{"id":8320,"date":"2020-07-21T03:07:55","date_gmt":"2020-07-21T03:07:55","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/21\/mecanismos-de-mindfulness\/"},"modified":"2020-07-21T03:07:55","modified_gmt":"2020-07-21T03:07:55","slug":"mecanismos-de-mindfulness","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/21\/mecanismos-de-mindfulness\/","title":{"rendered":"MECANISMOS DE MINDFULNESS"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Shauna L. Shapiro, Linda E. Carlson, John A. Astin e Benedict Freeman<br \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>Resumo <\/strong><\/br>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, o construto psicol\u00f3gico <em>mindfulness<\/em> tem recebido uma grande quantidade de aten\u00e7\u00e3o. A maioria das pesquisas d\u00e1 foco \u00e0 estudos cl\u00ednicos para a avalia\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia de interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>. Esta linha de pesquisa gerou um banco de dados promissor, sugerindo que as interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o efetivas para o tratamento tanto de sintomas f\u00edsicos como ps\u00edquicos. No entanto, uma dire\u00e7\u00e3o igualmente importante para as pesquisas futuras \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es concernentes aos mecanismos de a\u00e7\u00e3o subjacentes \u00e0s interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>. Este artigo te\u00f3rico prop\u00f5e um modelo de <em>mindfulness<\/em>, em um esfor\u00e7o de elucidar mecanismos potenciais para explicar como <em>mindfulness<\/em> nos afeta positivamente. Potenciais implica\u00e7\u00f5es e dire\u00e7\u00f5es futuras para o estudo emp\u00edrico de mecanismos envolvidos em <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o abordados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras-chave: <em>mindfulness<\/em>; medita\u00e7\u00e3o; mecanismos; repercep\u00e7\u00e3o;\u00ad inten\u00e7\u00e3o; aten\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, o construto psicol\u00f3gico <em>mindfulness<\/em> tem recebido uma grande quantidade de aten\u00e7\u00e3o, e foi at\u00e9 mesmo proposto enquanto um fator comum \u00e0 todas as escolas de psicoterapia (Martin, 1997). <em>Mindfulness<\/em> tem suas ra\u00edzes nas tradi\u00e7\u00f5es contemplativas orientais e \u00e9 mais frequentemente associada com a pr\u00e1tica formal de medita\u00e7\u00e3o \u201c<em>mindfulness<\/em>\u201d. De fato, <em>mindfulness<\/em> \u00e9 entendida por alguns como o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d da medita\u00e7\u00e3o budista (Kabat-Zinn, 2003; Thera, 1962). <em>Mindfulness<\/em>, por\u00e9m, \u00e9 mais do que medita\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 um \u201cestado intr\u00ednseco de consci\u00eancia\u201d, que envolve o reconhecimento consciente por um sujeito da experi\u00eancia de momento a momento (Brown &amp; Ryan, 2003). A pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 apenas um \u201candaime\u201d usado para desenvolver este estado ou habilidade de <em>mindfulness<\/em> (Kabat-Zinn, 2005). A inten\u00e7\u00e3o deste artigo \u00e9 refinar a explora\u00e7\u00e3o deste estado em particular de <em>mindfulness<\/em> e explorar a seguinte quest\u00e3o: \u201cO que exatamente \u00e9 <em>mindfulness<\/em> e como ela funciona?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No decorrer dos \u00faltimos 20 anos, a maior parte das pesquisas nesta \u00e1rea focou em estudos relativos \u00e0 interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas para avaliar a efic\u00e1cia de interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>, como o programa <em>Mindfulness Based Stress Reduction <\/em>[Redu\u00e7\u00e3o do Estresse Baseado em <em>Mindfulness<\/em>] (MBSR) (Kabat-Zinn, 1990). Esta linha de pesquisa mirou primariamente na quest\u00e3o \u201cAs interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o eficazes?\u201d . Estes estudos conduziram \u00e0 dados promissores, sugestivos de que a MBSR \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o eficiente tanto para o tratamento de sintomas f\u00edsicos como ps\u00edquicos (ver Baer 2003; Bishop 2002; Grossman, Niemann, Schmidt, &amp; Walach, 2004).\u00a0 \u00c9 evidente que esta linha de pesquisa \u00e9 fundamental para validar <em>mindfulness<\/em> enquanto uma interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica eficaz, e os experimentos cl\u00ednicos controlados aplicados a diversas popula\u00e7\u00f5es devem continuar acontecendo. Contudo, uma dire\u00e7\u00e3o igualmente importante para as pesquisas futuras concerne\u00a0 a quest\u00e3o a seguir: \u201cComo as interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> realmente funcionam?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A investiga\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es relativas aos mecanismos de a\u00e7\u00e3o subjacentes \u00e0s interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> ir\u00e3o exigir duas linhas de inqu\u00e9rito distintas, por\u00e9m complementares. O destrinchar dos estudos \u00e9 necess\u00e1rio para separar e comparar os v\u00e1rios ingredientes ativos nas interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>, como o contexto social, o relaxamento e os elementos cognitivo comportamentais. Uma segunda linha de inqu\u00e9rito seria o exame deste construto central \u2013 <em>mindfulness<\/em> propriamente \u2013 para determinar se o desenvolvimento de \u201c<em>mindfulness<\/em>\u201d \u00e9 o que realmente conduz \u00e0s mudan\u00e7as positivas que temos observado. Este passo pode ser facilitado atrav\u00e9s do desenvolvimento recente de escalas de mensura\u00e7\u00e3o v\u00e1lidas e confi\u00e1veis de <em>mindfulness<\/em> (ver Baer, 2003; Bishop, 2002; Brown &amp; Ryan, 2003\u2014 o KIMS), permitindo a mensura\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> para o uso em modelos estat\u00edsticos de medita\u00e7\u00e3o. Uma teoria test\u00e1vel quanto aos <em>mecanismos<\/em> envolvidos no processo de <em>mindfulness<\/em> \u00e9 necess\u00e1ria para explicar se e como <em>mindfulness<\/em> nos transforma. O objetivo deste artigo \u00e9 apresentar um esbo\u00e7o desta teoria, focando no construto \u201c<em>mindfulness<\/em>\u201d em si mesmo, e n\u00e3o no conjunto inteiro do MBSR e outras interven\u00e7\u00f5es baseadas em mindfulness. Gostar\u00edamos de enfatizar que este \u00e9 um passo inicial, uma primeira tentativa de compreender o complexo e misterioso processo que \u00e9 a <em>mindfulness<\/em>. Ademais, \u00e9 \u201c<em>uma\u201d<\/em> teoria e n\u00e3o <em>\u201ca\u201d <\/em>teoria \u2013 \u00e9 uma busca por um terreno comum no qual pode se fundar uma poss\u00edvel compreens\u00e3o mais precisa dos mecanismos de a\u00e7\u00e3o prim\u00e1rios envolvidos nas pr\u00e1ticas de <em>mindfulness<\/em> que tem se tornado proeminente na psicologia e medicina comportamental contempor\u00e2neas. Nossa inten\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 abrir um campo de di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como a <em>mindfulness<\/em> funciona? N\u00f3s propomos tr\u00eas componentes (axiomas) da <em>mindfulness<\/em>: (1) inten\u00e7\u00e3o; (2) aten\u00e7\u00e3o; e (3) atitude (IAA). N\u00f3s introduziremos, ent\u00e3o, um meta-mecanismo de a\u00e7\u00e3o, a \u201crepercep\u00e7\u00e3o\u201d e discutiremos a signific\u00e2ncia desta transi\u00e7\u00e3o de perspectivas em termos dos efeitos transformativos de <em>mindfulness<\/em>. Por fim, iremos sublinhar quatro potenciais mecanismos, potencialmente advindos da repercep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um Modelo de <em>Mindfulness<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os Axiomas<\/em>. Em uma tentativa de desmembrar <em>mindfulness<\/em> at\u00e9 um construto simples e compreens\u00edvel, n\u00f3s refletimos sobre os componentes nucleares da pr\u00e1tica, os blocos fundadores da <em>mindfulness<\/em>, e examinamos a literatura existente sobre o t\u00f3pico. Uma defini\u00e7\u00e3o frequentemente citada de <em>mindfulness<\/em> \u2013 \u201co prestar aten\u00e7\u00e3o de um modo espec\u00edfico; de prop\u00f3sito, no momento presente e sem an\u00e1lises ou julgamentos\u201d (Kabat-Zinn, 1994, p. 4) \u2013 incorpora os tr\u00eas axiomas de <em>mindfulness<\/em>:<br \/><br \/><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>\u201cde prop\u00f3sito\u201d que concerne a inten\u00e7\u00e3o,<\/li>\n<li>\u201cprestar aten\u00e7\u00e3o\u201d que concerne a aten\u00e7\u00e3o,<\/li>\n<li>\u201cde um modo espec\u00edfico\u201d que concerne atitude (qualidades em <em>mindfulness<\/em>).