{"id":8149,"date":"2020-03-30T16:29:55","date_gmt":"2020-03-30T16:29:55","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/30\/mindfulness-cientifico\/"},"modified":"2020-03-30T16:29:55","modified_gmt":"2020-03-30T16:29:55","slug":"mindfulness-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/30\/mindfulness-cientifico\/","title":{"rendered":"Mindfulness Cient\u00edfico: Interven\u00e7\u00f5es Baseadas em Mindfulness"},"content":{"rendered":"\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>O QUE \u00c9 MINDFULNESS?<\/strong><br \/>Aus\u00edas Cebolla e Marcelo Demarzo<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, vimos como as terapias baseadas em mindfulness (TBMs) t\u00eam representado uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da sa\u00fade, atingindo \u00edndices extraordin\u00e1rios de popularidade. No contexto da medicina, psicologia e educa\u00e7\u00e3o, o termo mindfulness (que j\u00e1 foi traduzido de muitas maneiras, como aten\u00e7\u00e3o plena, plena aten\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia plena, consci\u00eancia pura, estar atento) refere-se ao tra\u00e7o ou estado mental de estar atento, intencionalmente, \u00e0 experi\u00eancia presente. Em outras palavras: estar atento, de forma deliberada, ao fen\u00f4meno que se desenvolve aqui e agora, com aceita\u00e7\u00e3o e sem julgar. Devido \u00e0 sua natureza sobretudo pr\u00e1tica e vivencial, o entendimento completo de mindfulness costuma exigir uma experi\u00eancia em primeira pessoa, ou seja, para se compreender totalmente o significado de mindfulness deve-se ter em conta que a pr\u00e1tica \u00e9 essencial. Apesar dessa limita\u00e7\u00e3o, o objetivo deste cap\u00edtulo introdut\u00f3rio \u00e9 oferecer uma vis\u00e3o geral das defini\u00e7\u00f5es, conceitos e pr\u00e1ticas que a amplitude do termo mindfulness pode significar e designar.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O E CONCEITO<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Conforme j\u00e1 vimos, mindfulness \u00e9 um estado ou tra\u00e7o que se refere \u00e0 capacidade de estar atento ao que acontece no presente, com abertura e aceita\u00e7\u00e3o. Jon Kabat-Zinn, um dos pais do uso cl\u00ednico de mindfulness no Ocidente, prop\u00f5e a mesma ideia em termos mais simples: mindfulness \u00e9 apenas \u201cparar e estar presente, s\u00f3 isso\u201d (Kabat-Zinn, 2005). O tra\u00e7o mindfulness descreve a personalidade que tende a adotar uma atitude de aceita\u00e7\u00e3o \u2013 centrada no presente \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia (Baer\u00a0<em>et al.,<\/em>\u00a02008).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Adicionando mais elementos \u00e0 defini\u00e7\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia presente deve estar associada a uma qualidade ou orienta\u00e7\u00e3o de aceita\u00e7\u00e3o que, por sua vez, tamb\u00e9m \u00e9 intencional. Neste caso, aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa resigna\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma tentativa de n\u00e3o julgar, uma curiosidade isenta de julgamento, ou abertura ao desenvolvimento da experi\u00eancia, seja ela positiva ou negativa.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Assim, mindfulness envolve dois componentes fundamentais: a autorregula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e uma orienta\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 experi\u00eancia (Bishop\u00a0<em>et al.,<\/em>\u00a02004). O primeiro componente consiste, portanto, na autorregula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o para que o indiv\u00edduo mantenha-se concentrado na experi\u00eancia fenomenol\u00f3gica imediata e possa reconhecer melhor os acontecimentos corporais, sensoriais e mentais no momento presente. O segundo componente \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de uma orienta\u00e7\u00e3o particular frente \u00e0s pr\u00f3prias experi\u00eancias do momento \u2013 uma orienta\u00e7\u00e3o caracterizada pela curiosidade, abertura e aceita\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m pode ser entendida como um monitoramento aberto \u00e0 experi\u00eancia. Esse \u00faltimo aspecto implica a tentativa de reconhecer a realidade crua das coisas e fen\u00f4menos, livre de nossos filtros cognitivos, afetivos e culturais, que costumam gerar respostas baseadas em um padr\u00e3o pr\u00e9-estabelecido por nossas experi\u00eancias anteriores. Envolveria tamb\u00e9m o monitoramento aberto \u2013 em perspectiva \u2013 de nossas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es, pensamentos e padr\u00f5es mentais, geralmente chamados de metacogni\u00e7\u00e3o ou descentramento (decentering), elementos que parecem ser dimens\u00f5es importantes do conceito de mindfulness (Hayes-Skelton e Graham, 2013).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Esse tipo particular de aten\u00e7\u00e3o que chamamos de mindfulness reflete uma capacidade humana inata, por\u00e9m pouco explorada hoje em dia, j\u00e1 que vivemos em uma \u00e9poca cultural que nos induz a fazer m\u00faltiplas tarefas simult\u00e2neas, como assistir televis\u00e3o enquanto comemos, falar ao celular enquanto caminhamos, entre milhares de exemplos poss\u00edveis. Por outro lado, essa qualidade de aten\u00e7\u00e3o pode ser (re)aprendida e treinada com o uso regular de v\u00e1rias t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas espec\u00edficas, que tamb\u00e9m fazem parte do termo mindfulness mais abrangente, e que ser\u00e3o descritas posteriormente.