{"id":8225,"date":"2020-07-16T13:37:48","date_gmt":"2020-07-16T13:37:48","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/como-mindfulness-transforma-o-sofrimento-pt-ii\/"},"modified":"2020-07-16T13:37:48","modified_gmt":"2020-07-16T13:37:48","slug":"como-mindfulness-transforma-o-sofrimento-pt-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/como-mindfulness-transforma-o-sofrimento-pt-ii\/","title":{"rendered":"COMO MINDFULNESS TRANSFORMA O SOFRIMENTO? \u2013 John D. Teasdale e Michael Chaskalson"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">John D. Teasdale<br \/>\nMichael Chaskalson (Kulananda)<\/p>\n<p><strong>Resumo. <\/strong><\/br><em>Mindfulness<\/em> transforma o sofrimento atrav\u00e9s de mudan\u00e7as no <em>que<\/em> a mente est\u00e1 processando, mudan\u00e7as em <em>como <\/em>a mente processa, e mudan\u00e7as na <em>vis\u00e3o<\/em> do que est\u00e1 sendo processado. O aspecto de \u201cpresen\u00e7a na mente\u201d da <em>mindfulness<\/em> \u00e9 importante para compreender estas mudan\u00e7as e \u00e9 discutido em termos de mem\u00f3ria de trabalho. A perspectiva de Subsistemas Cognitivos Interativos (ICS) reconhece dois tipos de significado, um expl\u00edcito e espec\u00edfico, o outro impl\u00edcito e hol\u00edstico. N\u00f3s sugerimos que <em>mindfulness<\/em> \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o da mente na qual a mem\u00f3ria de trabalho de significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos assume um papel central. \u00c9 aqui que o processamento e vis\u00e3o da experi\u00eancia s\u00e3o transformados pela cria\u00e7\u00e3o de novos padr\u00f5es de significado impl\u00edcito. Esta an\u00e1lise \u00e9 aplicada \u00e0 pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>, <em>mindfulness<\/em> enquanto um estilo de vida, ao treino dos instrutores e \u00e0 <em>mindfulness<\/em> voltada \u00e0 diferentes aspira\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNo primeiro dos dois artigos interligados (Teasdale e Chaskalson 2011), n\u00f3s descrevemos a an\u00e1lise do Buda quanto \u00e0 natureza e a origem de <em style=\"color: #000000;\">dukkha<\/em> (sofrimento). O Buda tamb\u00e9m ofereceu um programa de pr\u00e1ticas, o Nobre Caminho \u00d3ctuplo, atrav\u00e9s do qual <em style=\"color: #000000;\">dukkha<\/em> chega ao fim. <em style=\"color: #000000;\">Mindfulness<\/em> \u00e9 um conceito essencial neste caminho de liberdade e despertar. <em style=\"color: #000000;\">Mindfulness<\/em> tamb\u00e9m \u00e9, obviamente, o foco principal de aplica\u00e7\u00f5es baseadas em <em style=\"color: #000000;\">mindfulness<\/em> (como a <em style=\"color: #000000;\">Mindfulness-based Stress Reduction <\/em>[Redu\u00e7\u00e3o do Estresse com Base em <em style=\"color: #000000;\">Mindfulness<\/em>; MBSR] e a <em style=\"color: #000000;\">Mindfulness-based Cognitive Therapy <\/em>[Terapia Cognitiva com Base em Midnfulness; MBCT]).\u00a0 Este segundo artigo aborda a seguinte quest\u00e3o: como <em style=\"color: #000000;\">mindfulness<\/em> contribui para a transforma\u00e7\u00e3o de <em style=\"color: #000000;\">dukkha<\/em> que ocorre quando praticamos o Nobre Caminho \u00d3ctuplo ou nos engajamos em programas de aplica\u00e7\u00f5es baseadas em <em style=\"color: #000000;\">mindfulness<\/em>?<br \/>\nPara fins desta discuss\u00e3o, iremos utilizar o termo \u2018<em style=\"color: #000000;\">mindfulness<\/em>\u2019 para nos referir \u00e0s pr\u00e1ticas e processos indicados no pr\u00f3prio ensinamento do Buda concernente \u00e0 este t\u00f3pico, o <em style=\"color: #000000;\">Satipatthana Sutta<\/em>.<\/p>\n<p><b>Origens de <\/b><em style=\"font-weight: bold;\">dukkha<\/em><\/br><br \/>\nComo vimos no primeiro artigo, a an\u00e1lise do Buda sobre <em>dukkha<\/em>, conforme expressa na Segunda Nobre Verdade, identifica <em>tanha<\/em>, avidez, anseio, como a origem de <em>dukkha<\/em>. O Buda tamb\u00e9m ofereceu uma an\u00e1lise mais detalhada do sofrimento conhecida como a Origina\u00e7\u00e3o Interdependente ou Surgimento Co-dependente. Esta an\u00e1lise mais detalhada sugere que <em>dukkha<\/em> surge e \u00e9 sustentada enquanto resultado de padr\u00f5es complexos de intera\u00e7\u00f5es entre variadas condi\u00e7\u00f5es que se refor\u00e7am mutuamente, perpetuando a si pr\u00f3prias (Thanissaro 2007). N\u00f3s podemos entender estas condi\u00e7\u00f5es como processos e conte\u00fados mentais. O sofrimento, ent\u00e3o, \u00e9 encarado como o resultado de composi\u00e7\u00f5es ou padr\u00f5es particulares de processos mentais que interagem de modo a preservar a configura\u00e7\u00e3o vigente. Estas configura\u00e7\u00f5es s\u00e3o din\u00e2micas \u2013 o sofrimento \u00e9 ativamente criado e recriado, momento a momento. A manuten\u00e7\u00e3o destas configura\u00e7\u00f5es depende da recria\u00e7\u00e3o de um conjunto de condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de um momento para o outro, de novo e de novo.<br \/>\nEsta an\u00e1lise sugere que n\u00f3s podemos obter uma cessa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de <em>dukkha<\/em> mudando estas condi\u00e7\u00f5es, de modo que tais padr\u00f5es de processamento n\u00e3o mais se retroalimentem. Para chegarmos a um final definitivo de todo o sofrimento, que \u00e9 o objetivo do Nobre Caminho \u00d3ctuplo, temos que mudar estas condi\u00e7\u00f5es de modo que as configura\u00e7\u00f5es que perpetuam <em>dukkha<\/em> n\u00e3o emerjam mais. <em>Mindfulness<\/em> nos oferece meios de mudar estas condi\u00e7\u00f5es nestes dois sentidos.<br \/>\nPodemos estabelecer tr\u00eas vias pelas quais <em>mindfulness<\/em> pode gerar seus frutos. Ainda que sejam distintas, estas tr\u00eas estrat\u00e9gias est\u00e3o interligadas. Vamos descreve-las brevemente e ent\u00e3o explorar aspectos espec\u00edficos de cada uma com mais profundidade.<br \/>\nComo forma de ancorar nossa discuss\u00e3o te\u00f3rica, vamos ilustrar alguns dos pontos abordados com um exemplo concreto: imagine que um colega de trabalho telefone \u00e0s 21:30h, se intrometendo no tempo que voc\u00ea pessoalmente reservou para descanso e relaxamento. Ele deseja conversar sobre algumas cifras relativas ao seu trabalho. Ele aparenta estar te acusando, tentando te intimidar. Voc\u00ea tem uma regra: n\u00e3o falar de trabalho depois das 19h \u2013 por que <em style=\"color: #000000;\">ele<\/em> est\u00e1 fazendo isso? Voc\u00ea est\u00e1 com raiva pois sua privacidade foi invadida. Depois da liga\u00e7\u00e3o, voc\u00ea se v\u00ea irritado e triste, ruminando pensamentos sobre a liga\u00e7\u00e3o e seu colega, que parecem se for\u00e7ar para dentro da sua mente.<br \/>\nParticipantes de programas baseados em <em>mindfulness<\/em> frequentemente relatam uma redu\u00e7\u00e3o do estresse advindo de tais epis\u00f3dios. No exemplo acima, eles podem relatar que observaram, com alguma surpresa e satisfa\u00e7\u00e3o, que, como resultado da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em>, um epis\u00f3dio como este que poderia os perturbar por quest\u00e3o de horas agora s\u00f3 gera perturba\u00e7\u00e3o por alguns minutos ou mesmo segundos. Consideremos algumas explica\u00e7\u00f5es para tal mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Tr\u00eas estrat\u00e9gias para mudan\u00e7a<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nA primeira e mais simples estrat\u00e9gia para alterar as condi\u00e7\u00f5es que criam e sustentam o sofrimento \u00e9 mudar o <em>conte\u00fado<\/em> que a mente est\u00e1 processando. Podemos fazer isso realocando o foco de nossa aten\u00e7\u00e3o para aspectos da experi\u00eancia que s\u00e3o menos suscet\u00edveis a sustentar a gera\u00e7\u00e3o e continua\u00e7\u00e3o da configura\u00e7\u00e3o que produz sofrimento. Ent\u00e3o, no caso do exemplo acima, podemos intencionalmente focar e sustentar nossa aten\u00e7\u00e3o nas sensa\u00e7\u00f5es da inspira\u00e7\u00e3o e da expira\u00e7\u00e3o; este foco relativamente neutro ir\u00e1 gerar menos combust\u00edvel para a manuten\u00e7\u00e3o das configura\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas que apoiam os pensamentos emocionalmente carregados relacionados \u00e0 liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica.<br \/>\nUma segunda abordagem \u00e9 deixar o \u201cconte\u00fado\u201d mental inalterado, mas mudar a configura\u00e7\u00e3o de processos \u2013 o \u201cmolde\u201d \u2013 atrav\u00e9s do qual o material \u00e9 processado. Conquanto a primeira estrat\u00e9gia muda <em>o que<\/em> \u00e9 processado, esta outra muda <em>como<\/em> o material \u00e9 processado. Isto pode significar, por exemplo, um envolvimento intencional e aberto, nutrido de interesse e curiosidade, com as sensa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis criadas pela liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica perturbadora enquanto objetos de experi\u00eancia, afastando o automatismo da rea\u00e7\u00e3o de avers\u00e3o, na qual podemos facilmente nos perder.<br \/>\nA terceira estrat\u00e9gia \u00e9 mudar a <em>vis\u00e3o<\/em> do material sendo processado. Na an\u00e1lise do Buda, as configura\u00e7\u00f5es que nos mant\u00e9m presos em sofrimento est\u00e3o enraizadas em nossa ignor\u00e2ncia fundamental, o equ\u00edvoco b\u00e1sico que v\u00ea o impermanente como permanente, o inseguro como seguro, o que \u00e9 \u2018n\u00e3o-<em>self<\/em>\u2019 como \u2018<em>self<\/em>\u2019, e que n\u00e3o reconhece com clareza a natureza e origens de <em>dukkha<\/em> e os meios de cess\u00e1-la. Se conseguimos ver as coisas claramente como s\u00e3o \u2013 se nos livramos da tend\u00eancia de nos identificar pessoalmente com as experi\u00eancias \u2013, removemos ent\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da emerg\u00eancia das configura\u00e7\u00f5es que sustentam <em>dukkha<\/em>. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica perturbadora, isto pode envolver uma altera\u00e7\u00e3o de perspectiva de \u201cesta pessoa realmente me magoou com a sua fala\u201d para \u201cpensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais desagrad\u00e1veis est\u00e3o presentes agora\u201d.<br \/>\nCada uma destas tr\u00eas estrat\u00e9gias requer de n\u00f3s que sejamos conscientes. Se desejamos criar mudan\u00e7a intencionalmente naquilo que \u00e9 processado, em como \u00e9 processado ou na vis\u00e3o do que \u00e9 processado, precisamos saber o que est\u00e1 se passando no momento. A pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> cultiva a meta-consci\u00eancia \u2013 a capacidade de reconhecer direta e intuitivamente aquilo que se expressa na consci\u00eancia a cada instante. Neste n\u00edvel fundamental, <em>mindfulness<\/em> oferece uma crucial contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cada uma das tr\u00eas estrat\u00e9gias que identificamos. Vamos nos debru\u00e7ar, ent\u00e3o, mais detidamente sobre a primeira delas.