{"id":8219,"date":"2020-07-16T00:01:27","date_gmt":"2020-07-16T00:01:27","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/a-construcao-de-mindfulness\/"},"modified":"2020-07-16T00:01:27","modified_gmt":"2020-07-16T00:01:27","slug":"a-construcao-de-mindfulness","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/07\/16\/a-construcao-de-mindfulness\/","title":{"rendered":"A CONSTRU\u00c7\u00c3O DE MINDFULNESS &#8211; Andrew Olendzki"},"content":{"rendered":"<p><strong><br \/>\nResumo. <\/strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mindfulness<\/em> \u00e9 examinada usando o sistema <em>Abhidhamma<\/em> de classifica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos (dharmas) conforme encontrado na obra pali <em>Abhidhammattha-sangaha<\/em>. Neste modelo os fatores mentais constituintes do agregado das forma\u00e7\u00f5es (<em>sankhara<\/em>) s\u00e3o agrupados de modo a apresentar uma abordagem multifacetada \u00e0 pr\u00e1tica de desenvolvimento da mente. Portanto, todos os estados mentais envolvem certo conjunto de fatores mentais, enquanto outros se manifestam enquanto a mente \u00e9 treinada. Por\u00e9m, configura\u00e7\u00f5es salubres e insalubres podem se manifestar, e <em>mindfulness<\/em> \u00e9 um estado de experi\u00eancia constru\u00edda positivo bastante avan\u00e7ado. Sabedoria, o principal fator de transforma\u00e7\u00e3o no pensamento e pr\u00e1tica Budista, s\u00f3 surge mediante circunst\u00e2ncias especiais. Este sistema \u00e9 ent\u00e3o colocado frente a frente com a an\u00e1lise dos fen\u00f4menos proposta pelo <em>Abhidharmakosa<\/em> em S\u00e2nscrito, onde tanto <em>mindfulness<\/em> como sabedoria s\u00e3o entendidos como fatores universais, o que oferece uma base para um modo de desenvolvimento inatista; esta percep\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o criticada de um \u00e2ngulo construtivista<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um dos aspectos mais atraentes da extensa e expansiva tradi\u00e7\u00e3o Budista \u00e9 o sofisticado modelo de mente e corpo apresentado nos <em>Nikayas<\/em> do Can\u00f4ne P\u00e1li e sistematizado tanto na literatura <em>Abhidhamma <\/em>do Sul da \u00c1sia em P\u00e1li como no <em>Abhidharma<\/em> em S\u00e2nscrito do Noroeste da \u00cdndia e al\u00e9m. O Buda Hist\u00f3rico \u00e9, com certeza, a fonte da maior parte destas ideias, ainda que elas tenham sido desenvolvidas significativamente por muitos outros mestres com a passagem do tempo e a apropria\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o espiritual por novas comunidades. A an\u00e1lise e descri\u00e7\u00e3o exaustiva e detalhada desta experi\u00eancia presente nestes ensinamentos s\u00e3o de singular interesse \u00e0 pensadores modernos, tanto em raz\u00e3o de seu car\u00e1ter e tend\u00eancia emp\u00edricos, como devido a sua afinidade com o pensamento p\u00f3s-moderno. Enraizadas em pr\u00e1ticas meditativas yogicas tradicionais e articuladas com grande precis\u00e3o intelectual, elas oferecem uma perspectiva din\u00e2mica e orientada \u00e0 processos da experi\u00eancia enquanto uma s\u00e9rie de eventos cognitivos interdependentes, emergentes e cessantes a cada instante conforme os sentidos encontram dados ambientais e a mente constr\u00f3i um universo de significados para interpretar estas informa\u00e7\u00f5es e responder \u00e0 elas a n\u00edvel tanto emocional como comportamental. Ademais, este sistema de pensamento vai al\u00e9m da mera descri\u00e7\u00e3o, oferecendo uma orienta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para a potencializa\u00e7\u00e3o do bem-estar, que \u00e9 realizada a partir da supera\u00e7\u00e3o das compuls\u00f5es habituais derivadas da reatividade diante de prazer\/dor e do desenvolvimento de uma compreens\u00e3o efetiva da natureza da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este antigo conhecimento sobre como a mente e o corpo constroem a experi\u00eancia e como o sujeito pode usar este conhecimento para obter maior sa\u00fade e felicidade fundamenta a tradi\u00e7\u00e3o inicial do Budismo, mas foi gradualmente sendo relegado \u00e0 contextos acad\u00eamicos e meditativos mais restritos conforme o Budismo cresceu em popularidade, tomando rumos mais devocionais e culturalmente sincr\u00e9ticos. Tal conhecimento vem sendo redescoberto pela atual gera\u00e7\u00e3o de estudiosos e professores, e \u00e9 de uma import\u00e2ncia especial para as \u00e1reas contempor\u00e2neas voltadas ao estudo da experi\u00eancia humana e do desenvolvimento do bem-estar. Entre estes estudiosos se encontram cientistas cognitivos e psic\u00f3logos, e os muitos profissionais que dialogam com estas disciplinas. O pensamento Budista em seu contexto inicial emprega um vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico preciso em defini\u00e7\u00f5es, que pode ser \u00fatil na identifica\u00e7\u00e3o e deslindar dos obscurantismos da experi\u00eancia subjetiva. Ele tamb\u00e9m oferece um exame detalhado de mecanismos de aten\u00e7\u00e3o, que podem ser \u00fateis na circunscri\u00e7\u00e3o de uma defini\u00e7\u00e3o mais adequada de <em>mindfulness<\/em> e estados mentais vinculados, podendo mesmo sugerir meios de mensura\u00e7\u00e3o de n\u00edveis mais ou menos elevados de aten\u00e7\u00e3o. De valor singular \u00e0 agenda terap\u00eautica \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica destes ensinamentos na dire\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o e al\u00edvio do sofrimento, uma vez que os ensinamentos escalonam o processo em uma escala do estado mental aflitivo at\u00e9 um estado de profundo bem-estar independente de circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Aquilo que melhor caracteriza o modelo de mente e corpo expresso na literatura inicial do Budismo \u00e9 a decomposi\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em constituintes fenomenol\u00f3gicos chamados de <em style=\"color: #000000;\">dharmas<\/em>, e da organiza\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o destes <em style=\"color: #000000;\">dharmas <\/em>de diferentes maneiras, estruturando-os como partes com fun\u00e7\u00f5es e defini\u00e7\u00f5es delineadas de um sistema complexo e interdependente. Do mesmo modo que o mundo natural se manifesta de uma forma a determinado n\u00edvel escalar e de outra conforme examinamos com mais proximidade e profundidade, tamb\u00e9m o pensamento Budista entende que a maneira como vivemos a nossa experi\u00eancia comum, a n\u00edvel de macro-constru\u00e7\u00e3o, difere significativamente de seus processos constituintes a n\u00edvel micro, revelados a partir de uma investiga\u00e7\u00e3o minuciosa da mente concentrada. Por exemplo \u2013 pode ser facilmente demonstrado, tanto experiencial como neurologicamente, que aquilo que aparenta ser um fluxo ininterrupto de experi\u00eancias cont\u00ednuas e coerentes \u00e9, na verdade, uma s\u00e9rie de eventos mentais e sensoriais discretos, que surgem e cessam em r\u00e1pida sucess\u00e3o, sendo a sensa\u00e7\u00e3o de continuidade e coer\u00eancia narrativa fruto de nossa capacidade imaginativa mais desenvolvida. No n\u00facleo do discernimento Budista, est\u00e1 a discrep\u00e2ncia entre o que aparenta ser, que \u00e9 entendido enquanto uma compreens\u00e3o equivocada, ou ainda uma delus\u00e3o, e aquilo que \u00e9 tal qual, chamado de sabedoria.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Um dos aspectos centrais deste modelo, que \u00e9 raramente encontrado em modelos psicol\u00f3gicos ocidentais correspondentes, \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o qualitativa dos v\u00e1rios <em>dharmas<\/em> enquanto salubres e insalubres. As palavras usadas para esta caracteriza\u00e7\u00e3o (<em>kusala\/akusala<\/em> em P\u00e1li), podem ser traduzidas como \u201csaud\u00e1vel\u201d e \u201cn\u00e3o-saud\u00e1vel\u201d, desde que seu significado n\u00e3o determine um aspecto moral ou defini\u00e7\u00e3o normativa de \u201ccerto\u201d e \u201cerrado\u201d, mas sim que funcionem enquanto uma descri\u00e7\u00e3o de fatores que contribuem ou dificultam o resultado do bem-estar, redu\u00e7\u00e3o do sofrimento e a capacidade de compreens\u00e3o.