{"id":8130,"date":"2020-03-27T04:12:05","date_gmt":"2020-03-27T04:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-raizes-budistas-do-treino-em-mindfulness-edel-maex\/"},"modified":"2020-03-27T04:12:05","modified_gmt":"2020-03-27T04:12:05","slug":"as-raizes-budistas-do-treino-em-mindfulness-edel-maex","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-raizes-budistas-do-treino-em-mindfulness-edel-maex\/","title":{"rendered":"AS RA\u00cdZES BUDISTAS DO TREINO EM MINDFULNESS: UMA VIS\u00c3O DE PRATICANTE &#8211; Edel Maex"},"content":{"rendered":"\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS RA\u00cdZES BUDISTAS DO TREINO EM\u00a0<em>MINDFULNESS<\/em>:<br \/>UMA VIS\u00c3O DE PRATICANTE<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Edel Maex<\/strong><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo.\u00a0<\/strong><\/br>O livro de Jon Kabat-Zinn,\u00a0<em>Viver a Cat\u00e1strofe Total,<\/em>\u00a0habilmente traduziu conceitos Budistas tradicionais para uma linguagem cotidiana moderna, de modo a torn\u00e1-los acess\u00edveis ao Ocidente. Foi uma sacada de g\u00eanio retirar o treino de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0do contexto Budista, mas o risco disso \u00e9 o de, ao inv\u00e9s de abrir uma porta para o Dharma (o ensinamento Budista), fechar uma porta que conduz a uma vasta riqueza deste contexto que est\u00e1 preenchido de pr\u00e1ticas e\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0valiosos. Este artigo pretende \u201creverter\u201d a tradu\u00e7\u00e3o de alguns conceitos de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0de volta para conceitos Budistas b\u00e1sicos (em um movimento contr\u00e1rio ao do primeiro passo dado por Jon Kabat-Zinn) para tornar a literatura Budista mais acess\u00edvel aos professores de MBSR\/CT que est\u00e3o menos familiarizados com as tradi\u00e7\u00f5es Budistas e, ent\u00e3o, nos permitir reconectar com alguns tesouros que est\u00e3o presentes nas ra\u00edzes desta pr\u00e1tica. O artigo transita livremente entre textos e conceitos de diferentes tradi\u00e7\u00f5es Budistas quando elas forem relevantes \u00e0 empreitada, bebendo na fonte da l\u00f3gica escol\u00e1stica do C\u00e2none P\u00e1li, nas met\u00e1foras dos sutras Mahayana e nos paradoxos dos\u00a0<em>koans<\/em>\u00a0Zen.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Anos atr\u00e1s, quando eu estava terminando a minha forma\u00e7\u00e3o como psiquiatra, eu me vi cara a cara com uma grande e importante quest\u00e3o: como eu poderei sobreviver com o confronto di\u00e1rio com tanta dor, ansiedade, ang\u00fastia, traumas, perdas\u2026? Eu tinha de encontrar um meio de velejar com seguran\u00e7a entre dois rochedos perigosos. De um lado, estava o risco de me ver estupefato diante de toda aquela dor, emo\u00e7\u00e3o e sofrimento e me esgotar completamente. Do outro lado, o perigo de suprimir meus pr\u00f3prios sentimentos e me tornar frio, objetivo, indispon\u00edvel e intocado pela dor dos meus pacientes.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conforme eu buscava uma resposta, uma coisa levou \u00e0 outra e eu descobri a medita\u00e7\u00e3o Zen. Esta era a resposta para a minha pergunta. Claramente, medita\u00e7\u00e3o era \u201cminha praia\u201d. Eu aprendi muito com ela. N\u00e3o s\u00f3 ela me formou na minha maneira de trabalhar, mas tamb\u00e9m na minha maneira de viver a minha vida.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois de cerca de 10 anos, eu comecei a sentir algo como \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 justo. Eu estou guardando o melhor para mim.\u201d O problema \u00e9 que eu n\u00e3o fazia ideia de como apresentar algo como a medita\u00e7\u00e3o Zen em um contexto psicoterap\u00eautico. N\u00e3o d\u00e1 para simplesmente come\u00e7ar a praticar medita\u00e7\u00e3o Budista em um hospital! E como voc\u00ea pode explicar para uma pessoa, que est\u00e1 procurando apenas algo para ajudar com a sua pr\u00f3pria dor, que ela deve sentar em sil\u00eancio por meia hora e n\u00e3o esperar nada daquilo? O m\u00e9todo Zen nem sempre \u00e9 muito acess\u00edvel.