<\/br><br \/>\n<b>Estrat\u00e9gia 1: mudar o conte\u00fado (\u2018o que\u2019 do processo)<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nEm regra, os objetos focais de nossa aten\u00e7\u00e3o, seja externa ou interna, s\u00e3o ditados n\u00e3o pelas nossas escolhas conscientes, mas por vieses habituais relativamente autom\u00e1ticos que nos conduzem para um lado ou para o outro. Nesta situa\u00e7\u00e3o, nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 reativa; nossas mentes podem focar em aspectos da experi\u00eancia que alimentam o sofrimento, e ficamos ref\u00e9ns de uma aus\u00eancia de controle. Por exemplo, no caso de experi\u00eancias perturbadoras, como o da liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, pode ser que tenhamos aprendido a reagir nos remetendo \u00e0 mem\u00f3rias e pensamentos relativos \u00e0s origens da perturba\u00e7\u00e3o (\u2018o que eu fiz de errado?\u2019; \u2018de quem \u00e9 a culpa?\u2019 etc.). Tal remiss\u00e3o seletiva da mem\u00f3ria \u00e9 um dos vieses de padr\u00f5es de pensamento ruminantes (Watkins 2008) que podem perpetuar emo\u00e7\u00f5es de raiva e depress\u00e3o.<br \/>\nN\u00f3s podemos nos ver livres dos efeitos destas prioridades atencionais autom\u00e1ticas e inconscientes atrav\u00e9s da aloca\u00e7\u00e3o consciente e intencional da aten\u00e7\u00e3o em determinados objetos ou classes de objetos. Por exemplo, podemos substituir a disposi\u00e7\u00e3o habitual de remiss\u00e3o \u00e0 mem\u00f3rias e pensamentos relativos ao evento perturbador pelo envolvimento intencional com est\u00edmulos sensoriais relativamente neutros, como as sensa\u00e7\u00f5es da respira\u00e7\u00e3o ou do som. Deste modo, mudamos o conte\u00fado processado pela mente de modo a reduzir \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de mais sofrimento.<br \/>\nAs pr\u00e1ticas iniciais de <em>mindfulness<\/em>, ensinadas tanto em aplica\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> como em v\u00e1rias medita\u00e7\u00f5es Budistas, solicitam do praticante que sustente o foco de sua aten\u00e7\u00e3o sobre as sensa\u00e7\u00f5es do corpo e os movimentos respirat\u00f3rios, que reconhe\u00e7a quando a mente se dispersou do seu foco, e, uma vez que haja a dispers\u00e3o, que relaxe a aten\u00e7\u00e3o, repousando-a novamente no corpo e na respira\u00e7\u00e3o. Mesmo no programa relativamente curto, de oito semanas, de MBSR e MBCT, no qual o praticante medita formalmente por 45 minutos todos os dias, os participantes ir\u00e3o ensaiar esta sequ\u00eancia centenas ou mesmo milhares de vezes.<br \/>\nDeste modo, os participantes ir\u00e3o praticar extensivamente o cultivo da habilidade de detectar quando a mente se perde em pensamentos, e, ent\u00e3o, de intencionalmente redirecion\u00e1-la para um foco determinado. Participantes de MBSR e MBCT s\u00e3o orientados explicitamente a usar estas habilidades de substitui\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o para liberarem-se de padr\u00f5es de pensamentos que podem criar sofrimento emocional. Estudos sistem\u00e1ticos (Allen et al. 2009) demonstram que, conforme relatos de muitos pacientes, o desenvolvimento destas habilidades \u00e9 um dos maiores benef\u00edcios do MBCT, oferecendo uma ferramenta que permite reconhecer e interromper os padr\u00f5es de pensamento ruminantes que poderiam conduzir \u00e0 uma reincid\u00eancia\u00a0 depressiva.<br \/>\n\u00c9, por \u00f3bvio, importante que estas habilidades sejam ensinadas de um modo que contemple integralmente o reconhecimento da presen\u00e7a destes pensamentos in\u00fateis ou emo\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis antes do movimento de intencionalmente alterar o foco da aten\u00e7\u00e3o enquanto uma a\u00e7\u00e3o positivamente motivada, ao inv\u00e9s de apenas tentar encontrar um meio de evitar ou se livrar de experi\u00eancias desconfort\u00e1veis. Este \u00faltimo padr\u00e3o, de avers\u00e3o e evas\u00e3o, simplesmente refor\u00e7a a rejei\u00e7\u00e3o experiencial que \u00e9 um fator central de muitas configura\u00e7\u00f5es de condi\u00e7\u00f5es que sustentam a perturba\u00e7\u00e3o emocional (Hayes et al. 1996).<br \/>\nAprender a intencionalmente controlar a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ter efeitos a longo prazo mais indiretos, como um aumento da sensa\u00e7\u00e3o de ag\u00eancia e auto-efic\u00e1cia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pensamentos e emo\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis (Allen et al. 2009). Estes efeitos perdurantes podem levar \u00e0 redu\u00e7\u00f5es de sofrimento \u00e0 longo prazo.<br \/>\nOs efeitos do treino de <em>mindfulness<\/em> em reduzir o sofrimento a partir desta primeira estrat\u00e9gia de mudar <em>o que<\/em> a mente processa n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de entender, e podem ser comuns \u00e0 outras abordagens que envolvem o treino do controle da aten\u00e7\u00e3o. Em contrapartida, os meandros pelos quais <em>mindfulness<\/em> gera seus efeitos atrav\u00e9s da segunda estrat\u00e9gia, de mudar <em>como<\/em> a mente processa o conte\u00fado selecionado, e atrav\u00e9s da terceira estrat\u00e9gia, de mudar a <em>vis\u00e3o<\/em> diante deste conte\u00fado, s\u00e3o menos \u00f3bvios. Estas estrat\u00e9gias tamb\u00e9m s\u00e3o mais especificamente caracter\u00edsticas das abordagens baseadas em <em>mindfulness<\/em> do que de outras abordagens de treino de aten\u00e7\u00e3o. Para entendermos estas vias de mudan\u00e7a, precisamos primeiro examinar mais intimamente certos aspectos de como a mente e o cora\u00e7\u00e3o operam.<\/br><br \/>\n<b>Mem\u00f3ria de trabalho<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nDreyfus (2011) sugeriu que o conceito de mem\u00f3ria de trabalho nos ajuda a apreciar um aspecto da <em>mindfulness<\/em> que recebeu pouca aten\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es contempor\u00e2neas; a vis\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> enquanto \u201ca habilidade retentiva que d\u00e1 base \u00e0 nossa capacidade de extrair sentido de nossa experi\u00eancia\u201d. Este aspecto de <em>mindfulness<\/em> \u00e9 particularmente relevante na compreens\u00e3o dos mecanismos cognitivos atrav\u00e9s dos quais <em>mindfulness<\/em> transforma a maneira que a mente processa e enxerga a experi\u00eancia (\u2018cognitivo\u2019 aqui, e em outros momentos deste artigo, se refere ao processamento de informa\u00e7\u00e3o em geral, incluindo o processamento de emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 de \u201cpensamentos\u201d).<br \/>\nA mem\u00f3ria de trabalho \u00e9 uma \u00e1rea de trabalho limitada em nossa arquitetura mental, na qual diferentes pe\u00e7as de informa\u00e7\u00e3o podem ser temporariamente sustentadas e processadas. Por exemplo, pe\u00e7as distintas de informa\u00e7\u00f5es mantidas na mem\u00f3ria de trabalho podem ser integradas em padr\u00f5es mais amplos que, por sua vez, podem modelar novos entendimentos e a\u00e7\u00f5es. As palavras desta frase se processadas individualmente, comportam por\u00e7\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o muito limitadas. No entanto, se elas forem sustentadas na mem\u00f3ria de trabalho e encaradas como um todo integrado, um padr\u00e3o mais amplo de informa\u00e7\u00e3o fica acess\u00edvel e \u00e9 poss\u00edvel veicular informa\u00e7\u00e3o muito mais rica. Do mesmo modo, se os significados das frases deste par\u00e1grafo forem sustentados na mem\u00f3ria de trabalho, o padr\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o total resultante comportar\u00e1 informa\u00e7\u00e3o muito mais rica em significado do que seria poss\u00edvel em frases isoladas.<\/br><br \/>\n<i><b>Mem\u00f3ria de trabalho e mindfulness<\/b><\/i><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><\/br><br \/>\nComo esta habilidade da mem\u00f3ria de trabalho, de sustentar por\u00e7\u00f5es separadas de informa\u00e7\u00e3o e integr\u00e1-las em padr\u00f5es mais amplos, pode ser relevante para a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento via <em>mindfulness<\/em>? Uma perspectiva cognitiva (\u2018cognitivo\u2019 aqui sendo usado no sentido mais abrangente) sugere que o sofrimento \u00e9 uma resposta \u00e0 padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o espec\u00edficos (por exemplo, padr\u00f5es que comportam certos significados emocionais). Esta perspectiva sugere que podemos prevenir ou reduzir o sofrimento transformando os padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o que o produzem. <em>A mem\u00f3ria de trabalho oferece um campo no qual estes padr\u00f5es podem ser sustentados e integrados com outros padr\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o de novos padr\u00f5es que n\u00e3o produzem sofrimento<\/em>. Em um exemplo simples, um padr\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o relacionado \u00e0 uma pessoa andando exatamente na nossa dire\u00e7\u00e3o e eventualmente trombando em n\u00f3s, que poderia ordinariamente evocar uma rea\u00e7\u00e3o de irrita\u00e7\u00e3o, \u00e9 menos suscet\u00edvel a evoca-la se conseguirmos integr\u00e1-lo em um padr\u00e3o mais amplo que contempla tamb\u00e9m a informa\u00e7\u00e3o que a pessoa est\u00e1 usando \u00f3culos com lentes muito grossas, o que sugere que ela talvez n\u00e3o enxergue muito bem.<br \/>\nPara que esta integra\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a, as pe\u00e7as separadas de informa\u00e7\u00e3o devem estar presentes juntas ao mesmo tempo na mem\u00f3ria de trabalho. Como podemos fazer isso ou nos certificar de que a mente est\u00e1 operando assim? \u00c9 aqui que <em>mindfulness<\/em> entra em cena; psic\u00f3logos t\u00eam repetidamente sugerido uma associa\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria de trabalho e a mente consciente (Baddeley 2000; Baars e Franklin 2003). Isto quer dizer que a consci\u00eancia atenta perante uma experi\u00eancia \u00e9 um indicativo de que informa\u00e7\u00e3o relacionada est\u00e1 sendo \u201cguardada\u201d na mem\u00f3ria de trabalho, tornando-se dispon\u00edvel para processamento. Podemos ir mais al\u00e9m e dizer ainda que o processo de estar atento [<em>mindful<\/em>] \u00e0 um objeto traz as informa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 mem\u00f3ria do trabalho e as conservam l\u00e1. Neste exemplo, a consci\u00eancia da pessoa trombando em n\u00f3s e da exist\u00eancia das lentes grossas nos diz que padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o relacionados \u00e0 ambas experi\u00eancias est\u00e3o presentes na mem\u00f3ria de trabalho e dispon\u00edveis para serem integradas de maneiras que podem reduzir o sofrimento. Aten\u00e7\u00e3o consciente destes dois aspectos da experi\u00eancia \u00e9 uma maneira de levar esta informa\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria de trabalho e mant\u00ea-la ali.