<br \/><br \/><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os axiomas s\u00e3o os blocos fundacionais a partir dos quais os outros elementos emergem. De uma compreens\u00e3o de IAA, podemos deduzir como a <em>mindfulness<\/em> pode funcionar. Inten\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o e atitude n\u00e3o s\u00e3o processos ou fases separadas \u2013 s\u00e3o aspectos interligados em um processo \u00fanico que \u00e9 <em>c\u00edclico<\/em> e ocorrem simultaneamente (ver Figura 1). <em>Mindfulness<\/em> <em>\u00e9<\/em> este processo de momento a momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><br \/><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/inten\u00e7\u00e3o-aten\u00e7\u00e3o-atitude-300x225.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Figura 1. <\/em>Os tr\u00eas axiomas de <em>mindfulness<\/em>, Inten\u00e7\u00e3o, Aten\u00e7\u00e3o e Atitude n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1gios separados. Eles s\u00e3o aspectos interligados de um s\u00f3 processo c\u00edclico e ocorrem simultaneamente. <em>Mindfulness<\/em> \u00e9 este processo momento a momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Axioma I. Inten\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a psicologia ocidental tentou extrair a ess\u00eancia da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> de suas ra\u00edzes culturais e religiosas originais, n\u00f3s perdemos, at\u00e9 certo ponto, o aspecto da inten\u00e7\u00e3o, que no Budismo era a ilumina\u00e7\u00e3o e a compaix\u00e3o para com todos os seres. Nos parece importante explicitamente retomar isto em nosso modelo (Shapiro &amp; Schwartz, 2000). Conforme Kabat-Zinn \u201csuas inten\u00e7\u00f5es estabelecem o cen\u00e1rio para o que \u00e9 poss\u00edvel. Elas te relembram a todo instante porque voc\u00ea est\u00e1 praticando afinal de contas\u2019 (p.32). E ele continua \u201cEu costumava acreditar que a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o era muito poderosa&#8230; que contanto que voc\u00ea fizesse tudo direitinho, voc\u00ea perceberia avan\u00e7os e mudan\u00e7as. Mas o tempo me ensinou que algum n\u00edvel de perspectiva pessoal tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria\u201d (p. 46, 1990). Esta perspectiva pessoal, ou inten\u00e7\u00e3o, \u00e9 frequentemente din\u00e2mica e envolvente (Freedman, 2005). Por exemplo, um empres\u00e1rio muito estressado pode come\u00e7ar a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> para reduzir a hipertens\u00e3o. Conforme sua pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> avan\u00e7a, por\u00e9m, ele pode desenvolver a inten\u00e7\u00e3o adicional de relacionar-se mais gentilmente com sua esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O papel da inten\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplificado pelo estudo de Shapiro (1992), que explorou as inten\u00e7\u00f5es dos praticantes de medita\u00e7\u00e3o e descobriu que, conforme os meditantes continuam sua pr\u00e1tica, suas inten\u00e7\u00f5es se alternam dentro de um cont\u00ednuo que vai do autocontrole, passando pela autodescoberta e chegando ent\u00e3o \u00e0 autoliberta\u00e7\u00e3o<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Adiante, o estudo constatou que os resultados se correlacionam com as inten\u00e7\u00f5es. Aqueles cujo objetivo era o autocontrole e o manejo do estresse, obtiveram autocontrole; aqueles cujo objetivo era a autodescoberta e o autoconhecimento, obtiveram autoconhecimento; e aqueles cujo objetivo era a autoliberta\u00e7\u00e3o moveram-se nessa dire\u00e7\u00e3o e na dire\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o compassiva. Estas descobertas correspondem \u00e0 nossa defini\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es enquanto elementos din\u00e2micos e envolventes, que permitem a transforma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento a partir do aprofundamento da pr\u00e1tica, da consci\u00eancia e do discernimento. A inclus\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o (i.e., <em>porque<\/em> o praticante pratica) enquanto um componente central da <em>mindfulness<\/em> \u00e9 crucial para entender o processo como um todo, e este \u00e9 um elemento frequentemente ignorado em outras defini\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas (Bishop et al., 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Axioma II. Aten\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo componente fundamental de <em>mindfulness<\/em> \u00e9 a <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em>. No contexto da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>, prestar aten\u00e7\u00e3o envolve observar as opera\u00e7\u00f5es e experi\u00eancia interna e externa de momento a momento. Isto \u00e9 o que Husserl entende como \u201cum retorno \u00e0s coisas em si mesmas\u201d, \u00e9 dizer, uma suspens\u00e3o de todas as maneiras de interpretar a experi\u00eancia e um envolvimento na experi\u00eancia em si, como ela se apresenta aqui e agora. Desta forma, o praticante aprende a se envolver nos conte\u00fados da consci\u00eancia, momento a momento. A aten\u00e7\u00e3o foi considerada no campo da psicologia como um elemento cr\u00edtico do processo curativo. Por exemplo, na terapia Gestalt \u00e9 enfatizada a consci\u00eancia do momento presente, e o seu fundador, Fritz Perls, afirmou que \u201caten\u00e7\u00e3o em e sobre si mesma \u00e9 curativa\u201d. A import\u00e2ncia da aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser encontrada na terapia cognitivo comportamental, que \u00e9 baseada na capacidade de se envolver (i.e., observar) com os comportamentos internos e externos. No \u00e2mago da <em>mindfulness<\/em>, est\u00e1 a pr\u00e1tica de prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A psicologia cognitiva explora muitos aspectos diferentes de habilidades de aten\u00e7\u00e3o, incluindo a capacidade de sustentar a aten\u00e7\u00e3o por longos per\u00edodos em um s\u00f3 objeto (vigil\u00e2ncia ou aten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, Parasuraman, 1998; Posner &amp; Rothbart, 1992), a habilidade de alternar o foco da aten\u00e7\u00e3o entre objetos ou conjuntos mentais conforme a pr\u00f3pria voli\u00e7\u00e3o (altern\u00e2ncia; Posner, 1980), e habilidade de inibir o processamento elaborativo secund\u00e1rio de pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es (inibi\u00e7\u00e3o cognitiva; Williams, Mathews, &amp; MacLeod, 1996). O controle da aten\u00e7\u00e3o conforme descrito neste axioma iria provavelmente resultar em um desenvolvimento nas tr\u00eas habilidades descritas acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Axioma