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista cient\u00edfico, o estado ou tra\u00e7o de mindfulness est\u00e1 relacionado a v\u00e1rios indicadores da sa\u00fade f\u00edsica e psicol\u00f3gica como, por exemplo, maior equil\u00edbrio do sistema nervoso aut\u00f4nomo (simp\u00e1tico e parassimp\u00e1tico), n\u00edveis mais elevados de afeto positivo, satisfa\u00e7\u00e3o com a vida, vitalidade e menores n\u00edveis de afeto negativos e de outros sintomas psicopatol\u00f3gicos. Consequentemente, mindfulness \u00e9 \u00fatil para o tratamento de muitas doen\u00e7as e transtornos. Existem diversos mecanismos subjacentes aos efeitos do treinamento na sa\u00fade e no bem-estar e incluem: maior controle da aten\u00e7\u00e3o, maior consci\u00eancia das experi\u00eancias internas e externas, menor reatividade \u00e0s mesmas experi\u00eancias, e em consequ\u00eancia melhor regula\u00e7\u00e3o emocional e uma maior flexibilidade psicol\u00f3gica. Todos estes aspectos despertaram um interesse exponencial por mindfulness no meio cient\u00edfico e ser\u00e3o aprofundados nos cap\u00edtulos seguintes.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Penetrando um pouco mais no conceito, alguns autores consideram mindfulness um processo cognitivo complexo, n\u00e3o narrativo, \u00e0s vezes conhecido como\u00a0<em>modo ser<\/em>\u00a0em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 forma tradicional de nossa vida di\u00e1ria habitual, ou\u00a0<em>modo fazer<\/em>\u00a0(Williams, 2010). O\u00a0<em>modo fazer<\/em>\u00a0est\u00e1 voltado \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de uma meta, a mente est\u00e1 preocupada em analisar o passado e o futuro, o presente adquire uma prioridade muito baixa e, em consequ\u00eancia, tem-se uma vis\u00e3o estreita do presente. Neste modo a mente tende a divagar continuamente movendo-se em c\u00edrculos, registrando as discrep\u00e2ncias existentes entre como as coisas s\u00e3o e como deveriam ser ou como gostar\u00edamos que fossem. Os objetos da experi\u00eancia s\u00e3o rotulados e julgados \u2013 bom\/mal, feio\/bonito etc.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">No modo\u00a0<em>mindful<\/em>, n\u00e3o narrativo ou\u00a0<em>modo ser<\/em>, o objetivo n\u00e3o \u00e9 atingir uma meta concreta, portanto, n\u00e3o h\u00e1 um acompanhamento de qu\u00e3o longe se est\u00e1 e consequentemente n\u00e3o h\u00e1 discrep\u00e2ncias. O foco deste modo est\u00e1 em aceitar e permitir a experi\u00eancia dos fen\u00f4menos em nossa rotina, sem press\u00e3o para mudar e sem julgar. O\u00a0<em>modo ser<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um estado n\u00e3o natural ou alterado, onde toda atividade deve parar. Ao contr\u00e1rio, ambos os estados est\u00e3o implicados em uma infinidade de atividades e momentos. Este modo tem um contato maior com a experi\u00eancia imediata e gera uma forma n\u00e3o narrativa de relacionar-se com a experi\u00eancia (Farb\u00a0<em>et al.,\u00a0<\/em>2007). Praticar mindfulness, portanto, permitiria passar do\u00a0<em>modo fazer<\/em>\u00a0para o\u00a0<em>modo ser<\/em>, ampliando, facilitando e automatizando a passagem a este modo.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>ORIGENS BUDISTAS DE MINDFULNESS: SATI<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O conceito de mindfulness prov\u00e9m do budismo. Embora as terapias baseadas em mindfulness sejam revis\u00f5es cient\u00edficas e laicas, \u00e9 importante reconhecer as origens hist\u00f3ricas dos termos e conceitos que geraram a base epistemol\u00f3gica daquilo que chamamos de mindfulness hoje.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Mindfulness, portanto, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o da palavra\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u2013 na l\u00edngua p\u00e1li, um dos idiomas em que os discursos do Buda foram escritos h\u00e1 2.500 anos. \u00c9 dif\u00edcil encontrar uma tradu\u00e7\u00e3o para\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0e existem verdadeiras disserta\u00e7\u00f5es sobre a complexidade de seu significado. Assim, para o budismo,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 um conceito de m\u00faltiplas facetas, que inclui n\u00e3o apenas o controle atencional, mas toda uma s\u00e9rie de fatores cognitivos e \u00e9ticos.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O conceito\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0aparece sistematizado no serm\u00e3o de Buda chamado\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>, ou Os Quatro Fundamentos da Aten\u00e7\u00e3o. Este serm\u00e3o, texto central do budismo, sistematiza o papel da aten\u00e7\u00e3o e seu treinamento, situando-o como ponto chave da doutrina budista. Buda, ap\u00f3s sua ilumina\u00e7\u00e3o, prop\u00f4s um caminho espiritual para a liberta\u00e7\u00e3o do sofrimento. O aut\u00eantico objetivo do budismo \u00e9 gerar uma compreens\u00e3o maior da natureza do sofrimento, sua causa, sua cessa\u00e7\u00e3o e o caminho para atingir tal cessa\u00e7\u00e3o (Bodhi, 2013). Para o budismo, a raiz do sofrimento (<em>Dukkha<\/em>) surge na mente e, portanto, \u00e9 l\u00e1 que deve ser cortada.