{"id":8221,"date":"2020-07-16T00:44:19","date_gmt":"2020-07-16T00:44:19","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/como-mindfulness-transforma-o-sofrimento\/"},"modified":"2020-07-16T00:44:19","modified_gmt":"2020-07-16T00:44:19","slug":"como-mindfulness-transforma-o-sofrimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/como-mindfulness-transforma-o-sofrimento\/","title":{"rendered":"COMO MINDFULNESS TOMA CONSCI\u00caNCIA DO SOFRIMENTO? &#8211; John D. Teasdale e Michael Chaskalson"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>A NATUREZA E AS ORIGENS DE DUKKHA<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>John D. Teasdale<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Michael Chaskalson (Kulananda)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo. <\/strong>Este, o primeiro de dois artigos interligados, apresenta a an\u00e1lise do Buda quanto \u00e0 natureza e as origens de <em>dukkha<\/em> (sofrimento) enquanto uma base para a compreens\u00e3o das maneiras pelas quais <em>mindfulness<\/em> consegue transformar o sofrimento. A Primeira e a Segunda Nobre Verdade do Buda s\u00e3o apresentadas de modo que se provou \u00fatil aos professores de aplica\u00e7\u00f5es com base em <em>mindfulness<\/em>. Estas Verdades oferecem uma estrutura de compreens\u00e3o que pode guiar a aplica\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> em situa\u00e7\u00f5es de estresse e dist\u00farbios emocionais, mantendo a \u00eanfase na continuidade e inevitabilidade da experi\u00eancia de <em>dukkha<\/em> em clientes, professores e todos aqueles que buscam um novo modo de ser. O envolvimento crucial da vis\u00e3o de si pr\u00f3prio e da identifica\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia s\u00e3o enfatizados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Este \u00e9 o primeiro de dois artigos interligados que discutem <em>mindfulness<\/em> e a transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento. Este primeiro artigo foca na apresenta\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise do Buda quanto \u00e0 natureza e as origens do sofrimento de maneira que se provou \u00fatil \u00e0queles que ensinam aplica\u00e7\u00f5es baseadas em <em>mindfulness<\/em> (como a MBSR e a MBCT). Ele \u00e9 baseado em uma palestra oferecida por John Teasdale sobre a Primeira e Segunda Nobre Verdade do Buda em um retiro voltado especificamente \u00e0 instrutores de MBSR\/MBCT no <em>Spirit Rock Meditation Center<\/em> em Dezembro de 2009.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>As Quatro Nobre Verdades<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Quando n\u00f3s observamos o primeiro principal ensinamento que o Buda concedeu depois do despertar, descobrimos que o que ele ofereceu, aquilo que ele julgou mais importante dizer aos outros a princ\u00edpio, foi, de fato, uma estrutura conceitual, uma estrutura de compreens\u00e3o. Este foi o ensinamento das Quatro Nobres Verdades (<em>Samyutta Nikaya <\/em>56:11)<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Nestas verdades, o Buda sintetizou em quatro postulados chave a compreens\u00e3o que permite aos outros despertarem, encontrarem maior liberdade e paz e felicidade definitivas, conforme ele mesmo fez.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estas verdades foram apresentadas muito mais como guias de conduta e a\u00e7\u00e3o a serem explorados, testados e examinados em nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia do que como artigos de f\u00e9 cega prontos para serem engolidos (Batchelor 1997). Por esta raz\u00e3o, muitos preferem chama-las de as Quatro Verdades Enobrecedoras \u2013 verdades que enobrecem aqueles que agem de acordo com elas.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda trilhou uma jornada existencial e espiritual. Conforme se conta, ele estava profundamente insatisfeito com a vida de prazeres que vinha conduzindo e partiu em busca de um modo de vida mais satisfat\u00f3rio. E, enquanto um gesto de compaix\u00e3o, ele ofereceu as Quatro Nobres Verdades como um guia para outros que tamb\u00e9m sentiam que h\u00e1 mais nesta vida do que o que se apresenta aos olhos.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Mas e quanto aos clientes e pacientes que procuram nossas aulas de <em>Mindfulness-based Stress Reduction <\/em>[Redu\u00e7\u00e3o do Estresse com Base em <em>Mindfulness<\/em>] (MBST) e <em>Mindfulness-based Cognitive Therapy <\/em>[Terapia Cognitiva com Base em <em>Mindfulness<\/em>] (MBCT)? Em sua maioria, eles buscam por al\u00edvio do estresse ou de suas depress\u00f5es cr\u00f4nicas e n\u00e3o pela resolu\u00e7\u00e3o de alguma enfermidade existencial. Como as Quatro Nobre Verdades podem ser relevantes \u00e0s suas quest\u00f5es?<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Parte da genialidade do Buda, e a raz\u00e3o pela qual seus ensinamentos s\u00e3o t\u00e3o relevantes aos nossos pacientes e clientes, \u00e9 que ele enxergou que os padr\u00f5es mentais que mant\u00e9m as pessoas presas em sofrimento emocional s\u00e3o, essencialmente, os mesmos padr\u00f5es mentais que separam todos n\u00f3s do florescimento de um modo de vida mais satisfat\u00f3rio. Estejamos n\u00f3s trabalhando para nos liberar de nossas perturba\u00e7\u00f5es emocionais, ou para realizar um novo jeito de viver, estaremos lidando fundamentalmente com os mesmos padr\u00f5es mentais.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O conceito principal aqui \u00e9 o de <em>dukkha<\/em>, uma palavra em P\u00e1li que n\u00e3o possui uma tradu\u00e7\u00e3o adequada para o portugu\u00eas [ou ingl\u00eas]. (P\u00e1li \u00e9 uma das antigas l\u00ednguas Indianas nas quais os ensinamentos do Buda foram inicialmente registrados) <em>Dukkha<\/em> \u00e9 frequentemente traduzida como sofrimento, mas esta tradu\u00e7\u00e3o pode gerar muitos enganos. Por esta raz\u00e3o, muitas pessoas preferem n\u00e3o traduzir <em>dukkha<\/em> e preservar o termo em P\u00e1li, n\u00e3o porque elas est\u00e3o enamoradas pelos jarg\u00f5es Budistas, mas para evitar as limita\u00e7\u00f5es da tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Dukkha<\/em> \u00e9 o foco central das Quatro Nobres Verdades. Este primeiro artigo vai focar primariamente nas primeiras duas verdades, que abordam a natureza e origens de <em>dukkha<\/em>. O segundo artigo trabalha a terceira e a quarta verdade, que focam na cessa\u00e7\u00e3o de <em>dukkha<\/em> e como \u00e9 poss\u00edvel realizar esta cessa\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Primeira Nobre Verdade<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Primeira Nobre Verdade identifica o problema. Sumedho (1992) expressa esta verdade de modo muito simples: \u201cExiste <em>dukkha<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Dukkha<\/em> contempla um vasto n\u00famero de experi\u00eancias \u2013 da ang\u00fastia intensa que experimentamos ao sofrer dores f\u00edsicas e emocionais at\u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o sutil de fadiga e inquietude existencial perante o mundo em que vivemos \u2013 o tipo de coisa que levou o Buda a abandonar sua vida de prazeres e procurar uma outra forma de viver.