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu comecei experimentando costurar alguns elementos da medita\u00e7\u00e3o no meu trabalho. Ent\u00e3o, um dia, uma pessoa me perguntou: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o conhece o trabalho de Jon Kabat-Zinn?\u201d Eu nunca tinha ouvido falar dele antes, mas logo pesquisei e encontrei seu livro \u2013 ainda intocado \u2013 na biblioteca do instituto onde eu estava trabalhando. Eu me dei conta de imediato \u201cIsto vai me poupar dez anos de trabalho!\u201d Jon Kabat-Zinn veio de um contexto parecido com o meu e, com as mesmas motiva\u00e7\u00f5es que eu, criou um programa de redu\u00e7\u00e3o de estresse. Este programa estava sendo usado em um hospital e sendo submetido a uma avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica exaustiva que vinha demonstrando que ele era uma ferramenta aceit\u00e1vel no mundo da medicina. Eu percebi que eu n\u00e3o precisava redescobrir a roda. Eu entrei em contato com Jon Kabat-Zinn e comecei um programa de treinamento em oito semanas baseado no seu trabalho. Foi o primeiro de muitos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No pref\u00e1cio do livro\u00a0<em>Full Catastrophe Living<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, Thich Nhat Hanh descreve o livro como uma porta do Dharma para o mundo, assim como do mundo para o Dharma.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Jon Kabat-Zinn habilmente traduziu conceitos Budistas tradicionais para uma linguagem cotidiana moderna, de modo a torn\u00e1-los acess\u00edveis ao Ocidente. Se n\u00e3o fosse o pref\u00e1cio de Thich Nhat Hanh, a origem Budista do livro provavelmente passaria despercebida por muitos leitores. Thich Nhat Hanh \u00e9 um dos principais professores Budistas no Ocidente e suas poucas palavras certamente atra\u00edram muitos praticantes Budistas para este livro e para a aplica\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0em um contexto cl\u00ednico. Este trabalho deu origem \u00e0 primeira gera\u00e7\u00e3o de professores de MBSR.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jon Kabat-Zinn n\u00e3o s\u00f3 se baseou na tradi\u00e7\u00e3o Budista, como tamb\u00e9m na pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na qual era treinado, gerando legitimidade para o seu trabalho no mundo da ci\u00eancia e da medicina. Isto atraiu muitos pesquisadores proeminentes para o campo da\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0e resultados estimulantes vieram das pesquisas. O que vemos hoje \u00e9 uma segunda gera\u00e7\u00e3o de professores de\u00a0<em>mindfulness<\/em>, muitos dos quais n\u00e3o t\u00eam qualquer contexto no Budismo, mas com uma pr\u00e1tica pessoal bastante sincera. Foi uma sacada de g\u00eanio retirar o treino de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0do contexto Budista, mas o risco disso \u00e9 o de, ao inv\u00e9s de abrir uma porta para o Dharma (o ensinamento Budista), fechar uma porta que conduz a uma vasta riqueza deste contexto que est\u00e1 preenchido de pr\u00e1ticas e\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0valiosos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Muitas quest\u00f5es que surgem hoje nas pesquisas de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0j\u00e1 t\u00eam um longo hist\u00f3rico na literatura Budista enquanto um t\u00f3pico de discuss\u00e3o e experimento. Para dar um exemplo: no\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>\u00a0uma garota de oito anos de idade, sem nenhuma experi\u00eancia com medita\u00e7\u00e3o, subitamente atinge o pleno despertar.