevitavelmente, as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o insepar\u00e1veis das ideias de bem e de mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual a relev\u00e2ncia da discuss\u00e3o do papel biol\u00f3gico das emo\u00e7\u00f5es em um texto dedicado \u00e0 quest\u00e3o da consci\u00eancia? \u00c9 preciso esclarecer esse ponto. As emo\u00e7\u00f5es fornecem aos organismos, automaticamente, comportamentos voltados para a sobreviv\u00eancia. Em organismos equipados para sentir emo\u00e7\u00f5es, ou seja, para ter sentimentos, as emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam um impacto sobre a mente, no momento em que ocorrem, no aqui e agora. Mas em organismos equipados com consci\u00eancia, ou seja, capazes de saber que t\u00eam sentimentos, existe ainda outro n\u00edvel de regula\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia permite que os sentimentos sejam conhecidos e, assim, promove internamente o impacto da emo\u00e7\u00e3o, permite que ela, por interm\u00e9dio do sentimento, permeie o processo de pensamento. Por fim, a consci\u00eancia torna poss\u00edvel que qualquer objeto seja conhecido \u2013 o \u201cobjeto\u201d emo\u00e7\u00e3o e qualquer outro objeto \u2013 e, com isso, aumenta a capacidade do organismo para reagir de maneira adaptativa, atento \u00e0s necessidades do organismo em quest\u00e3o. A emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada \u00e0 sobreviv\u00eancia de um organismo, e o mesmo se aplica \u00e0 consci\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio<br \/>&#8220;O Mist\u00e9rio da Consci\u00eancia&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es? 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