III. Atitude<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Como <\/em>n\u00f3s nos envolvemos tamb\u00e9m \u00e9 essencial. As <em>qualidades<\/em> que o praticante traz \u00e0 aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foram chamadas de funda\u00e7\u00f5es de atitude em <em>mindfulness<\/em> (Kabat-Zinn, 1990, Shapiro &amp; Schwartz, 1999, 2000). Este axioma prev\u00ea que a atitude que o praticante sustenta ao aplicar aten\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. \u00c9 comum que <em>mindfulness<\/em> seja associada com aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, mas a qualidade desta aten\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 explicitamente indicada. Todavia, as qualidades que o praticante agrega ao prestar aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o cruciais. Por exemplo, a aten\u00e7\u00e3o pode ter uma qualidade g\u00e9lida e cr\u00edtica ou incluir \u201cuma qualidade afetiva e compassiva&#8230; um sentido de abertura de cora\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a acolhedora e interesse\u201d (Kabat-Zinn, 2003, p. 145). \u00c9 \u00fatil observar que os caracteres japoneses que comp\u00f5em a palavra <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o compostos de duas figuras interativas: mente e cora\u00e7\u00e3o (Santorelli, 1999). Portanto, talvez uma tradu\u00e7\u00e3o mais adequada de \u201c<em>mindfulness<\/em>\u201d do japon\u00eas seja \u201caten\u00e7\u00e3o afetiva\u201d (Shapiro &amp; Schwartz, em preparo), que assinala a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o de qualidades de \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d na pr\u00e1tica de aten\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> (ver Shapiro &amp; Schwartz, 2000, para revis\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s acreditamos que as pessoas podem aprender a se envolver em suas pr\u00f3prias experi\u00eancias internas e externas, sem interpreta\u00e7\u00e3o ou atribui\u00e7\u00e3o de valor, e praticar aceita\u00e7\u00e3o, gentileza e abertura mesmo quando o que est\u00e1 se passando no campo da experi\u00eancia \u00e9 adverso \u00e0 cren\u00e7as e expectativas fortemente enraizadas. No entanto, para isso, \u00e9 essencial tornar a qualidade da atitude da aten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. \u00c9 importante que o praticante conscientemente se determine, por exemplo, \u201cpossa eu gerar gentileza, curiosidade e abertura em minha consci\u00eancia, possa eu embeber a minha consci\u00eancia destas e daquelas qualidades&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com o treino direcionado e intencional, o praticante se torna gradualmente mais capaz de gerar interesse diante de cada experi\u00eancia e de permitir que as experi\u00eancias se dissolvam (i.e. n\u00e3o se fixar as experi\u00eancias). Atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o intencional de atitudes de paci\u00eancia, compaix\u00e3o e n\u00e3o agress\u00e3o para a pr\u00e1tica da aten\u00e7\u00e3o, o praticante desenvolve a capacidade de suspender o movimento compulsivo na dire\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias prazerosas e contr\u00e1rio \u00e0 experi\u00eancias aversivas. De fato, o envolvimento sem qualidades de cora\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica pode resultar em uma pr\u00e1tica que julga e condena as experi\u00eancias internas. Tal abordagem pode muito bem trazer consequ\u00eancias que s\u00e3o contr\u00e1rias as inten\u00e7\u00f5es da pr\u00e1tica; por exemplo, o cultivo de padr\u00f5es de julgamento e esfor\u00e7o ao inv\u00e9s de equanimidade e aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bishop et al. (2004) tamb\u00e9m prop\u00f5e um componente relativo \u00e0 atitude na defini\u00e7\u00e3o operacional de <em>mindfulness<\/em>, chamado de <em>orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia<\/em>\u00b8 que envolve curiosidade, n\u00e3o-agress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>Propondo \u201cuma\u201d teoria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa proposta \u00e9 que os tr\u00eas axiomas, IAA, s\u00e3o os componentes fundamentais (ou comportamentos internos, de uma perspectiva behaviorista) da <em>mindfulness<\/em>. N\u00f3s acreditamos que eles contemplam direta e indiretamente a grande variabilidade nas transforma\u00e7\u00f5es observadas na pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>. Fundando-se nestes comportamentos, n\u00f3s propomos um modelo dos potenciais mecanismos de <em>mindfulness<\/em> que entende que a a\u00e7\u00e3o de intencionalmente (I) atender (A) com abertura e n\u00e3o-julgamento (A) conduz \u00e0 uma transi\u00e7\u00e3o significativa de perspectiva, que chamamos de <em>repercep\u00e7\u00e3o<\/em>. N\u00f3s entendemos que repercep\u00e7\u00e3o \u00e9 um meta-mecanismo de a\u00e7\u00e3o, que circunda mecanismos diretos adicionais que conduzem \u00e0 resultados e transforma\u00e7\u00f5es positivas. N\u00f3s sublinhamos quatro destes mecanismos adicionais: (1) autorregula\u00e7\u00e3o, (2) clareza de valores, (3) flexibilidade cognitiva, emocional e comportamental e (4) exposi\u00e7\u00e3o. Estas vari\u00e1veis podem ser vistas tanto como mecanismos potenciais para outros resultados, como redu\u00e7\u00e3o de sintomas psicol\u00f3gicos, ou como resultados em si mesmos. Ademais, este n\u00e3o \u00e9 um trajeto linear; cada vari\u00e1vel apoia e afeta as demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Repercep\u00e7\u00e3o enquanto um Meta Mecanismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s do processo de <em>mindfulness<\/em>, o praticante \u00e9 capaz de se desidentificar dos conte\u00fados da consci\u00eancia (i.e., os pensamentos) e observar sua experi\u00eancia de momento a momento com maior clareza e objetividade. N\u00f3s chamamos esse processo de <em>repercep\u00e7\u00e3o<\/em>, uma vez que envolve uma <em>transi\u00e7\u00e3o de perspectiva<\/em>. Ao inv\u00e9s de nos vermos submersos no drama de nossa narrativa pessoal ou hist\u00f3ria de vida, somos capazes de dar um passo atr\u00e1s e simplesmente testemunha-las. Conforme Goleman \u201ca primeira realiza\u00e7\u00e3o da \u2018medita\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 que os fen\u00f4menos contemplados s\u00e3o diferentes da mente que os contempla\u201d (1980, p.146)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Repercep\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito afim de outros conceitos psicol\u00f3gicos como <em>descentraliza\u00e7\u00e3o <\/em>(Safran &amp; Segal, 1990)<em>, desautomatiza\u00e7\u00e3o <\/em>(Doeikman, 1982; Safran &amp; Segal, 1990) e <em>desprendimento<\/em> (Bohart, 1983). Por exemplo, Safran e Segal definem descentraliza\u00e7\u00e3o como a habilidade de \u201csair do fluxo da experi\u00eancia imediata do sujeito, transformando, ent\u00e3o, a pr\u00f3pria natureza desta experi\u00eancia\u201d (117). Deikman descreve a desautomatiza\u00e7\u00e3o como \u201co desfazer dos processos autom\u00e1ticos que governam a percep\u00e7\u00e3o e a cogni\u00e7\u00e3o.