{"id":8313,"date":"2020-07-21T02:13:36","date_gmt":"2020-07-21T02:13:36","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/21\/a-anatomia-da-atencao-daniel-goleman\/"},"modified":"2020-07-21T02:13:36","modified_gmt":"2020-07-21T02:13:36","slug":"a-anatomia-da-atencao-daniel-goleman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/21\/a-anatomia-da-atencao-daniel-goleman\/","title":{"rendered":"A ANATOMIA DA ATEN\u00c7\u00c3O &#8211; Daniel Goleman"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Daniel Goleman<br \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No\u00e7\u00f5es B\u00e1sicas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando era adolescente, adquiri o h\u00e1bito de fazer os deveres da escola ouvindo os quartetos de corda de Bela Bartok &#8211; que eu achava ligeiramente cacof\u00f4nico, mas ainda assim apreciava. De alguma forma, ignorar aqueles tons dissonantes me ajudava a me concentrar, digamos, na equa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do hidr\u00f3xido de am\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, quando me vi escrevendo artigos para o New York Times , me lembrei daquele exerc\u00edcio inicial de ignorar Bart\u00f3k. No Times, eu trabalhava no meio da editoria de ci\u00eancia, que naqueles anos ficava enfurnada num ambiente do tamanho de uma sala de aula, na qual haviam sido enfiadas mesas para uma d\u00fazia de jornalistas de ci\u00eancia e meia d\u00fazia de editores. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia sempre um zumbido de cacofonia \u00e0 Bart\u00f3k. Por perto, podia haver tr\u00eas ou quatro pessoas conversando. Era poss\u00edvel entreouvir o final de uma conversa telef\u00f4nica \u2014 ou v\u00e1rias \u2014 de rep\u00f3rteres fazendo entrevistas. Editores gritavam para o outro lado da sala perguntando quando um artigo estaria pronto. Eram raros, se \u00e9 que havia, os sons do sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, n\u00f3s, os jornalistas de ci\u00eancia, entreg\u00e1vamos fielmente no hor\u00e1rio nossos textos prontos para serem editados, dia ap\u00f3s dia. Ningu\u00e9m jamais pedia: \u201cPor favor, fa\u00e7am sil\u00eancio\u201d, para poder se concentrar. Todos apenas redobr\u00e1vamos nosso foco, abstraindo o barulho ao redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse foco em meio a um ru\u00eddo constante indica aten\u00e7\u00e3o seletiva, a capacidade neural de mirar em apenas um alvo ao mesmo tempo que ignora um mar atordoante de est\u00edmulos chegando, cada um sendo ele pr\u00f3prio um foco potencial. Foi o que William James, um dos fundadores da psicologia moderna, quis dizer quando definiu a aten\u00e7\u00e3o como \u201ca repentina tomada de posse pela mente, de forma clara e v\u00edvida, de um dos v\u00e1rios objetos ou linhas de pensamento que parecem simultaneamente poss\u00edveis\u201d. [1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 dois tipos principais de distra\u00e7\u00f5es: sensorial e emocional. Os distratores sensoriais s\u00e3o simples: enquanto l\u00ea estas palavras, voc\u00ea est\u00e1 abstraindo as margens em branco ao redor deste texto. Outro exemplo: perceba por um instante a sensa\u00e7\u00e3o da sua l\u00edngua no c\u00e9u da boca \u2014 este \u00e9 apenas um em meio a uma intermin\u00e1vel onda de est\u00edmulos que seu c\u00e9rebro elimina do cont\u00ednuo fluxo de sons, formas e cores de fundo, sabores, cheiros, sensa\u00e7\u00f5es e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais desanimadoras s\u00e3o os distratores do segundo tipo: sinais carregados emocionalmente. Embora voc\u00ea possa achar f\u00e1cil se concentrar para responder um email em meio ao zum-zum-zum de um caf\u00e9, se ouvir algu\u00e9m dizendo seu nome (eis uma poderosa isca emocional) \u00e9 quase imposs\u00edvel abstrair a voz que o pronunciou \u2014 a sua atra\u00e7\u00e3o alerta automaticamente para escutar o que est\u00e1 sendo dito a seu respeito. Esque\u00e7a aquele e-mail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O maior desafio at\u00e9 mesmo para os mais focados, no entanto, vem do tumulto emocional das nossas vidas, como o recente fim de um relacionamento que n\u00e3o para de interferir em seus pensamentos. Tais pensamentos entram sem pedir licen\u00e7a por um bom motivo: eles nos fazem pensar o que fazer sobre o que est\u00e1 nos incomodando. A linha divis\u00f3ria entre uma rumina\u00e7\u00e3o infrut\u00edfera e uma reflex\u00e3o produtiva est\u00e1 no fato de chegarmos a alguma solu\u00e7\u00e3o experimental ou algum insight que nos permita abandonar esses pensamentos \u2014 ou se, por outro lado, simplesmente continuamos obcecados em torno da mesma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais o nosso foco \u00e9 interrompido, pior nos sa\u00edmos. Por exemplo: uma pesquisa encontrou uma correla\u00e7\u00e3o significativa entre a tend\u00eancia de atletas universit\u00e1rios a terem a concentra\u00e7\u00e3o interrompida pela ansiedade e o desempenho deles na temporada seguinte. [2] A capacidade de manter o foco em um alvo e ignorar todo o resto opera na regi\u00e3o pr\u00e9-frontal do c\u00e9rebro. O circuito especializado desta \u00e1rea aumenta a for\u00e7a dos sinais em que queremos nos concentrar (aquele e-mail) e diminui a for\u00e7a do que escolhemos ignorar (<em>aquelas pessoas tagarelando na mesa ao lado<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o foco exige que abstraiamos as distra\u00e7\u00f5es emocionais, nossa estrutura neural para a aten\u00e7\u00e3o seletiva inclui a inibi\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. Isso significa que quem tem melhor foco \u00e9 relativamente imune a turbul\u00eancias emocionais, tem mais capacidade de se manter calmo durante crises e de se manter no prumo apesar das agita\u00e7\u00f5es emocionais da vida. [3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incapacidade de abandonar um foco para tratar de outros pode deixar a mente perdida num ciclo de ansiedade cr\u00f4nica. Em casos cl\u00ednicos extremos, isso pode significar ficar perdido no desamparo, na desesperan\u00e7a e na autopiedade de um quadro depressivo, ou no p\u00e2nico e na idea\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica de um transtorno de ansiedade, ou nas incont\u00e1veis repeti\u00e7\u00f5es de pensamentos ou comportamentos ritual\u00edsticos (tocar na porta cinquenta vezes antes de sair de casa) de um transtorno obsessivo-compulsivo. A capacidade de tirar nossa aten\u00e7\u00e3o de uma coisa e transferi-la para outra \u00e9 essencial para o nosso bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais poderosa \u00e9 a nossa aten\u00e7\u00e3o seletiva, maior a nossa capacidade de nos mantermos absortos no que estamos fazendo: sermos arrebatados por uma cena de um filme ou acharmos o verso de uma poesia estimulante. Um foco poderoso permite que as pessoas se percam no YouTube ou no dever de casa a ponto de ficar indiferente a qualquer tumulto que possa estar ocorrendo por perto \u2014 ou aos pais chamando para o jantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel localizar os sujeitos focados numa festa: eles s\u00e3o capazes se envolver completamente numa conversa, os olhos presos \u00e0 outra pessoa e completamente absortos em suas palavras \u2014 apesar do alto-falante tocando Beastie Boys a toda altura ao seu lado. Os sem foco, ao contr\u00e1rio, est\u00e3o continuamente em a\u00e7\u00e3o, com os olhos gravitando para qualquer coisa que possa atra\u00ed-los, com a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 deriva. Richard Davidson, neurocientista na Universidade de Wisconsin, cita o foco como uma das diversas capacidades essenciais da vida, cada uma delas baseada num sistema neural separado, que nos guiam atrav\u00e9s da turbul\u00eancia de nossas vidas interiores, nossos relacionamentos e quaisquer desafios que a vida apresentar. [4] Enquanto dura o foco seletivo, segundo Davidson, o circuito principal do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal fica sincronizado com o objeto daquele feixe de consci\u00eancia que ele chama de \u201cbloqueio de fase\u201d. [5] Se as pessoas est\u00e3o focadas em apertar um bot\u00e3o quando ouvem determinado tom, os sinais el\u00e9tricos de sua \u00e1rea pr\u00e9-frontal disparam em sincronia precisa com o som em quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto melhor for o seu foco, mais forte \u00e9 o seu bloqueio neural. Mas se, em vez de concentra\u00e7\u00e3o, houver um emaranhado de pensamentos, a sincronia desaparece. [6] Basta essa queda na sincronia para distinguir as pessoas com transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. [7]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprendemos melhor com a aten\u00e7\u00e3o focada. Quando nos focamos no que estamos aprendendo, o c\u00e9rebro situa aquela informa\u00e7\u00e3o em meio ao que j\u00e1 sabemos, fazendo novas conex\u00f5es neurais. Se voc\u00ea e um beb\u00ea dividem a aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a algo cujo nome voc\u00ea pronuncia, o beb\u00ea aprende esse nome. Se o foco dele divaga quando voc\u00ea diz o nome, ele n\u00e3o aprende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nossa mente divaga, nosso c\u00e9rebro ativa uma por\u00e7\u00e3o de circuitos neurais que murmuram sobre coisas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o que estamos tentando aprender. Sem foco, nenhuma lembran\u00e7a clara do que estamos aprendendo fica armazenada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FORA DO AR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hora de um question\u00e1rio r\u00e1pido:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Qual aquele termo t\u00e9cnico para a sincronia entre um feixe de consci\u00eancia e um som que voc\u00ea escuta?<\/li>\n<li>Quais os dois principais tipos de distra\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<li>Qual aspecto da aten\u00e7\u00e3o se correlaciona com a qualidade do desempenho dos atletas universit\u00e1rios?<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea consegue responder a essas tr\u00eas perguntas de cabe\u00e7a, esteve mantendo o foco enquanto lia \u2014 as respostas estavam algumas p\u00e1ginas antes (e podem ser lidas no fim deste cap\u00edtulo). *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea n\u00e3o consegue se lembrar das respostas, talvez estivesse fora do ar, de vez em quando, enquanto lia. E voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico a passar por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mente de um leitor divaga tipicamente entre 20% e 40% do tempo em que l\u00ea um texto. A consequ\u00eancia disso para os estudantes, o que n\u00e3o surpreende, \u00e9 que, quanto mais eles divagam, menos compreendem. [8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando nossas mentes n\u00e3o est\u00e3o divagando, se o texto fica sem sentido \u2014 por exemplo, Precisamos ganhar circo para o dinheiro, em vez de Precisamos ganhar dinheiro para o circo \u2014 cerca de 30% dos leitores continuam lendo por um bom tempo (uma m\u00e9dia de 17 palavras) antes de identificar a troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lemos um livro, um blog ou qualquer narrativa, nossa mente constr\u00f3i um modelo mental que nos permite compreender o que estamos lendo e faz uma liga\u00e7\u00e3o com o universo de modelos que j\u00e1 temos sobre o mesmo assunto. Essa rede de compreens\u00e3o em expans\u00e3o \u00e9 a alma da aprendizagem. Quanto mais n\u00f3s divagamos enquanto constru\u00edmos essa rede, e quanto mais cedo ocorre o lapso depois que come\u00e7amos a ler, mais buracos teremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lemos um livro, nosso c\u00e9rebro constr\u00f3i uma rede de caminhos e incorpora aquele conjunto de ideias e experi\u00eancias. Comparemos essa compreens\u00e3o profunda com as interrup\u00e7\u00f5es e distra\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da sempre sedutora internet. O bombardeio de textos, v\u00eddeos, imagens e miscel\u00e2nea de mensagens que recebemos online parece o inimigo da compreens\u00e3o, mais completa, que vem do que Nicholas Carr chama de \u201cleitura profunda\u201d, a qual exige que o leitor se concentre constantemente e mergulhe num assunto, em vez de ficar pulando de um tema a outro, beliscando factoides desconexos. [9]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme a educa\u00e7\u00e3o migra para formatos baseados na web, cresce o perigo de que a massa multim\u00eddia de distra\u00e7\u00f5es que chamamos de internet prejudique a aprendizagem. L\u00e1 atr\u00e1s, nos anos 1950, o fil\u00f3sofo Martin Heidegger alertou contra uma crescente \u201cmar\u00e9 de revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d que poderia \u201ccativar, enfeiti\u00e7ar, deslumbrar e divertir o homem de tal forma que o pensamento computacional pode algum dia se tornar&#8230; a \u00fanica forma de pensar\u201d. [10] Isso viria com a perda do \u201cpensamento meditativo\u201d, uma forma de reflex\u00e3o que ele via como a ess\u00eancia da nossa humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escuto o alerta de Heidegger nos termos do decl\u00ednio de uma capacidade central \u00e0 reflex\u00e3o, a capacidade de manter a aten\u00e7\u00e3o numa narrativa em andamento. Pensar profundamente exige manter a mente focada. Quanto mais distra\u00eddos estamos, mais superficiais s\u00e3o as nossas reflex\u00f5es. Da mesma forma, quanto mais curtas as nossas reflex\u00f5es, mais triviais elas tendem a ser. Caso estivesse vivo hoje, Heidegger ficaria horrorizado se lhe pedissem para tuitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ATEN\u00c7\u00c3O ENCOLHEU?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma banda de suingue de Xangai toca m\u00fasica longe numa sala de conven\u00e7\u00f5es su\u00ed\u00e7a lotada, com centenas de pessoas andando de um lado para outro. No meio do p\u00fablico superagitado absolutamente im\u00f3vel numa pequena mesa de bar redonda. Clay Shirky est\u00e1 mergulhado em seu laptop, digitando furiosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci Clay, especialista em m\u00eddias sociais vinculado \u00e0 New York University, h\u00e1 alguns anos, mas raramente tenho a oportunidade de encontr\u00e1-lo pessoalmente. Durante v\u00e1rios minutos fico parado a cerca de um metro de dist\u00e2ncia de Clay, \u00e0 sua direita, o observando \u2014 posicionado em sua vis\u00e3o perif\u00e9rica, para o caso de ele ter alguma amplitude de aten\u00e7\u00e3o sobrando. Mas Clay n\u00e3o percebe nada at\u00e9 eu dizer seu nome. Ent\u00e3o, espantado, levanta os olhos e come\u00e7amos a conversar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma capacidade limitada: a concentra\u00e7\u00e3o arrebatada de Clay chega ao seu limite, at\u00e9 que ele a desvia para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSete mais ou menos dois\u201d blocos de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o considerados o limite m\u00e1ximo do raio de aten\u00e7\u00e3o desde os anos 1950, quando George Miller prop\u00f4s o que chamou de \u201cn\u00famero m\u00e1gico\u201d num dos artigos mais influentes da psicologia. [11]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Mais recentemente, por\u00e9m, alguns cientistas cognitivos argumentaram que quatro blocos s\u00e3o o limite m\u00e1ximo. [12] Isso chamou a aten\u00e7\u00e3o limitada do p\u00fablico (por um breve instante, pelo menos), quando o novo meme espalhou que a capacidade mental havia encolhido de sete para quatro fragmentos de informa\u00e7\u00e3o. \u201cEncontrado o limite da mente: quatro fragmentos de informa\u00e7\u00e3o\u201d, proclamou um site de not\u00edcias cient\u00edficas. [13]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve quem interpretasse a suposta redu\u00e7\u00e3o do que podemos guardar na mente como indicativo da distra\u00e7\u00e3o da vida cotidiana no s\u00e9culo XXI, censurando o encolhimento dessa capacidade mental fundamental. Mas os dados foram mal interpretados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA mem\u00f3ria de trabalho n\u00e3o encolheu\u201d, disse Justin Halberda, cientista cognitivo da Universidade Johns Hopkins. \u201cN\u00e3o \u00e9 que a TV tenha tornado a nossa mem\u00f3ria de trabalho menor\u201d \u2014 que nos anos 1950 todos tiv\u00e9ssemos um limite m\u00e1ximo de sete mais ou menos dois fragmentos de informa\u00e7\u00e3o e agora tenhamos apenas quatro. \u201cA mente tenta aproveitar ao m\u00e1ximo seus recursos limitados\u201d, explicou Halberda. \u201cAssim, n\u00f3s usamos estrat\u00e9gias que ajudam\u201d \u2014 como combinar diferentes elementos, como 4, 1 e 5 num \u00fanico bloco, o c\u00f3digo de \u00e1rea 415. \u201cQuando realizamos uma tarefa de mem\u00f3ria, o resultado pode ser sete mais ou menos dois fragmentos. Mas isso resulta num limite fixo de quatro, mais tr\u00eas ou quatro mais o que as