\u00a0 As palavras tamb\u00e9m cont\u00eam uma dimens\u00e3o de \u201ch\u00e1bil\u201d e \u201cin\u00e1bil\u201d, o que demonstra que a pr\u00e1tica Budista de integridade (<em>sila<\/em>) \u00e9 entendida como uma habilidade que pode ser aprendida, pois mesmo o comportamento mais atroz e desconcertante \u00e9 evid\u00eancia n\u00e3o de uma natureza inerentemente m\u00e1, mas de uma falta de compreens\u00e3o. A centralidade deste ju\u00edzo \u00e9tico revela a extens\u00e3o do sistema inteiro, tanto nas origens presentes no <em>Nikaya<\/em>, como na continua\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do <em>Abhidhamma<\/em>, enquanto uma ferramenta para potencializar a transforma\u00e7\u00e3o pessoal e psicol\u00f3gica e n\u00e3o como um exerc\u00edcio intelectual de elabora\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Outro constituinte importante deste sistema \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o feita entre objeto de consci\u00eancia de um lado e a atitude ou envolvimento emocional com este objeto de outro.\u00a0 <em>O que<\/em> \u00e9 conhecido a partir da cogni\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 uma coisa; <em>como<\/em> \u00e9 conhecido \u2013 \u00e9 dizer, qual a qualidade da mente que conhece \u2013 \u00e9 outra completamente diferente. Portanto, muitos dos <em>dharmas<\/em> classificados no sistema Abhidhamma correspondem ao que, em outros contextos, podemos chamar de atitudes emocionais, e elas s\u00e3o importantes para compreender como a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 abordada no pensamento Budista em seu contexto inicial. Uma parte do treino em medita\u00e7\u00e3o tem a ver com aprender a focar a mente em um objeto em particular ou em uma s\u00e9rie de objetos emergentes, mas a maior parte do treino tem a ver com cultivar qualidades espec\u00edficas na mente atrav\u00e9s das quais os objetos s\u00e3o apreendidos. A tecnologia da aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de como o agregado da consci\u00eancia (<em>vinnana<\/em>) interage com o agregado da forma material (<em>rupa<\/em>), conforme as formas se manifestam nos \u00f3rg\u00e3os sensoriais do corpo e nos objetos percebidos no ambiente; contudo, o desenvolvimento de <em>mindfulness<\/em> e discernimento \u00e9 mais uma quest\u00e3o de como o agregado das forma\u00e7\u00f5es (<em>sankhara<\/em>) coemerge com os outros agregados. Isto deve ficar mais claro conforme examinamos os detalhes de como a experi\u00eancia \u00e9 constru\u00edda.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>A constru\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia<\/strong><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0A consci\u00eancia emerge e cessa a cada momento porque \u00e9 mais como um processo ou evento em passagem do que algo que existe enquanto um ente est\u00e1vel e identific\u00e1vel. Ela \u00e9 caracterizada pelo \u201cconhecer\u201d e, portanto, s\u00f3 pode surgir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 um objeto que \u00e9 conhecido e um \u00f3rg\u00e3o a partir do qual este objeto \u00e9 conhecido. Seis classes ou modalidades de consci\u00eancia s\u00e3o enumeradas, as quais correspondem a cinco \u00f3rg\u00e3os sensoriais (ocular, auditivo, olfativo, gustativo e t\u00e1til) e a mente enquanto o sexto elemento, assim como tamb\u00e9m temos cinco objetos sensoriais (formas, sons, odores, sabores e texturas) e como um sexto elemento temos o pensamento (objeto da mente). O ponto de partida ou funda\u00e7\u00e3o, portanto, de toda experi\u00eancia \u00e9 um epis\u00f3dio cognitivo dentro de uma ou outra destas seis modalidades, que ocorrem de novo e de novo em uma sequ\u00eancia temporal a qual nos referimos como fluxo de consci\u00eancia. Uma vez que a consci\u00eancia se manifesta na depend\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os sensoriais e objetos que est\u00e3o constantemente mudando, ela se encontra sempre \u201cse movimentando e oscilando, impermanente, mudando e transformando\u201d conforme a cita\u00e7\u00e3o.<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> Ademais, a consci\u00eancia n\u00e3o carrega nenhuma caracter\u00edstica sen\u00e3o o conhecimento ou cogni\u00e7\u00e3o de um objeto, de modo que todas as texturas e qualidades da experi\u00eancia s\u00e3o apoiadas por outras fun\u00e7\u00f5es mentais surgindo em diferentes combina\u00e7\u00f5es. Uma apreens\u00e3o detalhada, portanto, de um momento em particular da experi\u00eancia consiste primeiro em uma identifica\u00e7\u00e3o de qual dos seis modos de consci\u00eancia est\u00e1 operando (\u00e9 dizer, na depend\u00eancia de qual par de \u00f3rg\u00e3o-objeto) e, segundo, quais <em>dharmas<\/em> ou fatores constituintes est\u00e3o coemergindo com a consci\u00eancia para formatar a experi\u00eancia como um todo. Este procedimento de descri\u00e7\u00e3o de estados mentais est\u00e1 delineado nos <em>Nikayas<\/em> e \u00e9 consideravelmente refinado na literatura do <em>Abhidhamma<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao inv\u00e9s de nos engajar em uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica desta metodologia, que seria um desvio significativo de nosso destino, foquemos em um aspecto em particular deste mapeamento de <em>dharmas<\/em> \u2013 um aspecto que pode se provar \u00fatil \u00e0 compreens\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o e da fun\u00e7\u00e3o de <em>mindfulness<\/em>. Tratemos do agrupamento dos <em>dharmas<\/em> em diversas categorias, conforme eles emergem e cessam em um determinado instante de consci\u00eancia. De acordo com a an\u00e1lise do Abhidhamma, sintetizada no <em>Abhidhammatthasangaha<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, sete fatores mentais surgem juntos em todos os estados de consci\u00eancia, sendo, portanto, chamados de <em>universais<\/em>; seis outros fatores podem ou n\u00e3o estar presentes em um determinado instante de consci\u00eancia, sendo, portanto, chamado de <em>ocasionais<\/em>. Para al\u00e9m destes dois grupos, 39 outros fatores mentais s\u00e3o classificados entre <em>insalubres<\/em> e <em>salubres<\/em>, mas fatores de um destes grupos n\u00e3o ir\u00e3o surgir nunca em conjunto com os outros \u2013 eles s\u00e3o mutuamente exclusivos. Por fim, estes 39 estados s\u00e3o divididos em 4 <em>universais insalubres<\/em>; 10 <em>ocasionais insalubres<\/em>; 19 <em>universais salubres<\/em> e 6 <em>ocasionais salubres<\/em>. Portanto, de acordo com esta perspectiva, n\u00f3s detemos seis tipos diferentes de agrupamentos de fatores mentais que coemergem com a consci\u00eancia para dar forma e textura \u00e0 atitude ou emo\u00e7\u00e3o com a qual um objeto \u00e9 processado cognitivamente. Toda a extens\u00e3o de configura\u00e7\u00f5es individuais \u00e9 um tanto mais complexa que isso, mas estes seis agrupamentos b\u00e1sicos j\u00e1 servem como um modelo que, por assim dizer, delineia a experi\u00eancia mental em seis n\u00edveis de opera\u00e7\u00e3o, e s\u00e3o estes seis n\u00edveis que podem nos ajudar a compreender como a experi\u00eancia pode ser entendida em uma sequ\u00eancia gradual no \u00e2mbito da consci\u00eancia, em uma escala de menor aten\u00e7\u00e3o para maior aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os universais<\/em><br \/>\nA manifesta\u00e7\u00e3o mais simples da mente \u00e9 caracterizada pelos fatores mentais universais, inerentes a todos os momentos de consci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, de acordo com o Abhidhamma, que a consci\u00eancia se manifeste com menos do que sete fatores mentais, mas pode ser que ela se expresse com apenas estes sete e nenhum outro mais. Portanto, mesmo as formas mais austeras de consci\u00eancia incluem as fun\u00e7\u00f5es mentais de: <em>contato<\/em> entre consci\u00eancia, o objeto e \u00f3rg\u00e3o; <em>sensa\u00e7\u00e3o<\/em> que pode ser agrad\u00e1vel, desagrad\u00e1vel ou neutra; <em>percep\u00e7\u00e3o<\/em> do objeto enquanto algo que \u00e9 simbolicamente categorizado de acordo com a experi\u00eancia pr\u00e9via; <em>voli\u00e7\u00e3o<\/em> ou resposta intencional ao objeto, que produz karma; um n\u00edvel de <em>foco<\/em> que estabiliza um objeto de cada vez; uma qualidade coesiva de <em>vitalidade<\/em> mental que sustenta e apoia o funcionamento interdependente dos sete fatores; e a fun\u00e7\u00e3o da <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> que dirige os fatores associados na dire\u00e7\u00e3o de um objeto, como um leme d\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o de um barco. O fato de estes dharmas estarem sempre presentes significa que eles devem abarcar mesmo os estados mentais mais irrefletidos. N\u00f3s, portanto, estamos sempre exercitando algum tipo de aten\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o estejamos conscientes disso ou se o fazemos prestando aten\u00e7\u00e3o em um objeto diferente do que a princ\u00edpio n\u00f3s desejar\u00edamos estar prestando aten\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, a mente est\u00e1 sempre em foco em um \u00fanico objeto, mesmo em momentos completamente dispersos, ainda que o objeto sob a qual ela est\u00e1 focada mude de momento a momento. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos esta capacidade b\u00e1sica de foco e aten\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia mental coerente n\u00e3o seria, a princ\u00edpio, poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os ocasionais<\/em><br \/>\nPara al\u00e9m destes sete fatores universais, outros seis est\u00e3o listados que podem ou n\u00e3o surgir individualmente ou em conjunto. S\u00e3o eles: <em>pensamento aplicado<\/em>, atrav\u00e9s do qual o sujeito deliberadamente aplica sua aten\u00e7\u00e3o em um objeto a sua escolha; <em>pensamento preservado<\/em>, o fator mental que permite ao sujeito sustentar a aten\u00e7\u00e3o sobre um objeto no decorrer de v\u00e1rios instantes mentais; <em>decis\u00e3o<\/em>, um estado de engajamento confiante e entregue a um objeto; <em>energia<\/em>, um fator que cria sustenta\u00e7\u00e3o e suporte aos outros, trazendo um n\u00edvel mais elevado de interesse; <em>alegria<\/em>, a qualidade de entusiasmo elevado; e <em>impulso de a\u00e7\u00e3o<\/em>, um desejo de agir que n\u00e3o est\u00e1 fundado em apego ou ambi\u00e7\u00e3o, mas que impele a mente a iniciar uma a\u00e7\u00e3o adequada. Estes s\u00e3o os fatores que desenvolvemos quando treinamos em medita\u00e7\u00e3o, uma vez que o treino consiste em conscientemente direcionar a aten\u00e7\u00e3o e a sustentar em um objeto determinado, como por exemplo a respira\u00e7\u00e3o. A estabilidade de foco implica em decis\u00e3o, requer energia e pode resultar em alegria \u2013 o impulso permite ao meditante transitar sua aten\u00e7\u00e3o de uma parte do corpo para a outra, ou ainda na dire\u00e7\u00e3o do bem-estar de todas as criaturas ao seu redor, de modo a n\u00e3o se engajar em desejo ou compuls\u00e3o. Estes fatores podem nem sempre se manifestar do momento em que sentamos at\u00e9 o tocar do sino uma hora depois \u2013 do mesmo modo que um jogador de baseball est\u00e1 em jogo mesmo quando sentado como receptor ou esperando a bola como primeira base. Por\u00e9m, o sucesso do treinamento mental deliberado envolve, nem que por um instante, alguma combina\u00e7\u00e3o destes fatores mentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os universais insalubres<\/em><br \/>\nA quest\u00e3o quanto aos fatores ocasionais mencionados acima \u00e9 que eles s\u00e3o eticamente vari\u00e1veis, indicando que eles podem ser operantes em estados mentais salubres e insalubres. Todos os estados mentais insalubres ser\u00e3o compostos por mais quatro fatores universais: a<em> delus\u00e3o<\/em>, entendida como o n\u00e3o entendimento de verdades fundamentais sobre a experi\u00eancia, como a imperman\u00eancia, a n\u00e3o essencialidade e as causas do sofrimento; <em>inquietude<\/em>, enquanto um estado de agita\u00e7\u00e3o que balan\u00e7a a mente como vento sobre a \u00e1gua; a <em>suspens\u00e3o de consci\u00eancia, <\/em>que \u00e9 a inoper\u00e2ncia moment\u00e2nea do estado inerente de autopreserva\u00e7\u00e3o e respeito que nos impede de cometer a\u00e7\u00f5es mal direcionadas; <em>suspens\u00e3o de respeito<\/em>, que \u00e9 o desligamento do sentido inato de respeito \u00e0 direitos e opini\u00f5es de outros que mant\u00e9m nosso comportamento dentro de um grupo de normas socialmente convencionadas. Este \u00e9 o conjunto m\u00ednimo de fatores mentais que ir\u00e3o surgir na mente em qualquer instante de desvio de conduta, juntamente, \u00e9 claro, com os outros sete universais. No caso dos universais, \u00e9 tudo ou nada \u2013 quando a delus\u00e3o est\u00e1 presente, os outros tr\u00eas ir\u00e3o necessariamente se apresentar. Um ponto interessante desta an\u00e1lise \u00e9 que a inquietude \u00e9 sempre considerada insalubre, sugerindo que qualquer pr\u00e1tica que encoraje o relaxamento e a tranquilidade s\u00e3o inerentemente saud\u00e1veis. A redu\u00e7\u00e3o da inquietude da mente \u00e9 uma pr\u00e1tica transformativa e \u00fatil em si mesma, uma vez que naturalmente conduz \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de outros fatores coemergentes como a delus\u00e3o, purificando, portanto, o momento consciente das toxinas e impurezas que maculam a consci\u00eancia e a liberando da insalubridade. Outro ponto de interesse \u00e9 a sugest\u00e3o de que respeito e consci\u00eancia operam naturalmente enquanto uma esp\u00e9cie de sistema imunol\u00f3gico \u00e9tico, protegendo os indiv\u00edduos e a sociedade de a\u00e7\u00f5es prejudiciais a n\u00edvel greg\u00e1rio, sistema este que \u00e9 suprimido nos momentos em que a a\u00e7\u00e3o prejudicial \u00e9 conduzida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os ocasionais insalubres<\/em><br \/>\nConquanto a delus\u00e3o possa se manifestar em maneiras simples de modo a envolver apenas os quatro universais insalubres, o mais comum \u00e9 que a delus\u00e3o venha acompanhada de <em>avidez<\/em> e <em>\u00f3dio<\/em>, os outros dois componentes das tr\u00eas toxinas. No entanto, avidez e \u00f3dio de fato nada mais s\u00e3o que express\u00f5es opostas do mesmo impulso \u2013 o desejo. A avidez \u00e9 o desejo de querer, gostar ou permanecer apegado \u00e0quilo que \u00e9 prazeroso ou gratificante, conquanto que o \u00f3dio \u00e9 o desejo de n\u00e3o querer, n\u00e3o gostar ou mesmo ignorar ou destruir aquilo que \u00e9 desprazeroso e identificado com a dor. Sendo assim, avidez e \u00f3dio s\u00e3o mutuamente exclusivos e n\u00e3o podem surgir ao mesmo tempo em um momento mental. O sujeito pode experienciar delus\u00e3o e avidez, delus\u00e3o e \u00f3dio ou delus\u00e3o simplesmente, mas nunca experienciar\u00e1 avidez e \u00f3dio no mesmo instante. Quando aparenta ser este o caso, o modelo do Abhidharma entende que na verdade os dois est\u00e3o simplesmente se alternando um ap\u00f3s o outro em r\u00e1pida sucess\u00e3o, com a ilus\u00e3o de simultaneidade sendo constru\u00edda a n\u00edveis mais elevados de organiza\u00e7\u00e3o mental. Outros fatores insalubres que podem surgir em conjunto com a delus\u00e3o s\u00e3o <em>vis\u00e3o err\u00f4nea, orgulho, inveja, avareza, preocupa\u00e7\u00e3o, pregui\u00e7a, torpor <\/em>e <em>d\u00favida<\/em>. Uma forma de encarar estes insalubres \u00e9 como tons de cor misturados a partir das tr\u00eas cores prim\u00e1rias da avidez, \u00f3dio e delus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0Do ponto de vista da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a entre os dois grupos de universais e ocasionais insalubres \u2013 ambos est\u00e3o servindo como obst\u00e1culos \u00e0 serenidade e a clareza mental. Neles est\u00e3o inclu\u00eddos, por exemplo, a cl\u00e1ssica lista dos cinco impedimentos (desejo sensorial, m\u00e1 vontade, inquietude e remorso, pregui\u00e7a e torpor, d\u00favida), fatores mentais que precisam ser temporariamente abandonados para que a mente alcance um n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o inicial e comece o processo de atenua\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia conhecido como absor\u00e7\u00e3o meditativa (<em>jhana<\/em>). Para nossos prop\u00f3sitos \u00e9 suficiente dizer que muito pouco progresso na dire\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado enquanto alguns dos estados insalubres estiverem emergindo na experi\u00eancia, e aprender a abandonar estes estados \u00e9 uma parte fundamental do caminho. Por exemplo, ainda que seja importante ser capaz de perceber o emergir e o submergir de todos os estados mentais, capturar a sensa\u00e7\u00e3o de inc\u00f4modo (uma forma moderada de \u00f3dio \u2013 uma rejei\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 acontecendo) com uma atitude de inc\u00f4modo s\u00f3 ir\u00e1 refor\u00e7ar esta qualidade insalubre. Do mesmo modo, evitar, reprimir ou ainda querer afastar este inc\u00f4modo s\u00f3 ir\u00e1 garantir que ele vai retornar mais tarde com mais urg\u00eancia e intensidade. O caminho do meio entre aceitar e rejeitar a experi\u00eancia do inc\u00f4modo \u00e9 percebe-lo, entende-lo como o fator insalubre que \u00e9, e gentilmente relaxar a tens\u00e3o depositada sobre ele. Todos os outros estados insalubres precisam ser neutralizados do mesmo modo e ir\u00e3o apenas proliferar quando diante de outros estados insalubres.