\u201d (p.137). E, de acordo com Bohart (1983), desprendimento \u00e9 o conjunto de processos interconectados de aquisi\u00e7\u00e3o de \u201cdist\u00e2ncia\u201d, ado\u00e7\u00e3o de uma \u201catitude fenomenol\u00f3gica\u201d e de amplitude de um \u201cespa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o\u201d (ver Martin, 1997, para revis\u00e3o). Todos estes conceitos compartilham, em seu \u00e2mago, de uma <em>transi\u00e7\u00e3o de perspectiva<\/em>. Esta transi\u00e7\u00e3o, acreditamos, \u00e9 facilitada pela <em>mindfulness<\/em> \u2013 o processo de colocar a aten\u00e7\u00e3o intencionada no fluxo do momento presente com abertura e n\u00e3o-julgamento (IAA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Repercep\u00e7\u00e3o enquanto um Processo de Desenvolvimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repercep\u00e7\u00e3o pode ser descrita como uma rota\u00e7\u00e3o na atividade consciente, na qual aquilo que previamente era um \u201csujeito\u201d se torna um \u201cobjeto\u201d. Esta troca de perspectiva (tornando o sujeito um objeto) foi considerada por psic\u00f3logos do desenvolvimento como um elemento chave no amadurecimento no decorrer da vida (Kegan, 1982). Portanto, se a repercep\u00e7\u00e3o \u00e9 de fato um meta-mecanismo subjacente \u00e0 <em>mindfulness<\/em>, ent\u00e3o a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> \u00e9 simplesmente uma continua\u00e7\u00e3o do processo de desenvolvimento natural de um ser humano, no qual \u00e9 gerada uma capacidade crescente de estabelecer objetivamente a pr\u00f3pria experi\u00eancia interna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este desenvolvimento natural \u00e9 ilustrado no exemplo cl\u00e1ssico do anivers\u00e1rio da m\u00e3e, no qual o filho de oito anos presenteia com flores, enquanto o filho de tr\u00eas anos presenteia com o seu brinquedo favorito. Ainda que adequado a n\u00edvel de desenvolvimento, o filho de tr\u00eas anos \u00e9 circunscrito aos limites de sua pr\u00f3pria perspectiva autocentrada (i.e. narc\u00edsica). Para ele, o mundo ainda \u00e9 largamente \u201csubjetivo\u201d, isto \u00e9, uma extens\u00e3o do seu \u201ceu\u201d. E, como resultado, ele n\u00e3o consegue diferenciar claramente os seus pr\u00f3prios desejos dos desejos dos outros. Por\u00e9m, conforme ele se desenvolve, uma transi\u00e7\u00e3o em sua perspectiva acontece de modo que h\u00e1 uma crescente capacidade de assumir a perspectiva do outro (e.g. \u201cas necessidades da minha m\u00e3e s\u00e3o diferentes das minhas\u201d), precisamente porque aquilo que previamente era um sujeito (identifica\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e) agora se tornou um objeto do qual ele compreendeu estar separado. Isto \u00e9 o alvorecer da empatia \u2013 a consci\u00eancia da m\u00e3e enquanto algu\u00e9m <em>separado, <\/em>com suas pr\u00f3prias necessidades e desejos. Este exemplo demonstra que, conforme os indiv\u00edduos s\u00e3o capazes de transformar sua perspectiva para al\u00e9m do confinamento limitante e estreito de seus pr\u00f3prios pontos de refer\u00eancia pessoais, o desenvolvimento ocorre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A Pr\u00e1tica de Mindfulness Continua o Processo de Desenvolvimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta transi\u00e7\u00e3o de perspectiva, que chamamos de repercep\u00e7\u00e3o, naturalmente acontece no processo de desenvolvimento. Sugerimos, por\u00e9m, que a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> continua e acelera esta transi\u00e7\u00e3o. A repercep\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a capacidade crescente de sustentar objetividade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia interna e externa, \u00e9, de muitas maneiras, o selo da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>. Atrav\u00e9s do processo de intencionalmente focar a aten\u00e7\u00e3o sem julgamentos no conte\u00fado da consci\u00eancia, o praticante de <em>mindfulness<\/em> come\u00e7a a fortalecer aquilo que Deikman chama de \u201co eu observador\u201d (Deikman, 1982). Conforme somos capazes de observar o conte\u00fado da consci\u00eancia, n\u00e3o estamos mais completamente imersos ou misturados a este conte\u00fado. Por exemplo, se temos condi\u00e7\u00e3o de <em>ver <\/em>aquilo, n\u00f3s n\u00e3o <em>somos<\/em> aquilo; i.e. n\u00f3s precisamos, necessariamente, ser <em>mais<\/em> que aquilo. Seja <em>aquilo<\/em> dor, depress\u00e3o ou medo, a repercep\u00e7\u00e3o nos permite nos desidentificar dos pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais conforme elas surgem e simplesmente ser <em>com<\/em> estes fen\u00f4menos ao inv\u00e9s de ser definidos por eles (i.e. controlados, condicionados, determinados). Atrav\u00e9s da repercep\u00e7\u00e3o, n\u00f3s nos damos conta de que \u201cesta dor n\u00e3o sou eu\u201d; \u201cesta depress\u00e3o n\u00e3o sou eu\u201d; \u201cestes pensamentos n\u00e3o s\u00e3o eu\u201d como resultado de uma observa\u00e7\u00e3o a partir desta meta-perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A transi\u00e7\u00e3o de perspectiva que estamos descrevendo \u00e9 an\u00e1loga ao nosso exemplo anterior da crian\u00e7a que com o tempo \u00e9 capaz de ver a si mesma separada do mundo objetivo no qual ela estava anteriormente imiscu\u00edda. No entanto, no nosso caso, a desidentifica\u00e7\u00e3o \u00e9 do conte\u00fado da pr\u00f3pria mente (e.g. pensamentos, sensa\u00e7\u00f5es, identifica\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias) e n\u00e3o do ambiente externo. Atrav\u00e9s da repercep\u00e7\u00e3o gerada com o cultivo de <em>mindfulness<\/em>, as hist\u00f3rias (e.g., sobre quem n\u00f3s somos, do que gostamos ou desgostamos, nossas opini\u00f5es sobre os outros etc.) com as quais nos identificamos t\u00e3o rigidamente se tornam simples \u201chist\u00f3rias\u201d. Deste modo, h\u00e1 uma profunda transi\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o do praticante com seus pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, e o resultado \u00e9 uma maior clareza, perspectiva, objetividade e, em sentido \u00faltimo, equanimidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Este processo \u00e9 similar ao conceito de defus\u00e3o cognitiva sugerido por Hayes, Strosahl, e Wilson (1999), no qual a \u00eanfase \u00e9 transformar a rela\u00e7\u00e3o com o pensamento ao inv\u00e9s de tentar alterar o conte\u00fado do pensamento. Conforme observado por Hayes, Strosahl e Wilson, conforme o sujeito fortalece sua capacidade de perceber plenamente ou testemunhar a atividade mental, h\u00e1 uma correspondente transi\u00e7\u00e3o no entendimento e sentido do eu. O \u201ceu\u201d \u00e9 percebido al\u00e9m de si pr\u00f3prio, ou desconstru\u00eddo \u2013 i.e. ele \u00e9 compreendido enquanto uma constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, um sistema cambiante de conceitos, imagens, sensa\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as. Estes agregados, ou construtos, que eram reconhecidos enquanto am\u00e1lgamas de um \u201ceu\u201d est\u00e1vel s\u00e3o eventualmente percebidos como impermanentes e ef\u00eameros. Atrav\u00e9s da repercep\u00e7\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o somente aprendemos a dar um passo atr\u00e1s e observar os coment\u00e1rios internos sobre nossa vida e experi\u00eancias, como tamb\u00e9m come\u00e7amos a dar um passo atr\u00e1s para testemunhar a \u201chist\u00f3ria\u201d sobre quem e o que <em>n\u00f3s<\/em> efetivamente somos. Atrav\u00e9s desta mudan\u00e7a de perspectiva, a identidade come\u00e7a a transitar dos conte\u00fados da consci\u00eancia para a consci\u00eancia em si mesma. Hayes et al. (1999) descreve esta transi\u00e7\u00e3o como do \u201ceu como conte\u00fado\u201d (aquilo que pode ser testemunhado e observado enquanto um objeto da consci\u00eancia) para o \u201ceu como contexto\u201d (aquilo que est\u00e1 observando ou testemunhando \u2013 i.e. a consci\u00eancia em si mesma). \u00c9 esta transi\u00e7\u00e3o de base que pode, em parte, ser respons\u00e1vel pelas transforma\u00e7\u00f5es emergentes a partir da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Repercep\u00e7\u00e3o vs. Desprendimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repercep\u00e7\u00e3o pode