<\/br><br \/>\n<i><b>Diferentes mem\u00f3rias de trabalho<\/b><\/i><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><\/br><br \/>\nA esta altura, precisamos adicionar um ponto de refino maior que reflete tanto os fatos relativos \u00e0 experi\u00eancia subjetiva, quanto as exig\u00eancias da teoria cognitiva \u2013 n\u00f3s podemos estar conscientes da \u201cmesma\u201d experi\u00eancia de diferentes maneiras, dependendo de como nos envolvemos com ela. Consideremos a situa\u00e7\u00e3o da pessoa trombando em n\u00f3s. Podemos sustentar consci\u00eancia sobre a situa\u00e7\u00e3o a n\u00edvel puramente sensorial e perceptivo \u2013 enquanto um padr\u00e3o de formas e cores. Em contrapartida, a n\u00edvel \u201cfactual\u201d, podemos sustentar consci\u00eancia do \u201cfato\u201d que \u00e9 o contato f\u00edsico com a pessoa. E, em um n\u00edvel de significado mais amplo advindos das implica\u00e7\u00f5es deste e de outros fatos, podemos sustentar consci\u00eancia sobre uma sensa\u00e7\u00e3o intuitiva de perceber a outra pessoa como \u201cignorante, ego\u00edsta e indiferente ao conforto e \u00e0 seguran\u00e7a das outras pessoas\u201d (ainda que expressa aqui em palavras, a experi\u00eancia consciente deste tipo de significado impl\u00edcito e derivado n\u00e3o \u00e9, de fato, expresso em pensamentos articulados verbalmente, mas mais enquanto uma \u201csensa\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cimpress\u00e3o\u201d perante a pessoa). (Estes tr\u00eas aspectos t\u00eam o prop\u00f3sito de ser ilustrativos e n\u00e3o exaustivos; existem outros aspectos da \u2018mesma\u2019 experi\u00eancia sobre os quais tamb\u00e9m podemos estar conscientes.)<br \/>\nDado o v\u00ednculo sugerido entre mem\u00f3ria de trabalho e consci\u00eancia, o fato de que podemos estar conscientes de diferentes aspectos da experi\u00eancia sugere que pode haver diferentes tipos de mem\u00f3ria de trabalho, cada um relacionado \u00e0 um aspecto diferente da consci\u00eancia. Pesquisas psicol\u00f3gicas de fato entendem que n\u00e3o h\u00e1 apenas uma mem\u00f3ria de trabalho singular e unit\u00e1ria que lida com todos os tipos de informa\u00e7\u00e3o, mas diversas mem\u00f3rias de trabalho diferentes, cada uma especializada em manejar um tipo de informa\u00e7\u00e3o em espec\u00edfico.<br \/>\nEsta multiplicidade de mem\u00f3rias de trabalho pode mesmo fazer parecer menos atraente a ideia da mem\u00f3ria de trabalho enquanto uma ferramenta para compreender como <em>mindfulness<\/em> transforma o sofrimento. De fato, abordada dentro da estrutura te\u00f3rica a seguir, esta multiplicidade contribui para esta tarefa ao nos fazer encarar as seguintes quest\u00f5es: (1) Qual mem\u00f3ria de trabalho sustenta e integra o tipo de informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 mais diretamente envolvida na cria\u00e7\u00e3o e al\u00edvio do sofrimento? (2) Seria esta uma mem\u00f3ria de trabalho particularmente associada \u00e0 <em>mindfulness<\/em>?<br \/>\nModelos cognitivos de emo\u00e7\u00e3o sugerem que a nossa resposta emocional \u00e0 uma experi\u00eancia est\u00e1 vinculada ao significado que damos \u00e0 esta experi\u00eancia. Dado o fato de que podemos reconhecer mais de um tipo de significado (literal, metaf\u00f3rico etc.), a pergunta crucial \u00e9: qual destes diferentes aspectos de significado \u00e9 mais diretamente relacionado com a emo\u00e7\u00e3o? Depois de considerar detidamente a quest\u00e3o, Teasdale (1993) concluiu que significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos, derivados intuitivamente da experi\u00eancia, s\u00e3o os mais intimamente envolvidos tanto na cria\u00e7\u00e3o e no al\u00edvio de emo\u00e7\u00f5es perturbadoras. Portanto, no exemplo da pessoa que esbarra em n\u00f3s, o significado impl\u00edcito \u201cpessoa ignorante, ego\u00edsta e indiferente ao conforto e \u00e0 seguran\u00e7a das outras pessoas\u201d estaria mais vinculado \u00e0 nossa raiva. Este n\u00edvel de significado (que iremos destrinchar mais adiante) reflete implica\u00e7\u00f5es derivadas de constela\u00e7\u00f5es inteiras de significados conceituais mais espec\u00edficos e padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o sensoriais-perceptivos relacionados. N\u00f3s experienciamos estes significados na consci\u00eancia a partir de \u201csensa\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 sensa\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m \u00e9 confi\u00e1vel ou suspeito; uma sensa\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a ou de apreens\u00e3o.<br \/>\nSe elementos da informa\u00e7\u00e3o relativa ao significado impl\u00edcito \u201cpessoa ignorante, ego\u00edsta e indiferente ao conforto e \u00e0 seguran\u00e7a das outras pessoas\u201d forem integrados com outras informa\u00e7\u00f5es, por exemplo a realiza\u00e7\u00e3o impl\u00edcita \u201cele \u00e9 deficiente visual e n\u00e3o consegue ver pra onde est\u00e1 indo\u201d (intuitivamente derivado do fato de ele usar \u00f3culos com lentes grossas), ent\u00e3o toda a informa\u00e7\u00e3o relevante deve ser sustentada na mem\u00f3ria de trabalho que \u00e9 especializada em lidar com significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos. Isto permitiria a cria\u00e7\u00e3o de um novo padr\u00e3o refletindo uma tem\u00e1tica impl\u00edcita de \u201cinten\u00e7\u00e3o inofensiva e inocente\u201d que reduziria a intensidade da irrita\u00e7\u00e3o, ou mesmo a transformaria em compaix\u00e3o.<br \/>\nSeguindo esta linha de racioc\u00ednio, poder\u00edamos sugerir que <em>mindfulness<\/em>, em compara\u00e7\u00e3o com a aus\u00eancia de <em>mindfulness<\/em>, \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o mental na qual a mem\u00f3ria de trabalho para o tipo de informa\u00e7\u00e3o que contempla significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos (o n\u00edvel de significado mais diretamente envolvido na cria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento) exerce um papel particularmente relevante. Podemos expressar estas ideias mais formalmente na seguinte hip\u00f3tese: <em>mindfulness \u00e9 caracterizada por configura\u00e7\u00f5es de processamento cognitivo nos quais a mem\u00f3ria de trabalho para significados impl\u00edcitos, intuitivos, exerce um papel central; quando mindfulness transforma o sofrimento mudando a maneira com a qual a experi\u00eancia \u00e9 processada ou percebida, a integra\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em novos padr\u00f5es dentro desta mem\u00f3ria de trabalho exerce um papel central.<\/em><br \/>\nN\u00f3s iremos usar estas hip\u00f3teses para nos guiar na explora\u00e7\u00e3o das maneiras pelas quais <em>mindfulness<\/em> transforma o sofrimento atrav\u00e9s da segunda e terceira via: mudan\u00e7as em como a experi\u00eancia \u00e9 processada e em como ela \u00e9 vista. Entretanto, devemos nos debru\u00e7ar primeiro sobre a no\u00e7\u00e3o de significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos, uma ideia que \u00e9 central \u00e0 nossa abordagem e, ao mesmo tempo, sutil e n\u00e3o necessariamente f\u00e1cil de apreender. N\u00f3s vamos beber na fonte do sistema de <em>Interacting Cognitive Subsystems <\/em>[Subsistemas Cognitivos Interativos] (ICS) (Barnard e Teasdale 1991; Teasdale 1993; Teasdale e Barnard 1993), no qual estes significados parecem ocupar um papel central na produ\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es. Este sistema foi aplicado anteriormente no entendimento dos efeitos terap\u00eauticos da <em>mindfulness<\/em> (Teasdale 1999; Teasdale, Segal e Williams 1995). (O sistema ICS na verdade usa o conceito de \u201creserva de mem\u00f3ria\u201d ou \u201cregistro de imagem\u201d ao inv\u00e9s de \u201cmem\u00f3ria de trabalho\u201d, mas, para nossos prop\u00f3sitos, podemos usar estes termos de maneira equivalente.)<\/br><br \/>\n<b>Dois Tipos de significados<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O poema \u201cLa Belle Dame Sans Merci\u201d de John Keats come\u00e7a com as seguintes quatro linhas:<br \/>\n<em>\u00d3, que pode afligi-lo, cavaleiro em guarda,<br \/>\n<\/em><em style=\"color: #000000;\">Sozinho, em p\u00e1lido errar?<br \/>\n<\/em><em style=\"color: #000000;\">O carri\u00e7o murchou do lago,<br \/>\n<\/em><em style=\"color: #000000;\">E nenhum p\u00e1ssaro a cantar.<\/em><br \/>\nPara a maioria das pessoas, a leitura destas linhas comunica uma sensa\u00e7\u00e3o intuitiva de melancolia e abandono. O efeito \u00e9 bem diferente daquele advindo de uma frase simples expressando o significado literal: \u201co homem se sentiu solit\u00e1rio e triste\u201d.\u00a0 O efeito tamb\u00e9m \u00e9 diferente da soma de significados literais do poema expressos em uma linguagem n\u00e3o po\u00e9tica: \u201c<em>Qual o problema, soldado antiquado e em guarda, vagueando por a\u00ed fazendo nada com uma express\u00e3o p\u00e1lida? A planta cani\u00e7a se decomp\u00f4s na margem do lago e n\u00e3o tem nenhum p\u00e1ssaro cantando\u201d<\/em> (Teasdale e Barnard 1993, 73).<br \/>\nICS sugere que a sensa\u00e7\u00e3o intuitiva de melancolia e abandono carregada por este poema \u00e9 o correlato subjetivo e consciente de comunica\u00e7\u00e3o de um significado hol\u00edstico impl\u00edcito relacionado com estes temas. Este tipo de significado impl\u00edcito n\u00e3o pode ser reduzido ao tipo de significado explicitamente factual e conceitual que normalmente preenche uma frase. Voc\u00ea pode checar se o significado est\u00e1 de fato sendo transmitido se, tendo lido o poema novamente e \u201csentido\u201d a emo\u00e7\u00e3o engendrada, voc\u00ea se perguntar \u201cseria divertido conhecer esta pessoa em uma festa?\u201d Muito provavelmente, voc\u00ea saber\u00e1 direta, imediata e n\u00e3o conceitualmente &#8211;\u00a0 em outras palavras, sem precisar pensar \u2013 que a resposta \u00e9 um enf\u00e1tico \u201cn\u00e3o\u201d. Este \u00e9 um outro tipo de conhecimento, que habita no centro do processamento consciente.<br \/>\nICS faz uma distin\u00e7\u00e3o entre um <em>significado Proposicional<\/em>, mais espec\u00edfico, e um <em>significado Implicacional<\/em>, mais abrangente<em>. <\/em>O significado proposicional corresponde ao tipo de significado direto, expl\u00edcito, factual, conceitual ou literal transmitido em uma frase simples. A experi\u00eancia subjetiva associada \u00e9 a de \u201csaber\u201d se \u00e9 ou n\u00e3o o caso acerca de alguma coisa. Em contrapartida, <em>o significado<\/em> <em>Implicacional transmite um significado que \u00e9 impl\u00edcito e hol\u00edstico, e que n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 uma frase simples, ou mesmo \u00e0 soma de significados conceituais espec\u00edficos ordenados em uma senten\u00e7a. <\/em>A forma de comunicar estes tipos de significados via linguagem geralmente \u00e9 atrav\u00e9s da poesia, met\u00e1fora, est\u00f3ria ou par\u00e1bola.<br \/>\nSignificados Implicacionais capturam a \u201cestrutura profunda\u201d da experi\u00eancia; similitudes subjacentes que s\u00e3o recorrentes \u00e0 uma gama de situa\u00e7\u00f5es de vida que, ainda que diferentes superficialmente, dividem tem\u00e1ticas comuns. Estes padr\u00f5es protot\u00edpicos incluem tem\u00e1ticas comuns dentre os padr\u00f5es recorrentes de significados conceituais, juntamente dos elementos comuns de padr\u00f5es recorrentes de informa\u00e7\u00e3o sensorial que tipicamente ocorrem com eles. Por exemplo, significados Implicacionais podem capturar padr\u00f5es recorrentes de significado (como \u201ca realiza\u00e7\u00e3o do meu desejo \u00e9 imposs\u00edvel\u201d) extra\u00eddos de situa\u00e7\u00f5es \u201cdesesperadoras\u201d, juntamente das informa\u00e7\u00f5es de padr\u00f5es de sensa\u00e7\u00f5es corporais que ocorrem em tais situa\u00e7\u00f5es, como a sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica de estar \u201csobrecarregado\u201d. Refletindo estes dois aspectos do significado Implicacional, o significado transmitido por um poema tamb\u00e9m depende da combina\u00e7\u00e3o de escolhas cuidadosas de padr\u00f5es de significados conceituais, juntamente do som das palavras, sua cad\u00eancia e imag\u00e9tica evocada.