<\/br>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os universais salubres<\/em><\/br><br \/>\nEm conjunto, existem 19 fatores mentais que surgem simultaneamente em todos os momentos mentais salubres, e eles comp\u00f5e uma lista not\u00e1vel. <em>Mindfulness<\/em> \u00e9 um destes fatores, entendido como uma atitude ou posicionamento emocional diante de um objeto de consci\u00eancia. O sujeito reconhece um objeto com uma qualidade de aten\u00e7\u00e3o moldada a partir de <em>mindfulness<\/em>, isto \u00e9, de presen\u00e7a mental, n\u00e3o esquecimento e certa estabilidade de foco. Enquanto um fator salubre universal, <em>mindfulness<\/em> exclui a inquietude, delus\u00e3o e outros estados insalubres, e n\u00e3o pode surgir no mesmo momento que eles. Ela tamb\u00e9m \u00e9 um estado mental que surge para al\u00e9m de n\u00edveis mais b\u00e1sicos de aten\u00e7\u00e3o, inten\u00e7\u00e3o e foco uniforme, e que surge para al\u00e9m de fatores que ajudam a treinar a mente, como a aplica\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o sobre um objeto de consci\u00eancia determinado e a gera\u00e7\u00e3o de energia ou j\u00fabilo. Os fatores que surgem em conson\u00e2ncia com <em>mindfulness<\/em> em quaisquer circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m ajudam a defini-la e refinar como ela funciona na mente. \u00ad\u00ad\u00ad<em>N\u00e3o-avide<\/em>z e <em>n\u00e3o-\u00f3dio<\/em> ajudam a demonstrar que a aten\u00e7\u00e3o em <em>mindfulness<\/em> n\u00e3o se inclina a favor ou contra um objeto, mas expressa uma atitude de <em>equanimidade<\/em>. \u00c9 aqui que as defini\u00e7\u00f5es modernas de <em>mindfulness<\/em> encontram o sentido de n\u00e3o julgamento diante de um objeto e de aceita\u00e7\u00e3o das coisas tal qual s\u00e3o. Surgindo junto \u00e0 <em>mindfulness<\/em> est\u00e1 a dupla de guardi\u00f5es <em>consci\u00eancia<\/em> e <em>respeito<\/em>, que n\u00e3o est\u00e3o presentes em nenhum dos estados insalubres, assim como a <em>confian\u00e7a <\/em>ou <em>f\u00e9<\/em>, compreendida como uma seguran\u00e7a b\u00e1sica que adv\u00e9m da dispers\u00e3o das toxinas. Estes seis fatores emergentes com <em>mindfulness<\/em> s\u00e3o acompanhados de outros seis que podem ser aplicados em dois sentidos \u2013 na consci\u00eancia em si mesma e nos fatores mentais associados: <em>tranquilidade, leveza, maleabilidade, manuten\u00e7\u00e3o, profici\u00eancia <\/em>e <em>retid\u00e3o<\/em>. Estas podem ser encaradas como qualidades de <em>mindfulness<\/em>, formatando ainda mais a atitude com a qual o objeto ser\u00e1 conhecido a n\u00edvel consciente, quando se torna um objeto de um estado ciente plenamente atento, ao inv\u00e9s de um simples objeto consciente. Todos estes 19 fatores salubres universais ir\u00e3o surgir e desaparecer em grupo, n\u00e3o apenas na pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o formal, mas a qualquer momento que o sujeito se engaje em pensamentos, a\u00e7\u00f5es ou falas salubres. Portanto, <em>mindfulness<\/em> \u00e9 um estado mental que n\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1rio e pode surgir com frequ\u00eancia; a medita\u00e7\u00e3o <em>mindfulness<\/em>, por\u00e9m, envolve o cultivo deliberado em uma s\u00e9rie de momentos mentais.<br \/>\n<em>Os ocasionais salubres<\/em><br \/>\nO conjunto final de fatores a se considerar s\u00e3o aqueles que est\u00e3o fundados sobre os fatores salubres universais. Eles s\u00e3o seis, que s\u00f3 podem surgir se os 19 anteriores estiverem presentes, mas que podem ou n\u00e3o surgir juntos um do outro. Tr\u00eas deles s\u00e3o elementos do caminho \u00f3ctuplo; <em>fala correta, a\u00e7\u00e3o correta <\/em>e <em>meio de vida correto<\/em>. Torna-se um pouco dif\u00edcil determinar por que estes s\u00e3o fatores mentais, uma vez que aparentam ser descritivos de padr\u00f5es de comportamento e n\u00e3o estados psicol\u00f3gicos, mas eles s\u00e3o descritos como presentes na mente em qualquer momento no qual o sujeito se abst\u00e9m deliberadamente de agir negativamente em um dos tr\u00eas modos. Os outros dois s\u00e3o <em>compaix\u00e3o<\/em> e <em>alegria apreciativa<\/em>, dois dos quatro <em>brahma-viharasi <\/em>ou estados mentais ilimitados (os outros dois sendo bondade amorosa e equanimidade, ambos na lista dos universais salubres). Isto quer dizer que o sujeito pode ser simplesmente <em>mindful<\/em> \u2013 um estado que inclui benevol\u00eancia e equanimidade diante de um objeto \u2013 ou o sujeito pode ser <em>mindful<\/em> e ainda compassivo ou apreciativo, o que \u00e9 acrescido \u00e0 <em>mindfulness<\/em>. A compaix\u00e3o adiciona uma resposta emp\u00e1tica ao sofrimento, conquanto que alegria apreciativa adiciona uma resposta emp\u00e1tica \u00e0 boa fortuna ou felicidade. E, por fim, podemos incluir a <em>sabedoria<\/em> enquanto fator salubre ocasional. Sabedoria no pensamento Budista corresponde \u00e0 uma qualidade de compreens\u00e3o da natureza das experi\u00eancias, de vis\u00e3o clara da imperman\u00eancia, interdepend\u00eancia e impessoalidade de todas as coisas, assim como de observa\u00e7\u00e3o da origina\u00e7\u00e3o e cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento conforme ele se manifesta de momento a momento na experi\u00eancia. \u00c9 apenas quando o fator da sabedoria est\u00e1 presente que a medita\u00e7\u00e3o de discernimento realmente acontece, pois ainda que a <em>mindfulness<\/em> possa tomar sob sua aten\u00e7\u00e3o um objeto com equil\u00edbrio e foco, \u00e9 a compreens\u00e3o deste objeto que \u00e9 genuinamente transformadora. Conforme se expressa em uma met\u00e1fora, do mesmo modo que o segador segura um punhado de cevada em uma m\u00e3o e a foice em outra, o meditante sustenta a mente com a aten\u00e7\u00e3o e corta os obscurecimentos com a sabedoria.<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a> <\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Um modelo de aten\u00e7\u00e3o em camadas<\/strong><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\n\u00a0Com estes dados dispostos, podemos agora dar um passo para tr\u00e1s e observar qual padr\u00e3o emerge desta an\u00e1lise da experi\u00eancia. Qualquer que seja o n\u00famero de combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de fatores mentais mapeado neste modelo, nos parece \u00fatil fazer uso dos seis agrupamentos descritos acima e postular cinco (se unirmos os fatores insalubres em um \u00fanico grupo) n\u00edveis ou camadas de experi\u00eancia a serem identificados. Cada uma destas camadas representa um tipo geral de funcionamento mental cujos detalhes espec\u00edficos podem ser infinitamente vari\u00e1veis. Todo momento de consci\u00eancia ir\u00e1 surgir na correspond\u00eancia com um ou outro dos seis pares de \u00f3rg\u00e3os e objetos (olhos e formas, ouvidos e sons etc.), mas cada um ser\u00e1 adicionalmente acrescido por alguma combina\u00e7\u00e3o de fatores mentais seguindo as linhas destes agrupamentos. A depender de quais fatores mentais surgirem em conjunto com a consci\u00eancia, o reconhecimento do objeto ser\u00e1 direcionado, formatado e caracterizado a cada momento pela combina\u00e7\u00e3o em particular de fatores mentais.