facilmente ser confundida com uma tentativa de desapegar-se da pr\u00f3pria experi\u00eancia; um distanciamento de si pr\u00f3prio a ponto da apatia ou embotamento. Contudo, esta compreens\u00e3o est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o direta \u00e0 experi\u00eancia genu\u00edna de repercep\u00e7\u00e3o, que gera uma compreens\u00e3o e intimidade profundas com aquilo que surge de momento a momento. A repercep\u00e7\u00e3o de fato gera uma maior dist\u00e2ncia, almejando uma maior clareza. E, n\u00e3o obstante, isto n\u00e3o se traduz enquanto desconex\u00e3o ou desassocia\u00e7\u00e3o. Do contr\u00e1rio, a repercep\u00e7\u00e3o simplesmente permite o sujeito experienciar profundamente cada evento da mente e do corpo sem identifica\u00e7\u00e3o ou fixa\u00e7\u00e3o permitindo \u201cuma observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conceitual, profunda e penetrante da natureza da mente e do mundo\u201d (Kabat-Zinn, 146, 2003). Atrav\u00e9s deste processo, somos capazes de nos conectar mais intimamente com a experi\u00eancia de momento a momento, permitindo-a surgir e dissipar-se naturalmente, com um senso de n\u00e3o fixa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s experienciamos aquilo que <em>\u00e9<\/em> ao inv\u00e9s de um coment\u00e1rio ou hist\u00f3ria sobre o que \u00e9. Portanto, a repercep\u00e7\u00e3o, neste modelo hipot\u00e9tico, n\u00e3o gera apatia ou indiferen\u00e7a, mas, do contr\u00e1rio, permite ao sujeito experimentar uma maior riqueza, textura e profundidade no momento a momento, o que Peters descreve como \u201cdesprendimento \u00edntimo\u201d (Peters, 2004)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mecanismos Adicionais<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repercep\u00e7\u00e3o e a \u201ctransi\u00e7\u00e3o de perspectiva\u201d que ela promove pode conduzir a outros mecanismos adicionais, que, por sua vez, contribuem nos resultados positivos produzidos pela pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>. N\u00f3s sublinhamos quatro: (1) autocontrole e autorregula\u00e7\u00e3o; (2) flexibilidade emocional, cognitiva e comportamental; (3) clareza de valores e (4) exposi\u00e7\u00e3o. Inerentes \u00e0 estes tr\u00eas mecanismos est\u00e3o os tr\u00eas axiomas de inten\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o e atitude.<br \/><br \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Autocontrole e autorregula\u00e7\u00e3o. <\/em>Autorregula\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo pelo qual o sistema mant\u00e9m estabilidade funcional e adaptabilidade \u00e0 mudan\u00e7a. Autorregula\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em ciclos de feedback. Conforme Shapiro e Schwartz (1999, 2000) tanto a inten\u00e7\u00e3o e a aten\u00e7\u00e3o funcionam para aprimorar estes ciclos de feedback e gerar sa\u00fade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>inten\u00e7\u00e3o &gt;&gt; aten\u00e7\u00e3o &gt;&gt; conex\u00e3o &gt;&gt; regula\u00e7\u00e3o &gt;&gt; ordem\u00a0 &gt;&gt; sa\u00fade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cultivo intencional de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o avaliativa conduz \u00e0 conex\u00e3o, que conduz \u00e0 regula\u00e7\u00e3o e, por fim, \u00e0 ordem e a sa\u00fade. Atrav\u00e9s do processo de repercep\u00e7\u00e3o somos capazes de nos envolver com a informa\u00e7\u00e3o contida em cada instante. Ganhamos acesso \u00e0 mais informa\u00e7\u00e3o, mesmo \u00e0quela informa\u00e7\u00e3o que antes poderia ser considerada muito desconfort\u00e1vel de examinar. Conforme Hayes, \u201ca rejei\u00e7\u00e3o experiencial se torna menos autom\u00e1tica e menos necess\u00e1ria\u201d (2002, p.104). A partir deste processo a desregula\u00e7\u00e3o e subsequente adoecimento podem ser evitados. Ademais, a repercep\u00e7\u00e3o interrompe os h\u00e1bitos inadequados automatizados. N\u00f3s nos tornamos menos controlados por emo\u00e7\u00f5es particulares e pensamentos emergentes, e somos menos suscet\u00edveis \u00e0 segui-los automaticamente obedecendo a padr\u00f5es de h\u00e1bito reativos. Por exemplo, se surge ansiedade, e n\u00f3s nos identificamos muito profundamente com ela, haver\u00e1 uma tend\u00eancia a reagirmos \u00e0 ansiedade sem habilidade e, por conseguinte, tentar regula-la com comportamentos tal qual beber, fumar e comer em excesso. A repercep\u00e7\u00e3o nos permite dar um passo atr\u00e1s para encarar a ansiedade e percebe-la simples e claramente enquanto um estado emocional que surgiu e ir\u00e1, no seu tempo, se dissipar. Portanto, este conhecimento da imperman\u00eancia dos fen\u00f4menos mentais permite um maior n\u00edvel de toler\u00e2ncia com estados internos desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Atrav\u00e9s do desenvolvimento desta capacidade de apreender \u00e0 dist\u00e2ncia e testemunhar estados emocionais tais como a ansiedade, aumentamos nossos \u201cn\u00edveis de liberdade\u201d perante \u00e0 estes estados, nos liberando efetivamente destes padr\u00f5es de comportamento automatizados. Atrav\u00e9s da repercep\u00e7\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o somos mais controlados por estados como a ansiedade ou o medo, mas, em contrapartida, somos capazes de usa-los enquanto informa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s somos capazes atender \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, e escolher como nos autorregular de maneiras que alimentem nossa sa\u00fade e bem-estar. Atrav\u00e9s de conscientemente (inten\u00e7\u00e3o) trazer ci\u00eancia (aten\u00e7\u00e3o) e aceita\u00e7\u00e3o (atitude) para a experi\u00eancia do momento presente, n\u00f3s seremos capazes de melhor utilizar um escopo mais amplo e adaptativo de habilidades de rela\u00e7\u00e3o. Uma sustenta\u00e7\u00e3o preliminar para esta hip\u00f3tese pode ser encontrada em um estudo de Brown e Ryan no qual eles demonstram que pessoas que atingiram uma marca mais elevada na escala de mensura\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> expressaram uma autorregula\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o e comportamento significativamente maior (Brown &amp; Ryan, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Clareza de Valores<\/em>. Repercep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser h\u00e1bil para as pessoas reconhecerem aquilo que \u00e9 significativo para elas e o que elas genuinamente valorizam. Muitas vezes nossos valores s\u00e3o condicionados pela fam\u00edlia, cultura e sociedade e n\u00e3o temos claro aqueles valores que efetivamente motivam nossas escolhas na vida. N\u00f3s nos tornamos o valor ao inv\u00e9s <em>daquele que observa<\/em> o valor. Frequentemente somos empurrados de l\u00e1 para c\u00e1 por aquilo que acreditamos (baseado em condicionamentos culturais ou familiares), falhando na reflex\u00e3o que pesa a verdadeira import\u00e2ncia destas coisas no contexto de nossa pr\u00f3pria vida. No entanto, quando somos capazes de nos separar dos nossos valores (observa-los) e refletir sobre eles com uma maior objetividade, temos a oportunidade de redescobrir e escolher valores que podem ser mais genu\u00ednos \u00e0 nossa experi\u00eancia. Em outras palavras, nos tornamos capazes de <em>refletidamente<\/em> [atrav\u00e9s da reflex\u00e3o] escolher o que foi, de forma pr\u00e9via, <em>reflexivamente <\/em>[por reflexo] adotado ou condicionado. A literatura sugere que o processamento autom\u00e1tico muitas vezes restringe as considera\u00e7\u00f5es que seriam mais congruentes com as nossas verdadeiras necessidades e valores (Brown &amp; Ryan, 2003; Ryan, Kuhl, &amp; Deci, 1997). No entanto, uma consci\u00eancia intencional e aberta pode nos ajudar a escolher comportamentos que sejam congruentes com nossas necessidades, interesses e valores (Brown &amp; Ryan, 2003; Ryan &amp; Deci, 2000). Um estudo recente descobriu que quando os sujeitos est\u00e3o \u201cagindo em <em>mindfulness<\/em>\u201d, conforme atestado pela <em>Mindful Attention Awareness Scale <\/em>[Escala de Aten\u00e7\u00e3o Consciente em <em>Mindfulness<\/em>] (MAAS), os indiv\u00edduos agem de maneiras mais congruentes com seus valores e interesses mais \u00edntimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Flexibilidade cognitiva, emocional e comportamental.