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todas as formas de <em>dukkha<\/em> cont\u00eam uma sensa\u00e7\u00e3o de insatisfatoriedade, de incompletude, uma sensa\u00e7\u00e3o de que, de alguma maneira, n\u00e3o estamos vivendo a vida em seu m\u00e1ximo potencial. Desde que n\u00f3s n\u00e3o detenhamos uma sensa\u00e7\u00e3o de completa paz, contentamento, tranquilidade e integridade, ent\u00e3o \u00e9 certo que <em>dukkha<\/em> est\u00e1 presente em algum n\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A exposi\u00e7\u00e3o de Sumedho quanto \u00e0 Primeira Verdade \u2013 Existe <em>dukkha<\/em> \u2013 nos recorda que <em>todos<\/em> os seres humanos n\u00e3o despertos partilham desta experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com frequ\u00eancia pode ser que n\u00f3s nos sintamos sozinhos entre a multid\u00e3o de seres, incapazes de resolver nossas vidas e descobrir o segredo da felicidade duradoura, conquanto que todos os outros parecem ter desvendado este enigma e estar bem resolvidos. Assim, pode ser que n\u00f3s acreditemos que este problema \u00e9 uma falha pessoal da nossa parte. E esta identifica\u00e7\u00e3o, obviamente, s\u00f3 torna a sensa\u00e7\u00e3o de insatisfatoriedade mais intensa.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda ceifou esta pessoaliza\u00e7\u00e3o de <em>dukkha<\/em> quando ele prop\u00f4s de maneira um tanto simples \u201cExiste <em>dukkha<\/em>\u201d \u2013 simplesmente esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s. N\u00e3o precisamos levar isto para o lado pessoal \u2013 n\u00e3o sou \u201ceu\u201d ou \u00e9 \u201cminha\u201d culpa; \u00e9 esta a condi\u00e7\u00e3o humana normal do estado n\u00e3o desperto.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De fato, como veremos adiante, a inevitabilidade de <em>dukkha<\/em> est\u00e1 imbricada na maneira como nossas mentes s\u00e3o estruturadas em nosso atual est\u00e1gio de desenvolvimento de consci\u00eancia. Uma vez que realizemos isto, a situa\u00e7\u00e3o pode se tornar curiosamente reconfortante \u2013 desde que, \u00e9 claro, saibamos que h\u00e1 a possibilidade de se libertar de <em>dukkha<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m n\u00e3o precisamos nos sentir sozinhos. Estamos todos dividindo este mesmo barco, n\u00e3o importando quem n\u00f3s formos \u2013 professores, pacientes, clientes ou mesmo as pessoas que cruzamos na rua. Todos n\u00f3s partilhamos destas duas coisas em comum \u2013 <em>dukkha<\/em>, e o desejo simples de ser feliz. Esta compreens\u00e3o pode nos ajudar a experienciar uma sensa\u00e7\u00e3o de maior conex\u00e3o e compaix\u00e3o perante todos os seres humanos.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda habilmente identificou tr\u00eas dom\u00ednios ou bases para <em>dukkha<\/em> (<em>Samyutta Nikaya<\/em> 38:14).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O primeiro dom\u00ednio de <em>dukkha<\/em> \u00e9 a insatisfatoriedade relacionada \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de sofrimento evidente e ordin\u00e1rio: dores f\u00edsicas, dores emocionais, experi\u00eancias que julgamos desagrad\u00e1veis, n\u00e3o conseguir aquilo que desejamos, ou nos separar daqueles que amamos.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estas s\u00e3o todas situa\u00e7\u00f5es nas quais experienciamos claramente sensa\u00e7\u00f5es desprazerosas. O Buda percebeu que sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou emocionais desagrad\u00e1veis ou desconfort\u00e1veis s\u00e3o todas inerentes \u00e0 vida. Em si mesmas, elas n\u00e3o s\u00e3o o problema. De fato, <em>dukkha<\/em> \u00e9 o sofrimento que n\u00f3s adicionamos \u00e0s experi\u00eancias desagrad\u00e1veis a partir do modo como nos relacionamos com elas. Geralmente \u00e9 este sofrimento, e n\u00e3o aquele das sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis em si mesmas, que \u00e9 a principal fonte de nossa infelicidade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conforme o pr\u00f3prio Buda:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Quando um ser destreinado \u00e9 tocado por uma sensa\u00e7\u00e3o (corporal) dolorosa, ele se preocupa, se angustia, bate no peito, chora e se perturba. Ele, portanto, experiencia dois tipos de sensa\u00e7\u00f5es \u2013 uma corporal e outra mental. \u00c9 como uma pessoa que \u00e9 atingida por uma flecha e, em seguida, j\u00e1 \u00e9 flechada novamente. Neste caso, a pessoa ir\u00e1 experienciar as sensa\u00e7\u00f5es causadas por duas flechadas. No entanto, no caso de um nobre disc\u00edpulo, um ser treinado, quando \u00e9 tocado por uma sensa\u00e7\u00e3o dolorosa, ele <\/em>n\u00e3o<em> se preocupa, se angustia, bate no peito, chora e se perturba. Assim, ele experiencia apenas <\/em>um <em>tipo de sensa\u00e7\u00e3o \u2013 a corporal, mas n\u00e3o a mental. \u00c9 como uma pessoa que \u00e9 atingida por uma flecha, mas que escapa da segunda flechada. Neste caso, a pessoa ir\u00e1 experienciar a sensa\u00e7\u00e3o causada por uma \u00fanica flechada<\/em>. (<em>Sallatha Sutta<\/em>)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A principal mensagem deste ensinamento \u00e9 a seguinte: ainda que as sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis e desconfort\u00e1veis sejam inevit\u00e1veis, <em>dukkha<\/em>, no sentido de sofrimento, \u00e9 opcional. E \u00e9 opcional porque somos n\u00f3s mesmos quem atiramos a segunda flecha!<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o, por exemplo, em casos de depress\u00e3o, a primeira flecha \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o simples de tristeza que \u00e9 transformada em um estado mais intenso e persistente de depress\u00e3o quando adicionamos a segunda flecha do pensamento ruminante.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Seres despertos ainda atravessam experi\u00eancias e sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis \u2013 a primeira flecha \u2013 mas, por terem aprendido a se relacionar mais habilmente com elas, eles n\u00e3o experienciam sofrimento \u2013 a segunda flecha.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aprender a n\u00e3o atirar esta segunda flecha, a como se relacionar mais habilmente com as sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis de modo a n\u00e3o criar <em>dukkha<\/em>, \u00e9 o principal foco de nossa pr\u00e1tica e o que n\u00f3s ensinamos nas aulas de MBSR e MBCT.