estrat\u00e9gias de mem\u00f3ria acrescentam. Assim, tanto quatro quanto sete est\u00e3o corretos, dependendo de como medimos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, h\u00e1 o que muita gente considera \u201cdividir\u201d a aten\u00e7\u00e3o em multitarefas, o que a ci\u00eancia cognitiva nos mostra ser uma fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Em vez de ter um bal\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o el\u00e1stico para usar em conjunto, temos um canal fixo e estreito para repartir. Em vez de dividi-la, n\u00f3s, na realidade, trocamos rapidamente. Essa troca enfraquece a aten\u00e7\u00e3o do envolvimento completo e concentrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO recurso mais precioso de um sistema de computador n\u00e3o \u00e9 mais o processador, a mem\u00f3ria, o disco ou a rede, mas a aten\u00e7\u00e3o humana\u201d, aponta um grupo de pesquisa da Universidade Carnegie Mellon. [14] A solu\u00e7\u00e3o proposta pelo grupo para esse gargalo humano depende de minimizar as distra\u00e7\u00f5es: o Projeto Aura prop\u00f5e nos livrarmos de pequenas falhas chatas de sistema, para n\u00e3o perdermos tempo com transtornos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo de um sistema de computadores livre de problemas \u00e9 louv\u00e1vel. Esta solu\u00e7\u00e3o, no entanto, pode n\u00e3o nos levar t\u00e3o longe: n\u00e3o precisamos de uma solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas cognitiva. A fonte das distra\u00e7\u00f5es n\u00e3o na tecnologia que usamos, mas no ataque frontal \u00e0 nossa capacidade de concentra\u00e7\u00e3o, por parte de uma crescente mar\u00e9 de distra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me leva de volta a Clay Shirky e especialmente \u00e0 sua pesquisa sobre m\u00eddias sociais. [15] Embora nenhum de n\u00f3s possa focar em tudo ao mesmo tempo, todos juntos criamos uma amplitude coletiva de aten\u00e7\u00e3o que podemos acessar individualmente quando necess\u00e1rio. Como a Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Shirky afirma em seu livro L\u00e1 vem todo mundo, a aten\u00e7\u00e3o pode ser vista como uma capacidade distribu\u00edda entre muitas pessoas, assim como a mem\u00f3ria ou qualquer expertise cognitiva. Os temas da moda indexam como estamos alocando nossa aten\u00e7\u00e3o coletiva. Embora alguns argumentem que a aprendizagem e a mem\u00f3ria facilitadas pela tecnologia nos emburrecem, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel afirmar que eles podem criar uma pr\u00f3tese mental que expanda o poder da aten\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso capital social \u2014 e o alcance da nossa aten\u00e7\u00e3o \u2014 se amplia conforme aumentamos o n\u00famero de la\u00e7os sociais atrav\u00e9s dos quais recebemos informa\u00e7\u00f5es essenciais, como conhecimento t\u00e1cito de \u201ccomo as coisas funcionam por aqui\u201d, seja numa organiza\u00e7\u00e3o ou numa nova vizinhan\u00e7a. Conhecidos casuais podem funcionar como pares de olhos e ouvidos extras no mundo, fontes-chave da orienta\u00e7\u00e3o de que precisamos para funcionar em complexos ecossistemas sociais e de informa\u00e7\u00e3o. A maioria de n\u00f3s tem um punhado de la\u00e7os fortes \u2014 amigos pr\u00f3ximos e de confian\u00e7a \u2014, mas podemos ter centenas dos tais la\u00e7os fracos (por exemplo, nossos \u201camigos\u201d do Facebook). La\u00e7os fracos t\u00eam muito valor como multiplicadores da nossa capacidade de aten\u00e7\u00e3o, e como fonte de dicas para boas oportunidades de compras, possibilidades de empregos e parceiros amorosos.[16]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando coordenamos o que vemos e o que sabemos, nossos esfor\u00e7os conjuntos multiplicam nossa riqueza cognitiva. Embora a qualquer momento nossa quota de mem\u00f3ria de trabalho se mantenha pequena, o total de dados que podemos transferir por essa amplitude limitada se torna imenso. Essa intelig\u00eancia coletiva, a soma total do que todos podem contribuir num grupo distribu\u00eddo, promete foco m\u00e1ximo, a soma do que m\u00faltiplos olhos s\u00e3o capazes de perceber. Um centro de pesquisa sobre intelig\u00eancia coletiva do MIT v\u00ea esta capacidade emergente como incitada pelo compartilhamento da aten\u00e7\u00e3o na Internet. O exemplo cl\u00e1ssico: milh\u00f5es de sites lan\u00e7am seus destaques junto a pequenos nichos \u2014 e uma busca na web seleciona e direciona nosso foco de modo que podemos colher todo aquele trabalho cognitivo com efici\u00eancia. [17]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o b\u00e1sica do grupo do MIT: \u201cComo podemos conectar pessoas e computadores para agirmos coletivamente com mais intelig\u00eancia do que qualquer pessoa ou grupo isolado?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou, como dizem os japoneses: \u201cTodos somos mais inteligentes do que qualquer um de n\u00f3s.\u201d\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VOC\u00ca AMA O QUE FAZ?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande quest\u00e3o: quando acorda de manh\u00e3, voc\u00ea fica feliz em ir trabalhar, estudar ou fazer o que quer que ocupe o seu dia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa conduzida por Howard Gardner<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa conduzida por Howard Gardner, de Harvard, William Damon, de Stanford, e Mihaly Csikszentmihalyi, de Claremont, se concentrou no que eles chamam de \u201cbom trabalho\u201d, uma mistura poderosa daquilo em que as pessoas s\u00e3o excelentes, do que as engaja e da sua \u00e9tica \u2014 aquilo em que acreditam ter import\u00e2ncia. [18] Essas s\u00e3o voca\u00e7\u00f5es altamente absorventes: as pessoas amam o que fazem. Absor\u00e7\u00e3o total no que fazemos \u00e9 bom, e o prazer \u00e9 o marcador emocional para a entrega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas raramente se entregam na vida cotidiana.[19] Ao fazer amostragens aleat\u00f3rias dos humores das pessoas, descobrimos que, na maior parte do tempo, elas est\u00e3o ou estressadas ou entediadas, apenas com per\u00edodos ocasionais de entrega. Somente cerca de 20% das pessoas t\u00eam momentos de entrega pelo menos uma vez por dia. Aproximadamente 15% das pessoas jamais entram em estado de entrega durante um dia t\u00edpico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segredo para se ter mais entrega na vida \u00e9 alinhar o que fazemos com o que gostamos, como ocorre com aqueles felizardos cujos empregos lhes d\u00e3o muito prazer. Pessoas de sucesso em qualquer \u00e1rea \u2014 os sortudos, de qualquer maneira \u2014 acertaram nessa combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de uma mudan\u00e7a de carreira, h\u00e1 v\u00e1rios caminhos para a entrega. Um desses se abre quando encontramos uma atividade que desafia nossa capacidade ao m\u00e1ximo \u2014 uma demanda \u201capenas administr\u00e1vel\u201d pelas nossas compet\u00eancias. Outra porta de entrada se abre atrav\u00e9s daquilo por que somos apaixonados. A motiva\u00e7\u00e3o nos faz fluir. De qualquer forma, o caminho final em comum \u00e9 o foco total: s\u00e3o ambos caminhos para ampliar a aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa como se chega l\u00e1, um foco equilibrado d\u00e1 a partida na entrega. Esse estado ideal do c\u00e9rebro para realizar bem um trabalho \u00e9 marcado pela harmonia neural \u2014 uma interconex\u00e3o rica de diversas \u00e1reas do c\u00e9rebro. [20]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse estado, os circuitos necess\u00e1rios para a tarefa em quest\u00e3o est\u00e3o altamente ativos enquanto os irrelevantes se mant\u00eam inativos, com o c\u00e9rebro precisamente direcionado \u00e0s exig\u00eancias do momento. Quando nossos c\u00e9rebros est\u00e3o nessa zona ideal, nos entregamos, desempenhando da melhor maneira poss\u00edvel qualquer que seja nosso objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisas em locais de trabalho, no entanto, demonstram que um grande n\u00famero de pessoas se encontra num estado cerebral muito diferente: sonham acordadas, desperdi\u00e7am horas navegando na Internet ou no YouTube e fazem o m\u00ednimo necess\u00e1rio. Sua aten\u00e7\u00e3o se dispersa. Tamanhas desmotiva\u00e7\u00e3o e indiferen\u00e7a ocorrem em demasia, principalmente entre trabalhos repetitivos e pouco exigentes. Para aproximar o trabalhador desmotivado do campo do foco, \u00e9 preciso elevar sua motiva\u00e7\u00e3o e seu entusiasmo, evocando um senso de prop\u00f3sito e acrescentando uma dose de press\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, outro grupo grande est\u00e1 preso no estado que os neurobi\u00f3logos chamam de \u201cexaust\u00e3o\u201d, em que o estresse constante sobrecarrega o sistema nervoso com montes de cortisol e adrenalina. A aten\u00e7\u00e3o dessas pessoas se fixa nas preocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o no trabalho. Essa exaust\u00e3o emocional pode levar ao esgotamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O foco total nos d\u00e1 uma entrada para a entrega. Mas quando optamos por nos focar em uma coisa e ignorar o resto, revelamos uma tens\u00e3o constante \u2014 normalmente invis\u00edvel \u2014 entre uma grande divis\u00e3o neural, em que a parte de cima do c\u00e9rebro briga com a parte de baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Respostas: 1. bloqueio de fase; 2. sensoriais e emocionais; 3. a capacidade dos atletas de se concentrar e ignorar distra\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas da se\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Aten\u00e7\u00e3o: William James, Principles of Psychology (Princ\u00edpios de Psicologia), 1890, citado em Schooler et al., 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Ronald E. Smith et al., Measurement and correlates of sport-specific cognitive and somatic trait anxiety: The sport anxiety scale (Medidas e correlatos de tra\u00e7os som\u00e1ticos e cognitivos de ansiedade espec\u00edfica de esportes: a escala da ansiedade esportiva), Anxiety, Stress &amp; Coping: An International Journal 2, 4, 1990. 263-280<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Tentar se focar em uma coisa e ignorar todo o resto representa uma esp\u00e9cie de conflito para o c\u00e9rebro. O mediador de tais conflitos mentais \u00e9 o c\u00f3rtex cingulado anterior (CCA), que localiza esses problemas e recruta outras partes do c\u00e9rebro para resolv\u00ea-los. Para se concentrar num foco de aten\u00e7\u00e3o, o CCA aciona as \u00e1reas pr\u00e9-frontais para controle cognitivo, o que silencia os circuitos que causam distra\u00e7\u00e3o e os amplia para obter foco completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Cada uma dessas capacidades essenciais reflete aspectos da aten\u00e7\u00e3o que figura em nossa explora\u00e7\u00e3o aqui. Richard J<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Bloqueio de fase: Heleen A. Slagter et al., Theta phase synchrony and conscious target perception: Impact of intensive mental training (Sincronia da fase teta e percep\u00e7\u00e3o-alvo consciente: o impacto do treinamento mental intensivo), Journal of Cognitive Neuroscience 21, 8, 2009. 1536-1549.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal mant\u00e9m nossa aten\u00e7\u00e3o enquanto uma regi\u00e3o pr\u00f3xima, o c\u00f3rtex parietal, a aponta para um alvo em particular. Quando nossa concentra\u00e7\u00e3o diminui, essas regi\u00f5es silenciam, e nosso foco fica \u00e0 deriva, indo de uma coisa para outra, conforme elas atraem nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Nesses estudos, os c\u00e9rebros de pessoas com TDAH demonstravam muito menos atividade na \u00e1rea pr\u00e9-frontal e menos sincronia de bloqueio de fase: A. M. Kelly et al., Recent advances in structural and functional brain imaging studies of attention-deficit\/hiperactivity disorder (Avan\u00e7os recentes em estudos de imagens cerebrais estruturais e funcionais do transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\/hiperatividade), Behavioral and Brain functions 4, 2008. p. 8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Estudos identificam mentes de leitores divagadores: Jonathan Smallwood et al., Counting the cost of an absent mind: Mind wandering as an underrecognized influence on educational performance (Contabilizando o custo de uma mente ausente: a divaga\u00e7\u00e3o da mente como influ\u00eancia pouco reconhecida no desempenho educacional), Psychonomic Bulletin and Review, 2007, 14,12, 230-236<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 Nicholas Carr, The Shallows (Os superficiais). Nova York: Norton, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10 Martin Heidegger, Discourse on Thinking (Discurso sobre o pensamento). Nova York: Harper &amp; Row, 1966, p. 56. Heidegger \u00e9 citado em Carr, 2011, em seu alerta sobre \u201co que a internet est\u00e1 fazendo com nossos c\u00e9rebros\u201d \u2014 que n\u00e3o \u00e9 algo muito bom, sob seu ponto de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11 George A. Miller, The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information (O m\u00e1gico n\u00famero sete, mais ou menos dois: alguns limites na nossa capacidade de processar informa\u00e7\u00e3o), Psychological Review 63 (1956): 81-97.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12 Steven J. Luck e Edward K. Vogel, The capacity for visual working memory for features e conjunctions (A capacidade de mem\u00f3ria de trabalho visual para caracter\u00edsticas e conjun\u00e7\u00f5es), Nature 390, 1997, 279-281.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 Clara Moskowitz, \u201cMind\u2019s Limit Found: 4 Things at Once\u201d, LiveScience, 27 de abril, 2008\/ http:\/\/www.livescience.com\/2493-mind-limit-4.html<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 David Garlan et al., Toward distraction-free pervasive computing (Rumo \u00e0 computa\u00e7\u00e3o generalizada livre de distra\u00e7\u00f5es), Pervasive Computing, IEEE, 1,2, 2002. 22-31.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">15 Clay Shirky, L\u00e1 vem todo mundo. Zahar, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 Em pol\u00edtica organizacional, la\u00e7os fracos podem ser uma for\u00e7a oculta. Em organiza\u00e7\u00f5es matriciais, em vez de lidar com linhas de comando, as pessoas costumam precisar influenciar algu\u00e9m sobre quem n\u00e3o t\u00eam controle direto. La\u00e7os fracos correspondem a capital social, relacionamentos a que se pode apelar em busca de ajuda e conselhos. Sem quaisquer liga\u00e7\u00f5es naturais com outro grupo que precisa influenciar, suas chances s\u00e3o muito fracas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 Veja a entrevista de Thomas Malone em Edge.org,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">18 Howard Gardner, William Damon, Good Work (Bom trabalho) [detalhes TK]; Mihaly Csikszentmihalyi, Good Business (Bom neg\u00f3cio). Nova York: Viking, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">19 Amostragem de fluxo e experi\u00eancia: Mihaly Csikszentmihalyi e Reed Larson, Being Adolescent: Conflict and Growth in the Teenage Years (Ser adolescente: conflito e crescimento na adolesc\u00eancia). Nova York: Basic Books, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">20 Pode haver inclusive um n\u00edvel moderado de ativa\u00e7\u00e3o de rede padr\u00e3o quando estamos \u201cna zona\u201d. Michael Esterman et al., In the zone or zoning out? Tracking behavioral e neural fluctuations during sustained attention (Na zona ou fechando a mente? Rastreamento de flutua\u00e7\u00f5es comportamentais e neurais durante aten\u00e7\u00e3o continuada), Cerebral Cortex, publicado on-line: 31 de agosto de 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ATEN\u00c7\u00c3O SUPERIOR E ATEN\u00c7\u00c3O INFERIOR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoltei minha aten\u00e7\u00e3o ao estudo de algumas quest\u00f5es aritm\u00e9ticas, aparentemente sem muito sucesso\u201d, escreveu Henri Poincar\u00e9, matem\u00e1tico Franc\u00eas do s\u00e9culo XIX. Aborrecido com meu fracasso,\u00a0 decidi passar alguns dias \u00e0 beira-mar.