<br \/>\nEm oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cconhecimento com a cabe\u00e7a\u201d ou \u201cconhecimento de alguma coisa\u201d, puramente intelectual dos significados Proposicionais, o processamento consciente de significados Implicacionais \u00e9 mais associado com uma qualidade experiencial. Estes significados s\u00e3o \u2018sentidos\u2019 ou \u2018percebidos\u2019 e frequentemente det\u00e9m uma qualidade de \u201cconhecimento pelo cora\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cconhecimento visceral\u201d e assim por diante. As linhas do poema acima de fato transmitem uma sensa\u00e7\u00e3o <em>experiencial<\/em> de melancolia e abandono, ainda que de forma limitada e silenciosa, ao inv\u00e9s de nos contar algo <em>sobre<\/em> a melancolia e o abandono, como em uma passagem em prosa sobre o assunto.<\/p>\n<p><i><b>Dois tipos de significado e a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento<\/b><\/i><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><br \/>\nConsistente com nossa discuss\u00e3o anterior, a estrutura te\u00f3rica do ICS afirma de modo um tanto assertivo que apenas significados Implicacionais hol\u00edsticos est\u00e3o diretamente ligados \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e ao sofrimento. Em contrapartida, significados Proposicionais afetam a emo\u00e7\u00e3o apenas indiretamente, atrav\u00e9s de sua contribui\u00e7\u00e3o aos significados Implicacionais. Segue-se que a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento tem que acontecer principalmente na mem\u00f3ria de trabalho especializada em significado Implicacional. N\u00f3s podemos encarar <em>mindfulness<\/em> como uma maneira de acessar e \u201ctrabalhar\u201d com a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Quando contemplamos a experi\u00eancia sob o \u00e2ngulo de <em>mindfulness<\/em>, n\u00f3s sustentamos elementos relacionados de significado Implicacional na \u00e1rea de trabalho de modo a permiti-los ser integrados em novos padr\u00f5es, ou processados de uma perspectiva mais ampla, e assim eles n\u00e3o mais evocam sofrimento. Podemos mesmo dizer que a <em>mindfulness<\/em> permite \u00e0 poesia da experi\u00eancia de momento a momento se reescrever, transitando graciosamente sua tem\u00e1tica do sofrimento para uma de paz e a tranquilidade. Por este motivo que o uso judicioso de poesia em interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> pode ser t\u00e3o eficaz \u2013 elas evocam sensa\u00e7\u00f5es que cont\u00e9m significados profundos, al\u00e9m das palavras, no espa\u00e7o de sil\u00eancio durante uma sess\u00e3o na aula.<br \/>\nDiferente da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional, na qual o \u201ctrabalho\u201d de elementos de significado Implicacional pode aliviar o sofrimento, a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional est\u00e1 presente proeminentemente em configura\u00e7\u00f5es que criam sofrimento (assim como, \u00e9 claro, em muitas configura\u00e7\u00f5es que n\u00e3o criam sofrimento) (Teasdale 1999). \u00c9 aqui que a mente compara suas ideias de onde est\u00e1 com as ideias de onde ela pensa que deve estar e, se este vale n\u00e3o puder ser transposto, pode se tornar um v\u00f3rtice que nutre o sofrimento. Segal, Williams e Teasdale (2002, 68) identificaram este processo com um \u201cmonitor de discrep\u00e2ncia\u201d e propuseram que ele ocupa um papel central na rumina\u00e7\u00e3o que sustenta o quadro de depress\u00e3o persistente. Em geral, a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional deriva elementos de significado Implicacional refletindo temas de insatisfatoriedade, decep\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e similares a partir das discrep\u00e2ncias entre conceitos de estados desejados e vigentes. Estes significados Implicacionais podem criar sofrimento.<br \/>\nCom este panorama te\u00f3rico em mente, nos encontramos em posi\u00e7\u00e3o de considerar a segunda e terceira via pelas quais <em>mindfulness<\/em> contribui para a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento: mudan\u00e7as em como as experi\u00eancias s\u00e3o processadas e mudan\u00e7as em como as experi\u00eancias s\u00e3o enxergadas.<\/p>\n<p><b>Estrat\u00e9gia dois: Mudar o \u201ccomo\u201d do processo<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\n<em>Mindfulness<\/em> envolve uma mudan\u00e7a radical na <em>maneira<\/em> com a qual n\u00f3s nos envolvemos com a experi\u00eancia. Na segunda via de transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento, <em>mindfulness<\/em> rebenta as configura\u00e7\u00f5es que sustentam <em>dukkha<\/em> atrav\u00e9s da mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es relacionadas com <em>como<\/em> a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 processada ao inv\u00e9s das condi\u00e7\u00f5es relacionadas com <em>qual<\/em> informa\u00e7\u00e3o \u00e9 processada, que \u00e9 o caso da primeira via. Aqui, o mero ato de trazer consci\u00eancia atenta \u00e0 experi\u00eancia pode, em si mesmo, desconstruir e transformar configura\u00e7\u00f5es de processamento negativas habituais.<br \/>\nComo podemos entender isto? Algumas das mudan\u00e7as de processamento associadas \u00e0 <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o melhor compreendidas em termos de uma altera\u00e7\u00e3o da configura\u00e7\u00e3o geral, ou da \u201cmolde\u201d da mente. Como observamos anteriormente, configura\u00e7\u00f5es processuais que geram e mant\u00eam <em>dukkha<\/em> geralmente priorizam um n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o verbal-conceitual; a rumina\u00e7\u00e3o que alimenta o estresse na sequ\u00eancia de uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica perturbadora costuma envolver um fluxo de pensamentos, geralmente expressos verbalmente: \u201ccomo ele ousa dizer isto!&#8230; ele realmente me perturbou&#8230; como eu posso continuar a minha noite depois de uma coisa dessas?&#8230;\u2019 Este tipo de pensamento <em>sobre<\/em> a experi\u00eancia envolve uma manipula\u00e7\u00e3o de conceitos relativos \u00e0 experi\u00eancia, ao inv\u00e9s da experi\u00eancia em si mesma, e, da perspectiva do ICS, reflete uma configura\u00e7\u00e3o de processamento na qual a influ\u00eancia dominante \u00e9 a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional e n\u00e3o a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional.<br \/>\nEm contrapartida, a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> cultiva uma maneira mais direta, intuitiva e experiencial de conhecimento da experi\u00eancia presente (Farb et al. 2007; Watkins e Teasdale 2004) \u2013 <em>o conhecimento da experi\u00eancia est\u00e1 na pr\u00f3pria consci\u00eancia sobre ela<\/em>. Da perspectiva do ICS, este tipo de conhecimento reflete uma configura\u00e7\u00e3o de processamento na qual a influ\u00eancia dominante \u00e9 a da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional e n\u00e3o a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional. A resposta consciente ao estresse subsequente \u00e0 liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica envolve trocar o pensamento ruminante <em>sobre<\/em> a liga\u00e7\u00e3o, seus efeitos e consequ\u00eancia, pela consci\u00eancia dos pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais, conhecidos experiencial e diretamente, enquanto aspectos da experi\u00eancia no momento. Esta troca no modo de conhecer, exercida a partir da aplica\u00e7\u00e3o intencional da aten\u00e7\u00e3o de determinadas maneiras, reflete uma reconfigura\u00e7\u00e3o da mente de modo que a influ\u00eancia prim\u00e1ria deixe de ser a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional e passe a ser a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Deste modo, <em>mindfulness<\/em> pode transformar o sofrimento atrav\u00e9s da mudan\u00e7a do \u201cmolde\u201d da mente, a partir da qual a experi\u00eancia \u00e9 processada de modo que as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o mais sustentem a cont\u00ednua cria\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o de momento a momento das configura\u00e7\u00f5es que perpetuam o sofrimento.<br \/>\nOutros efeitos da <em>mindfulness<\/em> no processamento podem ser melhor entendidos em termos de mudan\u00e7as <em>dentro<\/em> da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Como observamos no primeiro artigo (Teasdale e Chaskalson 2011), a Segunda Nobre Verdade identifica o anseio e a avers\u00e3o como condi\u00e7\u00f5es cruciais para o surgimento de <em>dukkha<\/em>. Tanto o anseio como a avers\u00e3o est\u00e3o enraizadas em uma motiva\u00e7\u00e3o subjacente de medo. Com a avers\u00e3o n\u00f3s precisamos nos livrar de experi\u00eancias ou estados de ser desprazerosos, e com o anseio e a ades\u00e3o ao desejo compulsivo de obter e sustentar um objeto de desejo o que se reflete \u00e9 um medo de que iremos falhar na obten\u00e7\u00e3o deste objeto ou, uma vez obtido, que iremos perde-lo. Em contrapartida, <em>mindfulness<\/em> cultiva processos mentais enraizados na motiva\u00e7\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o, e foi demonstrado que ela transforma padr\u00f5es de atividade cerebral caracter\u00edsticos de rejei\u00e7\u00e3o em padr\u00f5es mais caracter\u00edsticos de aceita\u00e7\u00e3o (Davidson et al. 2003).<br \/>\nN\u00f3s podemos compreender estes efeitos de <em>mindfulness<\/em> em termos de mudan\u00e7as dentro da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. \u00c9 aqui que elementos de significado Implicacional refletindo tem\u00e1ticas de curiosidade, interesse e engajamento, inerentes \u00e0 <em>mindfulness<\/em>, podem ser processadas juntamente de padr\u00f5es de significado que incorporam tem\u00e1ticas de rejei\u00e7\u00e3o, avers\u00e3o e resist\u00eancia de modo a transformar sua capacidade de criar sofrimento. No exemplo da liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica perturbadora, a a\u00e7\u00e3o de deliberadamente trazer uma consci\u00eancia atenta, gentil, curiosa e interessada \u00e0 experi\u00eancia da perturba\u00e7\u00e3o introduz elementos de significado relativos \u00e0 abordagens de aceita\u00e7\u00e3o na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Uma vez l\u00e1, de maneira que iremos examinar mais intimamente abaixo, elas podem contrabalancear os efeitos dos elementos de significados relacionados com tem\u00e1ticas de rejei\u00e7\u00e3o que foram criadas pelo pensamento ruminante raivoso que perpetua sofrimento.