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O segundo dom\u00ednio de <em>dukkha<\/em> \u00e9 a insatisfatoriedade diante da Mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s adorar\u00edamos que nossas experi\u00eancias de felicidade e prazer continuassem indefinidamente, mas elas n\u00e3o v\u00e3o. N\u00f3s adorar\u00edamos que nossas roupas rec\u00e9m compradas, carro do ano, se preservassem exatamente do mesmo jeito que no dia que n\u00f3s compramos, mas estas coisas v\u00e3o envelhecer, se desatualizar, estragar e desengon\u00e7ar. N\u00f3s adorar\u00edamos que nossas rela\u00e7\u00f5es amorosas continuassem t\u00e3o afetuosas e calorosas como no dia em que nos apaixonamos, mas inevitavelmente estas rela\u00e7\u00f5es ir\u00e3o atravessar altos e baixos e, eventualmente, os seres que amamos ir\u00e3o morrer. Todas estas mudan\u00e7as s\u00e3o uma outra base para <em>dukkha<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A mudan\u00e7a em si mesma n\u00e3o \u00e9 necessariamente o problema. Ela se torna um problema, uma base para o sofrimento, quando n\u00f3s n\u00e3o queremos que ela aconte\u00e7a, conforme iremos discutir na Segunda Nobre Verdade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O terceiro dom\u00ednio de <em>dukkha<\/em> \u00e9 a insatisfatoriedade diante da Condicionalidade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O nosso mundo e nossa experi\u00eancia s\u00e3o essencialmente inst\u00e1veis e condicionais. O que isto quer dizer \u00e9 que aquilo que acontece em nossos mundos internos e externos depende de uma gama enormemente complexa de condi\u00e7\u00f5es mutuamente interativas e cambiantes, muitas das quais n\u00f3s sequer temos consci\u00eancia sobre, e sobre as quais detemos pouco ou nenhum controle. Disto segue-se que nossa experi\u00eancia \u00e9 basicamente inst\u00e1vel; uma vez que n\u00f3s nunca seremos capazes de conhecer ou controlar todas as condi\u00e7\u00f5es que determinam se tal coisa ir\u00e1 ou n\u00e3o acontecer, n\u00e3o importa o quanto n\u00f3s tentemos, simplesmente n\u00e3o podemos confiar 100% que as coisas v\u00e3o acontecer de um determinado jeito.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por exemplo, em um retiro pode ser que n\u00f3s experimentemos uma medita\u00e7\u00e3o brilhante, sublime e bem-aventurada em nossa primeira sess\u00e3o do dia. N\u00f3s nos sentamos, ent\u00e3o, para a segunda sess\u00e3o e nos posicionamos exatamente da mesma maneira que na primeira sess\u00e3o. Contudo, desta vez, nossa mente est\u00e1 totalmente embaralhada e dispersa. E a raz\u00e3o para tanto \u00e9 que, por uma ou outra raz\u00e3o, um conjunto de condi\u00e7\u00f5es diferente est\u00e1 operando, e entre elas provavelmente est\u00e1 presente a sutil, talvez mesmo inconsciente, expectativa ou desejo de que esta sess\u00e3o seja t\u00e3o boa quanto a anterior.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Novamente, a instabilidade e condicionalidade da experi\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o o problema; elas se tornam uma fonte de sofrimento porque nossas mentes simplesmente n\u00e3o querem reconhecer as coisas da forma que s\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nossas mentes est\u00e3o ocupadas com conseguir aquilo que n\u00f3s desejamos, o que implica em estabelecer alguma sensa\u00e7\u00e3o de controle e previsibilidade perante nosso mundo externo e interno. Para tanto, parte de nossa mente reduz a enorme complexidade do mundo condicional a um n\u00edvel acess\u00edvel \u00e0 observa\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o em termos de padr\u00f5es complexos e mut\u00e1veis de condi\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, mas de \u201ccoisas\u201d independentes e existentes em si mesmas, dotadas de identidades com caracter\u00edsticas e propriedades fixas, est\u00e1veis e perenes.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por exemplo, ao inv\u00e9s de enxergar a experi\u00eancia de uma sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o em termos dos efeitos das muitas condi\u00e7\u00f5es interagindo entre si, nossas mentes se inclinam a perceber em termos de categorias simples como \u201cbom meditante\u201d versus \u201cmal meditante\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nossas mentes trabalham assim porque, em algumas \u00e1reas, de fato esta abordagem oferece uma sensa\u00e7\u00e3o maior de seguran\u00e7a e maneabilidade. Mas a realidade da instabilidade e condicionalidade b\u00e1sicas da exist\u00eancia dos fen\u00f4menos j\u00e1 prev\u00ea que h\u00e1 s\u00e9rios limites para as nossas capacidades de previs\u00e3o e controle seja do mundo ou de nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta incompatibilidade fundamental entre a maneira que nossas mentes enxergam as coisas e a verdadeira natureza da realidade \u00e9 um aspecto daquilo que no Budismo chamamos de \u201cignor\u00e2ncia\u201d, e esta ignor\u00e2ncia \u00e9 uma fonte profunda, substancial e onipresente de <em>dukkha<\/em>. \u00c9 neste sentido que dissemos que <em>dukkha<\/em> \u00e9 inevit\u00e1vel, dada a maneira com a qual nossas mentes est\u00e3o presentemente estruturadas.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um dos aspectos mais prejudiciais da ignor\u00e2ncia \u00e9 a tend\u00eancia que dela adv\u00e9m de nos identificarmos com os aspectos mut\u00e1veis e transit\u00f3rios de nossa experi\u00eancia \u2013 nosso humor, sentimentos, pensamentos \u2013 como se eles fossem partes de alguma esp\u00e9cie de identidade independente e inerentemente existente \u2013 um <em>self<\/em>. Disto estes aspectos passageiros se tornam \u201cmeus\u201d pensamentos, \u201cminhas\u201d emo\u00e7\u00f5es etc.; um reflexo de quem <em>eu<\/em> sou.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Iremos observar mais intimamente a maneira pela qual esta identifica\u00e7\u00e3o alimenta <em>dukkha<\/em> quando abordarmos a Segunda Nobre Verdade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conforme mencionamos, as Quatro Nobres Verdades pretendem ser linhas de conduta pr\u00e1ticas para a libera\u00e7\u00e3o e o despertar. Por este motivo, cada uma destas Verdades \u00e9 acompanhada de uma instru\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para a a\u00e7\u00e3o. Para a Primeira Nobre Verdade, a instru\u00e7\u00e3o \u00e9: \u201c<em>dukkha<\/em> deve ser integralmente compreendida\u201d. Aqui, no original em P\u00e1li, a palavra traduzida como \u201ccompreens\u00e3o\u201d (<em>parinneyam<\/em>) tem um sentido de \u201cconhecimento integral e absoluto \u2013 do in\u00edcio ao fim\u201d; n\u00e3o um mero conhecimento intelectual ou conceitual sobre o sofrimento, mas um <em>re<\/em>conhecimento a partir da intimidade direta e penetrante com a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s s\u00f3 poderemos fazer isso se estivermos preparados para nos abrir ao sofrimento e a insatisfatoriedade que experimentamos \u2013 deter a coragem de se aproximar de <em>dukkha<\/em>, permitir que ela seja tal qual \u00e9 conforme investigamos e entendemos sua natureza e a forma pela qual n\u00f3s a criamos e sustentamos. Este aspecto de se mover na dire\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias dif\u00edceis \u00e9, obviamente, central \u00e0 MBSR e outras abordagens relacionadas. \u00c9 daqui, da Primeira Nobre Verdade, que isto surgiu originalmente.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pois ent\u00e3o, este movimento na dire\u00e7\u00e3o do sofrimento com a inten\u00e7\u00e3o de compreende-lo plenamente \u00e9, por \u00f3bvio, muito diferente de nossas rea\u00e7\u00f5es habituais, que s\u00e3o movidas pelo querer se afastar do sofrimento o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Portanto, se pretendemos seguir esta recomenda\u00e7\u00e3o da Primeira Nobre Verdade, precisamos determinar e estabelecer uma inten\u00e7\u00e3o de nos aproximar do sofrimento com uma consci\u00eancia aberta, corajosa e interessada, de novo e de novo.