\u201d\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa manh\u00e3, durante uma caminhada num penhasco acima do mar, ele de repente teve o insight \u201cde que as transforma\u00e7\u00f5es aritm\u00e9ticas de formas tern\u00e1rias quadr\u00e1ticas indeterminadas eram id\u00eanticas \u00e0quelas da geometria n\u00e3o euclidiana\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As especificidades dessa prova n\u00e3o s\u00e3o relevantes aqui (felizmente: eu n\u00e3o conseguiria sequer come\u00e7ar a compreender a matem\u00e1tica). O que \u00e9 intrigante a respeito dessa ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 como Poincar\u00e9 chegou a ela: com \u201cbrevidade, rapidez e certeza imediata\u201d. Ele foi tomado de surpresa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da criatividade \u00e9 repleta de casos semelhantes. Karl Gauss, um matem\u00e1tico do s\u00e9culo XVIII, empenhou-se para provar um teorema durante quatro anos, sem solu\u00e7\u00e3o. No entanto, um dia, a resposta veio a ele \u201ct\u00e3o r\u00e1pido quanto um clar\u00e3o de luz\u201d. N\u00e3o soube descrever o fio de pensamento que ligava os anos de trabalho duro \u00e0quele lampejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que a surpresa? Nosso c\u00e9rebro tem dois sistemas mentais semi-independentes, amplamente separados. Um tem grande capacidade computacional e trabalha constantemente, funcionando silenciosamente para resolver nossos problemas, nos surpreendendo com uma solu\u00e7\u00e3o repentina para racioc\u00ednios complexos. Como trabalha al\u00e9m do horizonte da percep\u00e7\u00e3o consciente, n\u00e3o enxergamos seu funcionamento. Este sistema nos apresenta o fruto de seus vastos trabalhos como se surgissem do nada, numa profus\u00e3o de formas, seja guiando a sintaxe de uma frase ou construindo provas matem\u00e1ticas extremamente complexas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta aten\u00e7\u00e3o do fundo da mente costuma se tornar o centro do foco quando acontece o inesperado. Voc\u00ea est\u00e1 falando ao celular enquanto dirige (a parte da dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fundo da mente) e de repente uma buzina faz voc\u00ea se dar conta de que o farol ficou verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito dessa estrutura neural fica na parte inferior do nosso c\u00e9rebro, no circuito subcortical, embora os frutos de seus esfor\u00e7os venham \u00e0 consci\u00eancia ao sair l\u00e1 de baixo e avisar nosso neoc\u00f3rtex, ou seja, as camadas mais altas do c\u00e9rebro. Atrav\u00e9s de suas reflex\u00f5es, Poincar\u00e9 e Gauss colheram progressos das camadas mais baixas do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDe baixo para cima\u201d, ou \u201cascendente\u201d, se tornou a express\u00e3o da ci\u00eancia cognitiva para tais funcionamentos desta m\u00e1quina neural da parte inferior do c\u00e9rebro. 2 Da mesma forma, \u201cde cima para baixo\u201d, ou \u201cdescendente\u201d, se refere \u00e0 atividade mental, principalmente no neoc\u00f3rtex, que pode monitorar e impor seus objetivos ao funcionamento subcortical. \u00c9 como se houvesse duas mentes trabalhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mente de baixo para cima \u00e9:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>mais veloz em tempo cerebral, que opera em milissegundos; \u2022 involunt\u00e1ria e autom\u00e1tica: est\u00e1 sempre ligada;<\/li>\n<li>intuitiva, operando atrav\u00e9s de redes de associa\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>impulsiva, movida pelas emo\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<li>executora de nossas rotinas habituais e guia de nossas a\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<li>gestora de nossos modelos mentais do mundo.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em contrapartida, a mente de cima para baixo \u00e9:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>mais lenta;<\/li>\n<li>volunt\u00e1ria;<\/li>\n<li>esfor\u00e7ada;<\/li>\n<li>a sede do autocontrole, que pode (\u00e0s vezes) suplantar rotinas autom\u00e1ticas e anular impulsos com motiva\u00e7\u00f5es emocionais;<\/li>\n<li>capaz de aprender novos modelos, fazer novos planos e assumir o controle do nosso repert\u00f3rio autom\u00e1tico \u2014 at\u00e9 certo ponto.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aten\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, a for\u00e7a de vontade e a escolha intencional envolvem opera\u00e7\u00f5es mentais de cima para baixo. A aten\u00e7\u00e3o reflexiva, o impulso e os h\u00e1bitos rotineiros envolvem opera\u00e7\u00f5es mentais de baixo para cima (assim como a aten\u00e7\u00e3o capturada por uma roupa estilosa ou um an\u00fancio criativo). Quando decidimos entrar em sintonia com a beleza de um p\u00f4r do sol, nos concentrar no que estamos lendo ou conversar com algu\u00e9m, entramos em uma modalidade de funcionamento descendente. O olhar da nossa mente executa uma dan\u00e7a cont\u00ednua entre a aten\u00e7\u00e3o capturada por est\u00edmulos e o foco voluntariamente direcionado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema ascendente \u00e9 multitarefa, acompanha uma profus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es em paralelo, incluindo detalhes do que nos cerca e que ainda n\u00e3o entraram completamente em foco. Ele analisa o que est\u00e1 em nosso campo de percep\u00e7\u00e3o antes de nos deixar saber o que selecionou como relevante para n\u00f3s. Nossa mente descendente leva mais tempo para deliberar sobre o que lhe \u00e9 apresentado, avaliando uma coisa de cada vez e aplicando an\u00e1lises mais ponderadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s do que equivale a uma ilus\u00e3o de \u00f3tica da mente, aceitamos o que est\u00e1 na nossa consci\u00eancia para igualar o total das opera\u00e7\u00f5es da mente. Mas, na realidade, a maioria absoluta das opera\u00e7\u00f5es mentais ocorre nos bastidores da mente, em meio ao funcionamento dos sistemas ascendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito (alguns dizem que tudo) do que a mente descendente acredita ter escolhido focalizar, pensar e fazer s\u00e3o na realidade planos ditados pelos circuitos ascendentes. Se isso fosse um filme, o psic\u00f3logo Daniel Kahneman observa ironicamente, a mente descendente seria uma \u201cpersonagem coadjuvante que se v\u00ea como a hero\u00edna\u201d. 3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando milh\u00f5es de anos na evolu\u00e7\u00e3o, os velozes e reflexivos circuitos ascendentes favorecem o pensamento em curto prazo, o impulso e as decis\u00f5es r\u00e1pidas. Os circuitos descendentes, na frente e na parte de cima do c\u00e9rebro, s\u00e3o uma adi\u00e7\u00e3o posterior, com matura\u00e7\u00e3o plena ocorrida h\u00e1 meras centenas de milhares de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conex\u00f5es descendentes acrescentam talentos como autoconsci\u00eancia, reflex\u00e3o, delibera\u00e7\u00e3o e planejamento ao repert\u00f3rio das nossas mentes. Esse foco intencional oferece \u00e0 mente uma alavanca para administrar nosso c\u00e9rebro. Enquanto desviamos nossa aten\u00e7\u00e3o de uma tarefa, plano, sensa\u00e7\u00e3o etc. a outras coisas, o circuito cerebral relacionado se acende. Traz \u00e0 mente a lembran\u00e7a feliz de uma dan\u00e7a, e os neur\u00f4nios da alegria e do movimento ganham vida. Com a recorda\u00e7\u00e3o do funeral de algu\u00e9m amado, o circuito da tristeza \u00e9 ativado. O ensaio mental de uma tacada de golfe faz com que os ax\u00f4nios e os dendritos que orquestram esses movimentos se conectem com um pouco mais de for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9rebro humano est\u00e1 entre os designs bons o bastante, mas n\u00e3o perfeitos, da evolu\u00e7\u00e3o. 4 Os mais antigos sistemas ascendentes do c\u00e9rebro aparentemente trabalharam bem durante a maior parte da pr\u00e9-hist\u00f3ria humana \u2014 mas seu design provoca alguns problemas hoje. Em quase tudo na vida, o sistema mais antigo d\u00e1 conta do recado, normalmente para nossa vantagem, mas \u00e0s vezes em nosso detrimento: gastos em excesso, v\u00edcios e dire\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel em alta velocidade s\u00e3o sinais desse sistema fora de compasso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As exig\u00eancias de sobreviv\u00eancia do come\u00e7o da evolu\u00e7\u00e3o equiparam nossos c\u00e9rebros com programas ascendentes destinados a procria\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de filhos, para o que \u00e9 prazeroso e o que \u00e9 desagrad\u00e1vel, para correr do perigo ou na dire\u00e7\u00e3o do alimento e coisas do g\u00eanero. Avancemos para o mundo bastante diferente de hoje: frequentemente precisamos navegar a vida de cima para baixo apesar da constante contracorrente de caprichos e impulsos de baixo para cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fator surpreendente faz constantemente a balan\u00e7a pender para o sistema ascendente: o c\u00e9rebro economiza energia. Esfor\u00e7os cognitivos como aprender a usar sua \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica demandam aten\u00e7\u00e3o ativa, a um custo de energia. Mas quanto mais passamos por uma rotina inicialmente desconhecida, mais ela se transforma em h\u00e1bitos arraigados e se deixa dominar pelo circuito ascendente, especialmente as redes neurais nos g\u00e2nglios da base, uma massa do tamanho de uma bola de golfe aninhada na parte de baixo do c\u00e9rebro, logo acima da medula espinhal. Quanto mais praticamos uma rotina, mais um g\u00e2nglio da base a assume de outras partes do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sistemas ascendente e descendente distribuem tarefas mentais entre eles para que consigamos fazer o m\u00ednimo de esfor\u00e7o e obtenhamos \u00f3timos resultados. Conforme a familiaridade torna uma rotina mais f\u00e1cil, ela passa de descendente a ascendente. Da forma como vivemos essa transfer\u00eancia neural, cada vez precisamos prestar menos aten\u00e7\u00e3o \u2014 e, afinal, nenhuma aten\u00e7\u00e3o \u2014, at\u00e9 que ela se torna autom\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O auge do automatismo pode ser visto quando a expertise gera um bom resultado de aten\u00e7\u00e3o sem esfor\u00e7o para uma alta demanda, seja numa partida de xadrez profissional, numa corrida da Nascar ou na elabora\u00e7\u00e3o de um quadro a \u00f3leo. Se n\u00e3o praticamos o suficiente, tudo isso exigir\u00e1 foco deliberado. Mas se dominamos as habilidades necess\u00e1rias a um n\u00edvel que se equipara \u00e0 demanda, elas n\u00e3o exigir\u00e3o qualquer esfor\u00e7o cognitivo extra \u2014 liberando nossa aten\u00e7\u00e3o para os extras encontrados apenas por quem est\u00e1 nos n\u00edveis mais altos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como atestam campe\u00f5es mundiais, nos n\u00edveis mais altos, quando seus oponentes praticaram tantas milhares de vezes quanto voc\u00ea, qualquer competi\u00e7\u00e3o se torna um jogo mental: o seu estado mental determina o quanto voc\u00ea conseguir\u00e1 focar e qu\u00e3o bem poder\u00e1 se sair. Quanto mais puder relaxar e confiar nos movimentos ascendente, mais liberada ficar\u00e1 a mente para ser \u00e1gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideremos, por exemplo, os grandes quarterbacks de futebol americano que t\u00eam o que os analistas esportivos chamam de \u201cgrande capacidade de enxergar o campo\u201d: eles conseguem ler as forma\u00e7\u00f5es defensivas dos times advers\u00e1rios para perceber suas inten\u00e7\u00f5es de movimento e, quando a jogada come\u00e7a, se ajustam instantaneamente a esses movimentos, ganhando um ou dois segundos valiosos para escolher um jogador livre e fazer um passe. Tal \u201cvis\u00e3o\u201d exige enorme pr\u00e1tica, para que o que inicialmente exige muita aten\u00e7\u00e3o \u2014 desviar daquele jogador \u2014 ocorra automaticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma perspectiva de computa\u00e7\u00e3o mental, encontrar um jogador a quem dar um passe sob a press\u00e3o de v\u00e1rios corpos de mais de 100 quilos correndo na sua dire\u00e7\u00e3o de diferentes \u00e2ngulos n\u00e3o \u00e9 pouca coisa: o quarterback precisa ter sempre em mente as linhas de passe de v\u00e1rios receptadores em potencial ao mesmo tempo que processa e reage aos movimentos de todos os 11 jogadores oponentes \u2014 um desafio que \u00e9 mais bem administrado por circuitos ascendentes quando bem ensaiados (e que seria esmagador, caso ele tivesse de pensar conscientemente cada movimento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RECEITA PARA UM FRACASSO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lolo Jones estava ganhando a corrida de obst\u00e1culos de 100 metros na categoria feminina, rumo a uma medalha de ouro nas Olimp\u00edadas de 2008 em Pequim. Na lideran\u00e7a, estava vencendo os obst\u00e1culos sem esfor\u00e7o- at\u00e9 que alguma coisa deu errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, foi muito sutil: ela teve a sensa\u00e7\u00e3o de que os obst\u00e1culos estavam vindo em sua dire\u00e7\u00e3o muito rapidamente. Com isso, Jones pensou: \u201cCuidado para n\u00e3o relaxar na sua t\u00e9cnica&#8230; Tenha certeza de que suas pernas est\u00e3o afiad\u00edssimas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando assim, ela se esfor\u00e7ou demais, ficando um pouco mais tensa do que o necess\u00e1rio \u2014 e atingiu o nono dos dez obst\u00e1culos. Jones terminou em s\u00e9timo lugar e caiu na pista aos prantos. 5 Quando estava prestes a tentar novamente nas Olimp\u00edadas de 2012 em Londres (onde acabou terminando a corrida dos 100 metros em quarto lugar), Jones conseguia se lembrar daquele momento de derrota com clareza absoluta. E se voc\u00ea perguntasse aos neurocientistas, conseguiriam diagnosticar o erro com igual certeza: quando ela come\u00e7ou a pensar nos detalhes da t\u00e9cnica em vez de simplesmente deixar o trabalho para os circuitos motores que haviam praticado aqueles movimentos at\u00e9 domin\u00e1-los, Jones deixou de confiar em seu sistema ascendente e assim abriu a porta para que o sistema descendente come\u00e7asse a interferir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos do c\u00e9rebro demonstram que um atleta campe\u00e3o come\u00e7ar a pensar em t\u00e9cnica durante o desempenho \u00e9 uma receita certa para o fracasso. Quando craques de futebol correm com uma bola contornando cones de tr\u00e2nsito \u2014 e precisam pensar qual lado do p\u00e9 est\u00e1 controlando a bola \u2014, cometem mais erros. 6 O mesmo acontece quando jogadores de beisebol tentam identificar se o taco est\u00e1 se movendo para cima ou para baixo durante a tacada de uma bola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3rtex motor, que num atleta experiente tem esses movimentos profundamente gravados em seus circuitos gra\u00e7as a milhares de horas de treino, funciona melhor quando funciona sozinho. Quando o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal \u00e9 ativado e come\u00e7amos a pensar em como estamos nos saindo \u2014 ou, pior, em como fazer o que estamos fazendo \u2014, o c\u00e9rebro entrega parte do controle a circuitos que sabem pensar e se preocupar, mas n\u00e3o sabem como realizar o movimento em si. Seja nos 100 metros, no futebol ou no beisebol, esta \u00e9 uma receita universal para trope\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que, como me diz Rick Aberman, que gerencia altas performances do time de beisebol Minnesota Twins: \u201cO treinador rever jogadas de um jogo anterior focando apenas no que n\u00e3o deve ser feito \u00e9 uma receita para os jogadores se sa\u00edrem mal.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o ocorre apenas nos esportes. Fazer amor \u00e9 algo que vem \u00e0 mente como outra atividade em que analisar demais atrapalha. Um artigo de jornal sobre \u201cefeitos ir\u00f4nicos de tentar relaxar sob estresse\u201d sugere ainda outro exemplo: o esfor\u00e7o intencional para relaxar. 7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relaxar e fazer amor funcionam melhor quando simplesmente deixamos as coisas acontecerem \u2014 n\u00e3o tentamos for\u00e7\u00e1-las. O sistema nervoso parassimp\u00e1tico, que entra em campo durante essas atividades, normalmente age independentemente do executivo do nosso c\u00e9rebro, que pensa nelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edgar Allan Poe apelidou a infeliz tend\u00eancia mental de trazer \u00e0 tona algum tema sens\u00edvel que se decidiu n\u00e3o mencionar como \u201co dem\u00f4nio da perversidade\u201d. Um artigo adequadamente intitulado \u201cComo pensar, dizer ou fazer exatamente a pior coisa para qualquer ocasi\u00e3o\u201d, do psic\u00f3logo de Harvard Daniel Wegner, explica o mecanismo cognitivo que anima esse dem\u00f4nio. 8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wegner descobriu que erros aumentam de acordo com o grau em que estamos distra\u00eddos, estressados ou de alguma outra forma sobrecarregados mentalmente. Nessas circunst\u00e2ncias, um sistema de controle cognitivo que normalmente monitora erros que possamos cometer (como n\u00e3o falar sobre aquele assunto) pode inadvertidamente agir como um apogeu mental, aumentando a probabilidade exatamente desse erro (como falar sobre aquele assunto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Wegner fez com que volunt\u00e1rios experimentais tentassem n\u00e3o pensar numa palavra em particular, e ent\u00e3o os pressionava para responder rapidamente a uma tarefa de associa\u00e7\u00e3o de palavras, eles frequentemente respondiam justamente com a palavra proibida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobrecarregar a aten\u00e7\u00e3o entorpece o controle mental. \u00c9 nos momentos em que nos sentimos mais estressados que nos esquecemos de nomes de pessoas que conhecemos bem, sem falar em seus anivers\u00e1rios, anivers\u00e1rios de casamento e outras informa\u00e7\u00f5es socialmente cruciais. 