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><em>Sati<\/em>\u00a0\u00e9 o s\u00e9timo fator do Nobre \u00d3ctuplo Caminho. Esse caminho \u00e9 o cerne dos preceitos propostos pela religi\u00e3o budista para a extin\u00e7\u00e3o do sofrimento, ou o que se conhece como as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento (sofrimento, insatisfa\u00e7\u00e3o, incerteza, dor) \u00e9 inerente \u00e0 vida; a origem do sofrimento est\u00e1 nos desejos provenientes do ego; o sofrimento pode ser extinto ao se extinguir sua causa; para extinguir o sofrimento devemos seguir o Nobre \u00d3ctuplo Caminho. Este caminho \u00e9 composto por v\u00e1rias pr\u00e1ticas ou atitudes que devem ser seguidas: reta vis\u00e3o ou reta compreens\u00e3o, reto pensamento, reta palavra, reta a\u00e7\u00e3o, reto modo de vida, reto esfor\u00e7o, reta aten\u00e7\u00e3o e reta concentra\u00e7\u00e3o. As duas primeiras correspondem \u00e0 sabedoria; a terceira, quarta e quinta, \u00e0 virtude: e a sexta, s\u00e9tima e oitava, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o (Bodhi, 2013).<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong><p style=\"text-align: justify;\">A PR\u00c1TICA DE MINDFULNESS<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Conforme vimos antes, mindfulness \u00e9 um estado ou capacidade de trazer a aten\u00e7\u00e3o ao presente, sem julgamento e com abertura \u00e0 experi\u00eancia. Tal estado pode ser treinado e gerar muitos benef\u00edcios, tanto para a sa\u00fade mental como f\u00edsica (Williams, 2010). No \u00e2mbito cient\u00edfico, a pr\u00e1tica de mindfulness se divide em dois tipos: a pr\u00e1tica formal, baseada em t\u00e9cnicas de medita\u00e7\u00e3o, e a pr\u00e1tica informal, que consiste em levar essa qualidade de aten\u00e7\u00e3o ao presente em atividades cotidianas.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro tipo, \u00e9 importante esclarecer que, embora mindfulness seja frequentemente confundida com medita\u00e7\u00e3o, essas pr\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o exatamente o mesmo. A medita\u00e7\u00e3o inclui um n\u00famero enorme de pr\u00e1ticas diferentes, mas nem todas t\u00eam como objetivo aumentar ou treinar a capacidade de mindfulness ou aten\u00e7\u00e3o plena. Portanto, mindfulness n\u00e3o \u00e9 o mesmo que medita\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 poss\u00edvel meditar sem praticar mindfulness e \u00e9 poss\u00edvel praticar mindfulness sem fazer a medita\u00e7\u00e3o formal. A medita\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 considerada uma t\u00e9cnica adequada, que ajuda a treinar a capacidade e a habilidade de mindfulness, embora o objetivo de um treinamento em mindfulness n\u00e3o seja a medita\u00e7\u00e3o em si, nem a convers\u00e3o dos participantes em meditadores para o resto da vida, mas sim o aumento da capacidade ou habilidade da qualidade de aten\u00e7\u00e3o do tipo mindfulness.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica formal de mindfulness normalmente inicia-se adotando uma postura c\u00f4moda sentada em uma almofada (zafu), em uma cadeira, ou deitada, levando a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica do ar entrando pelo nariz, ao abd\u00f4men elevando-se, ou ao corpo. Na realidade, a aten\u00e7\u00e3o dirige-se a qualquer objeto ou fen\u00f4meno que se manifeste no presente (\u00e2ncoras da aten\u00e7\u00e3o). As sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas (respira\u00e7\u00e3o ou corpo) costumam ser o terreno adequado para come\u00e7ar a dirigir a aten\u00e7\u00e3o. Uma vez focada a aten\u00e7\u00e3o no ponto determinado, costuma surgir um evento de distra\u00e7\u00e3o, seja um pensamento, preocupa\u00e7\u00e3o, planos, sensa\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o etc. Quando isso acontece, a instru\u00e7\u00e3o \u00e9 observar esse evento, sem avali\u00e1-lo e, pouco a pouco, voltar gentilmente a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 respira\u00e7\u00e3o ou ao corpo. Essa instru\u00e7\u00e3o aparentemente t\u00e3o simples gera um tipo de observa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria experi\u00eancia, sem julgamento, que produz processos psicol\u00f3gicos associados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, e que ser\u00e3o aprofundados ao longo deste livro.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, as t\u00e9cnicas informais referem-se a um processo muito semelhante ao das t\u00e9cnicas formais, com a diferen\u00e7a de n\u00e3o serem praticadas na posi\u00e7\u00e3o sentada, sobre uma almofada de medita\u00e7\u00e3o, mas realizadas em eventos cotidianos (lavar as m\u00e3os, passear, comer etc). Em outras palavras, s\u00e3o exerc\u00edcios simples de tomada de consci\u00eancia, de observa\u00e7\u00e3o dos sentidos e aten\u00e7\u00e3o ao que ocorre no presente. Do ponto de vista cl\u00ednico, o verdadeiro objetivo de toda interven\u00e7\u00e3o baseada no treinamento em mindfulness \u00e9 o estabelecimento da pr\u00e1tica informal nos usu\u00e1rios e, para isso, utiliza-se a pr\u00e1tica formal.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Todas estas t\u00e9cnicas cont\u00eam os mesmos ingredientes, ou seja, levar \u2013 e manter \u2013 a aten\u00e7\u00e3o a algum objeto (\u00e2ncora) ou evento que ocorra no presente e observar seja o que for que aconte\u00e7a, sem tentar alterar nada, com uma atitude de abertura e curiosidade. Em geral, nas interven\u00e7\u00f5es baseadas em mindfulness, o sistema utilizado costuma ser o de praticar na sess\u00e3o de treinamento e em seguida os participantes devem praticar em casa com o aux\u00edlio de \u00e1udios.