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Primeira Nobre Verdade sugere que o sofrimento, se tomado de modo h\u00e1bil, na verdade \u00e9 o caminho a ser trilhado na jornada em busca de liberdade e felicidade e n\u00e3o o obst\u00e1culo. A partir da investiga\u00e7\u00e3o corajosa de nossas experi\u00eancias de sofrimento e insatisfatoriedade, surgem as condi\u00e7\u00f5es de descobrir as origens de <em>dukkha<\/em>, que s\u00e3o o foco da Segunda Nobre Verdade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<\/p>\n<p><strong>A Segunda Nobre Verdade<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 O grande insight oferecido pela Segunda Nobre Verdade \u00e9 o entendimento de que a causa de <em>dukkha<\/em> \u00e9 <em>tanha<\/em> \u2013 uma palavra P\u00e1li geralmente traduzida como anseio ou apego pelo desejo. Mas uma tradu\u00e7\u00e3o como \u201cdesejo\u201d gera uma s\u00e9rie de dificuldades. Ent\u00e3o, uma vez mais, assim como em <em>dukkha<\/em>, pode ser interessante n\u00e3o traduzir <em>tanha<\/em> e manter o uso do P\u00e1li \u2013 n\u00e3o em nossas aulas seculares de <em>mindfulness<\/em>, mas como parte da estrutura de nosso pr\u00f3prio entendimento.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 A ess\u00eancia fundamental de <em>tanha<\/em> \u00e9 ilustrada como se fosse uma sede insaci\u00e1vel \u2013 uma sede que nunca ser\u00e1 satisfeita, mas sobre a qual, tragicamente, nos sentimentos impelidos a continuar tentando saciar. \u00c9 esta combina\u00e7\u00e3o fatal de insaciabilidade do desejo e indisposi\u00e7\u00e3o de renunciar aos nossos objetos de desejo que cria sofrimento.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O apego ao desejo tem uma qualidade compulsiva \u2013 uma sensa\u00e7\u00e3o sutil (ou n\u00e3o t\u00e3o sutil) de que n\u00f3s <em>precisamos <\/em>que as coisas sejam de um jeito ou de outro. Esta compuls\u00e3o se reflete em nossa experi\u00eancia interna e linguagem, dominadas por um vocabul\u00e1rio l\u00e9xico e emocional de <em>necessidade, dever, obriga\u00e7\u00e3o, imprescindibilidade<\/em> e <em>se <\/em>(isso ou aquilo).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A mensagem principal, ent\u00e3o, da Segunda Nobre Verdade \u00e9 esta: a experi\u00eancia em si mesma n\u00e3o \u00e9 um problema \u2013 o problema est\u00e1 na nossa rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia &#8211;\u00a0 nossa necessidade de experienciar isto ou aquilo deste ou daquele jeito.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto uma mera ideia, a mensagem da Segunda Nobre Verdade n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil de apreender e relembrar. Mas para que esta verdade seja efetivamente liberadora, n\u00f3s precisamos incorporar sua compreens\u00e3o a n\u00edvel experiencial exatamente no momento em que encontrarmos sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. E isto pode ser um tanto dif\u00edcil. Quando somos confrontados com a realidade de uma dor intensa nos joelhos, cansa\u00e7o extremo ou tristeza profunda, \u00e9 muito f\u00e1cil enxergar o problema exatamente na experi\u00eancia em si. Da\u00ed ent\u00e3o n\u00f3s colocamos toda a nossa energia na tentativa de afastar estas sensa\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de explorar a nossa rela\u00e7\u00e3o com elas. E, da perspectiva da Segunda Nobre Verdade, \u00e9 precisamente esta rea\u00e7\u00e3o de precisar se afastar do desagrad\u00e1vel que cria o sofrimento.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O desafio, ent\u00e3o, \u00e9 incorporar a n\u00edvel experiencial nas lentes com as quais enxergamos e nos relacionamos com a nossa experi\u00eancia de mundo a compreens\u00e3o que ir\u00e1 nos permitir conviver com as sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis sem que sejamos enrijecidos pelo tensionamento e pela sofreguid\u00e3o. E o entendimento conceitual, ainda que n\u00e3o detenha em si mesmo o potencial de libera\u00e7\u00e3o, ocupa aqui um papel importante. Se n\u00e3o fosse assim, por que o Buda teria tido o trabalho de ensinar as Quatro Nobres Verdades do jeito que ensinou?<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 H\u00e1 algum tempo, um de n\u00f3s (JDT) teve uma experi\u00eancia que ilustrou muito claramente a rela\u00e7\u00e3o entre o entendimento intelectual e a incorpora\u00e7\u00e3o experiencial da Segunda Nobre Verdade enquanto um instrumento de libera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Eu estava no meio da prepara\u00e7\u00e3o de uma fala sobre a Segunda Nobre Verdade e vinha pensando muito sobre o assunto, at\u00e9 o ponto que, nas primeiras horas da manh\u00e3, me vi deitado na cama enquanto sobrevoavam pensamentos em minha mente a respeito da causa de dukkha ser a nossa rela\u00e7\u00e3o com as dificuldades, e n\u00e3o as dificuldades em si mesmas. E a\u00ed me dei conta, incomodado, que eu havia perdido algumas horas de sono. E, adivinhem, minha mente logo reagiu, pensando \u201ca n\u00e3o! Eu n\u00e3o quero ficar acordado por tantas horas, eu <\/em>preciso<em> dormir logo de uma vez!\u201d Pois ent\u00e3o, ainda que eu estivesse pensando e focado justamente na ideia de que o problema n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia em si mesma, mas sim a rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia, minha rea\u00e7\u00e3o imediata foi tentar resolver esta quest\u00e3o me livrando desta ins\u00f4nia indesejada, ao inv\u00e9s de olhar para como eu me relacionava com ela. Mas o crucial foi que, como a ideia da Segunda Nobre Verdade orbitava em minha mente naquele instante, logo surgiu o pensamento \u201cei, isto \u00e9 avers\u00e3o! O problema aqui \u00e9 mais a minha sensa\u00e7\u00e3o de que preciso dormir do que o fato de eu estar acordado\u201d. E, ent\u00e3o, guiado pelas minhas mem\u00f3rias acerca deste ensinamento, eu olhei com mais aten\u00e7\u00e3o para a minha experi\u00eancia e pude perceber de forma muito clara que a minha irrita\u00e7\u00e3o com estar acordado, e a qualidade um tanto obstinada da minha necessidade de voltar a dormir, \u00e9 que eram a fonte do meu desconforto e, ironicamente, o principal fator que me tirava o sono. E a partir desse claro vislumbre fluiu muito naturalmente um relaxamento daquela irrita\u00e7\u00e3o e da necessidade de resolver aquele problema. Eu conscientemente me amiguei daqueles momentos de ins\u00f4nia e dentro de um ou dois minutos j\u00e1 tinha voltado a dormir. <\/em>(Teasdale)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como essa hist\u00f3ria indica, a compreens\u00e3o conceitual das origens de <em>dukkha<\/em> n\u00e3o \u00e9, em si mesma, liberadora. Mas se esta compreens\u00e3o conceitual se mant\u00e9m fresca e viva na mente de modo que esteja dispon\u00edvel para adequar e modelar as lentes com as quais n\u00f3s de fato enxergamos e nos relacionamos com as experi\u00eancias dif\u00edceis, ent\u00e3o esta compreens\u00e3o pode se tornar um ingrediente vital na receita da libera\u00e7\u00e3o. Um dos motivos pelos quais estes ensinamentos repetem as mesmas mensagens fundamentais de novo e de novo \u00e9 para manter a compreens\u00e3o conceitual viva desta maneira. Eventualmente, depois de um n\u00famero suficiente de experi\u00eancias nas quais tomamos a compreens\u00e3o conceitual como apoio para guiar nossas lentes da experi\u00eancia, ficar\u00e1 estabelecida uma nova perspectiva da experi\u00eancia que pode continuar o trabalho pela libera\u00e7\u00e3o sozinha.