9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais um exemplo: obesidade. Pesquisadores descobriram que a preval\u00eancia da obesidade nos Estados Unidos ao longo dos \u00faltimos trinta anos acompanha a explos\u00e3o dos computadores e dos equipamentos tecnol\u00f3gicos na vida das pessoas \u2014 e suspeitam que n\u00e3o seja uma rela\u00e7\u00e3o acidental. A vida imersa em distra\u00e7\u00f5es digitais cria uma quase constante sobrecarga cognitiva. E essa sobrecarga mina o autocontrole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esque\u00e7a aquela determina\u00e7\u00e3o em fazer dieta. Perdidos no mundo digital, vamos irracionalmente em busca das batatas Pringles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O ERRO DESCENDENTE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa feita entre psic\u00f3logos perguntava se pesquisa feita entre psic\u00f3logos perguntava se poderia haver alguma coisa inc\u00f4moda que eles n\u00e3o compreendiam sobre si mesmos. 10<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um disse que por duas d\u00e9cadas ele havia estudado o quanto o clima ruim faz com que toda a vida de algu\u00e9m pare\u00e7a triste, a menos que a pessoa tome consci\u00eancia do quanto o clima ruim piora seu humor, mas que mesmo que compreendesse tudo isso, c\u00e9us cinzentos ainda o faziam se sentir mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro se mostrou intrigado com sua compuls\u00e3o por escrever artigos que demonstram como algumas pesquisas s\u00e3o muito mal orientadas e como ele continua fazendo isso mesmo que nenhum pesquisador relevante tenha prestado muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um terceiro disse que, embora tenha estudado a \u201ctend\u00eancia de percep\u00e7\u00e3o exagerada masculina\u201d \u2014 a interpreta\u00e7\u00e3o equivocada da cordialidade de uma mulher como interesse rom\u00e2ntico \u2014, ele ainda sucumbe a essa tend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O circuito ascendente aprende vorazmente \u2014 e em sil\u00eancio \u2014, absorvendo li\u00e7\u00f5es continuamente ao longo do dia. Esse aprendizado impl\u00edcito nunca precisa se tornar consciente, embora funcione como um leme na vida, para o bem e para o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema autom\u00e1tico funciona bem na maior parte do tempo: sabemos o que est\u00e1 acontecendo e o que fazer, e somos capazes de atravessar as exig\u00eancias do dia bem o bastante enquanto pensamos em outras coisas. Mas este sistema tamb\u00e9m tem suas fraquezas: nossas emo\u00e7\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es criam distor\u00e7\u00f5es e desvios em nossa aten\u00e7\u00e3o que normalmente n\u00e3o percebemos, e n\u00e3o percebemos que n\u00e3o percebemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ansiedade social, por exemplo. Em geral, pessoas ansiosas se fixam em qualquer coisa que seja vagamente amea\u00e7adora. As pessoas com ansiedade social se voltam compulsivamente para o menor sinal de rejei\u00e7\u00e3o, como uma fugaz express\u00e3o de desagrado no rosto de algu\u00e9m \u2014 um reflexo da suposi\u00e7\u00e3o habitual de que elas s\u00e3o socialmente fracassadas. A maior parte dessas transa\u00e7\u00f5es emocionais ocorre fora da consci\u00eancia, levando as pessoas a evitar situa\u00e7\u00f5es em que possam ficar ansiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um m\u00e9todo engenhoso para remediar essa inclina\u00e7\u00e3o de baixo para cima \u00e9 t\u00e3o sutil que as pessoas n\u00e3o t\u00eam ideia de que seus padr\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo reprogramados (da mesma forma como n\u00e3o faziam ideia de que aquela primeira programa\u00e7\u00e3o estava sendo feita quando a adquiriram). Chamada modifica\u00e7\u00e3o cognitiva do comportamento, esta terapia invis\u00edvel faz pessoas que sofrem de grave ansiedade social olharem para fotos de uma plateia \u2014 e s\u00e3o orientadas a apertar um bot\u00e3o o mais rapidamente poss\u00edvel quando surgem flashes de luz. 11<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os flashes nunca aparecem nas \u00e1reas amea\u00e7adoras das fotos, como express\u00f5es carrancudas. A interven\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m em segredo, sem entrar na consci\u00eancia. Por\u00e9m, ao longo de v\u00e1rias sess\u00f5es, o circuito de baixo para cima aprende a dirigir a aten\u00e7\u00e3o a sinais n\u00e3o amea\u00e7adores. Embora as pessoas nem desconfiem da sutil reprograma\u00e7\u00e3o de sua aten\u00e7\u00e3o, o n\u00edvel de ansiedade delas em situa\u00e7\u00f5es sociais diminui. 12<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 um uso benigno desse circuito. H\u00e1 tamb\u00e9m a propaganda. As tradicionais estrat\u00e9gias para obter aten\u00e7\u00e3o em um mercado saturado \u2014 o que h\u00e1 de novo, o que h\u00e1 de melhor, o que h\u00e1 de surpreendente \u2014 ainda funcionam. Por\u00e9m, uma m\u00edniind\u00fastria de estudos do c\u00e9rebro a servi\u00e7o do marketing gerou estrat\u00e9gias baseadas na manipula\u00e7\u00e3o da nossa mente inconsciente. Um desses estudos descobriu, por exemplo, que se s\u00e3o mostrados artigos de luxo \u00e0s pessoas ou se elas apenas s\u00e3o levadas a pensar em itens de luxo, se tornam mais autocentradas em suas decis\u00f5es. 13<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das \u00e1reas mais ativas da pesquisa sobre escolhas inconscientes est\u00e1 centrada no que nos faz ir em busca de algum produto quando vamos \u00e0s compras. Os marqueteiros querem saber como mobilizar nosso c\u00e9rebro de baixo para cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa de marketing, por exemplo, descobriu que quando as pessoas s\u00e3o expostas a alguma bebida ao lado de rostos sorridentes que v\u00e3o passando numa tela r\u00e1pido demais para a imagem ser registrada conscientemente \u2014 embora seja percebida pelos sistemas ascendentes \u2014, elas bebem mais do que quando essas imagens fugazes s\u00e3o de rostos irritados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma revis\u00e3o dessa pesquisa concluiu que somos \u201cmassivamente inconscientes\u201d dessas for\u00e7as sutis de marketing, mesmo quando elas definem a forma como compramos. 14 A percep\u00e7\u00e3o de baixo para cima nos transforma em trouxas vulner\u00e1veis a influ\u00eancias externas por meio de est\u00edmulos subconscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, a vida parece regida pelo impulso num grau preocupante. Uma inunda\u00e7\u00e3o de an\u00fancios publicit\u00e1rios nos estimula, de baixo para cima, a desejarmos uma infinidade de bens e a gastarmos hoje sem pensar em como pagaremos amanh\u00e3. Para muitos, o reino do impulso vai al\u00e9m dos gastos e empr\u00e9stimos excessivos, chega ao ponto do comer excessivo ou de outros h\u00e1bitos caracter\u00edsticos de adi\u00e7\u00f5es \u2014 como entupir-se de doces ou passar horas intermin\u00e1veis olhando fixamente para algum tipo de tela digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SEQUESTROS NEURAIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao e entrar no escrit\u00f3rio de algu\u00e9m, qual a primeira coisa que voc\u00ea nota? Eis\u00a0 uma pista do que est\u00e1 guiando o seu foco de baixo para cima naquele momento. Se estiver com algum objetivo financeiro, poder\u00e1 imediatamente perceber um gr\u00e1fico de receitas na tela do computador. Se tiver aracnofobia, ir\u00e1 se fixar naquela teia empoeirada no canto da janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o escolhas subconscientes da aten\u00e7\u00e3o. Tal captura da aten\u00e7\u00e3o ocorre quando o circuito da am\u00edgdala, a sentinela do c\u00e9rebro para significados emocionais, encontra algo que considera importante. Aranhas, express\u00f5es irritadas ou beb\u00eas fofos d\u00e3o uma ideia das configura\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro para tais interesses instintivos. 15 Esta estrutura do sistema ascendente, situada no mesenc\u00e9falo, reage muito mais rapidamente em tempo neural do que a regi\u00e3o pr\u00e9-frontal descendente, enviando sinais para cima a fim de ativar caminhos corticais mais altos, que alertam os centros executivos (relativamente) lentos para despertarem e prestarem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mecanismos de aten\u00e7\u00e3o do nosso c\u00e9rebro evolu\u00edram ao longo de centenas de milhares de anos para sobreviverem com unhas e dentes numa selva onde amea\u00e7as se aproximavam de nossos ancestrais dentro de um conjunto de fatores e de um alcance visual espec\u00edficos \u2014 algum ponto entre o bote de uma cobra e a velocidade de um tigre saltando. Os nossos ancestrais cujas am\u00edgdalas eram r\u00e1pidas o bastante para ajud\u00e1-los a se esquivar daquela cobra e fugir daquele tigre passaram seu design neural para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cobras e aranhas, dois animais que o c\u00e9rebro humano parece preparado para perceber com susto, chamam a aten\u00e7\u00e3o mesmo quando suas imagens s\u00e3o exibidas t\u00e3o rapidamente que n\u00e3o temos no\u00e7\u00e3o consciente de t\u00ea-los visto. Os circuitos ascendentes os percebem mais rapidamente do que objetos neutros e nos mandam um alarme (se exibirmos essas imagens a um especialista em cobras ou aranhas, ele tamb\u00e9m ter\u00e1 sua aten\u00e7\u00e3o capturada \u2014 mas sem sinal de susto). 16<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9rebro considera imposs\u00edvel ignorar express\u00f5es emocionais, principalmente as de irrita\u00e7\u00e3o. 17 Express\u00f5es irritadas t\u00eam supersali\u00eancia: o c\u00e9rebro ascendente monitora o que est\u00e1 acontecendo longe dos holofotes da aten\u00e7\u00e3o consciente, perscrutando continuamente em busca de amea\u00e7as. Examine uma multid\u00e3o e algu\u00e9m com a express\u00e3o irritada ir\u00e1 se destacar. A parte de baixo do c\u00e9rebro identificar\u00e1 inclusive um personagem de desenho animado com sobrancelhas em forma de V (como os meninos do South Park) mais rapidamente do que um rosto feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos programados para prestar aten\u00e7\u00e3o reflexiva a \u201cest\u00edmulos supernormais\u201d, quer seja por seguran\u00e7a, nutri\u00e7\u00e3o ou sexo \u2014 da mesma forma que um gato n\u00e3o consegue deixar de ca\u00e7ar um rato falso preso a um fio. No mundo atual, an\u00fancios publicit\u00e1rios que agem sobre essas mesmas inclina\u00e7\u00f5es pr\u00e9-programadas tamb\u00e9m nos cutucam no sistema ascendente, conquistando nossa aten\u00e7\u00e3o reflexiva. Basta vincular sexo ou prest\u00edgio a um produto e \u00e9 poss\u00edvel ativar esses mesmos circuitos para nos influenciar a comprar por motivos que sequer percebemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas propens\u00f5es particulares nos tornam ainda mais vulner\u00e1veis. Alco\u00f3latras ficam fascinados por an\u00fancios de vodca; depravados, por pessoas sensuais num comercial tur\u00edstico. Isso \u00e9 aten\u00e7\u00e3o ascendente pr\u00e9-selecionada. Essa busca por foco de baixo dos nossos circuitos neurais \u00e9 autom\u00e1tica, uma escolha involunt\u00e1ria. Somos mais suscet\u00edveis a emo\u00e7\u00f5es guiarem nosso foco dessa maneira quando nossas mentes est\u00e3o vagando, quando estamos distra\u00eddos ou quando estamos sobrecarregados de informa\u00e7\u00e3o \u2014 ou todas as tr\u00eas alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o nossas emo\u00e7\u00f5es saem do controle. Ontem, eu estava escrevendo exatamente este texto, sentado diante do computador, quando do nada senti uma crise de dor incapacitante na lombar. Talvez n\u00e3o tenha sido do nada: vinha se formando silenciosamente desde a manh\u00e3. Mas, sentado \u00e0 mesa de trabalho, a dor de repente tomou conta do meu corpo, indo da parte baixa da espinha at\u00e9 os centros de dor do meu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando tentei me levantar, a pontada de dor foi t\u00e3o forte que me encolhi de novo na cadeira. E, pior, minha mente come\u00e7ou a pensar em tudo de pior que poderia acontecer: \u201cIsso vai me deixar aleijado para o resto da vida\u201d, \u201cVou precisar tomar inje\u00e7\u00f5es de esteroides regularmente\u201d&#8230; e essa linha de pensamento levou minha mente em p\u00e2nico a se lembrar de que um fungo numa ind\u00fastria farmac\u00eautica mal administrada havia levado \u00e0 morte 27 pacientes por meningite depois de tomarem justamente essas inje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que eu havia acabado de apagar um bloco de texto sobre um ponto relacionado, que pretendia mover para mais ou menos esta parte do livro. Mas com a aten\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 dor e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o, me esqueci completamente do que estava fazendo \u2014 e o bloco de texto desapareceu num buraco negro. Quando somos dominados por fortes emo\u00e7\u00f5es, elas guiam nosso foco, fixando nossa aten\u00e7\u00e3o no que \u00e9 mais perturbador e fazendo com que nos esque\u00e7amos do resto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sequestros emocionais como este s\u00e3o disparados pela am\u00edgdala, o radar de amea\u00e7as do c\u00e9rebro, que est\u00e1 constantemente rastreando o entorno em busca de perigos. Quando esses circuitos encontram uma amea\u00e7a (ou o que poderia ser uma amea\u00e7a \u2014 pois frequentemente se enganam), uma ampla via de circuitos neuronais subindo para as \u00e1reas pr\u00e9-frontais envia um bombardeio de sinais que faz com que a parte mais baixa do c\u00e9rebro guie a parte mais alta: nossa aten\u00e7\u00e3o se estreita, colada ao que est\u00e1 nos perturbando; nossa mem\u00f3ria se reembaralha, tornando mais f\u00e1cil recordar qualquer coisa que seja relevante \u00e0 amea\u00e7a em quest\u00e3o. E nosso corpo entra em marcha acelerada enquanto uma enxurrada de horm\u00f4nios do estresse prepara nossos membros para lutar ou correr. N\u00f3s nos fixamos naquilo que \u00e9 perturbador e esquecemos o resto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais forte a emo\u00e7\u00e3o, maior a nossa fixa\u00e7\u00e3o. Os sequestros emocionais s\u00e3o a supercola da aten\u00e7\u00e3o. Mas a quest\u00e3o \u00e9: por quanto tempo nosso foco se mant\u00e9m capturado? Acontece que isso depende do poder da regi\u00e3o pr\u00e9-frontal esquerda para acalmar a am\u00edgdala excitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ampla via neuronal da am\u00edgdala \u00e0 regi\u00e3o pr\u00e9-frontal tem ramifica\u00e7\u00f5es para a esquerda e para a direita do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Quando somos emocionalmente sequestrados, os circuitos da am\u00edgdala capturam o lado direito e assumem o comando. Mas o lado esquerdo pode enviar sinais para baixo a fim de suavizar o sequestro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resili\u00eancia emocional se resume \u00e0 rapidez com que conseguimos nos recuperar de problemas nesses casos. Pessoas altamente resilientes \u2014 que reagem imediatamente \u2014 podem ter at\u00e9 trinta vezes mais ativa\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o pr\u00e9-frontal esquerda do que as que s\u00e3o menos resilientes. 18 A boa not\u00edcia \u00e9 que, como veremos na Parte Cinco, podemos aumentar a for\u00e7a do circuito pr\u00e9-frontal esquerdo, capaz de tranquilizar a am\u00edgdala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A VIDA NO AUTOM\u00c1TICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu amigo e eu estamos concentrados numa conversa num restaurante lotado, j\u00e1 no final do almo\u00e7o. Ele est\u00e1 imerso na pr\u00f3pria narrativa, falando de um momento particularmente intenso que viveu recentemente.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele est\u00e1 t\u00e3o focado em me contar sua hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o terminou de comer. Meu prato j\u00e1 est\u00e1 vazio h\u00e1 um tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essa altura, a gar\u00e7onete vem at\u00e9 nossa mesa e lhe pergunta: \u201cO senhor est\u00e1 satisfeito com o almo\u00e7o?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele mal percebe a presen\u00e7a dela e resmunga um indiferente \u201cN\u00e3o, ainda n\u00e3o\u201d, e continua a contar sua hist\u00f3ria sem dar uma pausa sequer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que a resposta do meu amigo n\u00e3o foi para o que a gar\u00e7onete realmente perguntou, mas para o que gar\u00e7ons normalmente perguntam a essa altura de uma refei\u00e7\u00e3o: \u201cO senhor j\u00e1 terminou?