<\/br><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Em sua configura\u00e7\u00e3o mais b\u00e1sica, a mente tem apoio suficiente dos fatores mentais universais para conseguir reconhecer um objeto (utilizando <em>contato, aten\u00e7\u00e3o <\/em>e <em>vitalidade mental<\/em>), sustentar a aten\u00e7\u00e3o sobre este objeto (com a <em>voli\u00e7\u00e3o <\/em>e o <em>foco uniforme<\/em>), e compreender suas caracter\u00edsticas (<em>percep\u00e7\u00e3o<\/em>) e texturas (<em>sensa\u00e7\u00e3o<\/em>) suficientemente para produzir uma experi\u00eancia coerente. Desde que o sujeito n\u00e3o esteja morto, em coma ou em sono profundo, este n\u00edvel de mente est\u00e1 em funcionamento o tempo todo. Portanto, mesmo quando estamos divagando em pensamentos, divididos em v\u00e1rias tarefas ou pensando de modo desestruturado, estes fatores sempre cooperam para ajudar a guiar e apoiar a consci\u00eancia enquanto ela reconhece um objeto a partir de um \u00f3rg\u00e3o sensorial.\u00a0 Cada momento deste processo emerge, submerge e ent\u00e3o emerge uma vez mais, com todos os sete fatores trabalhando em conjunto para gerar significado a partir da torrente de est\u00edmulos que penetra nossa consci\u00eancia continuamente. Conforme os momentos de consci\u00eancia se alinham em um fluxo de consci\u00eancia, podemos ter a impress\u00e3o de que estamos deliberadamente escolhendo transitar nossa aten\u00e7\u00e3o de um objeto para o outro e, portanto, direcionar a presen\u00e7a da nossa consci\u00eancia, mas de fato o que se expressa a seguir neste fluxo \u00e9 condicionado por causas que condi\u00e7\u00f5es que est\u00e3o completamente fora do escopo do reconhecimento consciente. Em um segmento do fluxo da nossa consci\u00eancia, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel que uma imagem mental se encadeie a outra de maneiras que s\u00e3o condicionadas por mero h\u00e1bito, de modo que podemos nos engajar em padr\u00f5es de a\u00e7\u00f5es e comportamentos sobre os quais estamos completamente inconscientes. Paradoxalmente, ainda que a consci\u00eancia esteja sempre presente, n\u00f3s podemos estar completamente inconscientes deste fato.<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em um segundo n\u00edvel de experi\u00eancia, constru\u00eddo sobre a funda\u00e7\u00e3o deste primeiro, fun\u00e7\u00f5es que identificamos com a presen\u00e7a da consci\u00eancia come\u00e7am a entrar em cena. Quando a mente est\u00e1 deliberadamente posicionada sobre um objeto em particular (utilizando o <em>pensamento aplicado<\/em>), ao inv\u00e9s de vagueando por si pr\u00f3pria, ou fixada deliberadamente sobre um objeto de escolha (utilizando o <em>pensamento sustentado<\/em>), mesmo que esteja inclinada a se dispersar para outra dire\u00e7\u00e3o, ela se mant\u00e9m sujeita ao controle que aplicamos no processo e n\u00e3o est\u00e1 inteiramente condicionada por for\u00e7as inconscientes. Conforme fatores como <em>decis\u00e3o, energia, alegria <\/em>e <em>impulso de a\u00e7\u00e3o<\/em> s\u00e3o adicionados, uma sensa\u00e7\u00e3o de engajamento consciente se amplifica. \u00c9 neste n\u00edvel de funcionamento mental que o treinamento da mente se d\u00e1, e a concentra\u00e7\u00e3o aprimorada advinda da aplica\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00f5es espec\u00edficas se torna \u00fatil para o aprendizado de toda sorte de habilidades, tanto salubres quanto insalubres. O treinamento neste n\u00edvel de mente \u00e9 onde a maior parte da medita\u00e7\u00e3o, especialmente para iniciantes, acontece. Ao inv\u00e9s de permitir \u00e0 mente tomar qualquer dire\u00e7\u00e3o que seja, o praticante procura trazer e manter a aten\u00e7\u00e3o nas sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas associadas com a respira\u00e7\u00e3o, por exemplo, ou em uma frase que remeta \u00e0 bondade amorosa. Ou ent\u00e3o o praticante pode permitir \u00e0 mente que se disperse para l\u00e1 e para c\u00e1, atravessando os mais diversos tipos de objetos, mas ao mesmo tempo tentando trazer a consci\u00eancia ativada pela aplica\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o a cada uma das manifesta\u00e7\u00f5es desta s\u00e9rie de divaga\u00e7\u00f5es. Uma vez que \u00e9 necess\u00e1rio esfor\u00e7o para direcionar a mente em dire\u00e7\u00f5es particulares, este tipo de treinamento da mente pode parecer um trabalho duro por um bom tempo.<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O terceiro e quarto aspectos do funcionamento mental podem ser melhor encarados como dois aspectos do mesmo processo, uma vez que ambos lidam com o surgimento e cessa\u00e7\u00e3o dos estados insalubres. Sejam manifestos enquanto pura <em>delus\u00e3o<\/em>, como a que acontece quando estamos confusos ou perdidos, ou sejam movidos pelas for\u00e7as primitivas da <em>avidez<\/em> e do <em>\u00f3dio<\/em>, os estados insalubres s\u00e3o trabalhados na pr\u00e1tica Budista de modo similar. Quando eles s\u00e3o muito fortes, n\u00f3s somos capturados por sua for\u00e7a e agimos movidos por emo\u00e7\u00f5es e comportamentos que s\u00e3o prejudiciais aos outros e a n\u00f3s mesmos. Na maior parte do tempo, sequer estamos conscientes de que estamos sob o dom\u00ednio destes estados, caso em que os fatores universais est\u00e3o emergindo conjuntamente com os fatores insalubres sem a participa\u00e7\u00e3o dos fatores ocasionais. Em outras ocasi\u00f5es, os fatores ocasionais est\u00e3o presentes e da\u00ed agimos de maneiras negativas mesmo sabendo que elas s\u00e3o negativas. Um dos efeitos dos tr\u00eas venenos nestes estados \u00e9 que n\u00e3o nos importamos se estamos agindo negativamente e podemos mesmo nos sentir estimulados pelo poder e pela gratifica\u00e7\u00e3o oriundos destas emo\u00e7\u00f5es. Ainda em outras ocasi\u00f5es, podemos trazer a aten\u00e7\u00e3o para estes estados insalubres atrav\u00e9s do exerc\u00edcio do pensamento aplicado e sustentado, mas estas ferramentas acabam por ficar \u00e0 servi\u00e7o do estado insalubre e s\u00e3o agregadas \u00e0 delus\u00e3o. Portanto, o sujeito pode estar vividamente consciente do seu \u00f3dio, por exemplo, mas tal consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 transformativa e pode mesmo servir para perpetuar este \u00f3dio.<br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 no pr\u00f3ximo n\u00edvel que o poder transformativo da <em>mindfulness<\/em> se evidencia conforme recai sobre a experi\u00eancia. Conforme mencionado acima, a <em>mindfulness<\/em> e seus fatores associados modelam a consci\u00eancia de um objeto de modo muito diferente que a mera aten\u00e7\u00e3o. <em>Mindfulness<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas aten\u00e7\u00e3o aprimorada, mas a aten\u00e7\u00e3o que se tornou confiante, benevolente, equilibrada e fundamentalmente salubre. Sendo assim, ela n\u00e3o se sustenta apenas sobre os sete fatores mentais universais, como todos os outros estados mentais, mas tamb\u00e9m sobre os fatores ocasionais. A aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica (inclu\u00edda entre os universais) \u00e9 aumentada pela consci\u00eancia deliberadamente atenta (inclu\u00edda entre os ocasionais), e ent\u00e3o \u00e9 posteriormente refinada e desenvolvida pela aten\u00e7\u00e3o plenamente atenta [<em>mindful attention<\/em>], que \u00e9 sempre um universal salubre. Por exemplo, n\u00f3s respiramos o tempo todo e podemos ou n\u00e3o estar conscientes deste fato devido \u00e0 um sem n\u00famero de condi\u00e7\u00f5es. Quando nos distra\u00edmos por algum fen\u00f4meno, podemos nos perder da respira\u00e7\u00e3o; quando nos tornamos incapazes de respirar ou quando ficamos sem f\u00f4lego a aten\u00e7\u00e3o naturalmente recai sobre a respira\u00e7\u00e3o; no entanto, nestes casos nossa aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 quase que \u201ctrombando\u201d na respira\u00e7\u00e3o como que por acaso (ainda que, de acordo com a perspectiva Budista, sempre existe uma causa para a aten\u00e7\u00e3o ir na dire\u00e7\u00e3o que vai, n\u00e3o importando se estejamos ou n\u00e3o