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O principal problema de <em>tanha<\/em> \u00e9 que n\u00f3s simplesmente n\u00e3o conseguimos soltar nosso desejo e necessidade de que as coisas se desenrolarem de tal e tal jeito, mesmo que seja exatamente isso que cria o nosso sofrimento.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil abandonar o apego ao desejo? Para responder esta pergunta, nos atentemos mais detidamente aos tipos de desejo aos quais n\u00f3s nos apegamos e pelos quais, por consequ\u00eancia, sofremos.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda identificou tr\u00eas tipos \u2013 desejo por prazeres sensoriais, desejo de ser e desejo de n\u00e3o ser (<em>Digha Nikaya <\/em>22).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s nos apegamos ao desejo por experi\u00eancias agrad\u00e1veis com os sentidos \u2013 sabores, odores, texturas, cenas, sons, pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es (na psicologia Budista a mente \u00e9 compreendida como um sexto sentido).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em certo sentido, este desejo est\u00e1 enraizado em nossa constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e garantiu nossa sobreviv\u00eancia evolutiva. Mas esta hist\u00f3ria n\u00e3o acaba a\u00ed \u2013 em seres n\u00e3o humanos, estes desejos s\u00e3o saci\u00e1veis \u2013 a fome, a sede e o apetite sexual podem ser satisfeitos.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas a nossa constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de fato garante que os prazeres sensoriais nunca sejam duradouros \u2013 por exemplo, a primeira mordida de um bolo de chocolate pode nos trazer imenso prazer, conquanto que a segunda e terceira mordidas trazem um pouco menos, a segunda e terceira fatia ainda menos, e se continuarmos comendo o bolo at\u00e9 o fim, podemos nos dar conta que aquilo que era inicialmente uma fonte de prazer pode rapidamente se tornar uma fonte de desconforto e repulsa. E, se repet\u00edssemos esta experi\u00eancia diariamente, ir\u00edamos descobrir que at\u00e9 a primeira mordida progressivamente perderia seu apelo. Por este motivo, o prazer sensorial simplesmente nunca ser\u00e1 capaz de oferecer a felicidade duradoura que almejamos \u2013 esta sede \u00e9 insaci\u00e1vel pelos seus pr\u00f3prios meios.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 o envolvimento sutil de uma vis\u00e3o de si que torna t\u00e3o dif\u00edcil abandonar certas coisas. A centralidade deste <em>self<\/em> nos apegos e na avidez se torna ainda mais clara quando nos voltamos para os dois tipos de <em>tanha<\/em> \u2013 o anseio de ser e o anseio de n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O apego ao desejo de ser ou de existir tem dois aspectos. O mais b\u00e1sico \u00e9 o apego ao desejo de existir no sentido de sobreviver, de estar vivo, de continuar a existir enquanto este fen\u00f4meno que chamamos de <em>self<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existe ainda o apego ao desejo de ser ou nos tornar determinados tipos de <em>self<\/em> \u2013 seja em um n\u00edvel mais amplo, como um <em>self<\/em> que \u00e9 amado, um <em>self <\/em>que \u00e9 respeitado, um <em>self <\/em>que \u00e9 gentil, um <em>self<\/em> que \u00e9 competente e faz as coisas bem, um <em>self<\/em> que \u00e9 um bom meditante, um <em>self<\/em> que \u00e9 bem-sucedido, ou em um n\u00edvel mais espec\u00edfico, como um <em>self<\/em> que ter\u00e1 uma boa sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o no dia de hoje, um <em>self <\/em>que completou sua lista de afazeres, um <em>self<\/em> que vai oferecer uma palestra que ser\u00e1 bem recebida.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este \u00e9 o reino da consecu\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o e ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 O terceiro dom\u00ednio do anseio \u00e9 o apego ao desejo de n\u00e3o ser, ou de n\u00e3o existir ou atravessar determinadas experi\u00eancias. Ao contr\u00e1rio das outras duas formas de <em>tanha<\/em>, este \u00e9 um anseio negativo: uma necessidade de ter paz ou al\u00edvio diante do sofrimento por meios de uma n\u00e3o exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim como no apego positivo que \u00e9 o anseio de ser, o anseio negativo por n\u00e3o ser tem uma forma ampla e uma espec\u00edfica.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A n\u00edvel mais amplo, existe o apego ao desejo de n\u00e3o existir, de desaparecer \u2013 de sair de determinada circunst\u00e2ncia, colocar a cabe\u00e7a embaixo das cobertas e ficar l\u00e1 e, em seu extremo, de se suicidar. Mais comumente temos o n\u00edvel espec\u00edfico, no qual h\u00e1 um apego ao desejo de n\u00e3o ser ou se manifestar enquanto um determinado tipo de <em>self \u2013 <\/em>n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que atravessa certas experi\u00eancias, por exemplo, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que se mant\u00e9m acordado rolando na cama no meio da noite, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que sente-se triste, amedrontado ou raivoso, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que falha com os outros, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que tem dores nos joelhos e nas costas, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que tem uma mente que vagueia progressivamente enquanto tenta meditar, n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que ainda tem diversas coisas por fazer em uma lista de afazeres etc.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voc\u00ea provavelmente percebeu que, assim como quando ilustramos o anseio de ser, inclu\u00edmos na frase a estrutura \u201cn\u00e3o ser um <em>self<\/em> que\u201d e a raz\u00e3o para tanto \u00e9 que, com respeito a cria\u00e7\u00e3o de <em>dukkha<\/em>, h\u00e1 uma diferen\u00e7a sutil, mas absolutamente crucial entre o simples desejo de n\u00e3o ter uma certa experi\u00eancia e o desejo de n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que atravessa esta experi\u00eancia. \u00c9 este envolvimento do <em>self<\/em> que torna t\u00e3o dif\u00edcil abandonar certas experi\u00eancias. Podemos ilustrar isso retornando ao exemplo da sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se somos capazes de focar na sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o enquanto uma experi\u00eancia e de lembrar a condicionalidade fundamental de todas as experi\u00eancias, ent\u00e3o conseguiremos reconhecer como o desenrolar de uma sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o em um retiro ser\u00e1 determinada por uma ampla gama de fatores como o qu\u00e3o cansados estamos, quanta dor corporal estamos experienciando, o que sustent\u00e1vamos em mente no in\u00edcio da sess\u00e3o, qual o dia do retiro, o quanto estamos comparando nossa experi\u00eancia dessa sess\u00e3o com a sess\u00e3o anterior, o qu\u00e3o gentis somos com n\u00f3s mesmos e assim por diante.