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse pequeno engano tipifica o ponto negativo de uma vida conduzida pelos sistemas ascendentes, no autom\u00e1tico: deixamos passar o instante da forma como ele realmente nos chega, apenas reagindo a partir de um modelo fixo de dedu\u00e7\u00f5es sobre o que est\u00e1 acontecendo. E perdemos a gra\u00e7a do momento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gar\u00e7om: \u201cO senhor est\u00e1 satisfeito com o almo\u00e7o?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cliente: \u201cN\u00e3o, ainda n\u00e3o.\u201d Na \u00e9poca em que em muitos escrit\u00f3rios era comum que se formasse uma longa fila para usar a copiadora, a psic\u00f3loga de Harvard Ellen Langer pediu que algumas pessoas fossem at\u00e9 o come\u00e7o da fila e dissessem simplesmente: \u201cPreciso fazer algumas c\u00f3pias.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que todo mundo na fila estava l\u00e1 para fazer c\u00f3pias tamb\u00e9m. No entanto, com bastante frequ\u00eancia, quem estava no primeiro lugar da fila deixava essa pessoa passar na frente. Isso, diz Langer, exemplifica a desaten\u00e7\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o no autom\u00e1tico. Uma aten\u00e7\u00e3o ativa, ao contr\u00e1rio, poderia levar quem estava no primeiro lugar da fila a questionar se aquela pessoa realmente tinha alguma necessidade privilegiada de urg\u00eancia por suas c\u00f3pias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O envolvimento ativo da aten\u00e7\u00e3o significa uma atividade descendente, um ant\u00eddoto para o risco de se atravessar o dia com um automatismo de zumbi. Podemos reagir a comerciais, ficar alertas ao que est\u00e1 acontecendo ao nosso redor, questionar rotinas autom\u00e1ticas ou melhor\u00e1-las. Essa aten\u00e7\u00e3o focada e frequentemente orientada a resultados inibe h\u00e1bitos descuidados. \u00c9 um foco ativo. 19<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, embora as emo\u00e7\u00f5es possam desviar nossa aten\u00e7\u00e3o, com esfor\u00e7o ativo tamb\u00e9m conseguimos administrar as emo\u00e7\u00f5es descendentes. Assim, as regi\u00f5es pr\u00e9- frontais assumem o controle da am\u00edgdala, diminuindo sua pot\u00eancia. Um rosto irritado, ou mesmo aquele beb\u00ea fofo, pode n\u00e3o conseguir capturar nossa aten\u00e7\u00e3o quando os circuitos do controle descendente assumem as escolhas do c\u00e9rebro sobre o que levar em considera\u00e7\u00e3o e o que ignorar.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas da se\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Henri Poincar\u00e9, citado em Arthur Koestler, The Act of Creation (O ato da cria\u00e7\u00e3o). Londres: Hutchinson, 1964, 115-116.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Alguns cientistas cognitivos chamam esses sistemas de \u201cmentes\u201d separadas; eu me referi ao sistema de cima para baixo como \u201cvia superior\u201d e o de baixo para cima como \u201cvia inferior\u201d em meu livro Intelig\u00eancia emocional. Daniel Kahneman, em seu livro R\u00e1pido e devagar: duas formas de pensar (Objetiva, 2012), usa os termos \u201cSistema 1\u201d e \u201cSistema 2\u201d, que ele chama de \u201cfic\u00e7\u00f5es explicativas\u201d. Considero esses dois dif\u00edceis de se manterem, como \u201cCoisa 1\u201d e \u201cCoisa 2\u201d em O gatola da cartola. Dito isso, quanto mais se mergulha na estrutura neural, menos satisfat\u00f3rias se tornam \u201ca parte de cima\u201d e \u201ca parte de baixo\u201d. Mas servem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Kahneman, 2012, p. 31.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A coluna humana \u00e9 outro dos muitos exemplos em que a evolu\u00e7\u00e3o apresentou um design bom o bastante, mas n\u00e3o perfeito: constru\u00eddo com base em sistemas mais antigos, aquela pilha de ossos de coluna \u00fanica funciona adequadamente \u2014 embora um trip\u00e9 flex\u00edvel de tr\u00eas colunas tivesse sido muito mais forte. Qualquer pessoa com uma h\u00e9rnia de disco ou artrite cervical pode testemunhar essas imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Lolo Jones em Sean Gregory, Lolo\u2019s No Choke, Time, 30 de julho de 2012, 32- 38.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Sian Beilock et al., When paying attention becomes counter-productive (Quando prestar aten\u00e7\u00e3o se torna contraproducente), Journal of Experimental Psychology 18, 1, 2002, 6-16.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Esfor\u00e7os para relaxar t\u00eam grandes chances de dar errado, principalmente em momentos em que estamos nos esfor\u00e7ando para desempenhar. Ver Daniel Wegner, Ironic effects of trying to relax under stress (Efeitos ir\u00f4nicos de tentar relaxar sob estresse), Behaviour Research and Therapy, 35, 1, 1997, 11-21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Daniel Wegner, How to think, say or do precisely the worst thing for any occasion (Como pensar, dizer ou fazer exatamente a pior coisa para qualquer ocasi\u00e3o), Science, 3 de julho de 2009, 48-50<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 Christian Merz et al., Stress impairs retrieval of socially relevant information (Estresse prejudica a recupera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es socialmente relevantes), Behavioral Neuroscience, 124, 2, 2010, 288-293.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10 Pesquisa com psic\u00f3logos: Unshrinkable (Imposs\u00edveis de analisar), Harper\u2019s Magazine, dezembro de 2009, 26-27.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11 Yuko Hakamata et al, Attention bias modification treatment (Tratamento de modifica\u00e7\u00e3o de tend\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o), Biological Psychiatry 68, 11, 2010, 982-990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12 Norman B. Schmidt et al., Attention training for generalized social anxiety disorder (Treinamento da aten\u00e7\u00e3o para transtorno de ansiedade social generalizado), J. Abnormal Psych., 118, 1, 2009. 5-14<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 Chua, Roy Y. J. e Zou, Xi (Canny), The Devil Wears Prada? Effects of Exposure to Luxury Goods on Cognition and Decision Making (O diabo veste Prada? Efeitos da exposi\u00e7\u00e3o a itens de luxo na cogni\u00e7\u00e3o e na tomada de decis\u00e3o), 2 de novembro de 2009, Unidade de Comportamento Organizacional da Harvard Business School, Artigo de trabalho N\u00ba 10-034. Dispon\u00edvel em SSRN: http:\/\/ssrn.com\/abstract=1498525 ou http:\/\/dx.doi.org\/10.2139\/ssrn.1498525.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 Gavan J. Fitzsimmons et al., Non-conscious Influences on Consumer Choice (Influ\u00eancias n\u00e3o conscientes nas escolhas do consumidor), em Marketing Letters, 13:3, 2002, 269-279.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">15 Sentimentos guiam o foco: Patrik Vuilleumier e Yang-Ming Huang, Emotional Attention: Uncovering the Mechanisms of Affective Biases in Perception (Aten\u00e7\u00e3o emocional: descobrindo os mecanismos das tend\u00eancias afetivas na percep\u00e7\u00e3o), Current Directions in Psychological Science, 2009, 18:3, 148-152.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 Arne Ohman et al., Emotion drives attention: Detecting the snake in the grass (A emo\u00e7\u00e3o guia a aten\u00e7\u00e3o: detectando a cobra no gramado), Journal of Experimental Psychology: General, 2001, 130, 3. 466-478.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 Elizabeth Blagrove e Derrick Watson, Visual marking and facial affect: can an emotional face be ignored? (Marca\u00e7\u00e3o visual e influ\u00eancia facial: uma express\u00e3o emocional pode ser ignorada?), Emotion, 10,2, 2010, 147-68.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">18 Resili\u00eancia: A. J. Schackman et al., Reduced capacity to sustain positive emotion in major depression reflects diminished maintenance of fronto-striatal brain activation (Uma capacidade reduzida de sustentar emo\u00e7\u00f5es positivas em depress\u00f5es importantes reflete uma manuten\u00e7\u00e3o diminu\u00edda da ativa\u00e7\u00e3o frontoestriatal do c\u00e9rebro), PNAS, 106, 2009, 22445-50.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">19 Ellen Langer, Mindfulness [Aten\u00e7\u00e3o plena], Reading, MA: Addison-Wesley, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O VALOR DE UMA MENTE A DERIVA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos recuar um pouco e considerar novamente o pensamento. No que escrevi at\u00e9 agora, h\u00e1 um vi\u00e9s impl\u00edcito: aquela aten\u00e7\u00e3o focada e orientada a resultados tem mais valor do que a percep\u00e7\u00e3o aberta e espont\u00e2nea. Mas a conclus\u00e3o simples de que a aten\u00e7\u00e3o precisa estar a servi\u00e7o da solu\u00e7\u00e3o de problemas ou do alcance de objetivos subestima a fertilidade da tend\u00eancia de a mente divagar sempre que \u00e9 deixada a sua pr\u00f3pria sorte.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo tipo de aten\u00e7\u00e3o tem sua utilidade. O simples fato de que cerca de metade dos nossos pensamentos s\u00e3o devaneios espont\u00e2neos sugere que esta pode ter sido uma vantagem evolutiva para uma mente que \u00e9 capaz de considerar o imagin\u00e1rio. 1 Somos capazes de modificar nossas pr\u00f3prias ideias sobre uma \u201cmente divagando\u201d ao pensarmos que, em vez de estarmos divagando para longe do que \u00e9 importante, podemos perfeitamente estar divagando na dire\u00e7\u00e3o de alguma coisa de valor. 2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisas do c\u00e9rebro sobre a divaga\u00e7\u00e3o da mente enfrentam um paradoxo singular: \u00e9 imposs\u00edvel instruir algu\u00e9m a ter um pensamento espont\u00e2neo \u2014 ou seja, fazer sua mente divagar. 3 Se quisermos capturar pensamentos divagando ao natural, \u00e9 preciso apanh\u00e1-los onde eles aparecem. Eis uma estrat\u00e9gia de pesquisa preferencial: enquanto as pessoas est\u00e3o tendo os c\u00e9rebros examinados, pergunte em momentos aleat\u00f3rios o que elas est\u00e3o sentindo. Isso produz uma mistura desordenada dos conte\u00fados da mente, incluindo uma boa por\u00e7\u00e3o de divaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impulso interno para se afastar do foco intencional \u00e9 t\u00e3o forte que cientistas cognitivos veem a mente divagadora como o modo-padr\u00e3o do c\u00e9rebro \u2014 aonde ele vai quando n\u00e3o est\u00e1 trabalhando em alguma tarefa mental. O circuito dessa \u201crede-padr\u00e3o\u201d, como descobriu uma s\u00e9rie de estudos de neuroimagem, \u00e9 centrado na regi\u00e3o medial, ou intermedi\u00e1ria, do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exames cerebrais mais recentes revelaram uma surpresa: durante a divaga\u00e7\u00e3o da mente, duas grandes regi\u00f5es do c\u00e9rebro se ativam, n\u00e3o apenas a faixa medial que tem sido associada com a mente \u00e0 deriva. 4 A outra regi\u00e3o \u2014 o sistema executivo do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal \u2014 era considerada fundamental para nos manter focados numa tarefa. Ainda assim, os exames parecem mostrar ambas as regi\u00f5es ativadas enquanto a mente divaga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 um pouco intrigante. Afinal, a divaga\u00e7\u00e3o da mente, por natureza, tira o foco do que est\u00e1 sendo feito e prejudica nosso desempenho, especialmente em quest\u00f5es cognitivamente exigentes. Os pesquisadores resolveram esse enigma de modo experimental, ao sugerir que a divaga\u00e7\u00e3o da mente prejudica o desempenho ao tomar o sistema executivo emprestado para outros assuntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos leva de volta \u00e0 pergunta: para onde a mente deriva? Com bastante frequ\u00eancia, para as nossas preocupa\u00e7\u00f5es pessoais e nossas quest\u00f5es n\u00e3o resolvidas \u2014 coisas em que precisamos trabalhar. Embora a divaga\u00e7\u00e3o da mente possa prejudicar nosso foco imediato em alguma tarefa espec\u00edfica, ela funciona a servi\u00e7o de resolver problemas importantes para as nossas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma mente \u00e0 deriva permite que nossa ess\u00eancia criativa flua. Enquanto nossas mentes divagam, nos tornamos melhores em qualquer coisa que dependa de um lampejo de insight, de jogos de palavras criativos a inven\u00e7\u00f5es e ideias originais. Na verdade, pessoas que realizam muitas tarefas mentais que demandam controle cognitivo e intensa mem\u00f3ria de trabalho \u2014 como resolver equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas complexas \u2014 podem sentir dificuldade para terem insights criativos se tiverem problemas para desligar o foco completamente concentrado. 5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as outras fun\u00e7\u00f5es positivas da divaga\u00e7\u00e3o da mente, est\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios para o futuro, a autorreflex\u00e3o, a capacidade de se relacionar em um mundo social complexo, a incuba\u00e7\u00e3o de ideias criativas, a flexibilidade do foco, a pondera\u00e7\u00e3o do que se est\u00e1 aprendendo, a organiza\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as ou a mera medita\u00e7\u00e3o sobre a vida \u2014 e tamb\u00e9m a possibilidade de dar aos nossos circuitos de foco mais intensivo uma pausa revigorante. 6<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma reflex\u00e3o moment\u00e2nea me leva a acrescentar mais duas fun\u00e7\u00f5es: a de me lembrar de coisas que preciso fazer para que elas n\u00e3o se percam na desordem da mente e a de me entreter. Tenho certeza de que voc\u00ea pode sugerir algumas outras utilidades se deixar sua mente vagar um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ARQUITETURA DA SERENDIPIDADE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um conto de fadas persa conta a hist\u00f3ria dos Tr\u00eas Pr\u00edncipes de Serendip, que estavam sempre fazendo descobertas, por obra do acaso e sagacidade, de coisas pelas quais n\u00e3o estavam procurando.7 A criatividade ao natural tamb\u00e9m funciona dessa maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNovas ideias n\u00e3o ir\u00e3o surgir se voc\u00ea n\u00e3o se der essa permiss\u00e3o\u201d, me diz o CEO da Salesforce, Marc Benioff. \u201cQuando eu era vice-presidente na Oracle, viajei um m\u00eas para o Hava\u00ed apenas para relaxar. Ao fazer isso, abri minha carreira para novas ideias, perspectivas e dire\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele espa\u00e7o ao ar livre, Benioff se deu conta dos usos potenciais da computa\u00e7\u00e3o em nuvem que o fizeram sair da Oracle, come\u00e7ar a Salesforce numa sala e preconizar o que na \u00e9poca ainda era um conceito radical. A Salesforce foi pioneira no que agora \u00e9 uma ind\u00fastria de muitos bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em contrapartida, um cientista determinado demais a confirmar sua hip\u00f3tese corre o risco de ignorar descobertas que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com suas expectativas \u2014 dispensando-as como ru\u00eddo ou erro em vez de trat\u00e1-las como novas descobertas \u2014, e assim deixa passar dados que poderiam se tornar teorias mais frut\u00edferas. E aquele sujeito que diz n\u00e3o nas reuni\u00f5es de brainstorm, que sempre derruba qualquer ideia nova, destr\u00f3i insights inovadores na raiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia aberta cria uma plataforma mental para descobertas criativas e insights inesperados. Na consci\u00eancia aberta, n\u00e3o temos advogado do diabo, nem cinismo ou julgamento \u2014 apenas receptividade absoluta para o que quer que surja na mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma vez que topamos com um \u00f3timo insight criativo, precisamos assumir um foco apurado para capturar nosso pr\u00eamio e avaliar como vamos aplic\u00e1-lo. A serendipidade vem primeiro com a abertura \u00e0 possibilidade, e depois com a concentra\u00e7\u00e3o em aplicar um insight.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os desafios criativos da vida raramente v\u00eam na forma de enigmas bem formulados. Na verdade, normalmente precisamos reconhecer at\u00e9 mesmo a necessidade de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o criativa, para come\u00e7o de conversa. A sorte, como disse Louis Pasteur, favorece uma mente preparada. O devaneio incuba a descoberta criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um modelo cl\u00e1ssico dos est\u00e1gios da criatividade representa tr\u00eas modalidades de foco: o foco orientado, quando buscamos e mergulhamos em qualquer tipo de dado; a aten\u00e7\u00e3o seletiva, no desafio criativo espec\u00edfico; e a consci\u00eancia aberta, quando nos entregamos \u00e0 associa\u00e7\u00e3o livre para permitir que surja uma solu\u00e7\u00e3o \u2014 e ent\u00e3o nos concentramos na solu\u00e7\u00e3o. Os sistemas cerebrais envolvidos na divaga\u00e7\u00e3o da mente tamb\u00e9m foram observados em atividade pouco antes de pessoas examinadas chegarem a um insight criativo \u2014 e apresentam atividade incomum em quem sofre de Transtorno de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade, ou TDAH. Adultos com TDAH, comparados com adultos sem o transtorno, tamb\u00e9m mostram n\u00edveis maiores de pensamento criativo original e mais realiza\u00e7\u00f5es criativas reais. 