<br \/>\nAnseio e avers\u00e3o tamb\u00e9m refletem um desejo de que a experi\u00eancia seja diferente de como efetivamente \u00e9. <em>Mindfulness<\/em> intencionalmente incorpora uma disposi\u00e7\u00e3o de permitir \u00e0s coisas serem exatamente como s\u00e3o. Com a perturba\u00e7\u00e3o que se segue da liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, responder com consci\u00eancia atenta traz uma postura deliberada de permitir \u00e0s experi\u00eancias do momento, aos pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais desagrad\u00e1veis, que sejam exatamente como s\u00e3o conforme os sustentamos na consci\u00eancia e passamos aos conhecer mais de perto. Quando agimos assim, n\u00f3s introduzimos elementos de significado Implicacional relacionados com tem\u00e1ticas de \u201caceita\u00e7\u00e3o\u201d e \u201crelaxamento\u201d na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional, onde elas podem ser integradas e transformar os significados implicacionais relacionados com desejar se ver livre de pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais desagrad\u00e1veis, e tamb\u00e9m da pessoa que causou estas experi\u00eancias. Deste modo, n\u00f3s transformamos as condi\u00e7\u00f5es que d\u00e3o suporte \u00e0 continua\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de processamento que perpetuam <em>dukkha<\/em> de um momento para o outro. Privados desta sustenta\u00e7\u00e3o, estes padr\u00f5es se dissolvem e ficam liberados do sofrimento.<br \/>\nDesta maneira, a partir da integra\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es Implicacionais corporificando motiva\u00e7\u00f5es de aceita\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de rejei\u00e7\u00e3o, de abertura ao inv\u00e9s de afastamento, a sabedoria de <em>mindfulness<\/em> pode transformar as condi\u00e7\u00f5es nas quais experi\u00eancias dif\u00edceis s\u00e3o processadas. N\u00f3s podemos compreender o processo pelo qual tecemos qualidades transformativas como paci\u00eancia, confian\u00e7a, pacifica\u00e7\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o e relaxamento (Kabat-Zinn 1990, 33-5) na pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> nestes termos.<br \/>\nComo estes processos s\u00e3o t\u00e3o centrais \u00e0 efic\u00e1cia da <em>mindfulness<\/em>, e distinguem <em>mindfulness<\/em> de simplesmente prestar aten\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia, ser\u00e1 \u00fatil olhar para eles mais de perto.<\/br><br \/>\n<i><b>Mudan\u00e7a \u2018Implicacional\u2019 <\/i>versus<em> Mudan\u00e7a Proposicional<\/b><\/em><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><\/br><br \/>\nElementos tem\u00e1ticos implicacionais s\u00e3o, efetivamente, destila\u00e7\u00f5es da ess\u00eancia de experi\u00eancias repetidas envolvendo aceita\u00e7\u00e3o, abertura, boa vontade e assim por diante, ao inv\u00e9s de um sum\u00e1rio de conhecimento factual <em>sobre<\/em> estas experi\u00eancias. Quando estes elementos s\u00e3o incorporados no processamento, eles trazem com eles um \u201csabor\u201d experiencial ou \u201cqualidade\u201d que ecoa a \u201csensa\u00e7\u00e3o\u201d da experi\u00eancia original, assim como as quatro linhas do poema \u201cLa Belle Dame Sans Merci\u201d traziam algo da \u201csensa\u00e7\u00e3o\u201d de melancolia e abandono. Deste modo, atrav\u00e9s do cultivo cont\u00ednuo, a consci\u00eancia presente pode se tornar imbu\u00edda de uma sensa\u00e7\u00e3o de curiosidade, interesse, gentileza, abertura etc.<br \/>\nNesta abordagem \u201cImplicacional\u201d, nossa sensa\u00e7\u00e3o subjetiva pode gentilmente guiar o processo de integra\u00e7\u00e3o destes elementos tem\u00e1ticos; n\u00f3s como que \u201csentimos\u201d nosso caminho de incorpora\u00e7\u00e3o do \u201cesp\u00edrito\u201d de curiosidade, abertura etc. da melhor forma que pudermos. Esta abordagem \u201cImplicacional\u201d \u00e9 bem diferente da abordagem \u201cProposicional\u201d, mais voltada para objetivos. Esta \u00faltima envolve, por exemplo, a determina\u00e7\u00e3o de alvos conceitualmente elaborados, como \u201cser uma pessoa gentil\u201d, a serem atingidos a partir de uma lista de instru\u00e7\u00f5es conceitualmente elaboradas (como uma \u201clista de afazeres\u201d): \u201csentir-se gentil\u201d; \u201cagir com generosidade\u201d; \u201cser amoroso\u201d; \u201cser emp\u00e1tico e compassivo\u201d e assim por diante. Al\u00e9m de nos deixar em d\u00favida quanto \u00e0 como exatamente podemos fazer estas coisas, e estabelecer uma sensa\u00e7\u00e3o geral de \u201ccompromisso\u201d e \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d, esta abordagem ainda arrisca gerar mais sofrimento; na discuss\u00e3o da Segunda Nobre Verdade, no primeiro artigo, n\u00f3s vimos que a fixa\u00e7\u00e3o em um objetivo como \u201cser um <em>self<\/em> que \u00e9 gentil (curioso, aberto etc.)\u201d \u00e9 exatamente a condi\u00e7\u00e3o que alimenta <em>dukkha<\/em>.<br \/>\nPodemos ilustrar esta distin\u00e7\u00e3o importante entre a abordagem \u201cImplicacional\u201d e a abordagem \u201cProposicional\u201d pelas formas alternativas que podemos nos posicionar diante da afirma\u00e7\u00e3o de que <em>mindfulness<\/em> envolve \u201cprestar aten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o julgar\u201d. Uma abordagem Implicacional iria encarar esta afirma\u00e7\u00e3o como um est\u00edmulo para incorporar estas qualidades, ou o \u201cesp\u00edrito\u201d, do n\u00e3o-julgamento e da aceita\u00e7\u00e3o na aten\u00e7\u00e3o que trazemos para a experi\u00eancia, na medida de nossas capacidades. Uma abordagem Proposicional iria encarar ou enxergar a mesma informa\u00e7\u00e3o como uma instru\u00e7\u00e3o para parar de julgar. Todavia, \u00e9 claro que inevitavelmente iremos nos encontrar julgando e comparando. Nesta situa\u00e7\u00e3o, a abordagem Implicacional \u00e9 a de receber tamb\u00e9m a pr\u00f3pria instru\u00e7\u00e3o em um esp\u00edrito de aceita\u00e7\u00e3o e abertura, talvez incluindo os pr\u00f3prios julgamentos no escopo da consci\u00eancia atenta. A abordagem Proposicional, por sua vez, enxerga no fato de julgarmos e compararmos uma falha na consecu\u00e7\u00e3o do objetivo de n\u00e3o fazer julgamentos. Esta vis\u00e3o, \u00e9 claro, provavelmente ir\u00e1 gerar mais julgamentos autodepreciativos, mesmo que n\u00f3s nos dermos a instru\u00e7\u00e3o de n\u00e3o julgar o julgamento!<br \/>\n<i>Como?<\/i><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><br \/>\nComo n\u00f3s podemos trazer elementos tem\u00e1ticos espec\u00edficos para a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional? Como incorporamos o sabor da gentileza e da abertura na consci\u00eancia em <em>mindfulness<\/em>? Uma maneira \u00e9 tirar vantagem do aspecto de \u2018relembran\u00e7a\u2019, \u2018recorda\u00e7\u00e3o\u2019 ou do \u2018manter em mente\u2019 da <em>mindfulness<\/em>, amplamente reconhecido na tradi\u00e7\u00e3o Budista e retomado por George Dreyfus (2011).<br \/>\nPodemos ilustrar o que temos em mente aqui retornando \u00e0s quatro linhas do poema. A leitura do poema evoca uma sensa\u00e7\u00e3o de melancolia e abandono, a qual, conforme sugerimos, reflete um processamento de padr\u00f5es Implicacionais relacionados \u00e0 estas tem\u00e1ticas na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Esta sensa\u00e7\u00e3o de melancolia e abandono logo desaparece quando paramos de ler o poema, e n\u00e3o estamos mais ativamente processando estes padr\u00f5es Implicacionais. Se, a esta altura, n\u00f3s trouxermos \u00e0 mente as palavras \u201cmelancolia e abandono\u201d, ou uma imagem do poema, ent\u00e3o existe grande possibilidade, se o lemos h\u00e1 apenas alguns instantes, de experienciarmos uma sensa\u00e7\u00e3o de melancolia de novo, e com uma intensidade muito maior do que se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos lido o poema.<br \/>\nPodemos entender esse processo de re-evocar uma sensa\u00e7\u00e3o a partir da perspectiva a seguir. Tendo sido processados recentemente na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional, padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o Implicacional relativos \u00e0 tem\u00e1ticas de melancolia e abandono ainda est\u00e3o relativamente \u201cfrescos\u201d e acess\u00edveis na mem\u00f3ria Implicacional de longo prazo. Eles podem ser resgatados dali para a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional por deixas relevantes. Processados uma vez mais na mem\u00f3ria de trabalho, estes padr\u00f5es ir\u00e3o recriar a sensa\u00e7\u00e3o de melancolia e abandono e \u201cresetar o rel\u00f3gio\u201d ao atualizar suas representa\u00e7\u00f5es na mem\u00f3ria de longo prazo. Pela repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua deste processo \u2013 \u2018trazendo \u00e0 mente\u2019 a sensa\u00e7\u00e3o de melancolia e das deixas correspondentes \u2013 seria poss\u00edvel manter os padr\u00f5es de significado Implicacional presentes e ativos na mem\u00f3ria de trabalho. Uma vez l\u00e1, eles estariam acess\u00edveis para uma poss\u00edvel integra\u00e7\u00e3o com a informa\u00e7\u00e3o emergente da experi\u00eancia em desdobramento. Este \u00e9 um processo an\u00e1logo ao nosso h\u00e1bito de manter um n\u00famero \u201cem mente\u201d, repetindo ele mentalmente de novo e de novo, mantendo, assim, o seu \u201cfrescor\u201d na mem\u00f3ria a curto prazo. O processo na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional est\u00e1, por \u00f3bvio, em um n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o muito mais complexo.<br \/>\nUma segunda forma pela qual n\u00f3s podemos manter informa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 temas relevantes \u201cvivas\u201d na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional \u00e9 atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es surgindo das motiva\u00e7\u00f5es vinculadas. Toda vez que n\u00f3s intencionalmente agimos com uma sensa\u00e7\u00e3o naturalmente emergente de gentileza, compaix\u00e3o ou generosidade n\u00f3s estendemos o tempo no qual a informa\u00e7\u00e3o tematicamente vinculada estar\u00e1 presente na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. N\u00f3s dispomos de informa\u00e7\u00f5es vinculadas na mem\u00f3ria Implicacional, aumentando a chance destas informa\u00e7\u00f5es serem \u201crecuperadas\u201d depois. Estas s\u00e3o algumas das raz\u00f5es pelas quais o Nobre Caminho \u00d3ctuplo atribui tanta import\u00e2ncia \u00e0 conduta e a inten\u00e7\u00e3o \u00e9tica, juntamente com a \u00eanfase na medita\u00e7\u00e3o e na compreens\u00e3o.<br \/>\nUma terceira maneira com a qual podemos introduzir conte\u00fado tem\u00e1tico na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional \u00e9 indiretamente, atrav\u00e9s da contempla\u00e7\u00e3o de conte\u00fado Proposicional tematicamente afim. No entanto, como esta abordagem \u00e9 geralmente mais relevante na terceira estrat\u00e9gia de transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento \u2013 mudar a vis\u00e3o diante da experi\u00eancia \u2013 retornaremos a ela quando formos discutir este t\u00f3pico.