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se conseguirmos reconhecer a condicionalidade de nossa experi\u00eancia nestes termos, podemos sentir certa decep\u00e7\u00e3o pela improficuidade da sess\u00e3o, mas n\u00e3o iremos experienciar grande necessidade de que as coisas n\u00e3o sejam desse jeito e n\u00e3o iremos nos preocupar com pensamentos que questionam o que tem de errado conosco ou com nossa medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0A situa\u00e7\u00e3o seria um tanto diferente se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos apegados ao desejo de n\u00e3o ser o tipo de <em>self <\/em>cujas sess\u00f5es de medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e3o certo. Uma vez que esta dimens\u00e3o egoica se apresenta, a experi\u00eancia de uma sess\u00e3o perturbada de medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais encarada como padr\u00f5es de condicionamento que vieram a se manifestar em determinada ocasi\u00e3o, mas em termos muito mais r\u00edgidos e vinculados aos aspectos gerais do <em>self<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As implica\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, s\u00e3o muito mais amplas e se estendem mais adiante no futuro, dependendo de como esta vis\u00e3o de si que \u00e9 incapaz de meditar se aninha na vasta estrutura de vis\u00f5es de si e modelos deste <em>self<\/em>. Uma possibilidade pode ser algo deste tipo: <em>\u201cesta foi uma sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o fracassada. Talvez eu seja o tipo de pessoa que nunca vai conseguir dominar essa tal medita\u00e7\u00e3o. Mas eu n\u00e3o posso ser assim, pois se este for o caso, eu n\u00e3o deveria estar ensinando outros a meditar, certo? Talvez eu simplesmente n\u00e3o seja o tipo de pessoa qualificada o suficiente para ensinar MBSR no fim das contas. Mas \u00e9 melhor eu n\u00e3o pensar assim, sen\u00e3o eu irei come\u00e7ar a me sentir uma pessoa in\u00fatil. E eu n\u00e3o posso me permitir ser in\u00fatil, sen\u00e3o eu nunca vou encontrar felicidade real e significativa&#8230;\u201d <\/em>e assim por diante.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s descrevemos esta situa\u00e7\u00e3o como um fluxo de pensamentos ordenado, mas pode muito bem ser o caso de que n\u00f3s n\u00e3o estejamos conscientes deste movimento mental; a mente pode se conduzir de modo um tanto impl\u00edcito e ainda assim isto ir\u00e1 nos afetar.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Nesta situa\u00e7\u00e3o, a distra\u00e7\u00e3o da mente durante uma sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 percebida enquanto uma experi\u00eancia isolada, surgindo a partir de uma constela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de condi\u00e7\u00f5es. Aqui, com o envolvimento do <em>self<\/em>, \u00e9 como se toda a felicidade futura e prop\u00f3sito de vida fossem amea\u00e7ados. Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpresa que sintamos uma necessidade t\u00e3o compulsiva de n\u00e3o ser o tipo de <em>self<\/em> que det\u00e9m estas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Poder\u00edamos conduzir uma an\u00e1lise similar para a pessoa que sofreu de depress\u00f5es recorrentes no passado, estando apegada a n\u00e3o ser um <em>self<\/em> que fica triste porque, com base em suas experi\u00eancias pr\u00e9vias, ser este tipo de <em>self<\/em> implica em ser um <em>self<\/em> que acaba por ficar severamente deprimido. Para uma pessoa assim, qualquer tristeza \u00e9 potencialmente amea\u00e7adora e deve ser evitada.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Podemos entender um pouco mais sobre a centralidade e o qu\u00e3o profundamente enraizado \u00e9 o nosso apego \u00e0 n\u00e3o ser determinados tipos de <em>self<\/em> se observarmos o medo de falar em p\u00fablico. Uma pesquisa feita com a popula\u00e7\u00e3o norte-americana (Bruskin Associates 1973) descobriu que o medo de falar em p\u00fablico \u00e9 o mais comum dentre todos os medos reportados, sendo indicado mais que o dobro de vezes que o medo da morte. O medo de falar em p\u00fablico reflete uma necessidade de n\u00e3o ser um <em>self <\/em>pass\u00edvel de cr\u00edticas degradantes ou humilha\u00e7\u00f5es. O que aparenta ser o caso \u00e9 que a experi\u00eancia de ver a n\u00f3s mesmos em uma situa\u00e7\u00e3o que danifica nossa vis\u00e3o identificada com um <em>self<\/em> digno de certo valor social (\u201ceu posso fazer papel de bobo\u201d; \u201ceu posso parecer idiota\u201d) \u00e9 considerada mais amea\u00e7adora do que a experi\u00eancia de morte do nosso corpo f\u00edsico. E isto n\u00e3o acontece porque vivemos em uma cultura relativamente segura, na qual o risco de morte imediata \u00e9 baixo \u2013 por extraordin\u00e1rio que pare\u00e7a, o pr\u00f3prio Buda listou o medo de falar em p\u00fablico enquanto um dos cinco medos que s\u00e3o abandonados quando a pessoa \u00e9 dotada dos quatro poderes da sabedoria, energia, uma vida imaculada e benefic\u00eancia, dois mil e quinhentos anos atr\u00e1s no Norte da \u00cdndia (Anguttara Nikaya 9:5; os Cinco Medos s\u00e3o: medo de n\u00e3o ter meios de subsist\u00eancia, medo da inf\u00e2mia, medo de ser constrangido em assembleias, medo da morte, e medo de um futuro infeliz).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 a identifica\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia com uma sensa\u00e7\u00e3o de um <em>self<\/em> perene que nos conduz a projetar o nosso sofrimento atual no futuro: <em>estou cansado, estou cansado de novo, parece que sempre me sinto cansado, eu sou uma pessoa exaurida que nunca vai aproveitar a vida em seu m\u00e1ximo potencial<\/em>. Um outro exemplo \u00e9 que podemos as vezes experimentar sensa\u00e7\u00f5es de dor, no joelho por exemplo, que parecem que n\u00e3o v\u00e3o cessar a n\u00e3o ser que fa\u00e7amos algo a respeito. Isto, outra vez, reflete nossa sensa\u00e7\u00e3o de \u201cser um <em>self <\/em>que sente dor\u201d ao inv\u00e9s de simplesmente experienciar a dor como \u00e9.