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Esta passagem certamente coloca em cena a quest\u00e3o de quanto a pr\u00e1tica formal \u00e9 necess\u00e1ria (e na \u00e9poca foi uma severa cr\u00edtica \u00e0 atitude chauvinista do monasticismo essencialmente masculino). Alguns destes textos s\u00e3o pontualmente precisos no uso de linguagem filos\u00f3fica, como em grandes parcelas do C\u00e2none P\u00e1li. Outros textos, como o\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>\u00a0ou o\u00a0<em>Livro Tibetano dos Mortos<\/em>, parecem um tanto m\u00e1gicos e obscuros e \u00e9 dif\u00edcil imaginar que eles contenham as ra\u00edzes do treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este artigo pretende \u201creverter\u201d a tradu\u00e7\u00e3o de alguns conceitos de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0de volta para conceitos Budistas b\u00e1sicos (em um movimento contr\u00e1rio ao do primeiro passo dado por Jon Kabat-Zinn) para tornar a literatura Budista mais acess\u00edvel aos professores de MBSR\/CT que est\u00e3o menos familiarizados com as tradi\u00e7\u00f5es Budistas e, ent\u00e3o, nos permitir reconectar com alguns tesouros que est\u00e3o presentes nas ra\u00edzes desta pr\u00e1tica. Eu me permito transitar livremente entre textos e conceitos de diferentes tradi\u00e7\u00f5es Budistas quando eles parecerem relevantes a esta empreitada. N\u00e3o tenho a menor pretens\u00e3o de ser exaustivo em minha an\u00e1lise, mas me sentirei feliz em oferecer ao menos um sabor desta tradi\u00e7\u00e3o, recordando do que o Buda disse: \u201cAssim como o oceano cont\u00e9m muitos tesouros, mas apenas um sabor, que \u00e9 o do sal, assim tamb\u00e9m os ensinamentos cont\u00eam muitos tesouros, mas apenas um sabor, que \u00e9 o da libera\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><em>Upaya<\/em><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jon Kabat-Zinn fez est\u00e1 alinhado com uma abordagem long\u00ednqua do Budismo chamada\u00a0<em>upaya<\/em>, traduzida como \u201cmeios h\u00e1beis\u201d. O Budismo n\u00e3o \u00e9 dogm\u00e1tico; n\u00e3o \u00e9 uma cren\u00e7a. \u00c9 uma pr\u00e1tica a ser aprendida e quando lemos os textos mais antigos, pr\u00f3ximos do Buda hist\u00f3rico, percebemos que ele foi um excelente professor. O Buda sempre se dirige \u00e0 pessoa com quem ele est\u00e1 falando com base na linguagem e refer\u00eancias desta pessoa. Isto produziu um corpo liter\u00e1rio extremamente rico no qual a mesma mensagem \u00e9 reelaborada de muitas formas diferentes. Os professores Budistas posteriores ao Buda seguiram desse modo, de forma que voc\u00ea v\u00ea o Budismo Chin\u00eas sendo explicado de maneira bem \u201cchinesa\u201d e o Budismo Tibetano em um estilo Tibetano. A isso se deve a prolifera\u00e7\u00e3o de estilos, textos e cores.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jon Kabat-Zinn n\u00e3o fez nada al\u00e9m de continuar a tradi\u00e7\u00e3o e reafirmar o m\u00e9todo de modo que ele se tornasse aceit\u00e1vel ao mundo da ci\u00eancia e da medicina cl\u00ednica. O desenvolvimento da MBCT novamente continua com a mesma tradi\u00e7\u00e3o, reformulando o mesmo ensinamento nos termos da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) e adaptando-o aos sofrimentos das pessoas com depress\u00e3o recorrente. Desenvolvimentos posteriores far\u00e3o a mesma coisa. Tudo isso, tradicionalmente Budista, \u00e9 fruto de\u00a0<em>upaya<\/em>.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>Upaya<\/em>\u00a0\u00e9 um tema importante no\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>. Ele conta a hist\u00f3ria de um homem muito rico, cujas crian\u00e7as t\u00eam muitos brinquedos para brincar. De repente, ele percebe que a casa est\u00e1 em chamas e que as crian\u00e7as est\u00e3o l\u00e1 dentro brincando. Ele grita \u201cFogo! Fogo!\u201d, mas as crian\u00e7as pensam que ele est\u00e1 s\u00f3 brincando e continuam com seus brinquedos. No fim ele diz: \u201cVenham para fora r\u00e1pido! Eu comprei brinquedos novos incr\u00edveis para voc\u00eas!\u201d As crian\u00e7as, ent\u00e3o, saem da casa e escampam do inc\u00eandio.