<br \/>\nA relev\u00e2ncia destas estrat\u00e9gias para sustentar conte\u00fado tem\u00e1tico vivo na mem\u00f3ria de trabalho vai al\u00e9m da mera rea\u00e7\u00e3o consciente \u00e0s experi\u00eancias espec\u00edficas de sofrimento. Ela se estende para os efeitos mais duradouros e abrangentes de <em>mindfulness<\/em>, que iremos abordar a seguir.<\/br><br \/>\n<i><b>Mindfulness como um jeito de ser<\/b><\/i><\/br><br \/>\nDo que dissemos at\u00e9 agora, j\u00e1 conseguimos entender algumas maneiras atrav\u00e9s das quais a resposta intencional de <em>mindfulness<\/em> diante de experi\u00eancias indesej\u00e1veis e desagrad\u00e1veis pode reduzir o sofrimento. Vamos considerar, agora, como a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> pode reduzir o sofrimento mais genericamente.<br \/>\nAllen et al. (2009) deu como subt\u00edtulo de seu artigo sobre os efeitos da MBCT a cita\u00e7\u00e3o de um de seus pacientes: \u201cela me transformou tanto quanto era poss\u00edvel\u201d. Tal coment\u00e1rio sugere que este paciente aprendeu muito mais do que usar <em>mindfulness<\/em> somente para lidar melhor com experi\u00eancias particulares de pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. N\u00e3o \u00e9 incomum que participantes em programas baseados em <em>mindfulness<\/em> relatem coisas como uma abertura a um jeito de ser completamente novo \u2013 uma sensa\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o de potencial para um jeito de viver a vida de modo radicalmente diferente, que sempre esteve presente, mas de alguma maneira n\u00e3o se encontrava acess\u00edvel. Do mesmo modo, uma das observa\u00e7\u00f5es mais intrigantes na MBSR e na MBCT \u00e9 que os pacientes frequentemente relatam uma redu\u00e7\u00e3o na perturba\u00e7\u00e3o e na rumina\u00e7\u00e3o seguida de um epis\u00f3dio dif\u00edcil, como o exemplo da liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, mesmo quando eles n\u00e3o tentaram deliberadamente reagir\u00a0 de modo diferente; a qualidade de seus relatos \u00e9 muito mais no sentido de \u201cisto aconteceu\u201d do que \u201ceu fiz isto\u201d.<br \/>\nComo podemos entender o que est\u00e1 acontecendo nestas situa\u00e7\u00f5es? Primeiro, precisamos compreender que a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> n\u00e3o est\u00e1 focada especificamente em experi\u00eancias desagrad\u00e1veis; os alunos da medita\u00e7\u00e3o de discernimento, e participantes nas aplica\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>, s\u00e3o encorajados \u00e0 manter a aten\u00e7\u00e3o \u2018<em>mindful\u2019<\/em> sobre todas as experi\u00eancias \u2013 boas, ruins, neutras, indiferentes \u2013 por tanto tempo quanto poss\u00edvel. Mas os efeitos que descrevemos parecem ir al\u00e9m da simples soma de muitas \u201crespostas conscientes\u201d repetidas no decorrer do tempo. Eles parecem ser mais consistentes com os efeitos cumulativos da pr\u00e1tica sustentada de <em>mindfulness<\/em>, que produzem mudan\u00e7as mais duradouras no \u201cmolde\u201d total do cora\u00e7\u00e3o e da mente. Em outras palavras, \u00e9 como se a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> invertesse a configura\u00e7\u00e3o dos processos mentais, ou o que chamamos de modo mental, de um modo que tem o potencial de criar sofrimento para um modo que tem o potencial de curar sofrimento. Este novo modo mental, com seu padr\u00e3o diferente de \u201ccomo\u201d a experi\u00eancia \u00e9 processada, persiste por algum tempo at\u00e9 que, como resultado de uma mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es, a mente e o cora\u00e7\u00e3o invertem outra vez ao seu modo habitual.<br \/>\nN\u00f3s propusemos que a <em>mindfulness<\/em> est\u00e1 particularmente associada com configura\u00e7\u00f5es de processamento nas quais a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional ocupa um papel central. Esta proposta sugere que a hip\u00f3tese de que as mudan\u00e7as no modo mental que descrevemos envolvem uma transi\u00e7\u00e3o de um modo habitual, no qual a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional e o pensamento conceitual tem uma influ\u00eancia dominante (um modo que \u00e9 chamado de \u201cagir\u201d) para um modo alternativo, no qual a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional e o conhecimento experiencial tem uma influ\u00eancia dominante (um modo que \u00e9 chamado \u201cser\u201d [Kabat-Zinn 1990; Segal, Williams e Teasdale 2002; Williams et al. 2007]). Esta transi\u00e7\u00e3o explicaria: (1) os efeitos amplamente generalizados da pr\u00e1tica continuada de <em>mindfulness<\/em>; (2) a forma pela qual elas s\u00e3o experienciadas como um novo jeito de ser; e (3) a maneira pela qual experi\u00eancias perturbadoras perdem seu poder de engatilhar estresse sem necessidade de qualquer resposta intencional.<br \/>\nA transi\u00e7\u00e3o deste modo mental proeminente n\u00e3o ser\u00e1 est\u00e1vel, especialmente no in\u00edcio da pr\u00e1tica de <em style=\"color: #000000;\">mindfulness<\/em>; uma manuten\u00e7\u00e3o constante \u00e9 necess\u00e1ria para prevenir o retorno \u00e0s configura\u00e7\u00f5es profundamente enraizadas que habitualmente sustentam <em style=\"color: #000000;\">dukkha<\/em>. Como fazemos isto?<br \/>\nO aspecto de \u201cmanter em mente\u201d da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional, que consideramos anteriormente, oferece numerosas maneiras de apoiar este modo mental alternativo. Ele proporciona uma maneira de incorporar tem\u00e1ticas como abertura e aceita\u00e7\u00e3o, que nutrem um modo de \u201cser\u201d de influ\u00eancia Implicacional, ao inv\u00e9s de um modo de \u201cagir\u201d de influ\u00eancia Proposicional. Ele tamb\u00e9m tem a import\u00e2ncia crucial de oferecer um meio de manter viva a inten\u00e7\u00e3o e a motiva\u00e7\u00e3o de conservar a consci\u00eancia atenta e presente. Mas precisamos ser cuidadosos em rela\u00e7\u00e3o a como exatamente n\u00f3s \u201cmantemos em mente\u201d esta inten\u00e7\u00e3o. Manter viva a mem\u00f3ria da instru\u00e7\u00e3o Proposicional \u201cmantenha-se atento e consciente\u201d pode ser \u00fatil, mas corre o risco de tornar-se uma voz inc\u00f4moda empoleirada em nossos ombros, \u201cfiscalizando\u201d como estamos nos posicionando a cada momento. Isto, \u00e9 claro, seria um tanto contraproducente. A \u201calternativa Implicacional\u201d de manter vivos padr\u00f5es de significado Implicacional relacionados ao \u201cesp\u00edrito\u201d de curiosidade, interesse e investiga\u00e7\u00e3o, dos quais uma mente espontaneamente aberta e consciente pode surgir com mais naturalidade, \u00e9 pass\u00edvel de ser mais bem-sucedida.<br \/>\nN\u00f3s podemos compreender a efic\u00e1cia de certas pr\u00e1ticas formais nas quais a consci\u00eancia atenta, presente e espont\u00e2nea \u00e9 sustentada por per\u00edodos maiores de tempo com base na abordagem Implicacional. Martine Batchelor (2011) descreve como manter em mente uma pergunta silenciosa, por exemplo \u201co que \u00e9 isto?\u201d, pode conservar todo o modo de consci\u00eancia atenta e presente vivo: \u201cQuando eu meditava, eu me perguntava internamente repetidas vezes: \u201co que \u00e9 isto?\u201d . Eu n\u00e3o o fazia com o objetivo de chegar a uma resposta, mas de desenvolver uma sensa\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o e ent\u00e3o intensificar esta sensa\u00e7\u00e3o\u201d. Esta descri\u00e7\u00e3o \u00e9 notoriamente similar \u00e0 da recomenda\u00e7\u00e3o de manter a informa\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0 temas salubres na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional que apresentamos antes. A pergunta \u201co que \u00e9 isto\u201d aqui \u00e9 claramente trabalhada a n\u00edvel Implicacional, e n\u00e3o a n\u00edvel Proposicional (ela n\u00e3o demanda uma resposta conceitual); e fica frisada a import\u00e2ncia de conectar-se com a \u201csensa\u00e7\u00e3o\u201d da pergunta (que, da perspectiva da ICS, \u00e9 o correlato consciente de processar temas de curiosidade, interesse e investiga\u00e7\u00e3o na mem\u00f3ria de trabalho Implicacional). Deste modo, a pergunta e a sensa\u00e7\u00e3o evocada por ela podem ser usadas para conservar o processamento de temas que ir\u00e3o apoiar a continuidade da consci\u00eancia atenta e presente. Todo este processo, portanto, \u201csegura\u201d a mente em uma configura\u00e7\u00e3o na qual a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional, e n\u00e3o a Proposicional, ocupa uma fun\u00e7\u00e3o predominante.<br \/>\n<em>Mindfulness<\/em> oferece a possibilidade de modos mentais ou jeitos de ser mais habilidosos nos quais n\u00f3s podemos, se relembrarmos, nos conservar por um maior per\u00edodo de tempo. Nestes estados n\u00f3s experimentamos menos sofrimento e maior tranquilidade e paz e, por esta raz\u00e3o, eles s\u00e3o grandemente valiosos por e em si mesmos. No entanto, eles n\u00e3o trazem um final definitivo para <em>dukkha<\/em>: como todos os outros estados mentais, eles s\u00e3o tempor\u00e1rios, e quando n\u00f3s nos esquecemos de deliberadamente pratica-los ou cultiva-los, estamos sujeitos a retornar \u00e0s configura\u00e7\u00f5es de condi\u00e7\u00f5es que criam sofrimento. Por esta raz\u00e3o, dentro da tradi\u00e7\u00e3o Budista, <em>Mindfulness<\/em> \u00e9 vista como um meio e n\u00e3o como um fim: ela oferece um caminho para o desenvolvimento de <em>insight<\/em>, discernimento, ou uma mudan\u00e7a de vis\u00e3o, a terceira estrat\u00e9gia que identificamos. O discernimento nos d\u00e1 a chance de tanto reduzir o fardo da insatisfatoriedade cotidiana como de eliminar <em>dukkha<\/em> completamente.<\/br><br \/>\n<b>Estrat\u00e9gia tr\u00eas: mudando a vis\u00e3o<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nAinda que n\u00f3s tenhamos estabelecido uma distin\u00e7\u00e3o entre tr\u00eas estrat\u00e9gias atrav\u00e9s das quais <em>mindfulness<\/em> transforma o sofrimento, \u00e9 importante lembrar que elas s\u00e3o inerentemente inter-relacionadas. Conforme nos aproximamos da terceira estrat\u00e9gia atrav\u00e9s da perspectiva da ICS que delineamos, veremos que muitas situa\u00e7\u00f5es poderiam ser descritas igualmente bem em termos de mudan\u00e7as na vis\u00e3o da experi\u00eancia, mudan\u00e7as no processamento da experi\u00eancia e mudan\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia.<br \/>\nN\u00f3s geramos sentido da experi\u00eancia individual dentro de vis\u00f5es mais amplas de como as coisas s\u00e3o. Estas vis\u00f5es, esquemas ou modos mentais esquem\u00e1ticos definem e formatam a maneira como n\u00f3s enxergamos a experi\u00eancia, mais ou menos como lentes. Estes efeitos podem acontecer em todos os n\u00edveis. A n\u00edvel mais fundamental, a observa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em termos de um interno (\u201ceu\u201d) e um externo (\u201co mundo\u201d), por exemplo, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o de uma lente de prop\u00f3sito bem amplo pela qual n\u00f3s habitualmente enxergamos a experi\u00eancia. O mesmo poderia ser dito de ver a experi\u00eancia em termos de \u201csujeito\u201d e \u201cobjeto\u201d.