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma vez que n\u00f3s nos apeguemos \u00e0 este desejo de n\u00e3o ser esse tipo de <em>self<\/em> que vive certas experi\u00eancias, nossa necessidade de evitar estas experi\u00eancias, a ansiedade que adv\u00e9m de estar sujeitos a elas, e o estresse que vem de efetivamente viv\u00ea-las, ir\u00e3o aumentar enormemente. Contudo, \u00e9 claro que, uma vez que a natureza das coisas \u00e9 como \u00e9, torna-se simplesmente imposs\u00edvel nunca passar pelas tais experi\u00eancias temidas, nunca ver a mente se dispersar em uma sess\u00e3o, nunca se sentir triste, dizer algo que nunca ser\u00e1 criticado etc. A sede de <em>tanha<\/em> \u00e9 insaci\u00e1vel \u2013 n\u00e3o importa o quanto n\u00f3s nos esforcemos, n\u00f3s nunca seremos capazes de satisfazer completamente a necessidade de n\u00e3o ser o <em>self<\/em> sujeito \u00e0 estas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas o que \u00e9 ainda pior \u2013 a necessidade compulsiva de evitar ser um determinado tipo de <em>self<\/em> gera grande alvoro\u00e7o na mente destinado \u00e0 prevenir que o resultado temido aconte\u00e7a ou limitar o preju\u00edzo quando ele acontecer. Este tipo de atividade reparativa s\u00f3 serve para refor\u00e7ar a sensa\u00e7\u00e3o de um <em>self<\/em> e trazer ainda mais vis\u00f5es a respeito deste <em>self<\/em> que precisam ser rejeitadas ou alcan\u00e7adas. E uma sensa\u00e7\u00e3o de <em>self<\/em> mais forte significa que as press\u00f5es de ser ou n\u00e3o alguma coisa se tornam ainda mais esmagadoras, o que acresce um novo giro nesta espiral viciosa. Este processo todo foi chamado de <em>selfing<\/em> por professores contempor\u00e2neos (Olendzki, A. 2005) ou, mais tradicionalmente, \u2018<em>tornar-se<\/em>\u2019 (<em>kammabhava<\/em>) (ver <em>Samyutta Nikaya<\/em> 12).<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 como se sofr\u00eassemos n\u00e3o s\u00f3 desta sede insaci\u00e1vel que nunca se satisfaz, mas como se ainda tom\u00e1ssemos \u00e1gua salgada na tentativa de alivi\u00e1-la, piorando a sede a cada gole.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s podemos identificar este processo em opera\u00e7\u00e3o em muitos padr\u00f5es mentais aversivos que caracterizam certos dist\u00farbios emocionais. A rumina\u00e7\u00e3o centrada em si na depress\u00e3o pode transformar o que seria apenas uma tristeza passageira em um estado mais intenso e persistente de depress\u00e3o. Preocupa\u00e7\u00f5es autocentradas podem transformar o que seriam apenas sensa\u00e7\u00f5es passageiras de medo em uma ansiedade cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que, ent\u00e3o, fazemos diante disso?<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pois ent\u00e3o, dado que a Segunda Nobre Verdade identifica a origem de <em>dukkha<\/em> no apego ao desejo, segue-se que a instru\u00e7\u00e3o \u00e9: \u201co apego ao desejo deve ser abandonado\u201d. Do mesmo modo, a ess\u00eancia do ensinamento de Buda pode ser sintetizada na seguinte frase: \u201cnada deve ser apreendido ou agarrado enquanto \u201ceu\u201d ou \u201cmeu\u201d\u2019 (Budhadasa 1989, 138). Em outras palavras: n\u00e3o encare nada como pessoal.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Infelizmente, isto \u00e9 mais f\u00e1cil de dizer do que fazer. Mas \u00e9 neste posto que a condicionalidade da experi\u00eancia vem para nosso resgate.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda realizou a compreens\u00e3o simples, mas genial, de que se <em>dukkha<\/em> e os anseios s\u00e3o resultados de um conjunto de condi\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o eles ir\u00e3o cessar se estas condi\u00e7\u00f5es foram mudadas e deliberadamente remanejadas em uma nova organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E o que \u00e9 maravilhoso sobre o Buda \u00e9 que ele seguiu nesta proposta traduzindo esta compreens\u00e3o abstrata em a\u00e7\u00e3o na sua pr\u00f3pria vida. O que ele descobriu empiricamente \u00e9 o que est\u00e1 expresso na Terceira e na Quarta Nobre Verdade.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Terceira Nobre Verdade nos diz que a cessa\u00e7\u00e3o de <em>dukkha<\/em> \u00e9 poss\u00edvel e pode ser realizada atrav\u00e9s da cessa\u00e7\u00e3o do anseio.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Quarta Nobre verdade apresenta um programa de treinamento integrado, conhecido como o Nobre Caminho \u00d3ctuplo que nos permite aplicar o ensinamento. Este caminho \u00e9 composto por oito elementos, cada um refor\u00e7ando e integrando o anterior. Um destes elementos \u00e9 a <em>mindfulness<\/em> apropriada. Mas o caminho tamb\u00e9m inclui elementos relacionados com a compreens\u00e3o e a inten\u00e7\u00e3o, o comportamento \u00e9tico e dois outros aspectos da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O objetivo final do Nobre Caminho \u00d3ctuplo \u00e9 a cessa\u00e7\u00e3o final e absoluta de <em>dukkha<\/em>, em outras palavras o nibbana\/nirvana. Por\u00e9m, felizmente, tanto para n\u00f3s como para os clientes e pacientes de nossas aulas de MBSR e MBCT, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar at\u00e9 este momento para experienciarmos os benef\u00edcios de liberar nosso apego aos desejos. Conforme coloca o professor Tailand\u00eas Ajahn Chah: \u201cse voc\u00ea relaxa um pouco, voc\u00ea ter\u00e1 um pouco de paz. Se voc\u00ea relaxa muito, voc\u00ea ter\u00e1 muita paz. Se voc\u00ea relaxa completamente, voc\u00ea ter\u00e1 completa paz\u201d (Chah, Kornfield e Breiter 2004). Em outras palavras, seja o nosso objetivo primeiro a libera\u00e7\u00e3o do sofrimento superficial e evidente aqui e agora, seja ele a libera\u00e7\u00e3o de <em>dukkha<\/em> de uma vez por todas, o abandono do anseio e da avers\u00e3o \u00e9 o caminho para a paz. No segundo artigo desta s\u00e9rie, n\u00f3s vamos avaliar com mais profundidade como <em>mindfulness<\/em> apoia este processo de transforma\u00e7\u00e3o do sofrimento.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para concluir este artigo, iremos explorar a relev\u00e2ncia da estrutura conceitual descrita acima para os professores de MBSR e MBCT.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por que os professores de MBSR e MBCT devem conhecer a Primeira e a Segunda Nobre Verdade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quais as vantagens e benef\u00edcios para os professores de <em>mindfulness<\/em> em conhecer e compreender esta estrutura conceitual que apresentamos?<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta quest\u00e3o pode ser destrinchada em dois aspectos: (1) qual o benef\u00edcio de adotar <em>qualquer <\/em>estrutura conceitual para guiar o ensino de MBSR, MBCT etc.? (2) qual o benef\u00edcio de adotar <em>esta <\/em>estrutura conceitual oferecida pelo Buda nas Quatro Nobres Verdades?<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sem um sistema de compreens\u00e3o para guia-la, a aplica\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de <em>mindfulness<\/em> \u00e0 problemas de estresse, perturba\u00e7\u00f5es emocionais e similares acaba por se resumir ao ensino e aprendizado de uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas. Isto permite aos alunos aprenderem a controlar aspectos da sua aten\u00e7\u00e3o, que d\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de organizar e estabilizar a mente. Estes alunos, ent\u00e3o, aprenderiam habilidades de concentra\u00e7\u00e3o, similares \u00e0quelas oferecidas em outras pr\u00e1ticas de concentra\u00e7\u00e3o, como a medita\u00e7\u00e3o transcendental. Tudo isto \u00e9 ben\u00e9fico no acalmar e relaxar da mente.