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0Este texto compara alguns dos ensinamentos do Buda a brinquedos destinados a serem meios h\u00e1beis (<em>upaya<\/em>) para nos salvar do sofrimento, destitu\u00eddos de qualquer significado intr\u00ednseco. Este sutra critica uma tend\u00eancia da \u00e9poca de doutrina\u00e7\u00e3o excessiva, que faz perder o verdadeiro objetivo da pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Hip\u00f3teses de pesquisa n\u00e3o s\u00e3o geradas aleatoriamente. Elas sempre partem de um palpite esclarecido. Para um palpite ser esclarecido, ele deve partir de recursos cient\u00edficos, cl\u00ednicos e Budistas. Isto ajuda a pesquisa a gerar hip\u00f3teses que s\u00e3o significativas e \u00fateis, nos prevenindo de nos perder em estudos de brinquedos que n\u00e3o t\u00eam significado intr\u00ednseco.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quatro Nobres Verdades<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No\u00a0<em>Kalama Sutta<\/em>\u00a0do C\u00e2none P\u00e1li perguntam ao Buda a seguinte quest\u00e3o: \u201cH\u00e1 tantos professores por a\u00ed \u2013 em quem devemos acreditar?\u201d Ele responde: \u201cN\u00e3o se apoie em tradi\u00e7\u00e3o, escritura, autoridade ou filosofia. Apenas quando voc\u00ea perceber por sua pr\u00f3pria conta que uma pr\u00e1tica conduz ao sofrimento ou ao bem-estar, s\u00f3 ent\u00e3o voc\u00ea deve ou rejeit\u00e1-la ou aceit\u00e1-la\u201d.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0Esse texto ilustra que o sofrimento est\u00e1 no centro de todas as coisas. O Dharma \u00e9 sobre sofrimento e nada mais. N\u00e3o \u00e9 surpresa que fa\u00e7amos uso dele em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica!<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A isso chamamos de\u00a0<em>Primeira Nobre Verdade<\/em>:<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0a observa\u00e7\u00e3o de que existe o sofrimento. N\u00e3o \u00e9 um dogma. N\u00e3o quer dizer que\u00a0<em>tudo<\/em>\u00a0seja sofrimento. Ela s\u00f3 atesta o fato observ\u00e1vel do sofrimento. Tamb\u00e9m explica porque \u00e9 gen\u00e9rica: n\u00e3o \u00e9 sobre dor cr\u00f4nica, depress\u00e3o ou dist\u00farbios alimentares, mas sobre o sofrimento. Ent\u00e3o pretende ser \u00fatil em todas as condi\u00e7\u00f5es que implicam em sofrimento. No entanto, \u00e9 claro que\u00a0<em>upaya<\/em>\u00a0nos ensina a adequar esta verdade \u00e0 situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica deste sujeito em espec\u00edfico. Outro aspecto interessante desta passagem no\u00a0<em>Kalama Sutta<\/em>\u00a0\u00e9 que o Buda explicitamente apresenta o Dharma enquanto uma hip\u00f3tese test\u00e1vel. N\u00e3o admira o quanto muitos cientistas se interessam por Budismo.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A\u00a0<em>Segunda Nobre Verdade<\/em>\u00a0\u00e9 sobre a origem do sofrimento e a\u00a0<em>Terceira<\/em>\u00a0sobre o fim do sofrimento a partir da cessa\u00e7\u00e3o de sua origem. A origem pode ser identificada na express\u00e3o \u201csede\u201d (P\u00e1li\u00a0<em>tanha<\/em>). Esta sede, por sua vez, tem origem nas sensa\u00e7\u00f5es (<em>vedana<\/em>). O v\u00ednculo entre sensa\u00e7\u00e3o e sede n\u00e3o \u00e9 absoluto. A sensa\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o culminar em sede.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por exemplo: imaginemos que eu me apaixone pela esposa do meu vizinho. De certa forma, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado nisso, at\u00e9 o momento em que eu definitivamente deseje possu\u00ed-la, em que eu comece a considerar a minha vida insignificante sem ela, em que eu estiver disposto a fazer qualquer coisa para\u2026 \u00c9 a\u00ed que o sentimento se transforma em \u201csede\u201d e podemos nos assegurar que muito sofrimento surgir\u00e1 a partir de ent\u00e3o. Isso \u00e9 parte da cadeia de eventos que resulta em muitos suic\u00eddios ou assassinatos. O mesmo acontece com pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es. No momento em que eu me identifico com eles, no momento em que eu passo a persegui-los, o sofrimento surge.