<br \/>\nA ignor\u00e2ncia que discutimos no primeiro artigo, que \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de toda <em>dukkha<\/em>, envolve a observa\u00e7\u00e3o por lentes que: (1) enxergam a experi\u00eancia em termos de objetos e sujeitos independentemente existentes e duradouros, e n\u00e3o em termos de processos que se desdobram dinamicamente; e (2) nos permitem nos identificar pessoalmente com as experi\u00eancias enquanto \u201ceu\u201d ou \u201cmeu\u201d, quando, de fato, elas s\u00e3o fen\u00f4menos impessoais que surgem enquanto uma fun\u00e7\u00e3o de certas condi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEm princ\u00edpio, n\u00f3s podemos transformar o sofrimento tanto mudando a maneira de aplicar as lentes j\u00e1 existentes como criando lentes novas. Podemos ilustrar a primeira destas estrat\u00e9gias com o efeito da <em>mindfulness<\/em> conhecido como \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o\u201d (Teasdale, Segal e Williams 1995; Segal, Williams e Teasdale 2002) ou \u201crepercep\u00e7\u00e3o\u201d (Shapiro et al. 2006).<br \/>\nA descentraliza\u00e7\u00e3o ou repercep\u00e7\u00e3o envolve uma transi\u00e7\u00e3o radical na maneira como usamos as lentes mais b\u00e1sicas pelas quais experienciamos em termos de \u201csujeito\u201d e \u201cobjeto\u201d, de modo que aquilo que comumente n\u00f3s tomamos como sujeito se transforma em objeto. Na <em>mindfulness<\/em> n\u00f3s nos envolvemos <em>com<\/em> os sentimentos, pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es como eventos mentais no campo da consci\u00eancia, ao inv\u00e9s de se envolver <em>neles<\/em> enquanto aspectos de nosso <em>self<\/em> subjetivo. No exemplo da liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, isto implicaria em fazer das sensa\u00e7\u00f5es e pensamentos desagrad\u00e1veis o foco da aten\u00e7\u00e3o enquanto eventos mentais, ao inv\u00e9s de incorpor\u00e1-los como <em>sendo eu<\/em> (cf. Kabat-Zinn 1990, 69-70). Existe a possibilidade de que esta reorienta\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 um mecanismo importante atrav\u00e9s do qual <em>mindfulness<\/em> pode reduzir o sofrimento. Metade dos participantes de um estudo de Allen et al. (2009) relataram uma \u201cnova perspectiva\u201d diante das sensa\u00e7\u00f5es e pensamentos depressores que pode ser sintetizada como \u201cestes pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o \u2018eu\u2019\u201d.<br \/>\nNa ICS, as lentes atrav\u00e9s das quais n\u00f3s observamos (e, portanto, criamos) a experi\u00eancia s\u00e3o encaradas como modelos mentais esquem\u00e1ticos (Teasdale e Barnard 1993), padr\u00f5es protot\u00edpicos de informa\u00e7\u00e3o Implicacional que refletem aspectos recorrentes da \u201cestrutura profunda\u201d da experi\u00eancia. Esta perspectiva sugere que se desejamos mudar nossa vis\u00e3o da experi\u00eancia com a substitui\u00e7\u00e3o de um par de lentes por outro dentro de nosso \u201cestoque\u201d de lentes j\u00e1 existentes, ou se desejamos criar lentes novas que removem ou atenuam percep\u00e7\u00f5es distorcidas, a mem\u00f3ria de trabalho Implicacional \u00e9 o local onde isto deve acontecer. Esta \u00e1rea de trabalho nos permite acessar modelos mentais esquem\u00e1ticos existentes estocados na mem\u00f3ria Implicacional a longo prazo para integrar e recombinar elementos de modelos Implicacionais existentes em novos padr\u00f5es, e extrair novos modelos com base em \u201cinforma\u00e7\u00e3o Implicacional fresca\u201d, resultantes de um olhar mais esclarecido sobre aspectos b\u00e1sicos da experi\u00eancia.<br \/>\nDada nossa sugest\u00e3o anterior de que \u00e9 a mem\u00f3ria de trabalho para informa\u00e7\u00e3o Implicacional que \u00e9 particularmente associada \u00e0 <em>mindfulness<\/em>, a perspectiva que acabamos de apresentar sugere que <em>mindfulness<\/em> cria condi\u00e7\u00f5es \u00f3ptimas para a estrat\u00e9gia de intencionalmente alterar a vis\u00e3o como uma maneira de transformar o sofrimento. <em>Mindfulness<\/em> permite acesso \u00e0 \u00e1rea de trabalho Implicacional nos permitindo conhecer as lentes atrav\u00e9s das quais n\u00f3s estamos enxergando o mundo, mudar estas lentes e criar novas lentes. N\u00f3s podemos ilustrar estes pontos revisitando um exemplo que j\u00e1 consideramos.<\/br><br \/>\n<i><b>Estado Desperto e a Segunda Nobre Verdade<\/b><\/i><\/br><br \/>\nNo primeiro artigo n\u00f3s brincamos com uma anedota \u2013 acordar preocupado pensando sobre a ideia que o sofrimento surge mais devido a nossa rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia do que devido a experi\u00eancia em si mesma. Mesmo com a mente cheia de pensamentos sobre esta ideia, os pensamentos n\u00e3o eram eficazes em reduzir a irrita\u00e7\u00e3o por estar acordado de madrugada. Da perspectiva da ICS, isto est\u00e1 de acordo com o esperado: a experi\u00eancia subjetiva de \u201cpensar a respeito\u201d indica que a opera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de trabalho Proposicional, especializada no processamento de informa\u00e7\u00e3o conceitual, era predominante. Mesmo que este \u201cpensar a respeito\u201d possa produzir novas ideias sobre a Segunda Nobre Verdade, estas, em si mesmas, n\u00e3o seriam capazes de nos liberar, simplesmente porque o n\u00edvel conceitual de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 diretamente vinculado ao sofrimento ou \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento.<br \/>\nEm contrapartida, a contempla\u00e7\u00e3o da Segunda Nobre Verdade teria criado elementos de informa\u00e7\u00e3o Implicacional relativas ao tema de que o sofrimento reflete nossa rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia. Mas, conquanto que o \u201cpensar\u201d, com seu envolvimento prim\u00e1rio com a mem\u00f3ria de trabalho Proposicional, impede muito do envolvimento da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, estes padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o Implicacional <em>n\u00e3o poderiam ter sido integrados<\/em> com outras informa\u00e7\u00f5es Implicacionais, diretamente ligadas ao sofrimento, de modo a transformar este sofrimento. No entanto, assim que o foco mudou do <em>pensar<\/em> sobre o sofrimento e sobre a ins\u00f4nia para a <em>investiga\u00e7\u00e3o consciente<\/em> da <em>experi\u00eancia<\/em> da irrita\u00e7\u00e3o e avers\u00e3o diante do momento, a influ\u00eancia prim\u00e1ria passou a ser a da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional. Assim, os padr\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o Implicacional relacionados com os temas da Segunda Nobre Verdade puderam ser integrados com padr\u00f5es relacionados com a irrita\u00e7\u00e3o e a avers\u00e3o para gerar o discernimento intuitivo de que \u201cesta avers\u00e3o, aqui e agora, \u00e9 o que est\u00e1 causando sofrimento\u201d. E este olhar claro diante da situa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma tentativa de seguir uma instru\u00e7\u00e3o Proposicional de \u201cfazer\u201d alguma coisa, conduziu muito naturalmente \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do apego \u00e0 necessidade de se livrar da experi\u00eancia de ins\u00f4nia.<br \/>\nUma vez que a mente veja com clareza que est\u00e1 criando sofrimento, sua sabedoria inerente se solta do processo que cria este sofrimento da mesma forma que n\u00f3s soltamos um objeto muito quente assim que registramos a dor que ele est\u00e1 causando. Esta nova vis\u00e3o, ou \u201clente\u201d, que incorpora esse discernimento, tendo sido criada e utilizada, pode ser guardada enquanto um novo modelo mental esquem\u00e1tico na mem\u00f3ria Implicacional \u00e0 longo prazo, pronto para ser acessada quando uma situa\u00e7\u00e3o tematicamente similar surgir no futuro. Deste modo, a base de uma transforma\u00e7\u00e3o mais duradoura do sofrimento fica estabelecida. \u00c9 dizer \u2013 na pr\u00f3xima vez que estivermos acordados no meio da noite, provavelmente iremos \u201cenxergar\u201d nossa irrita\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m nossas tentativas de \u201cconsertar\u201d nossa ins\u00f4nia com \u201cavers\u00e3o\u201d ou \u201csofrimento\u201d e iremos relaxar mais cedo, e, talvez, at\u00e9 chegue ao ponto desta rea\u00e7\u00e3o nem mesmo surgir.<\/br><br \/>\n<i><b>\u201cDe cima para baixo\u201d e \u201cde baixo para cima\u201d<\/b><\/i><em style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/em><\/br><br \/>\nO exemplo que acabamos de considerar envolvia o desenvolvimento de discernimento atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o dentro da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional de elementos derivados \u201cde cima para baixo\u201d da contempla\u00e7\u00e3o da Segunda Nobre Verdade com elementos derivados \u201cde baixo para cima\u201d da investiga\u00e7\u00e3o atenta da experi\u00eancia da sensa\u00e7\u00e3o de irrita\u00e7\u00e3o e avers\u00e3o ao momento. A mesma estrat\u00e9gia \u201cde cima para baixo e de baixo para cima\u201d para o desenvolvimento de discernimento \u00e9 evidente nas instru\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Buda no <em>Satipatthana Sutta.<\/em><br \/>\nAs pr\u00e1ticas de <em>mindfulness<\/em> delineadas neste discurso descrevem um m\u00e9todo atrav\u00e9s do qual, com o uso da <em>mindfulness<\/em>, novos modelos mentais esquem\u00e1ticos de experi\u00eancia podem ser constru\u00eddos com base na informa\u00e7\u00e3o experiencial direta, integrada com instru\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00e3o. N\u00f3s somos encorajados a contemplar o corpo <em>enquanto <\/em>corpo, as sensa\u00e7\u00f5es <em>enquanto <\/em>sensa\u00e7\u00f5es e a mente <em>enquanto<\/em> mente, de modo a criarmos modelos pelos quais enxergamos estas experi\u00eancias pelo o que elas s\u00e3o \u2013 experi\u00eancias \u2013 e n\u00e3o como aspectos de um <em>self<\/em> independentemente existente \u2013 \u201ceu\u201d ou \u201cmeu\u201d. Somos instru\u00eddos a ver o emergir e o cessar de todas as experi\u00eancias, e as condi\u00e7\u00f5es que se relacionam com esta emerg\u00eancia e cessa\u00e7\u00e3o, de modo a criar modelos que incorporam a tem\u00e1tica de transitoriedade em rela\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es mut\u00e1veis, e n\u00e3o a continuidade de entidades independentemente existentes. E n\u00f3s somos instru\u00eddos a contemplar \u201cinterna e externamente\u201d, \u00e9 dizer, o modo pelo qual todos os aspectos do que experienciamos tamb\u00e9m seja experienciado pelos outros, de maneira a criar modelos de uma natureza da experi\u00eancia universal no lugar das de natureza pessoal.