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No entanto, sem uma compreens\u00e3o da natureza do sofrimento que est\u00e3o experienciando, ou de como a <em>mindfulness<\/em> opera na redu\u00e7\u00e3o deste sofrimento (o que ser\u00e1 discutido no segundo artigo), nem os alunos e nem os professores t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de dar foco \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> de modo mais espec\u00edfico e efetivamente transformar o processo que d\u00e1 origem e sustenta o sofrimento. Sendo assim, pacientes e clientes estariam expostos apenas a uma parcela limitada do total de recursos terap\u00eauticos potencialmente dispon\u00edveis. E, ent\u00e3o, o impacto ben\u00e9fico dos programas de <em>mindfulness<\/em> pode acabar sendo menor do que poderia ser.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma outra limita\u00e7\u00e3o de trabalhar sem uma sistem\u00e1tica estruturada de compreens\u00e3o quanto \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do sofrimento e como <em>mindfulness<\/em> pode curar este sofrimento, \u00e9 que quando encontramos dificuldades ou obst\u00e1culos, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma b\u00fassola que nos guia para o pr\u00f3ximo passo adiante \u2013 tudo o que pode ser feito \u00e9 aplicar as mesmas t\u00e9cnicas mais intensamente, como que tentando \u201catropelar\u201d um bloqueio na estrada. Ademais, sem uma compreens\u00e3o subjacente que \u00e9 capaz de guiar e motivar, \u00e9 dif\u00edcil tanto para estudantes como para professores se comprometer com os aspectos mais desafiadores da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> \u2013 como por exemplo ficar \u201c\u00edntimo\u201d do sofrimento \u2013 os quais, de acordo com a an\u00e1lise que oferecemos, s\u00e3o justamente os expoentes do maior potencial para transforma\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas a longo prazo.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma vez que aceitemos a utilidade de se conduzir a partir de uma estrutura de compreens\u00e3o para guiar as aplica\u00e7\u00f5es de <em>mindfulness<\/em>, quais os pontos fortes da estrutura que descrevemos? Apontaremos tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Primeiro, trata-se de um sistema amplo: a an\u00e1lise oferecida pelas Nobres Verdades \u00e9 destinada \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o tanto em sofrimentos de menor monta at\u00e9 problemas de depress\u00e3o extrema e crise de p\u00e2nico. Esta amplitude ainda implica no seguinte: (1) ainda que professores e clientes ou pacientes estejam experimentando diferentes intensidades de sofrimento, os mecanismos subjacentes \u00e0 este sofrimento s\u00e3o os mesmos, o que permite aos professores explorarem sensa\u00e7\u00f5es de camaradagem e compaix\u00e3o por seus alunos, bebendo da fonte de suas experi\u00eancias para enriquecer sua abordagem de ensino de <em>mindfulness<\/em>; (2) alunos podem adquirir habilidades e compreens\u00e3o enquanto trabalham com sofrimentos \u201ccotidianos\u201d de menor intensidade que s\u00e3o diretamente relevantes no trabalho dos problemas mais intensos que eles desejam resolver; e (3) sua experi\u00eancia de pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> enquanto parte de um programa terap\u00eautico pode ajudar a abrir uma porta para que os pacientes e clientes se interessem em explorar a relev\u00e2ncia de <em>mindfulness<\/em> em outros campos de suas vidas.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Segundo, a vis\u00e3o de <em>dukkha<\/em> enquanto um fen\u00f4meno universal e inevit\u00e1vel dada a opera\u00e7\u00e3o e funcionamento de nossas mentes pode ajudar a reduzir a identifica\u00e7\u00e3o pessoal com o sofrimento, que, conforme observamos, \u00e9 um aspecto central na cria\u00e7\u00e3o do sofrimento conforme a an\u00e1lise do Buda. Se esta an\u00e1lise for correta, isso tamb\u00e9m significa que a sedutora jornada por <em>qualquer<\/em> \u201csolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida\u201d do problema do sofrimento (\u201cse apenas eu tivesse aquele\/a carro, casa, parceiro, carreira, apar\u00eancia, conhecimento, nacionalidade etc. eu seria feliz\u201d) estar\u00e1 sempre fadada ao fracasso. Se este for de fato o caso, \u00e9 bom que saibamos disso.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Terceiro, esta \u00e9 a estrutura de compreens\u00e3o que originalmente conduziu \u00e0 integra\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> como um componente central do programa integrado de redu\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento. Dois mil\u00eanios e meio de experi\u00eancia na aplica\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> neste contexto nos fornecem uma base inestim\u00e1vel para o refino e desenvolvimento do uso de <em>mindfulness<\/em> na cura do sofrimento. Evid\u00eancias n\u00e3o acad\u00eamicas dentro da tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m oferecem v\u00e1rios exemplos demonstrando que, quando guiada por esta estrutura de compreens\u00e3o das Quatro Nobre Verdades, <em>mindfulness<\/em> \u201cfunciona\u201d. A maior parte das evid\u00eancias mais recentes e sistem\u00e1ticas dentro do contexto da MBSR e MBCT que provam que <em>mindfulness<\/em> \u201cfunciona\u201d tamb\u00e9m adv\u00e9m de estudos nos quais os instrutores trabalhavam dentro de uma abordagem que, de um jeito ou de outro, se encaixava no sistema proposto pelo Buda.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p><em>Anguttara Nikaya<\/em>: NYANAPONIKA THERA, e BHIKKHU BODHI, trad. 2007. <em>Anguttara Nikaya Anthology: An anthology of discourses from the Anguttara Nikaya<\/em>. Kandy, Sri Lanka: Buddhist Publication Society.<\/p>\n<p>BATCHELOR, S. 1997. <em>Buddhism without beliefs: A contemporary guide to awakening<\/em>. New York: Riverhead Books. Ruskin Associates. 1973. In Spectra 9 (6): 4.<\/p>\n<p>BUDDHADASA, B. 1989. <em>Me and mine, selected essays of Bhikkhu Buddhadasa<\/em>. Edited and with an Introduction by Donald K. Swearer. Albany: State University of New York Press.<\/p>\n<p>CHAH, A., J. KORNFIELD, e P. BREITER. 2004. <em>A still forest pool: The insight meditation of Achaan Chah<\/em>. Wheaton, IL: Quest Books.<\/p>\n<p>D\u0131gha Nikaya: WALSHE M, 1987. <em>The long discourses of the Buddha: A translation of the Digha Nikaya<\/em>. Boston, MA: Wisdom Publications.<\/p>\n<p>OLENDZKI, A. 2005. <em>Self as verb: Unraveling the Buddha\u2019s teachings on how we construct ourselves<\/em>. Tricycle: the Buddhist Review, Summer 14 (4).<\/p>\n<p><em>Sallatha Sutta<\/em>: Samyutta Nikaya 36:6. Traduzido por Nyanaponika Thera. http:\/\/www.accesstoinsight.org\/tipitaka\/sn\/sn36\/sn36.006.nypo.html<\/p>\n<p><em>Samyutta Nikaya<\/em>: BODHI, B. 2000. <em>The connected discourses of the Buddha: A new translation of the Samyutta Nikaya<\/em>. Boston, MA: Wisdom Publications.<\/p>\n<p>SUMEDHO, A. 1992. <em>The Four Noble Truths<\/em>. www.buddhanet.net<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A NATUREZA E AS ORIGENS DE DUKKHA John D. Teasdale Michael Chaskalson (Kulananda) \u00a0 Resumo. Este, o primeiro de dois artigos interligados, apresenta a an\u00e1lise &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/como-mindfulness-transforma-o-sofrimento\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">COMO MINDFULNESS TOMA CONSCI\u00caNCIA DO SOFRIMENTO? &#8211; John D. 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