8 O empres\u00e1rio Richard Branson, fundador do imp\u00e9rio corporativo constru\u00eddo a partir da Virgin Air e outras empresas, se ofereceu como garoto propaganda para a ideia de que algu\u00e9m pode ter sucesso com TDAH.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">]O centro de controles de doen\u00e7as do governo federal norte-americano diz que quase 10% das crian\u00e7as t\u00eam o transtorno numa forma misturada com a hiperatividade. Em adultos, a hiperatividade diminui, restando o d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. Cerca de 4% dos adultos parecem enfrentar o problema. 9 Quando s\u00e3o desafiados com uma tarefa criativa, como encontrar novos usos para um tijolo, pessoas com TDAH se saem melhor, apesar de sua tend\u00eancia \u00e0 divaga\u00e7\u00e3o mental \u2014 ou talvez por causa dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos podemos aprender alguma coisa nesse ponto. Numa experi\u00eancia em que volunt\u00e1rios foram desafiados com a tarefa de novos usos, os que deixaram as mentes vagarem \u2014 em compara\u00e7\u00e3o com aqueles cuja aten\u00e7\u00e3o estivera totalmente concentrada \u2014 apresentaram 40% mais ideias originais. E quando pessoas que haviam empreendido realiza\u00e7\u00f5es criativas \u2014 como um romance, uma patente ou uma mostra de arte \u2014 foram testadas na habilidade de deixar de fora informa\u00e7\u00f5es irrelevantes para se focarem numa tarefa, suas mentes divagaram com mais frequ\u00eancia do que as de outros \u2014 uma consci\u00eancia aberta que pode ter lhes servido bem no trabalho criativo. 10<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossos momentos criativos menos fren\u00e9ticos, pouco antes de um insight, o c\u00e9rebro costuma descansar em um foco aberto e relaxado, caracterizado por um ritmo alfa. Isso sinaliza um estado de devaneio ou sonho acordado. Como o c\u00e9rebro armazena diferentes tipos de informa\u00e7\u00f5es em circuitos de amplo alcance, uma consci\u00eancia vagando livremente aumenta as chances de associa\u00e7\u00f5es com serendipidade e novas combina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rappers imersos no freestyling, quando improvisam letras na hora de cantar, demonstram uma atividade aumentada no circuito de divaga\u00e7\u00e3o mental, entre outras partes do c\u00e9rebro \u2014 permitindo novas conex\u00f5es entre redes neurais distantes. 11 Nesta espa\u00e7osa ecologia mental, temos mais propens\u00e3o a fazermos novas associa\u00e7\u00f5es, \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o arr\u00e1! que marca um insight criativo \u2014 ou uma boa rima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num mundo complexo, no qual quase todos t\u00eam acesso \u00e0 mesma informa\u00e7\u00e3o, surge um novo valor da s\u00edntese original, da uni\u00e3o de ideias de forma inovadora e das perguntas inteligentes que ativam potenciais intocados. Insights criativos implicam a jun\u00e7\u00e3o de elementos de um modo \u00fatil e original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine por um instante uma mordida numa ma\u00e7\u00e3 crocante: a tonalidade das cores na casca, os sons da dentada, os sabores, os cheiros e as texturas. Pare um momento para experimentar essa ma\u00e7\u00e3 virtual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando esse momento imagin\u00e1rio ganhou vida em sua mente, o seu c\u00e9rebro quase que certamente gerou um pico gama. Esses picos gama s\u00e3o velhos conhecidos dos neurocientistas. Eles ocorrem rotineiramente durante opera\u00e7\u00f5es mentais como esta mordida numa ma\u00e7\u00e3 virtual \u2014 e logo antes de insights criativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria excessivo considerar as ondas gamas como algum tipo de segredo da criatividade. Mas o local do pico gama durante um insight criativo parece revelador: uma \u00e1rea associada aos sonhos, a met\u00e1foras, \u00e0 l\u00f3gica da arte, do mito e da poesia. Esses elementos operam na linguagem do inconsciente, uma esfera onde tudo \u00e9 poss\u00edvel. O m\u00e9todo da associa\u00e7\u00e3o livre de Freud, em que falamos o que quer que nos\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 venha \u00e0 mente sem censura, abre uma porta para esta modalidade de consci\u00eancia aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa mente tem infinitas ideias, lembran\u00e7as e associa\u00e7\u00f5es potenciais esperando para ser feitas. Mas a probabilidade de a ideia certa se ligar com a lembran\u00e7a correta dentro do contexto adequado \u2014 e tudo isso ser capturado pelo holofote da aten\u00e7\u00e3o \u2014 diminui drasticamente quando estamos ou hiperfocados ou sobrecarregados demais por distra\u00e7\u00f5es para percebermos o insight.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m o que est\u00e1 armazenado no c\u00e9rebro de outras pessoas. Durante cerca de um ano, os astr\u00f4nomos Arno Penzias e Robert Wilson pesquisaram o universo com equipamentos novos e poderosos, muito mais potentes do que qualquer outro que j\u00e1 tivesse sido usado para vasculhar a vastid\u00e3o dos c\u00e9us. Ficaram sobrecarregados por um mar de dados originais e tentaram simplificar o trabalho ignorando uma est\u00e1tica sem significado, que supuseram se dever a problemas no equipamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, um encontro casual com um f\u00edsico nuclear lhes deu o insight (e, por fim, um Pr\u00eamio Nobel) que os levou a perceber que o que eles vinham interpretando como \u201cru\u00eddo\u201d era na realidade um sinal fraco das cont\u00ednuas reverbera\u00e7\u00f5es do big bang.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O CASULO CRIATIVO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA mente intuitiva \u00e9 um dom sagrado e a mente racional, um servo fiel, disse um dia Albert Einstein. Criamos uma sociedade que honra o servo e se esqueceu do dom\u201d.12<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos de n\u00f3s, \u00e9 simplesmente um luxo conseguir durante o dia alguns momentos particulares sem interrup\u00e7\u00f5es em que possamos nos recostar e refletir. No entanto, esses s\u00e3o alguns dos momentos mais valiosos do dia, principalmente quando se trata de criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 algo mais exigido para essas associa\u00e7\u00f5es frutificarem numa inova\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel: a atmosfera correta. Precisamos de tempo livre no qual possamos manter uma consci\u00eancia aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fluxo ininterrupto de e-mails, textos, contas a pagar \u2014 a \u201ccat\u00e1strofe completa\u201d da vida \u2014 nos deixa num estado cerebral contr\u00e1rio ao foco aberto no qual as descobertas com serendipidade prosperam. Em meio ao tumulto das nossas distra\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e das nossas listas de tarefas, a inova\u00e7\u00e3o trava; nos tempos livres, ela floresce. \u00c9 por isso que os anais das descobertas s\u00e3o repletos de hist\u00f3rias sobre insights brilhantes que acontecem durante uma caminhada ou um banho, num passeio longo ou nas f\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo livre deixa o esp\u00edrito criativo florescer. Agendas apertadas o matam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos como exemplo o falecido Peter Schweitzer, um dos fundadores do campo moderno de avalia\u00e7\u00e3o da criptografia \u2014 c\u00f3digos cifrados que parecem n\u00e3o ter sentido para olhos destreinados, mas protegem o sigilo de tudo desde os registros de um governo \u00e0 senha do seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito. 13 A especialidade de Schweitzer: decifrar c\u00f3digos com um teste amig\u00e1vel de criptografia que lhe diz se algum inimigo, como um hacker mal intencionado, pode invadir o seu sistema e roubar os seus segredos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este desafio herc\u00faleo exige que seja gerada uma enorme gama de novas solu\u00e7\u00f5es potenciais para um problema extraordinariamente complicado, e depois exige que cada solu\u00e7\u00e3o seja testada, passando por um met\u00f3dico n\u00famero de passos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O laborat\u00f3rio de Schweitzer para essa tarefa intensa n\u00e3o era uma sala sem janelas e \u00e0 prova de som. Ele normalmente ficava pensando num c\u00f3digo criptografado dando uma longa caminhada ou simplesmente pegando sol, de olhos fechados. \u201cParecia algu\u00e9m tirando uma soneca, mas estava fazendo complexos c\u00e1lculos matem\u00e1ticos mentalmente\u201d, comenta um colega. \u201cFicava deitado tomando banho de sol e, enquanto isso, a mente funcionava a zilh\u00f5es de quil\u00f4metros por hora.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A relev\u00e2ncia desses casulos no tempo e no espa\u00e7o surgiu de um estudo da Harvard Business School sobre a forma de trabalho interno de 238 membros das equipes de projetos criativos, que recebiam como tarefas desafios de inova\u00e7\u00e3o que iam de solucionar complexos problemas de TI a inventar equipamentos de cozinha. 14 O progresso nos trabalhos desse tipo exige um fluxo constante de pequenos insights criativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias considerados bons para insights n\u00e3o tinham nada a ver com avan\u00e7os impressionantes ou grandes vit\u00f3rias. A chave se revelou nas pequenas vit\u00f3rias \u2014 inova\u00e7\u00f5es menores e solu\u00e7\u00e3o de problemas perturbadores \u2014 em passos concretos rumo a um objetivo maior. Insights criativos flu\u00edam melhor quando as pessoas tinham objetivos claros, mas tamb\u00e9m liberdade nos meios usados para atingi-los. E, o mais importante, tinham per\u00edodos de tempo reservados \u2014 o bastante para realmente pensarem livremente. Um casulo criativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas da se\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Metade dos nossos pensamentos: Eric Klinger, Daydreaming and fantasizing: thought flow and motivation (Sonhos acordados e fantasias: fluxo de pensamento e motiva\u00e7\u00e3o), em K. D. Markman et al. (eds), Handbook of Imagination e Mental Stimulation (Manual de imagina\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo mental). Nova York: Psychology Press, 225-240.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Kalina Christoff, Undirected thought: Neural determinants and correlates (Pensamentos n\u00e3o direcionados: determinantes e correlatos neurais), Brain Research<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Christoff, 2012, op cit p. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Uma surpresa: Kalina Christoff et al., Experience sampling during fMRI reveals default network and executive system contributions to mind wandering (Amostragem experimental durante resson\u00e2ncia magn\u00e9tica revela as contribui\u00e7\u00f5es da rede-padr\u00e3o e do sistema executivo \u00e0 divaga\u00e7\u00e3o da mente), PNAS, 26 de maio de 2009, vol 106 n\u00ba 21, 8.719-8.724. As \u00e1reas executivas principais: o c\u00f3rtex cingulado anterior e o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal dorso lateral. Padr\u00e3o: c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal medial e circuitos relacionados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 J. Wiley e A.F. Jarosz, Working memory capacity, attentional focus, and problem solving (Capacidade de mem\u00f3ria de trabalho, foco de aten\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o de problemas), Current Directions in Psychological Science (Dire\u00e7\u00f5es atuais em ci\u00eancias psicol\u00f3gicas), no prelo, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Fun\u00e7\u00f5es da divaga\u00e7\u00e3o da mente: Jonathan Schooler et al., Meta-awareness, perceptual decoupling e the wandering mind (Metaconsci\u00eancia, desconex\u00e3o perceptiva e a mente divagante), Trends in Cognitive Science, julho de 2011, 15, 7 319-326.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Serendip: cita\u00e7\u00e3o em Steven Johnson, De onde v\u00eam as boas ideias, Jorge Zahar, 2011.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Criatividade no TDAH: Holly White e Priti Singh, Creative style e achievement in adults with ADHD (Estilo criativo e realiza\u00e7\u00e3o em adultos com TDAH), Personality e Individual Differences (Diferen\u00e7as de personalidade e individuais), 50,5 673-677.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 ADDH e ADD: Kirsten Weir, Pay attention to me (Preste aten\u00e7\u00e3o em mim), Monitor on Psychology, mar\u00e7o de 2012, 70-72. 10 Shelley Carson et al., Decreased Latent Inhibition Is Associated With Increased Creative Achievement in High-Functioning Individuals (Inibi\u00e7\u00e3o latente diminu\u00edda est\u00e1 associada a maiores realiza\u00e7\u00f5es criativas em indiv\u00edduos de alto n\u00edvel funcional), JPSP, Vol. 85(3), setembro de 2003, 499-506<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11 Siyuan Liu et al., Neural correlates of lyrical improvisation: An fMRI study of freestyle rap (Correlatos neurais de improvisa\u00e7\u00e3o l\u00edrica: um estudo com resson\u00e2ncia magn\u00e9tica de rap Freestyle), Scientific Reports, 2, 834, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12 A frase de Einstein foi citada por Robert L. Oldershaw num coment\u00e1rio postado na revista Nature em 21 de maio de 2012<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 Jaime Lutz, Peter Schweitzer, code breaker, photographer; loved music; at 80 (Peter Schweitzer, criptoanalista, fot\u00f3grafo; amava m\u00fasica; aos 80 anos), The Boston Globe, 17 de novembro de 2011. B14.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 Vidas interiores do trabalho: mais de 12 mil registros di\u00e1rios de 238 trabalhadores do conhecimento: Teresa Amabile e Seven Kramer, The Power of Small Wins (O poder das pequenas vit\u00f3rias) Harvard Business Review, maio de 2011. 72-80.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ENCONTRANDO O EQUIL\u00cdBRIO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA faculdade de trazer de volta voluntariamente uma aten\u00e7\u00e3o divagadora, muitas e muitas vezes, \u00e9 a pr\u00f3pria raiz do ju\u00edzo, do car\u00e1ter e da vontade\u201d, observou o fundador da psicologia americana, Wiliam James.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se voc\u00ea perguntar a algu\u00e9m: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 pensando em alguma coisa al\u00e9m do que est\u00e1 fazendo no momento?\u201d, h\u00e1 50% de chances de que a mente dela esteja divagando. 