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>MITOS E PRECONCEITOS<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Com o aumento exponencial do interesse nas pr\u00e1ticas e terapias baseadas em mindfulness \u00e9 natural que acabem surgindo tamb\u00e9m mitos, conceitos equivocados e preconceitos sobre o tema (Williams, Dixon, McCorkle e Van Ness, 2011), com frequ\u00eancia associados tamb\u00e9m a confus\u00f5es provenientes de suas origens religiosas e espirituais.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Um mito relacionado \u00e0 utilidade de mindfulness na sa\u00fade \u00e9 a ideia de que as terapias baseadas em mindfulness (TBMs) s\u00e3o uma panaceia, ou seja, a solu\u00e7\u00e3o para todos os males e como substitutas de outros tratamentos psicol\u00f3gicos e farmacol\u00f3gicos. Conforme veremos nos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos, embora mindfulness seja eficaz para uma s\u00e9rie de transtornos, suas indica\u00e7\u00f5es s\u00e3o precisas e baseadas em evid\u00eancias cient\u00edficas. Atualmente h\u00e1 estudos inclusive sobre os poss\u00edveis efeitos inesperados ou at\u00e9 mesmo adversos de mindfulness, ou seja, sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou emocionais transit\u00f3rias que podem surgir aleatoriamente durante as pr\u00e1ticas de mindfulness especialmente entre principiantes \u2013 por exemplo, aumento transit\u00f3rio da ansiedade, sensa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de falta de sentido na vida etc. \u2013 e que devem ser consideradas no uso cl\u00ednico de mindfulness, conforme abordaremos nos cap\u00edtulos seguintes. Desta forma, o conceito de mindfulness como panaceia \u00e9 equivocado e n\u00e3o ben\u00e9fico. Al\u00e9m disso, pode gerar expectativas fantasiosas entre pacientes e profissionais, levando ao uso indevido ou ineficiente dessas terapias, sob o risco de ca\u00edrem em descr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O rev\u00e9s do mito da panaceia \u00e9 a ideia de que mindfulness n\u00e3o se baseia em pesquisas cient\u00edficas, que seus efeitos ben\u00e9ficos v\u00eam do efeito placebo, ou que mindfulness \u00e9 simplesmente mais uma t\u00e9cnica de relaxamento e, portanto, n\u00e3o pode ser considerada um tratamento. Conforme veremos, a efic\u00e1cia de mindfulness tem sido comprovada por estudos com metodologia bem delineada, ou seja, ensaios cl\u00ednicos controlados e randomizados, e meta-an\u00e1lise, que s\u00e3o os padr\u00f5es em termos de evid\u00eancias cient\u00edficas. Al\u00e9m disso, muitos dos mecanismos envolvidos na pr\u00e1tica de mindfulness j\u00e1 s\u00e3o conhecidos e diferem bastante do placebo e do relaxamento, como veremos nos demais cap\u00edtulos deste livro.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Outro preconceito frequente \u00e9 a ideia de que mindfulness est\u00e1 ligada \u00e0 cultura oriental e, portanto, os ocidentais teriam dificuldade em pratic\u00e1-la; ou, seguindo o mesmo racioc\u00ednio, que a pr\u00e1tica de mindfulness est\u00e1 ligada \u00e0 filosofia budista e, desta forma, n\u00e3o seria adequada a pessoas de outras religi\u00f5es. Conforme enfatizamos aqui, embora tenham claramente uma raiz nas t\u00e9cnicas meditativas budistas, as terapias baseadas em mindfulness est\u00e3o adaptadas ao contexto cultural ocidental, desprovidas de qualquer conota\u00e7\u00e3o religiosa. Por exemplo, em programas cl\u00e1ssicos de mindfulness, do tipo MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction) ou MBCT (Mindfulness-Based Cognitive Therapy), n\u00e3o h\u00e1 qualquer refer\u00eancia \u00e0 filosofia ou religi\u00e3o oriental. Al\u00e9m disso, todas as t\u00e9cnicas s\u00e3o simples e de f\u00e1cil acesso a pessoas de todas as culturas e religi\u00f5es, sem restri\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas ou religiosas.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A postura ou posi\u00e7\u00e3o corporal durante as t\u00e9cnicas meditativas utilizadas nas pr\u00e1ticas formais de mindfulness \u00e9 outro tema que pode gerar confus\u00e3o. Conforme mencionamos, tais t\u00e9cnicas s\u00e3o praticadas em posturas e posi\u00e7\u00f5es simples e acess\u00edveis inclusive a pessoas com algum tipo de incapacidade f\u00edsica. A principal orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 manter o conforto e a estabilidade corporal enquanto sentado no ch\u00e3o ou cadeira, ou deitado no colchonete, sem qualquer necessidade de permanecer im\u00f3vel o tempo todo ou de colocar-se em posi\u00e7\u00e3o de l\u00f3tus ou semil\u00f3tus.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Outros conceitos equivocados est\u00e3o relacionados \u00e0s t\u00e9cnicas de mindfulness e seus efeitos. Por exemplo, a concep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea de que a pr\u00e1tica de mindfulness permitir\u00e1 limpar a mente ou deix\u00e1-la em branco, ou que mindfulness \u00e9 um estado de transe envolvendo dissocia\u00e7\u00e3o ou perda de controle, ou que \u00e9 um estado de desconex\u00e3o ou distanciamento do exterior. Conforme mencionamos no in\u00edcio do cap\u00edtulo, mindfulness possui dois elementos fundamentais: a autorregula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 experi\u00eancia. Consequentemente, quando orientamos nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia do momento com uma atitude de abertura, fazemos o mesmo com nossas emo\u00e7\u00f5es e pensamentos. Isso significa que o objetivo