<br \/>\nO modo da mente <em>mindful<\/em>, que torna dispon\u00edvel a \u00e1rea de trabalho da mem\u00f3ria de trabalho Implicacional na qual estes novos modelos podem ser criados, apoia este processo. Nos permite, em sentido \u00faltimo, criar novos modelos b\u00e1sicos pelos quais n\u00f3s vemos todas as experi\u00eancias como processos, dependentes de condi\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o como reflexos de objetos e sujeitos duradouros, dotados de propriedades est\u00e1veis. Estes novos modelos relaxam a fixa\u00e7\u00e3o \u00e0 modelos j\u00e1 pr\u00e9-estabelecidos, que incorporam a ignor\u00e2ncia subjacente \u00e0s configura\u00e7\u00f5es que criam e sustentam o sofrimento. N\u00f3s enxergamos o mundo de modo fresco, como se tiv\u00e9ssemos despertado de um sonho. Nos tornamos livres.<\/p>\n<p><b>Conclus\u00f5es e implica\u00e7\u00f5es<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nConforme n\u00f3s conclu\u00edmos considerando algumas das implica\u00e7\u00f5es de nossas an\u00e1lises \u00e9 importante lembrarmos que as ideias apresentadas aqui s\u00e3o apenas isto \u2013 ideias \u2013 hip\u00f3teses que podem ser testadas, mas que aguardam confirma\u00e7\u00e3o de dados emp\u00edricos espec\u00edficos. Segue-se que todas as implica\u00e7\u00f5es derivadas destas ideias tamb\u00e9m devem ser tratadas cuidadosamente, como possibilidades a serem investigadas adiante e n\u00e3o como afirma\u00e7\u00f5es de verdades irrefut\u00e1veis.<br \/>\nN\u00f3s consideramos tr\u00eas aspectos da maneira pela qual <em>mindfulness<\/em> pode transformar o sofrimento: mudando <em>o que<\/em> a mente est\u00e1 processando; mudando <em>como<\/em> a mente processa; e mudando a <em>vis\u00e3o <\/em>do que est\u00e1 sendo processado. N\u00f3s sugerimos que enquanto a primeira destas vias de mudan\u00e7a, baseada no aprendizado de como realocar intencionalmente o foco da aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 relativamente simples e direta, a segunda e a terceira via s\u00e3o mais sutis. Dentro da an\u00e1lise proposta, a raz\u00e3o disto \u00e9 que estas vias envolvem a transforma\u00e7\u00e3o de significados hol\u00edsticos impl\u00edcitos (Implicacionais).<br \/>\nEstas distin\u00e7\u00f5es t\u00eam uma s\u00e9rie de implica\u00e7\u00f5es. Primeiro, elas esclarecem as maneiras pela qual <em>mindfulness<\/em> envolve mais do que simplesmente aprender a prestar aten\u00e7\u00e3o intencionalmente, no momento. Ainda que seja poss\u00edvel descrever a primeira via deste jeito, esta descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz jus \u00e0 segunda e a terceira via. Dentro de nossa an\u00e1lise, os efeitos de <em>mindfulness<\/em> atrav\u00e9s destas vias necessariamente envolvem a integra\u00e7\u00e3o na consci\u00eancia de vis\u00f5es, atitudes e inten\u00e7\u00f5es h\u00e1beis enquanto um aspecto crucial da transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTamb\u00e9m encontramos implica\u00e7\u00f5es para o ensino de <em>mindfulness<\/em> e treinamento e sele\u00e7\u00e3o de instrutores. Ainda que o ensino de habilidade de controle da aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o exija um treino extensivo dos instrutores, o mesmo n\u00e3o \u00e9 verdade para o ensino de <em>mindfulness<\/em> que capitaliza a segunda e a terceira via de mudan\u00e7a. Quando distinguimos a \u201cmudan\u00e7a Proposicional\u201d e a \u201cmudan\u00e7a Implicacional\u201d, sugerimos que a mudan\u00e7a Implicacional envolve a integra\u00e7\u00e3o do \u201cesp\u00edrito\u201d do n\u00e3o julgamento, da aceita\u00e7\u00e3o, da curiosidade afetiva, da gentileza, da compaix\u00e3o etc., e n\u00e3o uma observ\u00e2ncia \u00e0 uma s\u00e9rie de instru\u00e7\u00f5es conceituais de \u201cfa\u00e7a isso\u201d ou \u201cfa\u00e7a aquilo\u201d. A corporifica\u00e7\u00e3o destas qualidades pelo instrutor ser\u00e1 um dos ve\u00edculos mais potentes para comunicar esta \u201csensa\u00e7\u00e3o\u201d aos participantes de interven\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em>. Do mesmo modo, a mudan\u00e7a de vis\u00f5es ou modelos esquem\u00e1ticos profundamente enraizados ser\u00e1 fortemente influenciada pela sabedoria incorporada pelo instrutor. Estas s\u00e3o raz\u00f5es para selecionar e treinar instrutores em termos de sua compreens\u00e3o e qualidades enquanto ser humano.<br \/>\nAdemais, uma compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre significados Proposicionais e Implicacionais poder oferecer aos instrutores de <em>mindfulness<\/em> uma ideia mais clara da maneira pela qual eles podem guiar mais gentilmente a aten\u00e7\u00e3o dos participantes \u2013 tanto nas sess\u00f5es formais quanto, talvez ainda de forma mais potencializada, nas sess\u00f5es de discuss\u00e3o que geralmente \u00e9 seguida das pr\u00e1ticas. O uso consciente de linguagem e significado conceitual para alertar os participantes quanto \u00e0 tem\u00e1ticas Implicacionais pode ajudar os participantes: (1) na gera\u00e7\u00e3o de tem\u00e1ticas salubres que surgem de modo mais expl\u00edcito quando o momento exige; (2) a relembrar destas experi\u00eancias de tempo em tempo \u2013 reconduzir o participante a momentos anteriores da sess\u00e3o, por exemplo, e ent\u00e3o ajuda-lo a manter certas tem\u00e1ticas vivas na sua mem\u00f3ria de trabalho Implicacional.<br \/>\nA import\u00e2ncia relativa destas tr\u00eas vias \u00e9 pass\u00edvel de mudan\u00e7a conforme as diferentes aspira\u00e7\u00f5es dos praticantes. A tradi\u00e7\u00e3o Budista integra todas as tr\u00eas vias em seu uso de <em>mindfulness<\/em> no Nobre Caminho \u00d3ctuplo. Isto se torna necess\u00e1rio quando o objetivo da pr\u00e1tica, um tanto elevado como \u00e9 o caso aqui, \u00e9 a liberdade completa e definitiva de <em>dukkha<\/em>. Tamb\u00e9m parece ser o caso de que todas as tr\u00eas vias contribuem quando os pacientes relatam ter descoberto um novo jeito de ser, ou quando pacientes com depress\u00e3o cr\u00f4nica relatam mudan\u00e7as de vis\u00e3o quanto a sua rela\u00e7\u00e3o com a depress\u00e3o.<br \/>\nEm contrapartida, pode haver outras \u00e1reas nas quais a primeira via sozinha \u00e9 suficiente. Por exemplo, pode ser suficiente oferecer \u00e0 clientes e pacientes as habilidades de romper com padr\u00f5es mentais auto-perpetuantes circunscritos relativamente, como quando pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es corporais alimentam uns aos outros em ciclos fechados.<br \/>\nSe formos capazes de identificar as vias para mudan\u00e7a que s\u00e3o mais relevantes \u00e0 problemas em espec\u00edfico, conseguiremos encontrar, por exemplo, problemas que podem ser trabalhados com o treino da aten\u00e7\u00e3o apenas, no qual interven\u00e7\u00f5es simples s\u00e3o oferecidas. Instrutores mais bem qualificados, escassos como s\u00e3o, poderiam, ent\u00e3o, focar em clientes e pacientes que exigem uma abordagem mais exaustiva, transformando o sofrimento atrav\u00e9s de todas as vias descritas.<br \/>\nPor fim, a nossa distin\u00e7\u00e3o entre mudan\u00e7a Proposicional e Implicacional, e a hip\u00f3tese de que a mudan\u00e7a Implicacional \u00e9 mais importante, refor\u00e7a a mensagem dos ensinamentos Budistas tradicionais: a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento surge como um resultado da mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es que o criam e sustentam, e n\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o de qualquer coisa por um esfor\u00e7o de vontade.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nALLEN, M., A. BROMLEY, W. KUYKEN, e S. J. SONNENBERG. 2009. <em>Participants\u2019 experience of mindfulness-based cognitive therapy: \u2018It changed me in just about every way possible.<\/em>\u2019 Behavioural and Cognitive Psychotherapy 37: 413\u201330.<\/br><br \/>\nBAARS, B. J., e S. FRANKLIN. 2003. <em>How conscious experience and working memory interact<\/em>. Trends in Cognitive Sciences 7: 166\u201372.<\/br><br \/>\nBADDELEY, A. 2000. <em>The episodic memory buffer: A new component of working memory?<\/em> Trends in Cognitive Sciences 4: 417\u201323.<\/br><br \/>\nBARNARD, P. J., e J. D. TEASDALE. 1991. <em>Interacting cognitive subsystems: A systemic approach to cognitive-affective interaction and change.<\/em> Cognition and Emotion 5: 1\u201339.<\/br><br \/>\nBATCHELOR, M. 2011. <em>Meditation and mindfulness<\/em>. Contemporary Buddhism 12: 157\u2013164.<\/br><br \/>\nDAVIDSON, R. J., J. KABAT-ZINN, J. SCHUMACHER, M. ROSENKRANZ, D. MULLER, S.F. SANTORELLI, F. URBANOWSKI, A. HARRINGTON, K. BONUS, e J.F. SHERIDAN. 2003. <em>Alterations in brain and immune function produced by mindfulness meditation. <\/em>Psychosomatic Medicine 65: 564\u201370.<br \/>\nDREYFUS, GEORGES. 2011. <em>Is mindfulness present-centered and non-judgmental? A discussion of the cognitive dimension of mindfulness<\/em>. Contemporary Buddhism 12: 41\u201354.<br \/>\nFARB, N. A. S., Z. V. SEGAL, H. MAYBERG, J. BEAN, D. MCKEON, Z. FATIMA, e A. K. ANDERSON. 2007. <em>Attending to the present reveals distinct neural modes of self-reference<\/em>. Social Cognitive and Affective Neuroscience 2: 313\u201322.<br \/>\nHAYES, S. C., K. G. WILSON, K. STROSAHL, E. V. GIFFORD, e V. M. FOLLETTE. 1996. <em>Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment<\/em>. Journal of Consulting and Clinical Psychology 64: 1152\u201368.<br \/>\nKABAT-ZINN, J. 1990. <em>Full catastrophe living<\/em>. New York: Dell.<br \/>\nSEGAL, Z. V., J. M. G. WILLIAMS, e J. D. TEASDALE. 2002. <em>Mindfulness-based cognitive therapy for depression: A new approach to preventing relapse<\/em>. New York: Guilford Press.<br \/>\nSHAPIRO, S. L., L. E. CARLSON, J. A. ASTIN, e B. FREEDMAN. 2006. <em>Mechanisms of mindfulness<\/em>. Journal of Clinical Psychology 62: 373\u201386.<br \/>\nTEASDALE, J. D. 1993. <em>Emotion and two kinds of meaning: Cognitive therapy and applied cognitive science<\/em>. Behaviour Research and Therapy 31: 339\u201354.<br \/>\nTEASDALE, J. D. 1999. <em>Emotional processing, three modes of mind, and the prevention of relapse in depression<\/em>. Behaviour Research and Therapy 37: S53\u2013S77.<br \/>\nTEASDALE, J. D., e P. J. BARNARD. 1993. <em>Affect, cognition and change<\/em>. Hove: Lawrence Erlbaum Associates.<br \/>\nTEASDALE, J. D., e M. CHASKALSON. 2011. <em>How does mindfulness transform suffering? I: The nature and origins of Dukkha<\/em>. Contemporary Buddhism 12: 89\u2013102.<br \/>\nTEASDALE, J. D., Z. V. SEGAL, e J. M. G. WILLIAMS. 1995<em>. How does cognitive therapy prevent depressive relapse and why should attention control (mindfulness) training help?<\/em> Behaviour Research and Therapy 33: 25\u201339.<br \/>\nTHANISSARO, B. 2007. <em>The wings to awakening<\/em>. 5\u00aa ed. Barre, MA: Dhamma Dana Publications.<br \/>\nWATKINS, E. R. 2008. <em>Constructive and unconstructive repetitive thought<\/em>. Psychological Bulletin 134: 163\u2013206.<br \/>\nWATKINS, E., e J. D. TEASDALE. 2004. <em>Adaptive and maladaptive self-focus in depression<\/em>. Journal of Affective Disorders 82: 1\u20138.<br \/>\nWILLIAMS, J. M. G., J. D. TEASDALE, Z. V. SEGAL, e\u00a0 J. KABAT-ZINN. 2007. <em>The mindful way through depression<\/em>. New York: Guilford Press.<br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Na estrutura ICS apenas um tipo de mem\u00f3ria de trabalho pode ser \u201cdominante\u201d por vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John D. 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