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A \u00e1rea de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0na medicina e sa\u00fade modernas tem uma linguagem muito bonita para descrever este processo. N\u00f3s falamos de reatividade ao estresse e resposta ao estresse. Reatividade \u00e9 quando a sede toma conta, e a resposta \u00e9 poss\u00edvel desde que uma sensa\u00e7\u00e3o ou pensamento permane\u00e7a enquanto sensa\u00e7\u00e3o ou pensamento e n\u00f3s tenhamos condi\u00e7\u00f5es de manter consci\u00eancia sobre eles, sem automaticamente reagir a eles. N\u00f3s tamb\u00e9m chamamos este processo \u201cver um pensamento\u00a0<em>como<\/em>\u00a0um pensamento, uma emo\u00e7\u00e3o\u00a0<em>como<\/em>\u00a0uma emo\u00e7\u00e3o\u201d de consci\u00eancia metacognitiva. Pesquisas indicam que este \u00e9 um elemento chave para que o treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0obtenha sucesso<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>O caminho \u00f3ctuplo<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os oito elementos do caminho \u00f3ctuplo n\u00e3o s\u00e3o uma simples sequ\u00eancia. Eles conversam entre si, sendo mutuamente inclusivos. Eles s\u00e3o chamados de \u201ccorretos\u201d, mas o termo s\u00e2nscrito (<em>samma\/samyak<\/em>) \u00e9 derivado da teoria musical e na verdade significa \u201charmonioso\u201d. Eles s\u00e3o \u201ccorretos\u201d no sentido de serem afinados uns com os outros para formar uma escala ou acorde. Uma vez que oito elementos s\u00e3o dif\u00edceis de memorizar, eles s\u00e3o geralmente sumarizados em tr\u00eas grupos: compreens\u00e3o, virtude e medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Compreens\u00e3o (<em>prajna<\/em>) \u00e9 a entrada para o caminho. Tem sido minha experi\u00eancia que pessoas procurando ajuda em contextos cl\u00ednicos e de sa\u00fade n\u00e3o se sentir\u00e3o motivadas para engajar na MBSR\/CT se n\u00e3o houver algum n\u00edvel de compreens\u00e3o e confian\u00e7a no porqu\u00ea eles devem fazer isso e por que ser\u00e1 \u00fatil.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Virtude (<em>sila<\/em>) \u00e9 provavelmente o elemento que mais nos inquieta. A ci\u00eancia n\u00e3o deveria ser livre de valora\u00e7\u00f5es? A\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0com certeza n\u00e3o \u00e9. Sem gentileza, respeito e dignidade, a\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 de modo algum correta (<em>samma<\/em>). Estas virtudes s\u00e3o tanto pr\u00e9-requisitos, elementos e resultados do caminho. \u00c9tica no Budismo \u00e9 completamente diferente do que estamos acostumados no Ocidente, uma vez que \u00e9 definida em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento: bom \u00e9 o que conduz ao bem-estar e mal \u00e9 o que conduz ao sofrimento. Colocada nesses termos, mesmo a \u00e9tica se transforma em uma hip\u00f3tese test\u00e1vel. E \u00e9 claro, ela \u00e9 uma pedra angular na medicina Ocidental, quando no Juramento de Hip\u00f3crates encontramos a injun\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>primum non nocere<\/em>.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Medita\u00e7\u00e3o (<em>samadhi<\/em>) \u00e9 o terceiro grupo. Medita\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais popular no Ocidente do que no Oriente. Nossa tend\u00eancia \u00e9 dar tanta \u00eanfase neste aspecto que a afina\u00e7\u00e3o com os outros elementos do caminho corre o risco de se perder.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A medita\u00e7\u00e3o Budista \u00e9 uma intera\u00e7\u00e3o entre\u00a0<em>samatha<\/em>\u00a0e\u00a0<em>vipasyana<\/em>.\u00a0<em>Samatha<\/em>\u00a0\u00e9 o parar e se acalmar. Diz respeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o de parar nossas atividades habituais e trazer nossa aten\u00e7\u00e3o para algo simples. \u00c9 parte integral da resposta de relaxamento de Benson.