<\/em> A repercep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m facilita uma responsividade mais adaptativa e flex\u00edvel ao ambiente, em contraste aos padr\u00f5es reflexivos de reatividade que s\u00e3o resultantes da excessiva identifica\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia corrente. Se formos capazes de ver uma situa\u00e7\u00e3o e nossas rea\u00e7\u00f5es internas \u00e0 ela com maior clareza, teremos condi\u00e7\u00f5es de responder \u00e0 ela com maior liberdade de escolha (i.e. de maneiras menos condicionadas e automatizadas). Conforme aponta Borkevec, a pesquisa em psicologia social e cognitiva demonstra que \u201ccren\u00e7as e expectativas pr\u00e9-existentes podem distorcer o processamento de informa\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-adquirida\u201d (2002, p. 78). Aprender a ver com clareza (e aprender, de maneira geral) depende desta habilidade de se desidentificar de padr\u00f5es e cren\u00e7as anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A repercep\u00e7\u00e3o facilita esta capacidade de observa\u00e7\u00e3o dos coment\u00e1rios mentais sobre as experi\u00eancias da vida. Nos possibilita perceber a situa\u00e7\u00e3o tal qual ela \u00e9 no momento em que acontece, e reagir de acordo, ao inv\u00e9s de nos adstringir \u00e0 pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e comportamentos reativos, engatilhados por h\u00e1bitos anteriores de condicionamento e experi\u00eancia. A repercep\u00e7\u00e3o oferece um outro posicionamento com o qual enxergar o momento presente. Por exemplo, quando estamos capturados na superf\u00edcie do oceano e as ondas est\u00e3o nos arrastando para l\u00e1 e para c\u00e1, \u00e9 dif\u00edcil ver as coisas claramente. Por\u00e9m, quando n\u00f3s descendemos para mais fundo, penetrando al\u00e9m da superf\u00edcie (o que \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 observar e se desidentificar do movimento de pensamentos e emo\u00e7\u00f5es), entramos em um espa\u00e7o mais claro e tranquilo (o que Deikman (1982) chamou de o \u201ceu observador\u201d ou o que as tradi\u00e7\u00f5es contemplativas chamam de \u201cTestemunha\u201d). Deste ponto, temos o \u00e2ngulo privilegiado que nos permite enxergar o que quer que surja na superf\u00edcie de maneira mais clara \u2013 podendo, ent\u00e3o, responder com mais consci\u00eancia e flexibilidade. A repercep\u00e7\u00e3o permite o desenvolvimento desta capacidade de observar nossa experi\u00eancia interior sempre em movimento e, portanto, enxergar de modo mais claro o conte\u00fado da nossa mente e das nossas emo\u00e7\u00f5es, o que, por sua vez, alimenta uma flexibilidade cognitiva-comportamental mais ampla, com menos automatismos e reatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Exposi\u00e7\u00e3o. <\/em>A literatura est\u00e1 repleta de evid\u00eancias da efic\u00e1cia da exposi\u00e7\u00e3o no tratamento de uma variedade de desequil\u00edbrios (Barlow &amp; Craske, 2000). A repercep\u00e7\u00e3o \u2013 a capacidade de observar ou testemunhar imparcialmente o conte\u00fado da consci\u00eancia \u2013 permite \u00e0 pessoa experienciar mesmo fortes emo\u00e7\u00f5es com maior objetividade e menos reatividade. Esta capacidade serve como uma conten\u00e7\u00e3o \u00e0 tend\u00eancia habitual de rejeitar ou negar estados emocionais dif\u00edceis, o que geralmente amplifica a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 estes estados. Atrav\u00e9s desta exposi\u00e7\u00e3o direta, o sujeito aprende que suas emo\u00e7\u00f5es, pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es corporais n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o cogentes ou assustadoras. Atrav\u00e9s do envolvimento consciente com estados emocionais negativos, o sujeito aprende experiencial e fenomenologicamente que tais emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisam ser temidas ou rejeitadas e que eventualmente elas ir\u00e3o se dissipar (Segal, Williams, &amp; Teasdale, 2002). Esta experi\u00eancia eventualmente conduz \u00e0 \u201cextin\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00f5es amedrontadas e rejei\u00e7\u00f5es antes desencadeadas por estes est\u00edmulos\u201d (Baer, 2003). Goleman sugere que a medita\u00e7\u00e3o oferece uma \u201cdessensibiliza\u00e7\u00e3o global\u201d, conforme a consci\u00eancia meditativa pode ser aplicada em todos os aspectos da experi\u00eancia do sujeito (Goleman, 1971).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bear oferece um exemplo deste processo com pacientes que sofrem de dores cr\u00f4nicas: \u201c&#8230; exposi\u00e7\u00e3o prolongada \u00e0 sensa\u00e7\u00f5es de dor cr\u00f4nica, na aus\u00eancia de consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas, pode gerar dessensibiliza\u00e7\u00e3o, com uma redu\u00e7\u00e3o, com o passar do tempo, das rea\u00e7\u00f5es emocionais desencadeadas pela dor f\u00edsica. Portanto, a pr\u00e1tica de habilidades de <em>mindfulness<\/em> pode conduzir \u00e0 uma habilidade de experienciar as sensa\u00e7\u00f5es dolorosas sem reatividade excessiva\u201d (Baer, 2003). De fato, uma das primeiras aplica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas bem-sucedidas de <em>mindfulness<\/em> foi em um contexto de dor cr\u00f4nica (Kabat-Zinn, 1990). Outro exemplo de como a facilidade de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 est\u00edmulos internos pode ajudar terapeuticamente vem da literatura acerca de exposi\u00e7\u00e3o interceptiva \u00e0 sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas em dist\u00farbios de p\u00e2nico. A repercep\u00e7\u00e3o permite ao sujeito explorar e tolerar uma gama mais ampla de pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es, o que pode gerar um impacto positivo em um n\u00famero de condi\u00e7\u00f5es debilitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Construindo com Base em Modelos Anteriores<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros te\u00f3ricos desenvolveram modelos quanto ao papel da aten\u00e7\u00e3o e da meta-cogni\u00e7\u00e3o no desenvolvimento e manuten\u00e7\u00e3o de desequil\u00edbrios mentais, por exemplo, o modelo <em>Self-Regulatory Executive Function <\/em>[Fun\u00e7\u00e3o Executiva Auto-Reguladora] (S-REF) de Wells (Myers &amp; Wells, 2005; Wells, 1999) e o modelo da <em>Diferential Activation Hypothesis <\/em>[Hip\u00f3tese da Ativa\u00e7\u00e3o Diferencial] (DAH) de Teasdale (Sheppard &amp; Teasdale, 1996; Lau, Segal, &amp; Williams, 2004; Teasdale, et al., 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em espec\u00edfico, Wells descreve uma s\u00edndrome cognitiva caracterizada pela amplia\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e foco sobre si mesmo, com monitoramento constante de amea\u00e7as, processos ruminantes e cren\u00e7as disfuncionais. Estes elementos s\u00e3o mensurados no Question\u00e1rio de Metacogni\u00e7\u00e3o [<em>Metacognitions Questionnaire<\/em>] (Cartwright-Hatton &amp; Wells, 1997; Wells &amp; Cartwright-Hatton, 2004). Wells e seus colegas demonstraram que as metacogni\u00e7\u00f5es disfuncionais