conscientes disso). Com o treino em medita\u00e7\u00e3o, o sujeito pode deliberadamente direcionar a sua aten\u00e7\u00e3o para a respira\u00e7\u00e3o, mas a qualidade desta aten\u00e7\u00e3o pode ainda ser um tanto ordin\u00e1ria, especialmente se ela se expande e contrai conforme a mente vagueia para todos os cantos do campo da experi\u00eancia fenom\u00eanica. Tal aten\u00e7\u00e3o direcionada pode ainda estar presente em estados mentais insalubres, como quando o sujeito respira pesadamente quando est\u00e1 furioso ou no processo de cometer um crime terr\u00edvel. Por\u00e9m, quando a forma salubre da aten\u00e7\u00e3o se manifesta \u2013 ou seja, <em>mindfulness<\/em> \u2013 a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 vista de um outro \u00e2ngulo, sustentada em uma base diferente e reconhecida com uma outra qualidade de mente. Nesta ocasi\u00e3o o tom emocional, o posicionamento da inten\u00e7\u00e3o e a atitude com o qual o sujeito contempla o objeto est\u00e1 enraizada na n\u00e3o-avidez, n\u00e3o-\u00f3dio e n\u00e3o-delus\u00e3o, o que efetivamente exclui da mente os seus opostos, os tr\u00eas venenos, e mesmo que o objeto de consci\u00eancia seja algo simpl\u00f3rio como a sensa\u00e7\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o, o momento \u00e9 profundamente transformador. Podemos ainda explorar circunst\u00e2ncias mais desafiadoras, como quando algu\u00e9m se encontra com raiva e \u00e9 capaz de trazer aten\u00e7\u00e3o para esta raiva, aplicando <em>mindfulness<\/em> sobre a raiva a transformando em um objeto mental, um eco dos momentos anteriores no fluxo consciente, e desempoderando a raiva como uma engrenagem que d\u00e1 movimento \u00e0 mente. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sustentar um estado de <em>mindfulness<\/em> e de raiva no mesmo momento, portanto quando a verdadeira <em>mindfulness<\/em> se expressa, a raiva j\u00e1 foi subjugada por completo e se torna apenas um rastro do estado de raiva que agora se apresenta como objeto da consci\u00eancia. Se a aten\u00e7\u00e3o salubre \u00e9 sustentada de momento a momento, o fluxo de consci\u00eancia por inteiro se torna purificado de suas toxinas naturalmente emergentes e as disposi\u00e7\u00f5es salubres s\u00e3o refor\u00e7adas, conquanto que suas contrapartidas insalubres se atrofiam. A <em>mindfulness<\/em> sobre os estados insalubres \u00e9 transformadora precisamente porque a qualidade insalubre da aten\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda por um posicionamento inteiramente salubre.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0O agrupamento final a se considerar \u00e9 o de fatores ocasionais salubres, que surgem a partir da funda\u00e7\u00e3o dos universais salubres. Aqui n\u00f3s nos deparamos com a sabedoria, que de acordo com nosso modelo n\u00e3o surge automaticamente com a <em>mindfulness<\/em>. \u00c9 poss\u00edvel, em outras palavras, experienciar a purifica\u00e7\u00e3o do fluxo mental atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o em <em>mindfulness<\/em> sem necessariamente compreender a natureza da experi\u00eancia a partir da sabedoria. A pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> amadurece at\u00e9 a medita\u00e7\u00e3o de discernimento quando o praticante percebe diretamente elementos como a imperman\u00eancia, o sofrimento e a aus\u00eancia de um <em>self<\/em> intr\u00ednseco no surgir e cessar dos objetos de consci\u00eancia. Uma vez mais, n\u00e3o importa de fato qual \u00e9 o objeto; \u00e9 o modo de compreens\u00e3o deste objeto que \u00e9 importante. A sabedoria neste modelo \u00e9 em si mesma t\u00e3o impermanente e t\u00eanue como qualquer outro elemento da mente e do corpo. Ela surge na presen\u00e7a de certas condi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pode ser sustentada se estas condi\u00e7\u00f5es mudarem mesmo que s\u00f3 um pouco. O praticante tende a experienciar a sabedoria em r\u00e1pidos vislumbres, que podem ser repetidos conforme a sua habilidade aumenta.<\/p>\n<p><strong>Medita\u00e7\u00e3o enquanto um processo<\/strong><\/br><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0O que este modelo oferece \u00e9 um modo de compreens\u00e3o estruturado do que acontece quando nos sentamos para praticar medita\u00e7\u00e3o. Na maior parte do tempo, o que temos \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o de uma forma rudimentar de aten\u00e7\u00e3o, conforme a mente registra as mudan\u00e7as do ambiente, como a de est\u00edmulos sonoros e visuais, ou ent\u00e3o se move de uma associa\u00e7\u00e3o \u00e0 outra de forma comum. A mente est\u00e1 constantemente mudando o foco de sua aten\u00e7\u00e3o de um objeto para o outro, e o sujeito \u00e9 capaz de guiar este processo a partir do exerc\u00edcio da voli\u00e7\u00e3o e da aten\u00e7\u00e3o para encorajar a mente a se engajar com um objeto em espec\u00edfico em detrimento de outros. As formas mais populares de estrat\u00e9gias de desenvolvimento pessoal envolvem este sentido b\u00e1sico de <em>mudan\u00e7a da mente<\/em> (1) a partir da condu\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o de uma coisa para a outra. O que os Budistas chamam de <em>treinamento da mente <\/em>(2) inicia com este compromisso de cultivar a aten\u00e7\u00e3o de modo mais direcionado e deliberado. O sujeito se torna gradualmente mais fluente no exerc\u00edcio de posicionamento da aten\u00e7\u00e3o sobre um objeto determinado por um determinado per\u00edodo de tempo. Se o sujeito est\u00e1 praticando a medita\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o pode se manter est\u00e1vel sobre um objeto por um per\u00edodo consider\u00e1vel, ou mesmo ser capaz de estabelecer um foco est\u00e1vel em uma longa s\u00e9rie de objetos cambiantes. Quando nos posicionamos assim, naturalmente os estados mentais insalubres ir\u00e3o surgir e cessar na experi\u00eancia, tanto aqueles contaminados por avidez e \u00f3dio, como aqueles meramente deludidos. O praticante ir\u00e1 treinar no abandono destes estados conforme eles s\u00e3o reconhecidos, seja imediatamente ap\u00f3s seu surgimento ou ap\u00f3s um longo comboio de pensamentos que nos conduz em seus trilhos. Abandonar estes estados mentais t\u00f3xicos depois que eles surgiram e proteger a mente do surgimento destes estados mentais t\u00f3xicos s\u00e3o pr\u00e1ticas Budistas importantes para a <em>purifica\u00e7\u00e3o da mente<\/em> (3). Em outros momentos, quando estas toxinas n\u00e3o mais se manifestam, a <em>mindfulness<\/em> pode surgir juntamente do grupo de fatores associados, e este processo tamb\u00e9m ir\u00e1 passar rapidamente ou se sustentar\u00e1 por m\u00faltiplos momentos mentais. As pr\u00e1ticas de <em>mindfulness<\/em> cumprem a fun\u00e7\u00e3o de <em>transforma\u00e7\u00e3o da mente<\/em> (4) fazendo, simultaneamente, bloquear todos os estados insalubres e desenvolver e fortalecer os estados salubres. E quando a <em>mindfulness<\/em> se torna est\u00e1vel o suficiente, as condi\u00e7\u00f5es para o amadurecimento da sabedoria tamb\u00e9m se apresentam e potencializam profundamente o efeito transformador da <em>mindfulness<\/em>, ainda que esta express\u00e3o mental possa colapsar t\u00e3o r\u00e1pido quanto surgiu. A sabedoria cumpre com a fun\u00e7\u00e3o de <em>libera\u00e7\u00e3o da mente<\/em> (5), tanto a curto prazo, quando os efeitos inconscientes da delus\u00e3o s\u00e3o neutralizados, como a longo prazo, quando as disposi\u00e7\u00f5es latentes na dire\u00e7\u00e3o da avidez, \u00f3dio e delus\u00e3o s\u00e3o removidas por completo da mente e n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es de alvorecer.