1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa porcentagem muda imensamente dependendo de qual seja a atividade do momento. Uma pesquisa aleat\u00f3ria feita com milhares de pessoas descobriu que o foco no aqui e agora era compreensivelmente muito maior quando estavam fazendo amor (mesmo entre aquelas que responderam essa consulta mal catalogada, feita a partir de um aplicativo de telefone). Numa segunda posi\u00e7\u00e3o mais distante estavam os exerc\u00edcios, seguidos por conversar com algu\u00e9m e jogar. Em contrapartida, a divaga\u00e7\u00e3o da mente era mais frequente durante o trabalho (patr\u00f5es, prestem aten\u00e7\u00e3o), no computador de casa ou no decorrer do trajeto casa-trabalho-casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em m\u00e9dia, os humores das pessoas normalmente pioravam quando suas mentes divagavam. At\u00e9 mesmo pensamentos de conte\u00fados aparentemente neutros eram encobertos por um tom emocionalmente negativo. A divaga\u00e7\u00e3o da mente por si s\u00f3 parecia ser motivo de infelicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para onde nossos pensamentos divagam quando n\u00e3o estamos pensando em nada em especial? Basicamente, s\u00e3o todos sobre o eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201ceu\u201d, conforme prop\u00f4s William James, unifica nosso senso de self ao nos contar a nossa hist\u00f3ria \u2014 encaixando peda\u00e7os aleat\u00f3rios de vida numa narrativa coesa. Esta narrativa \u00e9-tudo-sobre-mim fabrica uma sensa\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia por tr\u00e1s das nossas experi\u00eancias momento a momento, em constante muta\u00e7\u00e3o. O \u201ceu\u201d reflete a atividade de uma \u00e1rea-padr\u00e3o, aquele gerador da mente inquieta, perdido num fluxo de pensamento divagador que tem pouco ou nada a ver com a situa\u00e7\u00e3o presente e tudo a ver com, bem, o \u201ceu\u201d. Este h\u00e1bito mental se instala sempre que damos \u00e0 mente um descanso ap\u00f3s alguma atividade focada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Associa\u00e7\u00f5es criativas \u00e0 parte, a divaga\u00e7\u00e3o da mente tende a nos centrar em nosso eu e em nossas preocupa\u00e7\u00f5es: todas as v\u00e1rias coisas que eu preciso fazer hoje, a coisa errada que eu disse para aquela pessoa, o que eu deveria ter dito em vez daquilo. Embora a mente \u00e0s vezes divague para alguns pensamentos ou fantasias agrad\u00e1veis, normalmente parece gravitar em torno de rumina\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal medial dispara, e nosso solil\u00f3quio e nossas rumina\u00e7\u00f5es geram um contexto de baixo n\u00edvel de ansiedade. Mas durante a concentra\u00e7\u00e3o total, uma \u00e1rea pr\u00f3xima, o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal lateral, inibe essa \u00e1rea medial. Nossa aten\u00e7\u00e3o seletiva desseleciona esses circuitos de preocupa\u00e7\u00f5es emocionais, o tipo mais poderoso de distra\u00e7\u00e3o. Reagindo aos acontecimentos, ou a algum tipo de foco ativo, nosssa aten\u00e7\u00e3o seletiva desliga o \u201ceu\u201d, enquanto o foco passivo nos volta para o confort\u00e1vel atoleiro das nossas rumina\u00e7\u00f5es. 2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a conversa das pessoas ao nosso redor que tem mais poder de nos distrair, mas a conversa da nossa pr\u00f3pria mente. A concentra\u00e7\u00e3o absoluta exige que essas vozes internas se calem. Comece a subtrair setes sucessivamente de cem e, se mantiver o foco na tarefa, sua zona de conversa ficar\u00e1 em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O ADVOGADO E A PASSA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como litigante, o advogado alimentou sua carreira ao mobilizar uma raiva efervescente pelas injusti\u00e7as sofridas por seus clientes. Energizado pela indigna\u00e7\u00e3o, era incans\u00e1vel na defesa de seus casos. Fazia suas argumenta\u00e7\u00f5es com envolvimento absoluto, passava noites em claro, pesquisava e se preparava. Frequentemente ficava deitado acordado na cama a maior parte da noite, espumando, enquanto revisava v\u00e1rias vezes as afli\u00e7\u00f5es dos clientes e planejava sua estrat\u00e9gia jur\u00eddica.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, durante umas f\u00e9rias, conheceu uma mulher que dava aulas de medita\u00e7\u00e3o e pediu que ela o ensinasse. Para sua surpresa, ela come\u00e7ou dando a ele algumas uvas-passas. Ela ent\u00e3o o guiou pelos passos de comer uma das passas lentamente, com foco total, saboreando a riqueza de cada momento daquele processo: as sensa\u00e7\u00f5es de quando ele a levou at\u00e9 a boca e mastigou, a explos\u00e3o de sabores ao mord\u00ea-la, os sons do ato de comer. Ele submergiu na completude de seus sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, como ela o instruiu, ele voltou aquele mesmo foco totalmente centrado no momento para o fluxo natural de sua respira\u00e7\u00e3o, liberando todo e qualquer pensamento que passasse por sua mente. Com a orienta\u00e7\u00e3o dela, ele continuou essa medita\u00e7\u00e3o sobre sua respira\u00e7\u00e3o ao longo dos 15 minutos seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme foi fazendo isso, as vozes em sua mente foram silenciando. \u201cFoi como acionar um interruptor para um estado zen\u201d, ele disse. Gostou tanto daquilo, que transformou num h\u00e1bito di\u00e1rio: \u201cDepois que termino, me sinto muito calmo \u2014 e gosto muito disso.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voltamos essa aten\u00e7\u00e3o completa para os nossos sentidos, o c\u00e9rebro silencia sua conversa-padr\u00e3o. Exames cerebrais realizados durante a aten\u00e7\u00e3o plena \u2014 a forma de medita\u00e7\u00e3o que o advogado estava experimentando \u2014 revelaram que ela acalma os circuitos cerebrais para conversas mentais com foco no eu. 3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que por si s\u00f3 pode ser um imenso al\u00edvio. \u201cConsiderando que fluxo e absor\u00e7\u00e3o total significam abandonar este estado de divaga\u00e7\u00e3o da mente e focar totalmente numa atividade, provavelmente estaremos desativando os circuitos-padr\u00e3o\u201d, diz o neurocientista Richard Davidson. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ruminar sobre si mesmo enquanto se est\u00e1 absorto numa tarefa desafiadora.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEste \u00e9 um dos motivos pelos quais as pessoas adoram esportes radicais como alpinismo, uma situa\u00e7\u00e3o em que \u00e9 preciso estar totalmente focado\u201d, acrescenta Davidson. O foco poderoso traz uma sensa\u00e7\u00e3o de paz e, com ela, alegria. \u201cMas quando descemos a montanha, a rede autorreferente traz as preocupa\u00e7\u00f5es e os problemas imediatamente de volta.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em A ilha, romance ut\u00f3pico de Aldous Huxley, papagaios treinados voam at\u00e9 pessoas escolhidas ao acaso e gorjeiam: \u201cAqui e agora, pessoal, aqui e agora!\u201d Esse lembrete ajuda os habitantes da id\u00edlica ilha a despertarem de seus devaneios e voltarem a se focar no que est\u00e1 acontecendo naquele lugar e naquele instante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um papagaio parece uma escolha adequada de mensageiro: animais vivem apenas o aqui e agora. Um gato subindo no seu colo para ganhar carinho, um cachorro esperando ansiosamente por voc\u00ea na porta, um cavalo entortando a cabe\u00e7a para interpretar suas inten\u00e7\u00f5es enquanto voc\u00ea se aproxima, todos compartilham o mesmo foco no presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta capacidade de pensar de forma independente de um est\u00edmulo imediato \u2014 sobre o passado e o futuro, em todas as suas possibilidades \u2014 separa a mente humana das mentes de quase todos os outros animais. Embora muitas tradi\u00e7\u00f5es espirituais, como os papagaios de Huxley, vejam a divaga\u00e7\u00e3o da mente como uma fonte de infelicidade, psic\u00f3logos evolucionistas a veem como um grande salto cognitivo. Ambas as vis\u00f5es det\u00eam alguma por\u00e7\u00e3o de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o de Huxley, o agora eterno abriga tudo o que precisamos para nos realizarmos. No entanto, a capacidade humana de pensar em coisas que n\u00e3o est\u00e3o acontecendo naquele presente eterno representa um grande salto evolutivo, um pr\u00e9- requisito para todas as realiza\u00e7\u00f5es da nossa esp\u00e9cie que exigiram planejamento, imagina\u00e7\u00e3o ou habilidade log\u00edstica. E isso basicamente define todas as realiza\u00e7\u00f5es unicamente humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remoer coisas que n\u00e3o est\u00e3o acontecendo aqui e agora \u2014 \u201cpensamento independente da situa\u00e7\u00e3o\u201d, como chamam os cientistas cognitivos \u2014 exige que dissociemos os conte\u00fados da nossa mente do que nossos sentidos percebem naquele instante. Ent\u00e3o, at\u00e9 onde sabemos, nenhuma outra esp\u00e9cie \u00e9 capaz de fazer esta troca radical de um foco externo para um foco interno com qualquer coisa que se aproxime do poder da mente humana, nem com a mesma frequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais nossa mente divaga, menos conseguimos registrar o que est\u00e1 acontecendo aqui e agora. Pensemos na compreens\u00e3o do que estamos lendo. Quando volunt\u00e1rios tiveram os olhares monitorados enquanto liam a totalidade do livro Raz\u00e3o e sensibilidade, de Jane Austen, movimentos err\u00e1ticos dos olhos sinalizavam que ocorria uma grande quantidade de leitura desatenta. 4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhos desatentos indicam um rompimento na conex\u00e3o entre a compreens\u00e3o e o contato visual com o texto enquanto a mente vagueia para outro lugar (poderia ter havido muito menos se os volunt\u00e1rios tivessem tido a liberdade de escolher o que leriam \u2014 digamos A Guerra dos Tronos ou Cinquenta tons de cinza, dependendo do gosto deles).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando ferramentas como flutua\u00e7\u00f5es no olhar ou \u201camostras de experi\u00eancias aleat\u00f3rias\u201d (em outras palavras, apenas perguntando a algu\u00e9m o que est\u00e1 acontecendo) enquanto as pessoas est\u00e3o tendo os c\u00e9rebros examinados, neurocientistas descobriram uma importante din\u00e2mica neural: enquanto a mente divaga, nossos sistemas sensoriais desligam e, inversamente, enquanto nos focamos no aqui e agora, os circuitos neurais para a divaga\u00e7\u00e3o da mente desligam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No n\u00edvel neural, a divaga\u00e7\u00e3o da mente e a consci\u00eancia perceptiva tendem a inibir uma a outra: o foco interno da nossa linha de pensamento ignora os sentidos, ao passo que o fasc\u00ednio pela beleza de um p\u00f4r do sol aquieta a mente. 5 Este desligamento pode ser total, como quando ficamos absolutamente absortos no que estamos fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas configura\u00e7\u00f5es neurais usuais permitem um pouco de divaga\u00e7\u00e3o enquanto nos dedicamos ao mundo \u2014 ou uma dedica\u00e7\u00e3o apenas suficiente enquanto estamos \u00e0 deriva \u2014 como quando sonhamos acordados enquanto dirigimos. \u00c9 claro que essa sintonia parcial apresenta riscos: um estudo feito com mil motoristas feridos em acidentes descobriu que aproximadamente metade deles disse que estava com a mente divagando pouco antes do acidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais intensos os pensamentos distruptivos, maior a probabilidade de que tenha sido o motorista o causador do acidente. 6 Situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o exigem constante foco em tarefas \u2014 especialmente situa\u00e7\u00f5es chatas ou de rotina \u2014 liberam a mente para divagar. Conforme a mente vagueia e a rede-padr\u00e3o se ativa com mais for\u00e7a, nossos circuitos neurais para o foco em tarefas se acalma \u2014 outra forma de dissocia\u00e7\u00e3o parecida com aquela que existe entre os sentidos e o devaneio. Como o devaneio concorre com foco em tarefas por energia neural e percep\u00e7\u00e3o sensorial, n\u00e3o \u00e9 de espantar que quando sonhamos acordados cometemos mais erros em qualquer coisa que requeira aten\u00e7\u00e3o focada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A MENTE DIVAGADORA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSempre que perceber a sua mente divagando\u201d, orienta uma instru\u00e7\u00e3o fundamental de medita\u00e7\u00e3o, traga-a de volta para seu ponto focal. O trecho importante aqui \u00e9 sempre que perceber. Quando nossa mente vagueia, quase nunca percebemos o instante em que ela se lan\u00e7a para outra \u00f3rbita. Um meandro distante do foco da medita\u00e7\u00e3o pode durar segundos, minutos ou toda a sess\u00e3o antes que percebamos, se \u00e9 que chegamos a perceber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse simples desafio \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil porque os mesmos circuitos cerebrais de que precisamos para segurarmos nossa mente quando ela divaga s\u00e3o recrutados para a rede neural que deixa a mente \u00e0 deriva em primeiro lugar. 7 O que eles est\u00e3o fazendo? Aparentemente, administrando as partes aleat\u00f3rias que preenchem uma mente em divaga\u00e7\u00e3o para que deem lugar a uma detalhada linha de pensamento, do tipo: \u201cComo vou pagar as minhas contas?\u201d Essas linhas de pensamento demandam uma coopera\u00e7\u00e3o entre o circuito divagador da mente e o que faz o controle cognitivo. 8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capturar uma mente divagando no ato \u00e9 uma ideia elusiva. Mais frequentemente do que imaginamos, quando nos perdemos em pensamentos, falhamos no intuito de perceber que nossa mente chegou a divagar. Perceber que a nossa mente est\u00e1 divagando marca uma mudan\u00e7a na atividade cerebral; quanto maior essa metaconsci\u00eancia, mais fraca se torna a divaga\u00e7\u00e3o da mente. 9 Imagens cerebrais revelam que no instante em que surpreendemos nossa mente \u00e0 deriva, esse ato de metaconsci\u00eancia diminui a atividade dos circuitos executivo e medial, mas n\u00e3o os det\u00e9m completamente. 10<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida moderna valoriza o fato de ficarmos sentados na escola ou num escrit\u00f3rio, focando nossa aten\u00e7\u00e3o em uma coisa de cada vez, valorizando ainda uma postura de aten\u00e7\u00e3o que pode nem sempre ter valido a pena no come\u00e7o da hist\u00f3ria humana. Alguns neurocientistas argumentam que, em momentos fundamentais, a sobreviv\u00eancia na vida selvagem pode ter dependido de uma r\u00e1pida troca da aten\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o ligeira, sem hesita\u00e7\u00e3o para pensar no que fazer. O que hoje diagnosticamos como d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o pode refletir uma varia\u00e7\u00e3o natural nos estilos de foco que teve vantagens ao longo da evolu\u00e7\u00e3o \u2014 e, dessa forma, continua se misturando ao nosso reservat\u00f3rio gen\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando encaram uma tarefa mental que exija foco, como problemas complicados de matem\u00e1tica, como j\u00e1 vimos, as pessoas com TDAH demonstram ao mesmo tempo mais divaga\u00e7\u00e3o da mente e uma atividade aumentada no circuito medial. 11 Por\u00e9m, quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o adequadas, aqueles com TDAH podem ter um foco apurado e permanecer completamente absortos na atividade em quest\u00e3o. Essas condi\u00e7\u00f5es talvez se apresentem com maior frequ\u00eancia num est\u00fadio de arte, numa quadra de basquete ou numa bolsa de valores \u2014 e n\u00e3o numa sala de aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NO PRUMO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 12\/12\/12, exatamente o dia que o calend\u00e1rio maia supostamente previa para o fim do mundo(de acordo com boatos claramente infundados) minha mulher e eu levamos uma de nossas netas ao Museu de Arte Moderna. Artista em desenvolvimento, ela estava disposta a ver o que estava sendo exibido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as primeiras mostras que nos receberam na entrada da primeira galeria do MoMA estavam dois aspiradores de p\u00f3 de tamanho industrial, cilindros brancos impec\u00e1veis com tr\u00eas rodas e listras. Estavam empilhados um sobre o outro dentro de cubos de acr\u00edlico, com luzes de neon embaixo de cada um fazendo-os brilhar. Nossa neta n\u00e3o ficou impressionada. Ela estava ansiosa para ver o C\u00e9u Noturno de Van Gogh, numa galeria v\u00e1rios andares acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justamente na noite anterior, o curador principal do MoMA havia promovido uma noite com o tema \u201caten\u00e7\u00e3o e distra\u00e7\u00e3o\u201d. O foco da aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para as mostras do museu: as molduras ao redor da arte anunciam para onde devemos olhar. Aqueles cubos de vidro e as luzes de neon direcionavam nossa aten\u00e7\u00e3o para ali, na dire\u00e7\u00e3o dos reluzentes aspiradores de p\u00f3, e para longe de l\u00e1 \u2014 qualquer outro ponto em que ela estivesse focada na galeria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me dei conta disso quando sa\u00edmos. Perto de uma parede que parecia fora do caminho, no sagu\u00e3o imenso do museu, notei algumas cadeiras empilhadas desordenadamente, esperando para serem arrumadas para algum evento especial. Escondido perto delas, \u00e0 sombra, mal pude identificar o que parecia ser um aspirador de p\u00f3. Ningu\u00e9m prestava nenhuma aten\u00e7\u00e3o nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a nossa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa estar \u00e0 merc\u00ea de como o mundo ao nosso redor \u00e9 emoldurado. Podemos escolher observar o aspirador de p\u00f3 no escuro tanto quanto aquele que est\u00e1 sob o holofote. Manter a aten\u00e7\u00e3o no prumo reflete um modo mental em que simplesmente percebemos o que quer que entre em nossa consci\u00eancia sem nos prendermos ou sermos arrebatados por qualquer coisa em particular. Tudo flui atrav\u00e9s de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta abertura pode ser vista nos momentos cotidianos em que, por exemplo, voc\u00ea se pega esperando numa fila atr\u00e1s de um cliente que est\u00e1 demorando horrores e, em vez de se focar na sua irrita\u00e7\u00e3o ou em como isso vai atras\u00e1-lo, simplesmente se permite aproveitar a m\u00fasica ambiente da loja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reatividade emocional nos coloca em um modo de aten\u00e7\u00e3o diferente, em que nosso mundo se reduz \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o no que est\u00e1 nos incomodando. As pessoas que t\u00eam dificuldade de manter a consci\u00eancia aberta tipicamente se incomodam com detalhes irritantes como aquela pessoa na frente delas na fila de seguran\u00e7a do aeroporto que levou uma vida para aprontar os pertences na esteira rolante \u2014 e ainda estar\u00e3o furiosas com isso enquanto esperam pelo avi\u00e3o no port\u00e3o de embarque. Mas n\u00e3o existem sequestros emocionais na consci\u00eancia aberta \u2014 apenas a riqueza do momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma medida cerebral para esse tipo de aten\u00e7\u00e3o aberta avalia com que compet\u00eancia as pessoas conseguem acompanhar uma sequ\u00eancia de letras na qual um n\u00famero aparece ocasionalmente: S, K, O, E, 4, R, T, 2, H, P\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resultado, muitas pessoas fixam a aten\u00e7\u00e3o no primeiro n\u00famero, 4, e deixam de ver o segundo, o 2. A aten\u00e7\u00e3o delas pisca. Aquelas que t\u00eam um foco aberto forte, por\u00e9m, registram tamb\u00e9m o segundo n\u00famero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pessoas capazes de deixar a aten\u00e7\u00e3o neste modo aberto percebem mais coisas sobre o que as cercam. Mesmo no movimento intenso de um aeroporto, elas s\u00e3o capazes de manter uma consci\u00eancia est\u00e1vel e cont\u00ednua do que est\u00e1 acontecendo, em vez de se perder nesse ou naquele detalhe. Em exames cerebrais, aqueles que obt\u00eam pontua\u00e7\u00e3o mais alta em consci\u00eancia aberta registram uma quantidade maior de detalhes vistos de relance num instante do que a maioria das pessoas. A aten\u00e7\u00e3o deles n\u00e3o pisca. 