s\u00e3o associadas com desequil\u00edbrios e sintomas incluindo psicose, transtorno de ansiedade generalizado, sintomas obsessivo-compulsivos, hipocondria e transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. O modelo S-REF enfatiza a import\u00e2ncia da aten\u00e7\u00e3o direcionada a si pr\u00f3prio no aumento potencial de ansiedade, a partir do focar da aten\u00e7\u00e3o em sensa\u00e7\u00f5es internas associadas \u00e0 experi\u00eancia de ansiedade. Este foco interior pode gerar medos de perder o controle, medos dos pr\u00f3prios sintomas de ansiedade, uma consci\u00eancia preenchida por insatisfa\u00e7\u00e3o com o eu, e atividade cognitiva negativa (Wells, 1990). Wells sugere que focalizar a aten\u00e7\u00e3o externamente pode ajudar pessoas com desequil\u00edbrios de ansiedade, ao inv\u00e9s de focar internamente como seria feito no treino em <em>mindfulness<\/em>. Sua interven\u00e7\u00e3o consiste em um monitoramento externo da aten\u00e7\u00e3o e uma transi\u00e7\u00e3o de foco de aten\u00e7\u00e3o a n\u00edvel auditivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao contr\u00e1rio do modelo IAA que temos descrito, o modelo S-REF de terapia aplica as habilidades de aten\u00e7\u00e3o no foco, transi\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o externamente, ao inv\u00e9s de internamente. Um experimento emp\u00edrico \u00f3bvio seria comparar diretamente a efic\u00e1cia dos tratamentos baseados no modelo IAA de <em>mindfulness<\/em> com o modelo S-REF em pacientes com transtornos de ansiedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outro modelo que enfatiza a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a teoria DAH de Teasdale, que descreve a vulnerabilidade \u00e0 reca\u00edda depressiva a partir da ativa\u00e7\u00e3o de cogni\u00e7\u00f5es disfuncionais negativas, muitas das quais podem ser comparadas \u00e0s metacogni\u00e7\u00f5es disfuncionais descritas por Wells. Este modelo de reca\u00edda \u00e0 depress\u00e3o afirma que humores negativos tempor\u00e1rios evocam estes padr\u00f5es de pensamentos negativos, que podem espiralar e engatilhar uma reca\u00edda. Este grupo desenvolveu uma interven\u00e7\u00e3o cunhada <em>Mindfulness Based Cognitive Therapy <\/em>[Terapia Cognitiva Baseada em <em>Mindfulness<\/em>] (MBCT), focando na ideia de se \u201cdescentralizar\u201d do torvelinho de pensamentos negativos autom\u00e1ticos, associados com humores negativos, um conceito muito similar \u00e0 repercep\u00e7\u00e3o. Neste modelo, a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> permite \u00e0s pessoas se tornarem conscientes dos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es negativas que podem desencadear uma potencial reca\u00edda, relacionando-se com eles de uma maneira diferente. Os participantes aprendem, a partir da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>, a se desengajar do processo mental ruminante, observando os pensamentos enquanto simples pensamentos, ampliando assim a consci\u00eancia metacognitiva. Neste \u00e2ngulo, o objetivo n\u00e3o \u00e9 o conte\u00fado dos pensamentos propriamente, mas a rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o processo do pensamento. Conforme a terminologia de Wells, atrav\u00e9s da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> a metacogni\u00e7\u00e3o faz o tr\u00e2nsito da avalia\u00e7\u00e3o dos pensamentos enquanto pessoalizados e perigosos para a observa\u00e7\u00e3o dos pensamentos de modo impessoal, como parte de um espet\u00e1culo itinerante, de uma perspectiva descentralizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O modelo IAA n\u00e3o contradiz nenhum destes modelos; de fato, a riqueza dos modelos S-REF e DAH ajuda a elucidar a maneira pela qual a aten\u00e7\u00e3o assume um papel importante em conduzir aos efeitos positivos da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> em um contexto de sa\u00fade mental. De fato, o componente \u2018aten\u00e7\u00e3o\u2019 do modelo IAA poderia ser testado usando o Question\u00e1rio de Metacogni\u00e7\u00e3o em participantes dos programas MBSR, investigando as mudan\u00e7as que ocorrem no decorrer do treino em <em>mindfulness<\/em>. Isto poderia determinar se uma transi\u00e7\u00e3o na consci\u00eancia metacognitiva est\u00e1 realmente ocorrendo conforme postulado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ainda que o IAA n\u00e3o seja contradit\u00f3rio a estes dois modelos, ele \u00e9 distinto deles. IAA enfatiza um modelo tri-axiom\u00e1tico, em oposi\u00e7\u00e3o a um modelo puramente atencional. IAA define <em>mindfulness<\/em> como um estado envolvendo simultaneamente a emerg\u00eancia de uma inten\u00e7\u00e3o em particular, de aten\u00e7\u00e3o e atitude. Os modelos DAH e S-REF n\u00e3o discutem a inten\u00e7\u00e3o especificamente. Ademais, ainda que o modelo DAH mencione a atitude \u201camig\u00e1vel\u201d perante a pr\u00f3pria experi\u00eancia, o modelo IAA torna o componente atitudinal da <em>mindfulness<\/em> mais expl\u00edcito e essencial. IAA pode ser encarado como uma expans\u00e3o dos modelos acima; uma tentativa de continuar o processo de desenvolvimento de um modelo te\u00f3rico de <em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sugest\u00f5es para pesquisas futuras<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, n\u00f3s afirmamos que o estado de <em>mindfulness<\/em> surge quando a tr\u00edade IAA \u00e9 simultaneamente cultivada. Atrav\u00e9s deste processo, ocorre o fen\u00f4meno da repercep\u00e7\u00e3o, que facilita a transi\u00e7\u00e3o de perspectiva. Esta transi\u00e7\u00e3o, acreditamos, \u00e9 central \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a ocasionadas pela pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que m\u00faltiplos mecanismos podem ser facilitados por esta transi\u00e7\u00e3o, incluindo (1) autocontrole ou autorregula\u00e7\u00e3o; (2) clareza de valores; (3) flexibilidade cognitivo-comportamental; e (4) exposi\u00e7\u00e3o. Pesquisas futuras em <em>mindfulness<\/em> poderiam come\u00e7ar a partir do desenvolvimento de uma mensura\u00e7\u00e3o da repercep\u00e7\u00e3o, e examinar se a transi\u00e7\u00e3o de perspectiva ocorre a partir de interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> e se est\u00e1 relacionada \u00e0 resultados de bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ademais, ser\u00e1 importante determinar as veredas pelas quais as mudan\u00e7as acontecem. N\u00f3s propomos quatro mecanismos potenciais. Pesquisas futuras poderiam examinar se qualquer um destes mecanismos propostos de fato s\u00e3o relevantes nas significativas mudan\u00e7as observadas. Modelos conectando a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> \u00e0 resultados de interesse como a redu\u00e7\u00e3o de sintomas psicopatol\u00f3gicos e o cultivo de qualidades psicol\u00f3gicas positivas podem ser h\u00e1beis na investiga\u00e7\u00e3o do papel dos mecanismos propostos acima a partir do uso de testes estat\u00edsticos de medita\u00e7\u00e3o e de efeitos moderadores. O uso de concep\u00e7\u00f5es longitudinais de treino em <em>mindfulness<\/em> permitiria um esclarecimento das veredas de causalidade entre pr\u00e1tica e resultado. Grandes amostragens permitiriam uma investiga\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de diversos caminhos e mecanismos poss\u00edveis, somados ao controle de efeitos de outros fatores que tamb\u00e9m podem ser importantes no cultivo de <em>mindfulness<\/em>. Um passo importante nas pesquisas nesta dire\u00e7\u00e3o seria a elabora\u00e7\u00e3o de escalas de medi\u00e7\u00e3o confi\u00e1veis n\u00e3o apenas para o conceito de <em>mindfulness<\/em>, mas tamb\u00e9m para os outros fatores