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Nesta perspectiva, a mente n\u00e3o \u00e9 intrinsicamente contaminada ou pr\u00edstina. Ela \u00e9 capaz de funcionar neste n\u00edvel b\u00e1sico de consci\u00eancia que inclui as seis bases dos sentidos externas e as seis internas, as seis modalidades de consci\u00eancia correspondentes e os cinco agregados. Al\u00e9m disso, ela pode ser preenchida dos fatores mentais salubres e insalubres (ambos sendo forma\u00e7\u00f5es volitivas ou <em>sankharas<\/em>) em v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es diferentes, que servem para clarificar ou contaminar a qualidade de consci\u00eancia resultante. O treinamento da mente em geral, e o desenvolvimento de <em>mindfulness<\/em> e sabedoria em espec\u00edfico, ir\u00e3o otimizar o funcionamento da mente e culminar em sua transforma\u00e7\u00e3o, de modo que os estados insalubres se tornam incapazes de se manifestar e a mente se torna totalmente liberada do seu sofrimento. O processo se desdobra mais ou menos como a cl\u00e1ssica met\u00e1fora do l\u00f3tus, na qual as ra\u00edzes est\u00e3o na lama, os ramos crescem dentro da \u00e1gua e suas p\u00e9talas se abrem para o c\u00e9u.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Abhidhamma e Abhidharma<\/strong><\/br><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Tudo o que foi explorado at\u00e9 agora adv\u00e9m da perspectiva do <em>Abhidhamma<\/em> P\u00e1li, cujos textos emergiram e se estabilizaram nas escolas Budistas do sul e sudeste da \u00c1sia. Estes textos incluem trabalhos como os sete livros do <em>Abhidhamma-pitaka<\/em> e manuais posteriores como o <em>Abhidhammatthasangaha<\/em>. Existe ainda a tradi\u00e7\u00e3o paralela do <em>Abhidharma<\/em> S\u00e2nscrito, expressa em textos desenvolvidos nas escolas Budistas do norte e noroeste da \u00cdndia e ainda em outros locais. Nela tamb\u00e9m encontramos sete livros (um tanto diferentes, \u00e9 verdade) chamados <em>Abhidharma-pitaka<\/em> e compila\u00e7\u00f5es posteriores como o <em>Abhidharmakosa<\/em>. Na maior parte destes corpos textuais, encontramos grande similaridade e concord\u00e2ncia entre estas duas tradi\u00e7\u00f5es, que podem ser claramente entendidas como duas vertentes paralelas de desenvolvimento a partir de uma fonte mais ou menos comum. No entanto, na classifica\u00e7\u00e3o dos <em>dharmas<\/em> em agrupamentos de fatores universais e ocasionais salubres e insalubres h\u00e1 uma diverg\u00eancia muito interessante entre as duas tradi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se trata de uma diverg\u00eancia trivial, e ela toca a ess\u00eancia dos diferentes modelos de pr\u00e1tica e libera\u00e7\u00e3o que estas duas abordagens apresentam.<\/br><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0No <em>Abhidharmakosa<\/em>, os fatores mentais de <em>mindfulness <\/em>e <em>sabedoria<\/em> est\u00e3o contemplados nos fatores mentais universais e, portanto, encontram-se presentes, surgindo e cessando, em cada momento de consci\u00eancia.<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a> Eles presumivelmente s\u00e3o eclipsados e sobrepujados pelos fatores insalubres, mas, n\u00e3o obstante, permanecem subjacentes \u00e0 estes estados mentais. Este modelo, portanto, est\u00e1 alinhado com a perspectiva tardia do Budismo que entende que a mente j\u00e1 \u00e9 naturalmente desperta, inerentemente s\u00e1bia, mas com a pr\u00f3pria sabedoria habitualmente obscurecida por avidez, \u00f3dio e delus\u00e3o. A pr\u00e1tica, portanto, se torna um processo de desencobrir a natureza originalmente pura da mente ao inv\u00e9s de construir sabedoria e preparar o terreno com <em>mindfulness<\/em>.<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As implica\u00e7\u00f5es desta distin\u00e7\u00e3o s\u00e3o imensamente significativas, e claramente ultrapassam o escopo do que pode ser dito aqui. \u00c9 suficiente dizer que a inclus\u00e3o de <em>mindfulness<\/em> e sabedoria entre os fatores universais oferece um panorama para o chamado modelo \u201cinatista\u201d caracter\u00edstico da tradi\u00e7\u00e3o Budista tardia, em oposi\u00e7\u00e3o ao modelo \u201cconstrutivista\u201d adotado pela tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica (ver Dunne, 2011). Uma quest\u00e3o hist\u00f3rica que naturalmente se apresenta \u00e9 se as mudan\u00e7as filos\u00f3ficas do sistema Abhidharma foram anteriores ou posteriores \u00e0 emerg\u00eancia do modelo inatista do despertar. E uma quest\u00e3o doutrin\u00e1ria que naturalmente se apresenta \u00e9 se uma nova abordagem perante a pr\u00e1tica resultou em revis\u00f5es do sistema do Abhidharma, ou se os padr\u00f5es estabelecidos pelo Abhidharma sedimentaram o caminho para uma nova orienta\u00e7\u00e3o diante da pr\u00e1tica. Reafirmo que estas quest\u00f5es precisam ser trabalhadas em outro lugar, ainda que n\u00e3o seria surpresa se elas acabassem ficando presas na l\u00f3gica \u201covo ou galinha\u201d. Concluiremos, ent\u00e3o, com uma breve reflex\u00e3o sobre a abordagem inatista da perspectiva do modelo construtivista exposto acima.<\/p>\n<p><strong>Uma cr\u00edtica construtivista \u00e0 n\u00e3o-dualidade<\/strong><\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da perspectiva construtivista cl\u00e1ssica dos Nikayas e do Abhidhamma, a quest\u00e3o da experi\u00eancia dual e\/ou n\u00e3o-dual \u00e9 um tanto inquietante. Os Nikayas nos ensinam que todo evento cognitivo depende n\u00e3o da dualidade de sujeito e objeto, mas do trip\u00e9 de \u00f3rg\u00e3o sensorial, objeto sensorial e consci\u00eancia.<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> A uni\u00e3o destes tr\u00eas fatores constitui aquilo que \u00e9 chamado <em>contato<\/em> (<em>phassa\/sparsa<\/em>), o ponto de partida de qualquer epis\u00f3dio de conhecimento. Se h\u00e1 de fato uma dualidade no pensamento cl\u00e1ssico Budista, n\u00e3o se trata de uma cis\u00e3o entre sujeito e objeto, mas entre \u00f3rg\u00e3o e objeto. Os eventos reconhecidos pela cogni\u00e7\u00e3o s\u00e3o colis\u00f5es entre mundos internos e externos, a intera\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos como a luz e ondas sonoras (etc.) com as mat\u00e9rias sens\u00edveis da retina e do ouvido interno (etc.) que traduzem estas modula\u00e7\u00f5es na atividade neuronal que chamamos de consci\u00eancia. O conhecimento de um objeto a partir de um \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto. A consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um sujeito, mas uma atividade, um processo, um evento que acontece de momento a momento. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os sensoriais e pensamentos de um lado, e de objetos sensoriais e mentais de outro. Trata-se de uma interface natural entre a mat\u00e9ria sens\u00edvel dos receptores sensoriais do corpo (o que incluiria o c\u00e9rebro) e a informa\u00e7\u00e3o contida nas imedia\u00e7\u00f5es externas e internas, que \u00e9 mediada por estados mentais de reconhecimento. Esta <em>mentalidade<\/em>, portanto, \u00e9 provavelmente uma propriedade emergente da <em>materialidade<\/em>, mas o mundo virtual constru\u00eddo a partir desta atividade mental se expressa enquanto uma fenomenologia de experi\u00eancia particularmente robusta.<\/br><br \/>\n\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0A experi\u00eancia do surgir e cessar dos fen\u00f4menos envolve de fato o surgimento e cessa\u00e7\u00e3o de momentos de consci\u00eancia, mas estes momentos n\u00e3o podem ser qualificados como um sujeito. A experi\u00eancia subjetiva \u2013 o sujeito \u2013 \u00e9 constru\u00eddo em outro momento do modelo, no ponto no qual o desejo \u00e9 gerado diante dos objetos da experi\u00eancia. Atrav\u00e9s do gostar ou n\u00e3o gostar de um objeto, o sujeito que gosta ou n\u00e3o gosta \u00e9 criado. \u00c9 o anseio, que se manifesta enquanto fixa\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 origem ao <em>self<\/em> (<em>atta-bhava<\/em>), e apenas quando o <em>self <\/em>se expressa enquanto um sujeito propriamente dito que \u00e9 poss\u00edvel haver sofrimento. Aquele que anseia se torna aquele que sofre, conforme \u00e9 apontado pela Segunda Nobre Verdade. E como a Terceira Nobre Verdade indica, a cessa\u00e7\u00e3o do anseio ir\u00e1 conduzir \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento a partir da cessa\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do <em>self<\/em> (<em>aham-kara<\/em>). Portanto, a dualidade apontada pelo pensamento Budista acerca da n\u00e3o-dualidade \u00e9 aquela entre objeto e sujeito que gosta ou n\u00e3o gosta, ao inv\u00e9s de objeto e conhecedor do objeto. Este conhecedor, ou simplesmente conhecimento, o mero