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0O pr\u00f3ximo passo \u00e9\u00a0<em>vipasyana<\/em>: observar, enxergar claramente. Tal relaxamento que acontece durante o treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 o fim em si mesmo, mas um passo na dire\u00e7\u00e3o da observa\u00e7\u00e3o, da consci\u00eancia metacognitiva. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o laboratorial. \u00c9 o local de onde n\u00f3s observamos a nossa mente trabalhando e aprendemos a mudar da rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica \u00e0quilo que se apresenta, para uma resposta apropriada e salutar, que \u00e9 a da sabedoria e da compaix\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0correta (<em>samma-sati<\/em>) encontra aqui o seu lugar, mas o significado do termo \u201c<em>mindfulness<\/em>\u201d expandiu nos \u00faltimos anos, ultrapassando o escopo de seu sentido original.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que fica claro \u00e9 que a coisa toda n\u00e3o termina na almofada de medita\u00e7\u00e3o. Daquilo que descobrimos na medita\u00e7\u00e3o, adv\u00e9m a compreens\u00e3o. Desta compreens\u00e3o adv\u00e9m gentileza, que por sua vez motiva e abastece a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, o que aprofunda ainda mais a compreens\u00e3o, que conduz a\u2026. \u00e9 um ciclo infinito.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Karma<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O t\u00f3pico quente de discuss\u00e3o na \u00e9poca do Buda era o karma. A palavra karma significa a\u00e7\u00e3o intencional, comportamento. De acordo com os textos cl\u00e1ssicos, o karma pode ser gerado por corpo, fala ou mente (em uma linguagem que soa surpreendentemente familiar ao terapeuta cognitivo dos dias atuais). A discuss\u00e3o na \u00e9poca era sobre as consequ\u00eancias do nosso comportamento. Havia, dentro outras, uma vertente de pensamento niilista que negava que o comportamento tinha qualquer consequ\u00eancia e afirmava que a vida era mais ou menos arbitr\u00e1ria. Outros defendiam uma vis\u00e3o materialista, dizendo que o comportamento tinha apenas consequ\u00eancias materiais, mas n\u00e3o \u00e9ticas ou psicol\u00f3gicas. A posi\u00e7\u00e3o do Buda era bastante clara: \u201cEu sou o detentor das minhas a\u00e7\u00f5es (karma), herdeiro das minhas a\u00e7\u00f5es, nascido das minhas a\u00e7\u00f5es, vinculado \u00e0s minhas a\u00e7\u00f5es e terei as minhas a\u00e7\u00f5es como meu \u00e1rbitro. O que quer que eu fa\u00e7a, bom ou ruim, \u00e9 isto que herdarei\u201d.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0O Buda tinha uma vis\u00e3o de atividade quanto ao\u00a0<em>self \u2013\u00a0<\/em>n\u00f3s somos o que fazemos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As Quatro Nobres Verdades s\u00e3o, portanto, uma teoria de karma. Elas afirmam que h\u00e1 um problema e tem algo que podemos fazer a respeito. Nossas a\u00e7\u00f5es importam. A f\u00f3rmula termina com a explica\u00e7\u00e3o do que deve ser feito.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por este motivo, um crit\u00e9rio para participar na MBSR\/MBCT \u00e9 algum n\u00edvel de abertura para o exame da quest\u00e3o do controle sobre o seu comportamento, para dar seguimento \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da possibilidade de que a sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inteiramente dependente das condi\u00e7\u00f5es externas \u2013 de que voc\u00ea pode assumir algum n\u00edvel de responsabilidade por si mesmo. Algumas vezes os pacientes v\u00eam com expectativas que\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0vai agir sobre eles como uma esp\u00e9cie de droga. Nesse sentido, eu devo adiantar:\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0n\u00e3o far\u00e1 nada por voc\u00ea, mas