da pr\u00e1tica de mindfulness n\u00e3o \u00e9 o controle dos pensamentos ou o seu desaparecimento, mas observar de modo consciente a experi\u00eancia presente, que inclui padr\u00f5es mentais de pensamentos e emo\u00e7\u00f5es. Por exemplo, durante uma pr\u00e1tica de aten\u00e7\u00e3o plena na respira\u00e7\u00e3o, leva-se deliberadamente a aten\u00e7\u00e3o para a respira\u00e7\u00e3o, e espera-se que mais cedo ou mais tarde surjam pensamentos ou preocupa\u00e7\u00f5es (o habitual de nossa mente); isso faz parte da pr\u00e1tica. A diferen\u00e7a \u00e9 que observaremos os eventos mentais com a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o nos identificar com eles (modo n\u00e3o avaliativo), de maneira n\u00e3o cr\u00edtica, voltando novamente (e sempre que necess\u00e1rio) nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e2ncora escolhida (neste caso, a respira\u00e7\u00e3o). Em resumo, n\u00e3o se espera que a mente fique em branco, e sim que observemos, sem julgar, nossos pr\u00f3prios eventos mentais. Da mesma forma, \u00e9 um erro dizer que mindfulness \u00e9 um estado de transe, dissocia\u00e7\u00e3o ou desconex\u00e3o com a realidade, j\u00e1 que se trata exatamente do contr\u00e1rio, ou seja, o objetivo final \u00e9 estar totalmente presente e consciente da realidade que se apresenta a cada momento.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS TERAPIAS BASEADAS NO TREINAMENTO EM MINDFULNESS<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, a irrup\u00e7\u00e3o das terapias baseadas em mindfulness (TBMs) provocou toda uma revolu\u00e7\u00e3o, gerando muita literatura cient\u00edfica que mostrou a efic\u00e1cia dessas terapias em m\u00faltiplos contextos e transtornos, contagiando tamb\u00e9m o \u00e2mbito n\u00e3o cl\u00ednico e informativo. N\u00e3o apenas as terapias baseadas exclusivamente em mindfulness foram pesquisadas \u2013 as terapias tradicionais (terapia cognitivo-comportamental, terapia sist\u00eamica, psican\u00e1lise etc.) tamb\u00e9m se abriram \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de mindfulness dentro do leque de t\u00e9cnicas que elas prop\u00f5em.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">AS TBMs baseiam-se em uma s\u00e9rie de pressupostos fundamentais (Bishop\u00a0<em>et al.,<\/em>\u00a02004). De acordo com o primeiro pressuposto, os seres humanos costumam ser pouco conscientes de sua experi\u00eancia momento a momento, ou seja, normalmente agimos no piloto autom\u00e1tico e temos pouca consci\u00eancia do presente. Estudos cient\u00edficos demonstram que o tempo dedicado a essa divaga\u00e7\u00e3o corresponde a uma porcentagem muito grande do nosso tempo (Killingsworth e Gilbert, 2010). Em 2010, Killingsworth e Gilbert apresentaram os resultados de um estudo interessant\u00edssimo sobre o tema, tanto devido ao m\u00e9todo utilizado como pelos resultados obtidos. Os autores conceberam um aplicativo de smartphone no qual faziam tr\u00eas simples perguntas:<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Como voc\u00ea se sente neste momento? (de 0 a 100)<br \/>O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo neste momento?<br \/>Voc\u00ea est\u00e1 pensando em algo diferente do que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?<br \/>(N\u00e3o\/Sim, algo agrad\u00e1vel\/Sim, algo neutro\/Sim, algo desagrad\u00e1vel)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Essas tr\u00eas perguntas eram ativadas de forma aleat\u00f3ria no telefone de 2.250 adultos. O estudo levou a tr\u00eas conclus\u00f5es:<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">a) a mente est\u00e1 frequentemente em um estado de divaga\u00e7\u00e3o (cerca de 50% do tempo)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">b) somos menos felizes quando nossa mente divaga do que quando n\u00e3o o faz, e<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">c) o conte\u00fado de nossa mente est\u00e1 mais relacionado \u00e0 felicidade do que \u00e0 atividade que estamos realizando.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Uma das conclus\u00f5es deste estudo e tamb\u00e9m das TBMs \u00e9 que a capacidade de tomar consci\u00eancia da experi\u00eancia momento a momento gera, efetivamente, um sentido de vida mais vital e rico. Outra ideia b\u00e1sica \u00e9 a de que todos somos capazes de desenvolver a habilidade de mindfulness, isto \u00e9, que \u00e9 suscet\u00edvel de ser treinada e modificada. Evidentemente, existe tamb\u00e9m uma parte de mindfulness que \u00e9 um tra\u00e7o e que certamente est\u00e1 associada ao temperamento. Em todo caso, mesmo partindo de diferentes n\u00edveis, todos tempos condi\u00e7\u00f5es de aumentar essa capacidade. Al\u00e9m disso, o desenvolvimento dessa capacidade \u00e9 gradativo, progressivo e requer uma pr\u00e1tica regular. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de compreender e intelectualizar, nem mesmo de ter f\u00e9. \u00c9 necess\u00e1rio praticar continuamente para que os resultados se revertam em sa\u00fade. Por \u00faltimo, a capacidade de observar persistentemente, sem julgar o conte\u00fado mental, aumenta gradativamente a veracidade das percep\u00e7\u00f5es. Com tal aumento na capacidade de perceber nossas pr\u00f3prias respostas mentais a est\u00edmulos internos e externos, temos acesso a mais informa\u00e7\u00f5es, o que, por sua vez, aumenta as a\u00e7\u00f5es efetivas no mundo e intensifica a percep\u00e7\u00e3o de controle.