12<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa melhora da aten\u00e7\u00e3o se aplica tamb\u00e9m \u00e0 nossa vida interior \u2014 no modo aberto, entendemos muito melhor nossos sentimentos, sensa\u00e7\u00f5es, pensamentos e lembran\u00e7as do que quando, por exemplo, estamos focados na nossa lista de afazeres ou correndo de uma reuni\u00e3o \u00e0 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA capacidade de manter a aten\u00e7\u00e3o aberta numa consci\u00eancia panor\u00e2mica\u201d, diz Davidson, \u201cpermite que voc\u00ea observe com equidade, sem ficar preso a uma rede ascendente que engana a mente em termos de julgamento e reatividade, sejam negativos ou positivos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa capacidade tamb\u00e9m diminui a divaga\u00e7\u00e3o da mente. O objetivo, ele acrescenta, \u00e9 ser mais capaz de se envolver na divaga\u00e7\u00e3o da mente quando se quer e n\u00e3o quando n\u00e3o se quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RESTAURANDO A ATEN\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De f\u00e9rias num resort tropical com a fam\u00edlia, lamenta o editor William Falk, ele se viu sentado olhando fixamente para o seu trabalho enquanto a filha esperava por ele para ir \u00e0 praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 n\u00e3o muito tempo\u201d, Falk reflete, \u201ceu teria considerado impens\u00e1vel trabalhar durante as f\u00e9rias. Eu me lembro de per\u00edodos gloriosos de duas semanas em que eu n\u00e3o tinha qualquer contato com chefes, subordinados ou mesmo amigos. Mas isso era antes de eu viajar com um smartphone, um iPad e um laptop e aprender a gostar de viver num fluxo constante de informa\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o\u201d. 13<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levemos em conta o esfor\u00e7o cognitivo demandado por nossa nova sobrecarga normal de informa\u00e7\u00f5es \u2014 a explos\u00e3o de fluxos de not\u00edcias, e-mails, telefonemas, tweets, blogs, chats, reflex\u00f5es sobre opini\u00f5es a que expomos diariamente nossos processadores cognitivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse zumbido neural adiciona tens\u00e3o \u00e0s demandas de se fazer alguma coisa. Selecionar um foco preciso exige inibir muitos outros. A mente precisa lutar para se afastar de todo o resto, separando o que \u00e9 importante do que \u00e9 irrelevante. Isso demanda esfor\u00e7o cognitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aten\u00e7\u00e3o firmemente focada se cansa \u2014 muito parecido com o que ocorre com um m\u00fasculo que trabalha demais \u2014 quando a for\u00e7amos ao ponto da exaust\u00e3o cognitiva. Os sinais de fadiga mental, como uma queda na efetividade e um aumento da distra\u00e7\u00e3o e da irritabilidade, significam que o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para manter o foco esgotou a glicose que alimenta a energia neural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ant\u00eddoto para a fadiga da aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo para a fadiga f\u00edsica: descansar. Mas como descansar um m\u00fasculo mental?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tente trocar do esfor\u00e7o de controle descendente para atividades mais passivas ascendente, fazendo uma pausa relaxante num ambiente tranquilo. Os ambientes mais tranquilos est\u00e3o na natureza, argumenta Stephen Kaplan, da Universidade de Michigan, que prop\u00f5e o que ele chama de \u201cteoria da restaura\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o\u201d. 14<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa restaura\u00e7\u00e3o ocorre quando passamos de um estado de aten\u00e7\u00e3o esfor\u00e7ada, em que a mente precisa anular as distra\u00e7\u00f5es, para um estado em que nos deixamos livres e permitimos que nossa aten\u00e7\u00e3o seja capturada pelo que quer que se apresente. Mas apenas certos tipos de foco ascendente agem de modo a restaurar energia para a aten\u00e7\u00e3o focada. Navegar na Internet n\u00e3o \u00e9 o caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazemos bem de nos desconectarmos regularmente. Tempos em sil\u00eancio restauram nosso foco e nossa serenidade. Mas essa desconex\u00e3o \u00e9 apenas o primeiro passo. O que fazemos a seguir tamb\u00e9m importa. Dar uma caminhada por uma rua da cidade, observa Kaplan, ainda exige da nossa aten\u00e7\u00e3o \u2014 precisamos atravessar multid\u00f5es, desviar de carros e ignorar os barulhos de buzina e os demais ru\u00eddos da rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, uma caminhada num parque ou bosque exige pouco desse tipo de aten\u00e7\u00e3o. Podemos nos restaurar passando algum tempo na natureza \u2014 at\u00e9 mesmo alguns minutos caminhando num parque ou em qualquer local rico em coisas fascinantes como os tons avermelhados das nuvens durante o p\u00f4r do sol ou o voo de uma borboleta. Isso provoca \u201cmodestamente\u201d a aten\u00e7\u00e3o ascendente, como define o grupo de Kaplan, permitindo que os circuitos que fazem os esfor\u00e7os descendentes recuperem sua energia, restaurando a aten\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, e melhorando a cogni\u00e7\u00e3o. 15<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma caminhada em meio \u00e0s arvores leva a um melhor foco para a retomada de tarefas que exigem concentra\u00e7\u00e3o do que um passeio a p\u00e9 pelo centro da cidade. 16 At\u00e9 mesmo se sentar diante de um mural que retrate uma cena da natureza \u2014 especialmente alguma cena com \u00e1gua \u2014 \u00e9 melhor do que a cafeteria da esquina. 17<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu me coloco uma quest\u00e3o. Esses momentos relaxantes parecem \u00f3timos para desligar de uma concentra\u00e7\u00e3o intensa, mas abrem o caminho para a atitude de divaga\u00e7\u00e3o, que ainda mant\u00e9m ocupado o circuito-padr\u00e3o. H\u00e1 mais um passo que podemos dar para desligar a mente ocupada: foco total em alguma coisa relaxante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chave \u00e9 uma experi\u00eancia imersiva, em que a aten\u00e7\u00e3o possa ser total, mas largamente passiva. Isso come\u00e7a a acontecer quando estimulamos gentilmente os sistemas sensoriais, que acalmam os sistemas do foco esfor\u00e7ado. Um filme interessante pode produzir um pouco deste efeito neural. Qualquer coisa em que consigamos nos perder prazerosamente servir\u00e1. Lembre-se: naquela pesquisa sobre os humores das pessoas, a atividade mais focada no dia de qualquer pessoa, e a mais agrad\u00e1vel, \u00e9 fazer amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a absor\u00e7\u00e3o total e positiva bloqueia a voz interior, aquele di\u00e1logo constante com n\u00f3s mesmos que acontece mesmo durante nossos momentos tranquilos. Esse \u00e9 o principal efeito de quase todas as pr\u00e1ticas contemplativas que mant\u00eam a sua mente focada num alvo neutro, como a sua respira\u00e7\u00e3o ou um mantra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conselhos tradicionais sobre o local adequado para um \u201cretiro\u201d parecem incluir todos os ingredientes necess\u00e1rios para a restaura\u00e7\u00e3o cognitiva. Mosteiros designados \u00e0 medita\u00e7\u00e3o s\u00e3o sempre ambientes tranquilos, silenciosos e pr\u00f3ximos \u00e0 natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que precisemos chegar a tais extremos. Para William Falk, o rem\u00e9dio foi simples: ele parou de trabalhar e foi brincar com a filha nas ondas do mar. \u201cPulando e gritando nas ondas com a minha filha, eu estava completamente presente no momento. Completamente vivo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">__________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas da se\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Essa quest\u00e3o foi feita a milhares de pessoas por um aplicativo do iPhone que faz o aparelho tocar em momentos aleat\u00f3rios ao longo do dia. Em quase metade das vezes as mentes das pessoas se afastaram da atividade em que elas estavam envolvidas. Os psic\u00f3logos de Harvard Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, que desenvolveram o aplicativo, analisaram os relat\u00f3rios de 2.250 homens e mulheres norte-americanos para ver com que frequ\u00eancia suas mentes estavam em outro lugar e como estavam seus humores. Ver Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, A wandering mind is an unhappy mind (Uma mente divagando \u00e9 uma mente infeliz), Science, 12 de novembro de 2010, v. 330, 932<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Localizar o \u201ceu\u201d no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal medial simplifica demais a quest\u00e3o, ainda que muitos neurocientistas cognitivos considerem isso conveniente. Uma vers\u00e3o mais complexa do \u201ceu\u201d, o self \u00e9 visto como um fen\u00f4meno emergente, com base na atividade de muitos circuitos neurais, inclusive o pr\u00e9-frontal medial. Ver, por exemplo, J. Smallwood e J. W. Schooler, \u201cThe Restless Mind\u201d, Psychological Bulletin 132 (2006): 946-958<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Conversa mental: Norman A. S. Farb et al., Attending to the present: mindfulness meditation reveals distinct neural modes of self-reference (Comparecendo ao presente: medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena revela modos neurais distintos de autorrefer\u00eancia), SCAN, 2, 2007, 313-322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 E. D. Reichle et al., Eye movements during mindless reading (Movimentos dos olhos durante leitura desatenta), Psychological Science, 21, 1.300-1.310. 5 J. Smallwood et al., Going AWOL in the brain \u2014 mind wandering reduces cortical analysis of the task environment (Ausentando-se no c\u00e9rebro \u2014 divaga\u00e7\u00e3o mental reduz an\u00e1lise cortical do ambiente da tarefa), J. Cogn. Neuroscience, 20, 458-469; J. W. Y. Kam et al., Slow fluctuations in attentional control of sensory c\u00f3rtex (Flutua\u00e7\u00f5es lentas no controle da aten\u00e7\u00e3o do c\u00f3rtex sensorial), J. Cogn. Neurocience, 2011, 23, 460-470.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Cedric Galera, Mind wandering and driving: responsibility case-control study (Mind wandering and driving: responsibility case-control study), British Medical Journal, publicado on-line em 13 de dezembro de 2012. doi: 10.1136\/bmj.e8105<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 O que significa que esses circuitos cerebrais nem sempre trabalham em oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Coopera\u00e7\u00e3o: K.D. Gerlach et al., Solving future problems: default network and executive activity associated with goal-directed mental simulations (Resolvendo problemas futuros: rede-padr\u00e3o e atividade executiva associadas a simula\u00e7\u00f5es mentais direcionadas a metas), Neuroimage, 2011, 55, 1.816-1.824.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 Inversamente, quanto menos percebemos que nossa mente divagou, mais forte \u00e9 a atividade nas zonas neurais destacadas, e maior sua for\u00e7a disruptiva sobre a tarefa em quest\u00e3o. Pelo menos duas regi\u00f5es pr\u00e9-frontais do c\u00e9rebro envolvidas nesse desvio est\u00e3o exatamente entre aquelas que percebem que sa\u00edmos do trilho: o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal dorsolateral e o c\u00edngulo anterior dorsal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10 Fora do caminho: Christoff et al., 2009, op cit. No entanto, observam os autores, esta conclus\u00e3o \u00e9 baseada na infer\u00eancia reversa, a suposi\u00e7\u00e3o de que se uma regi\u00e3o cerebral \u00e9 ativada durante uma tarefa mental ela \u00e9 uma base neural para essa tarefa. Para habilidades cognitivas mais altas, isso pode n\u00e3o se sustentar, j\u00e1 que a mesma regi\u00e3o pode ser ativada por processos mentais m\u00faltiplos e muito diferentes. Essa descoberta desafia a suposi\u00e7\u00e3o de que as redes executiva e padr\u00e3o sempre operam uma em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 outra \u2014 isto \u00e9, se uma est\u00e1 ativa, a outra est\u00e1 parada. Isso pode, de fato, ser o que ocorre em opera\u00e7\u00f5es mentais bastante espec\u00edficas, como foco intenso numa tarefa em andamento. Mas em grande parte da vida mental pode ajudar misturar o foco aumentado com uma abertura divagante. Isso certamente ajuda a passar o tempo durante uma longa viagem de carro. Ver tamb\u00e9m M. D. Fox et al., The human brain is intrinsically organized into dynamic, anticorrelated functional networks (O c\u00e9rebro humano \u00e9 intrinsecamente organizado em redes funcionais din\u00e2micas desassociadas), PNAS, 102: 9673-9678.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11 D\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o: Catherine Fassbender, A lack of default network suppression is linked to increased distractibility in ADHD (Falta de supress\u00e3o de rede-padr\u00e3o est\u00e1 ligada ao aumento da distra\u00e7\u00e3o no TDAH), Brain Research, vol. 1.273, 114-128.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12 O teste de consci\u00eancia aberta se chama \u201cpiscada de aten\u00e7\u00e3o\u201d. Ver H. A. Slagter et al., Mental training affects distribution of limited brain resources (Treinamento mental afeta a distribui\u00e7\u00e3o de recursos cerebrais limitados), 2007, PLoS Biology, 5, e 138.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 William Falk, escrevendo na The Week, 10 de agosto de 2012, 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 Stephen Kaplan, Meditation, Restoration, and the Management of Mental Fatigue (Medita\u00e7\u00e3o, restaura\u00e7\u00e3o e o gerenciamento da fadiga mental), Environment and Behavior, 33, 480, 2001. .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">15 De baixo para cima: Marc Berman et al., The cognitive benefits of interacting with nature (Os benef\u00edcios cognitivos da intera\u00e7\u00e3o com a natureza), Psychological Science, 2008, (19)12, 1.207-1.212.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 Marc Berman, Jon Jonides e Stephen Kaplan, The cognitive benefits of interacting with nature (Os benef\u00edcios cognitivos da intera\u00e7\u00e3o com a natureza), Psychological Science, 19, 12, 2008. 1.207-1.212.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 Murais: Gary Felsten, Where to take a study break on the college campus: An attention restoration theory perspective (Onde fazer um intervalo nos estudos no campus da universidade: uma perspectiva da teoria da restaura\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o), Journal of Environmental Psychology, mar\u00e7o de 2009, 160-167.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Goleman No\u00e7\u00f5es B\u00e1sicas Quando era adolescente, adquiri o h\u00e1bito de fazer os deveres da escola ouvindo os quartetos de corda de Bela Bartok &#8211; 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