propostos, de autorregula\u00e7\u00e3o, flexibilidade, clareza e exposi\u00e7\u00e3o. Escalas consistentes est\u00e3o dispon\u00edveis na literatura para alguns destes construtos, mas n\u00e3o para todos (ver Bishop et al., 2004; Brown &amp; Ryan, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Medita\u00e7\u00e3o e Modera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Modelos estat\u00edsticos de medita\u00e7\u00e3o e modera\u00e7\u00e3o podem ser testados para determinar se qualquer um destes tr\u00eas axiomas pode ser considerado nas mudan\u00e7as de resultado, ou se as interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o efetivas de maneira distinta para grupos de pessoas de contextos distintos. Por exemplo, para testar a medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o usando o modelo de Baron e Kenny (Baron &amp; Kenny, 1986), se uma rela\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida entre uma interven\u00e7\u00e3o de treino em <em>mindfulness<\/em> e o desenvolvimento de resultados positivos diante de sintomas de estresse, tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es precisam estar presentes para determinar a medita\u00e7\u00e3o: (1) a vari\u00e1vel inicial (frequ\u00eancia no programa) est\u00e1 associada com o resultado (redu\u00e7\u00e3o de estresse); (2) a vari\u00e1vel inicial (frequ\u00eancia no programa) est\u00e1 correlacionada com a vari\u00e1vel mediadora (aten\u00e7\u00e3o aprimorada); (3) a vari\u00e1vel mediadora (aten\u00e7\u00e3o) afeta a vari\u00e1vel resultante. Isto \u00e9 estabelecido atrav\u00e9s da adi\u00e7\u00e3o da vari\u00e1vel inicial e da mediadora em uma equa\u00e7\u00e3o de regress\u00e3o ou modelo de equa\u00e7\u00e3o estrutural, e pela demonstra\u00e7\u00e3o de que a mediadora est\u00e1 correlacionada com as resultantes, depois do controle para os efeitos da vari\u00e1vel inicial. A rela\u00e7\u00e3o entre a vari\u00e1vel inicial e a resultante pode ser parcial ou totalmente mediada. Em um modelo integralmente mediado, a rela\u00e7\u00e3o entre a frequ\u00eancia no programa e o resultado de estresse diminu\u00eddo declina para um n\u00edvel insignificante na equa\u00e7\u00e3o quando o mediador das habilidades atencionais \u00e9 acrescido. A media\u00e7\u00e3o parcial acontece quando o coeficiente entre a vari\u00e1vel inicial e a resultante diminui, mas ainda explica a varia\u00e7\u00e3o em resultado, conquanto que o mediador tamb\u00e9m explica uma por\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o. Este tipo de an\u00e1lise pode ser feita com construtos latentes utilizando a modelagem de equa\u00e7\u00e3o estrutural, ou com vari\u00e1veis mensuradas usando regress\u00e3o m\u00faltipla, e pode ser muito ben\u00e9fico para pesquisa futura acerca da determina\u00e7\u00e3o de modelos de <em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em contraste com a medita\u00e7\u00e3o, um efeito moderado acontece quando a vari\u00e1vel moderadora muda completamente a rela\u00e7\u00e3o causal entre vari\u00e1vel inicial (frequ\u00eancia no programa) e o resultado (sintomas de estresse). Este costuma ser o caso com vari\u00e1veis moderadoras fixas como idade, g\u00eanero e etnia. No caso da modera\u00e7\u00e3o, a vari\u00e1vel inicial geralmente \u00e9 aleat\u00f3ria, e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o entre vari\u00e1vel inicial e moderador. Um exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 que a interven\u00e7\u00e3o (treino em <em>mindfulness<\/em>) pode ser moderada por g\u00eanero (mais eficaz para mulheres do que para homens). \u00c9 improv\u00e1vel que a participa\u00e7\u00e3o no treinamento em <em>mindfulness<\/em> seja correlacionada com g\u00eanero, uma vez que as pessoas seriam aleatoriamente alocadas \u00e0 grupos de tratamento e ambos os g\u00eaneros seriam igualmente representados nestes grupos. A principal distin\u00e7\u00e3o entre modera\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o \u00e9 que a media\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tentativa de estabelecer <em>mecanismos<\/em> pelos quais uma vari\u00e1vel est\u00e1 afetando a outra, conquanto a modera\u00e7\u00e3o \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o entre a participa\u00e7\u00e3o nos grupos e os resultados baseados em vari\u00e1veis <em>pr\u00e9-existentes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O uso mais prov\u00e1vel destes modelos na investiga\u00e7\u00e3o dos construtos IAA deve ser a de testes de efeitos meditativos de inten\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o e atitude entre treino em <em>mindfulness<\/em> e resultados. Por exemplo, avan\u00e7os no resultado da autocompaix\u00e3o podem ser mediados por uma atitude de n\u00e3o-julgamento, de modo que os participantes do programa que falharem no desenvolvimento de uma atitude de n\u00e3o-julgamento dever\u00e3o apresentar pouca altera\u00e7\u00e3o em autocompaix\u00e3o e empatia, conquanto que mudan\u00e7as mais expressivas podem ser associadas com a aplica\u00e7\u00e3o de uma atitude mais aberta e sem julgamentos. Do mesmo modo, uma inten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de aprimorar a espiritualidade atrav\u00e9s do treino em <em>mindfulness<\/em> pode mediar o efeito do treinamento em quest\u00e3o de espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um efeito moderacional pode ser encontrado se caracter\u00edsticas de base de certas pessoas afetarem sua habilidade de se beneficiar do treino em <em>mindfulness<\/em>. Por exemplo, pessoas com transtorno obsessivo compulsivo podem descobrir que as t\u00e9cnicas de treino em <em>mindfulness<\/em> exacerbam certos comportamentos compulsivos ao inv\u00e9s de apazigu\u00e1-los. Se este for o caso, um diagn\u00f3stico de TOC seria uma vari\u00e1vel moderadora na rela\u00e7\u00e3o entre a participa\u00e7\u00e3o no programa e o resultado no n\u00edvel de ansiedade. Outras caracter\u00edsticas da personalidade, como a repress\u00e3o emocional, tamb\u00e9m podem ser vari\u00e1veis moderadoras entre o treino em <em>mindfulness<\/em> e resultados espec\u00edficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A investiga\u00e7\u00e3o da <em>mindfulness<\/em> ainda est\u00e1 amadurecendo e exige grande sensibilidade e um variado espectro de lentes e \u00e2ngulos te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos para iluminar a riqueza e complexidade deste fen\u00f4meno. N\u00f3s procuramos oferecer uma primeira formula\u00e7\u00e3o de um modelo para descrever como a <em>mindfulness<\/em> pode estar alimentando transforma\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a. Este \u00e9 claramente um modelo preliminar, e \u00e9 meramente \u201cum\u201d modelo e n\u00e3o \u201co\u201d modelo. Existem in\u00fameras outras possibilidades e veredas que podem perpassar este misterioso e complexo fen\u00f4meno. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 desenvolver hip\u00f3teses test\u00e1veis que podem ser empiricamente examinadas. Destes resultados novas hip\u00f3teses podem ser desenvolvidas e, por conseguinte, teorias mais elaboradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baer, R.A. (2003). <em>Mindfulness training as a clinical intervention: A conceptual and empirical review<\/em>. Clinical Psychology: Science and Practice, 10, 125\u2013143.<br \/>Barlow, D.H., &amp; Craske, M.G. (2000). <em>Mastery of your anxiety and panic<\/em> (3rd ed.). New York: Psychological Corporation.<br \/>Baron, R.M., &amp; Kenny, D.A. (1986). <em>The moderator-mediator variable distinction in social psychological research: Conceptual, strategic and statistical considerations<\/em>. 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