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">As terapias mais importantes desenvolvidas nos \u00faltimos anos baseadas no treinamento em mindfulness incluem:<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR)<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Jon Kabat-Zinn \u00e9, sem d\u00favida, um dos pioneiros no uso cl\u00ednico e na pesquisa em mindfulness. Bi\u00f3logo profissional, criou, em 1979, o Programa de Redu\u00e7\u00e3o de Estresse Baseado em Mindfulness (Mindfulness-Based Stress Reduction, MBSR) e fundou a cl\u00ednica de redu\u00e7\u00e3o de estresse baseada em aten\u00e7\u00e3o plena em Worcester, Massachusetts (Estados Unidos), hoje conhecida como Center for Mindfulness in Medicine, Health Care and Society (CFM). O programa MBSR baseia-se em um treinamento em mindfulness estruturado em oito sess\u00f5es semanais de duas horas e meia, aproximadamente, e um final de semana de retiro em sil\u00eancio. Durante o treinamento, os participantes devem comparecer \u00e0s sess\u00f5es e depois praticar mindfulness em casa, em sess\u00f5es de 45 minutos de dura\u00e7\u00e3o, seis dias por semana. Sob as siglas MBSR h\u00e1 toda uma ind\u00fastria de forma\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de mindfulness, na qual, sem d\u00favida alguma, se espelharam as demais propostas terap\u00eauticas baseadas em mindfulness. O programa MBSR teve sua efic\u00e1cia comprovada por rigorosos estudos publicados em revistas cient\u00edficas de grande impacto, atraindo a aten\u00e7\u00e3o de cientistas de todo o mundo, demonstrando efic\u00e1cia sobre a dor cr\u00f4nica, ansiedade, melhora do sistema imunol\u00f3gico etc. (Chiesa e Serreti, 2009).<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mindfulness-Based Cognitive Therapy (MBCT)<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Desenvolvido por Zindel Segal, John Teasdale e Mark Williams (2002), este protocolo terap\u00eautico \u00e9 um tratamento psicol\u00f3gico em grupo, desenvolvido para prevenir reca\u00edda em depress\u00e3o, baseado no treinamento em mindfulness. \u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o de um programa MBSR associado a interven\u00e7\u00f5es tradicionais de terapia cognitiva para depress\u00e3o. Atualmente \u00e9 uma das interven\u00e7\u00f5es baseadas em mindfulness em maior evid\u00eancia \u2013 de fato, o Instituto Nacional para a Sa\u00fade e Excel\u00eancia Cl\u00ednica da Gr\u00e3-Bretanha (NICE) recomenda essa terapia como interven\u00e7\u00e3o de escolha para prevenir reca\u00edda em depress\u00e3o em pessoas com tr\u00eas ou mais reca\u00eddas, mostrando-se pelo menos t\u00e3o eficaz quanto a medica\u00e7\u00e3o (Piet e Hougaard, 2011).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A estrat\u00e9gia utilizada pela MBCT para evitar reca\u00edda consiste em ajudar os pacientes a desembara\u00e7ar-se dos processos ruminativos que costumam manter os estados depressivos. A ess\u00eancia de minfulness \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o intencional do controle da aten\u00e7\u00e3o para estabelecer uma configura\u00e7\u00e3o do processamento da informa\u00e7\u00e3o alternativo ao depressivo (baseado no presente, na aceita\u00e7\u00e3o e na aus\u00eancia de julgamento) e, portanto, incompat\u00edvel com a configura\u00e7\u00e3o da engrenagem depressiva (Teasdale, 1999). Atualmente, muitas adapta\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo realizadas para diferentes transtornos, como ansiedade, preven\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio, ou popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mindfulness-Based Relapse Prevention (MBRP)<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Programa desenvolvido por Alan Marlatt (MBRP, Bowen, Chawla e Marlatt, 2013). Combina um treinamento em mindfulness com um programa tradicional de preven\u00e7\u00e3o de comportamento aditivos. Assim como os outros dois programas mencionados, tamb\u00e9m \u00e9 composto por oito sess\u00f5es. Alan Marlatt desenvolveu o programa tradicional de preven\u00e7\u00e3o de reca\u00edda em depend\u00eancia qu\u00edmica e classificou os fatores que contribuem para a reca\u00edda em duas grandes categorias: determinantes imediatos (situa\u00e7\u00f5es, efeitos de viola\u00e7\u00e3o da abstin\u00eancia) e antecedentes encobertos (desejo de consumo e estilos de vida). O objetivo do programa \u00e9 ajudar os pacientes a reconhecer situa\u00e7\u00f5es de alto risco de consumo e a se preparar para lidar com elas. Este mesmo autor decidiu incluir o treinamento em mindfulness neste programa para atribuir uma abordagem mais compassiva, enfatizando a aceita\u00e7\u00e3o em vez de culpa e vergonha. O treinamento em mindfulness serve para observar as experi\u00eancias de modo consciente e sem julgamento, deixando o paciente mais consciente de seus estados emocionais e fisiol\u00f3gicos, dando-lhe condi\u00e7\u00f5es de identificar os estados internos que disparam as reca\u00eddas.