funcionamento da consci\u00eancia, \u00e9 um evento impessoal; o gostar ou n\u00e3o gostar \u00e9 que \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Desde o princ\u00edpio, nesta perspectiva, o Buda sempre direcionou seus disc\u00edpulos na dire\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia n\u00e3o-dual, mas isto nada tinha a ver com a rela\u00e7\u00e3o entre consci\u00eancia e o objeto de consci\u00eancia. O ponto \u00e9 o que acontece entre o objeto e a percep\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria de exist\u00eancia identit\u00e1ria que se posiciona diante do objeto. \u00c9, portanto, bastante intrigante descobrir que a solu\u00e7\u00e3o para este \u201cproblema\u201d nas tradi\u00e7\u00f5es tardias se encontra na separa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de seu objeto e na aspira\u00e7\u00e3o por uma experi\u00eancia de consci\u00eancia que n\u00e3o tem objeto algum. Esta abordagem parece preservar uma esp\u00e9cie de sujeito \u00e0s custas de um objeto, enquanto que o ponto dos ensinamentos cl\u00e1ssicos \u00e9 a compreens\u00e3o da natureza fundamentalmente ilus\u00f3ria do sujeito e, portanto, a apreens\u00e3o do objeto pela consci\u00eancia como ela realmente \u00e9 (<em>yatha-butha<\/em>).<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se a experi\u00eancia n\u00e3o-dual tem a ver com a dissolu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto, ent\u00e3o, conforme a an\u00e1lise do Abhidhamma, ela precisa estar apontada para a elimina\u00e7\u00e3o da perspectiva equivocada de um <em>self<\/em> (<em>sakkayadittthi<\/em>)<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. Isto elimina uma dicotomia; a que existe entre os fen\u00f4menos como eles realmente s\u00e3o e a compreens\u00e3o ilus\u00f3ria de exist\u00eancia de um sujeito separado que possui uma experi\u00eancia de fen\u00f4menos distintos de si pr\u00f3prio. Mas ela mant\u00e9m intacta a dicotomia entre os \u00f3rg\u00e3os e os objetos da experi\u00eancia, porque cada um deles s\u00f3 existe a partir da intera\u00e7\u00e3o um com o outro e, portanto, exigem o outro para sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o. A cogni\u00e7\u00e3o, portanto, permanece, mesmo quando a pessoa que \u00e9 sujeito desta cogni\u00e7\u00e3o desaparece enquanto a mera miragem que de fato \u00e9.<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que aparenta ser o caso \u00e9 que no decorrer da hist\u00f3ria e evolu\u00e7\u00e3o destas ideias, uma confus\u00e3o se estabeleceu entre os conceitos de consci\u00eancia e sujeito, de modo que a consci\u00eancia se tornou identificada ao sujeito em uma rela\u00e7\u00e3o de sujeito-objeto. Eu creio que toda a conceitua\u00e7\u00e3o de dualidade entre sujeito-objeto \u00e9 uma quest\u00e3o herdada de escolas n\u00e3o Budistas da filosofia Indiana, nas quais o problema \u00e9 simplificado pela postula\u00e7\u00e3o de uma alma ou esp\u00edrito inerentemente real. No pensamento Hindu, a consci\u00eancia (<em>cit<\/em>) \u00e9 inextricavelmente ligada \u00e0 exist\u00eancia real (<em>sat<\/em>), portanto torna-se ineg\u00e1vel a exist\u00eancia de um conhecedor (<em>grahaka<\/em>), uma vez que existe aquilo que \u00e9 conhecido (<em>grahya<\/em>). Contudo, o Buda procurou eximir a sua linguagem de todos os substantivos agentivos, e provavelmente entenderia qualquer refer\u00eancia \u00e0 um \u201cconhecedor\u201d de algo \u201cconhecido\u201d como uma delus\u00e3o fundamental.<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn7\">[7]<\/a> Uma alma em rela\u00e7\u00e3o a qualquer outro fen\u00f4meno constitui uma dualidade, e a libera\u00e7\u00e3o de uma alma resulta em um estado n\u00e3o-dual. Neste contexto bin\u00e1rio de um \u201ceu\u201d e um \u201coutro\u201d parece natural explorar a distin\u00e7\u00e3o de sujeito e objeto filosoficamente, e parece ter sido o caso que os pensadores Budistas foram atra\u00eddos por este tipo de discurso. Mas no mundo n\u00e3o-bin\u00e1rio dos ensinamentos Indianos n\u00e3o ortodoxos como o Budismo, no qual a consci\u00eancia \u00e9 compreendida enquanto um fen\u00f4meno natural e multiplamente condicionado, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa. A origina\u00e7\u00e3o interdependente e cessa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia (juntamente de seus \u00f3rg\u00e3os correspondentes e objetos dos outros quatro agregados) se desdobrando a cada momento \u00e9 uma coisa, conquanto que a constru\u00e7\u00e3o de um sentido ilus\u00f3rio de exist\u00eancia subjetiva a partir da qual tudo acontece \u00e9 outra totalmente diferente.<\/br><br \/>\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Portanto, eu concordo completamente que o discernimento Budista tem a ver com a experi\u00eancia da n\u00e3o-dualidade entre sujeito e objeto, mas a minha proposta \u00e9 que isto \u00e9 realizado quando o sentido ilus\u00f3rio da experi\u00eancia subjetiva \u00e9 perdido, seja brevemente, como nas perdas a curto prazo de uma subst\u00e2ncia identit\u00e1ria em experi\u00eancias de pico, ou definitivamente, como no despertar da Budeitude. Este tipo de compreens\u00e3o n\u00e3o-dual, portanto, n\u00e3o \u00e9 de fato uma inova\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo IV, e j\u00e1 \u00e9 parte intr\u00ednseca da mensagem Budista desde seus tempos primordiais.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/strong><\/br><br \/>\nBODHI, BHIKKHU. 1993<em>. A comprehensive manual of Abhidhamma<\/em>. Pariyatti: Seattle.<\/br><br \/>\nDUNNE, J. 2011. <em>Toward an understanding of non-dual mindfulness<\/em>. Contemporary Buddhism 12: 71\u201388.<\/br><br \/>\nOLENDZKI, A. 2010. <em>Unlimiting mind: The radically experiential psychology of Buddhism.<\/em> Boston, MA: Wisdom.<\/br><br \/>\nPRUDEN, L. 1991. <em>Abhidharmakosabhasyam<\/em>. English translation by Louis de La Vallee Pussin. Berkeley, CA: Asian Humanities Press.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> <em>Samyutta Nikaya<\/em> 35:93.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Boddhi (1993).<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> <em>Milindapanho<\/em> 2:1.8.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> <em>Abhidharmakosa <\/em>2:24 (Pruden, 1991, 189\u201390). Aqui os universais s\u00e3o chamados de <em>mahabhumikas<\/em>.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Ver, por exemplo,\u00a0 o <em>Mahatthipadopama Sutta, Majjhima Nikaya <\/em>28.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> <em>Majhimma Nikaya<\/em> 48: \u201cAssim \u00e9 o caminho que conduz \u00e0 origina\u00e7\u00e3o da personalidade: toda experi\u00eancia \u00e9 reconhecida como \u201cisto \u00e9 meu, isto sou eu, isto \u00e9 meu eu\u201d. Assim \u00e9 o caminho que conduz \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o da personalidade: toda experi\u00eancia \u00e9 reconhecida como \u201cisto n\u00e3o \u00e9 meu, isto n\u00e3o sou eu, isto n\u00e3o \u00e9 meu eu\u201d. Percebam como o funcionamento da consci\u00eancia permanece inalterado.<\/br><br \/>\n<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> <em>Samyutta Nikaya <\/em>12:12: \u201cVener\u00e1vel, quem faz contato&#8230; quem sente&#8230; quem anseia&#8230;?\u201d \u201cN\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o v\u00e1lida. Eu n\u00e3o digo \u201cEste faz contato&#8230; Este sente&#8230; Este anseia&#8230;\u201d. Se me perguntassem \u201cVener\u00e1vel, quais as condi\u00e7\u00f5es que permitem o contato&#8230; quais as condi\u00e7\u00f5es que permitem a sensa\u00e7\u00e3o&#8230; quais as condi\u00e7\u00f5es que permitem o anseio?\u201d \u2013 esta seria uma quest\u00e3o v\u00e1lida.\u201d Ver ainda, e.g., <em>Visuddhimagga<\/em> 16:90: <em>kariko na . . . vijjati; gamako na vijjati . .<\/em> .etc. (um que faz n\u00e3o \u00e9 encontrado; um que vai n\u00e3o \u00e9 encontrado).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mindfulness \u00e9 examinada usando o sistema Abhidhamma de classifica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos (dharmas) conforme encontrado na obra pali Abhidhammattha-sangaha. 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