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das terapias mencionadas acima, h\u00e1 uma grande variedade de terapias que incluem mindfulness como elemento fundamental de sua interven\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o incorporam a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o no pacote de ferramentas cl\u00ednicas. As mais importantes s\u00e3o a\u00a0<em>Terapia Dial\u00e9tica Comportamental\u00a0<\/em>(Linehan, 1993), que consiste em uma interven\u00e7\u00e3o psicossocial para o transtorno de personalidade lim\u00edtrofe (TPL) e cujo principal objetivo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o de condutas suicidas e de autoles\u00e3o. A estrat\u00e9gia terap\u00eautica da Terapia Dial\u00e9tica Comportamental inclui o treinamento de aceita\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias do paciente e oferece novas estrat\u00e9gias de enfrentamento: refocalizar o significado da vida, trabalhar com valores, exposi\u00e7\u00e3o a emo\u00e7\u00f5es anteriormente intoler\u00e1veis, preven\u00e7\u00e3o da esquiva emocional, introdu\u00e7\u00e3o do enfoque dial\u00e9tico. O tratamento est\u00e1 estruturado em m\u00f3dulos de grupo e em terapia individual. Ensina-se Mindfulness mediante exerc\u00edcios curtos de respira\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica informal. Atualmente, \u00e9 a terapia de escolha para o tratamento de TPL, segundo o guia NICE, e tem obtido excelentes resultados em estudos de efic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a\u00a0<em>Terapia de Aceita\u00e7\u00e3o e Compromisso<\/em>\u00a0(Hayes, Stroshal e Wilson, 1999) \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica baseada na terapia comportamental, que utiliza estrat\u00e9gias de aceita\u00e7\u00e3o e mindfulness conjuntamente ao trabalho com o compromisso e os valores, com o objetivo de aumentar a flexibilidade psicol\u00f3gica. Essa terapia em formato individual (embora tamb\u00e9m possa ser adaptada ao contexto de grupo) prop\u00f5e que subjacente aos transtornos psicol\u00f3gicos est\u00e1 o que se chama transtorno de evita\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia \u2013 entendido como padr\u00e3o inflex\u00edvel segundo o qual nossa vida depende da necessidade de controlar e\/ou evitar a presen\u00e7a de pensamentos, lembran\u00e7as, sensa\u00e7\u00f5es e outros eventos privados (Luciano e Valdivia, 2006). Utiliza-se mindfulness como ferramenta b\u00e1sica para treinar a aceita\u00e7\u00e3o desses eventos privados. Para isso, s\u00e3o usados principalmente exerc\u00edcios de tomada de consci\u00eancia ou mindfulness informal.<\/p>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>CONCLUS\u00d5ES<\/strong><\/h5>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Conforme apresentamos, no uso cl\u00ednico contempor\u00e2neo, mindfulness refere-se a uma qualidade particular para lidar com os fen\u00f4menos da vida cotidiana, com aten\u00e7\u00e3o plena \u00e0 experi\u00eancia e, ao mesmo tempo, com uma atitude de abertura, curiosidade e aceita\u00e7\u00e3o, sendo mais f\u00e1cil sua viv\u00eancia que sua defini\u00e7\u00e3o em palavras. Al\u00e9m disso, pode-se compreender mindfulness como um termo guarda-chuva, que abarca o estado ou tra\u00e7o de mindfulness descrito anteriormente, bem como as t\u00e9cnicas, pr\u00e1ticas e programas desenvolvidos para seu treinamento, al\u00e9m das terapias ou interven\u00e7\u00f5es baseadas no treinamento em mindfulness. Devido ao seu r\u00e1pido desenvolvimento e \u00e0 origem religiosa, mindfulness pode levar a alguns erros conceituais e preconceitos que devem ser contestados por pesquisa cient\u00edfica s\u00e9ria e controlada. Diversas terapias foram desenvolvidas, todas contando com uma s\u00e9rie de pressupostos. A efic\u00e1cia e efetividade desses programas v\u00eam sendo demonstradas para diferentes transtornos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, assim como em v\u00e1rios ambientes e contextos (sistemas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, e desenvolvimento pessoal e profissional), que ser\u00e3o tratados nos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos deste livro.<\/p>\n\n\n<p>Fonte: Mart\u00ed I, Ausi\u00e0s Cebolla, Garc\u00eda-Campayo, Javier e Demarzo, Marcelo. Mindfulness e Ci\u00eancia: Da tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 modernidade. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2016.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Baer, R. A., Smith, G. T., Hopkins, J., Krietemeyer, J., e Toney, L. (2006): \u201cUsing self-report assessment methods to explore facets of mindfulness\u201d,\u00a0<em>Assessment,\u00a0<\/em>13(1), 27-45.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">_ , _, Lykins, E., Button, D., Krietemeyer, J., Sauer, S., \u2026 Williams, J. M. G. (2008): \u201cConstruct Validity of the Five Facet Mindfulness Questionnaire in Meditating and Nonmeditating Samples\u201d,\u00a0<em>Assessment,\u00a0<\/em>15(3), 329-342.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Bishop, S. R., Lau, M., Shapiro, S., Carlson, L., Anderson, N. D., Carmody, J., \u2026Devins, G. (2004): \u201cMindfulness: A proposed operational definition\u201d,\u00a0<em>Clinical Psychology: Science and Practice,\u00a0<\/em>11(3), 230-241.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Black D. S. (2013): \u201c<em>Mindfulness Research Guide.\u00a0<\/em>Recuperado em 28 de outubro de 2013 de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mindfulexperience.org\/\">http:\/\/www.mindfulexperience.org<\/a><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Bodhi, B. (2013): \u201cWhat does mindfulness really mean?\u201d, em J. M. G. Williams e J. Kabat-Zinn (eds.), Mindfulness: diverse perspectives on its meaning, origins and applications, London, Routledge.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Bowen, S., Chawla, N., e Marlatt, G. A. (2011): \u201cPrevenci\u00f3n de reca\u00eddas en conductas adictivas basada en mindfulness: guia cl\u00ednica\u201d, em S. Bowen, N. Chawla e G. A. Marlatt (eds.), Mindfulness-based relapse prevention for addictive behaviours: a clinician\u2019s guide, New York, Guilford Press.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Chiesa, A., e Serretti, A. (2009): \u201cMindfulness-based stress reduction for stress management in healthy people: a review and meta-analysis\u201d,\u00a0<em>Journal of Alternative and complementary medicine<\/em>\u00a0(New York, N.Y.), 15(5), 593-600.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Farb, N., Segal, Z. V., Mayberg, H., Bean, J., McKeon, D., Fatima, Z. e Anderson, A. (2007): \u201cAttending to the present: mindfulness meditation reveals distinct neural modes of self-reference\u201d,\u00a0<em>Social Cognitive and Affective Neuroscience,\u00a0<\/em>2(4), 313-322.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Hayes, S. C., Strosahl, K., e Wilson, K. G. (1999):\u00a0<em>Acceptance and commitment therapy<\/em>, New York, NY, Guilford.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Hayes-Skelton, S., e Graham, J. (2013): \u201cDecentering as a common link among mindfulness, cognitive reappraisal, and social anxiety\u201d,\u00a0<em>Behavioural and cognitive psychotherapy,\u00a0<\/em>41(3), 317-328.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Kabat-Zinn, J. (2005):\u00a0<em>Full catastrophe living: Using the wisdom of your body and mind to face stress, pain, and illness,\u00a0<\/em>New York, NY, US, Delta Trade Paperback\/Bantam Dell.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Killingsworth, M. A., e Gilbert, D. T. (2010): \u201cA Wandering Mind Is an Unhappy Mind\u201d, Science, 330 (6006), 932-932.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Linehan, M. M. (1993):\u00a0<em>Cognitive-behavioural treatment of borderline personality disorder,<\/em>\u00a0New York, NY, Guilford.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Luciano, M. C., e Valdivia, M. S. (2006): \u201cLa Terapia de Aceptaci\u00f3n y Compromiso (ACT). Fundamentos, caracter\u00edsticas y evidencia\u201d,\u00a0<em>Papeles del Psic\u00f3logo,\u00a0<\/em>27, 79-91.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Piet, J. e Hougaard, E. (2011): \u201cThe effect of mindfulness-based cognitive therapy for prevention of relapse in recurrent major depressive disorder: a systematic review and meta-analysis\u201d,\u00a0<em>Clinical psychology review<\/em>, 31(6), 1032-1040.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Segal, Z. V., Williams, J. M. G. e Teasdale, J. D. (2002):\u00a0<em>Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression. A new approach to preventing relapse<\/em>, New York, NY, Guilford.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Teasdale, J. D. (1999): \u201cMetacognition, mindfulness and the modification of mood disorders\u201d,\u00a0<em>Clinical Psychology &amp; Psychotherapy,\u00a0<\/em>6(2), 146-155.<br \/>__, Moore, R. G., Hayhurst, H., Pope, M., Williams, S., e Segal, Z. V. (2002): \u201cMetacognitive awareness and prevention of relapse in depression: Empirical evidence\u201d,\u00a0<em>Journal of Consulting and Clinical Psychology<\/em>, 70, 275-287.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Williams, J. M. G. (2010): \u201cMindfulness and psychological process\u201d,\u00a0<em>Emotion,\u00a0<\/em>10(1), 1-7.<br \/>__, Teasdale, J. D., Segal, Z. V. e Soulsby, J. (2000): \u201cMindfulness-based cognitive therapy reduces overgeneral autobiographic memory in formerly depressed patients\u201d,\u00a0<em>Journal of Abnormal Psychology,\u00a0<\/em>109(150-155).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Williams, A. \u2013L., Dixon, J., McCorkle, R., e Van Ness, P. H. (2011): \u201cDeterminants of meditation practice inventory: development, contente validation, and initial psychometric testing\u201d,\u00a0<em>Alternative therapies in health and medicine,<\/em>\u00a017(5), 16-23.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Witkiewitz, K., Lustyk, M. K. B. e Bowen, S. (2013): \u201cRetraining the addicted brain: A review of hypothesized neurobiological mechanisms of mindfulness-based relapse prevention.,\u00a0<em>Journal of Addictive Behaviours,<\/em>\u00a027, 351-365.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Zgierska, A., Rabago, D., Chawla, N., Kushner, K., Kohler, R., e Marlatt, A. (2009): \u201cMindfulness Meditation for Substance Use Disorders: A Systematic Review\u201d,\u00a0<em>Journal of Substance Abuse<\/em>, 30.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Digita\u00e7\u00e3o: Lama Jigme Lhawang<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O QUE \u00c9 MINDFULNESS?Aus\u00edas Cebolla e Marcelo Demarzo Nos \u00faltimos anos, vimos como as terapias baseadas em mindfulness (TBMs) t\u00eam representado uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/30\/mindfulness-cientifico\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Mindfulness Cient\u00edfico: Interven\u00e7\u00f5es Baseadas em Mindfulness<\/span> Leia mais \u00bb<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8150,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"","site-content-layout":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[29,14],"class_list":["post-8149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-cientifico","tag-mindfulness"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v27.6.1 (Yoast SEO v27.2) - 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