pode lhe ensinar como fazer algo por si mesmo. Para muitos participantes, \u00e9 exatamente isto que eles est\u00e3o procurando e o de que mais necessitam \u2013 uma forma de\u00a0<em>participar<\/em>\u00a0de sua pr\u00f3pria sa\u00fade e bem-estar. Eles se sentem felizes em finalmente encontrar algo que podem fazer por si mesmos, ao inv\u00e9s de ficar sempre impotentes diante do apoio em m\u00e9dicos, drogas e outras condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pacientes com depress\u00e3o cl\u00ednica muito severa ou psicose podem n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de, no momento, assumir responsabilidade por seu comportamento e, neste caso, o treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0pode ser contraindicado. No entanto, mesmo pessoas sofrendo de psicose podem ser ajudadas a encontrar uma maneira de assumir algum controle sobre alucina\u00e7\u00f5es perturbadoras, como o trabalho de Chadwick e colegas revelou.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn12\">[12]<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0em um contexto cl\u00ednico de fato acaba sendo uma forma um tanto empoderadora de trabalhar com as pessoas. Atrav\u00e9s do meu trabalho com\u00a0<em>mindfulness<\/em>, eu comecei a me dar conta que, como cl\u00ednico, eu fui treinado a subestimar as capacidades das pessoas. Ao ler um texto como o\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>\u00a0eu fui tocado pela compreens\u00e3o vasta que entende que cada um de n\u00f3s tem o potencial para se tornar um Buda. Come\u00e7ar um novo grupo de MBSR ou MBCT n\u00e3o \u00e9 come\u00e7ar com um grupo de pessoas com problemas mais ou menos graves. De fato, \u00e9 o come\u00e7o de um grupo de Budas em potencial. Pelo menos \u00e9 assim que eu enxergo e sei que isto tamb\u00e9m \u00e9 verdade para muitas pessoas que ensinam interven\u00e7\u00f5es baseadas em\u00a0<em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Prajna-karuna<\/em><\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa recente nos mostrou os efeitos ben\u00e9ficos da medita\u00e7\u00e3o (<em>samadhi<\/em>). N\u00f3s estamos adquirindo uma compreens\u00e3o crescente (<em>prajna<\/em>) dos mecanismos por tr\u00e1s destes benef\u00edcios. O que \u00e9 menos abordado na \u00e1rea de pesquisa em\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0\u00e9\u00a0<em>sila<\/em>, virtude. O fato de ser menos expl\u00edcita, n\u00e3o significa que ela n\u00e3o esteja presente. Ela n\u00e3o pode estar ausente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No Budismo, o fruto da pr\u00e1tica \u00e9 geralmente designado como\u00a0<em>prajna-karuna<\/em>\u00a0(<em>karuna<\/em>\u00a0significando compaix\u00e3o). Desde os prim\u00f3rdios do Budismo, o cognitivo e a \u00e9tica andam de m\u00e3os dadas.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0<em>Prajna<\/em>\u00a0e\u00a0<em>karuna<\/em>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o duas coisas distintas. Elas s\u00e3o uma s\u00f3 e mesma coisa. Os elementos cognitivo e \u00e9tico s\u00e3o um todo insepar\u00e1vel. No Zen se diz que a compreens\u00e3o e a compaix\u00e3o s\u00e3o relacionadas uma com a outra como a chama \u00e9 com o calor, uma em fun\u00e7\u00e3o da outra. A compaix\u00e3o naturalmente emerge da compreens\u00e3o. Sem compaix\u00e3o, a compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como podemos explicar isso em termos psicol\u00f3gicos mais familiares? Consci\u00eancia metacognitiva \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>prajna<\/em>. Mas eu n\u00e3o tenho como estar metacognitivamente consciente das minhas emo\u00e7\u00f5es de tristeza, sem trazer muita gentileza para estas emo\u00e7\u00f5es e para mim mesmo. Ser honesto consigo mesmo deste modo \u00e9 parte de estar aberto a tudo. E nem sempre tudo \u00e9 belo e vibrante.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pode acontecer de eu me sentar na almofada de medita\u00e7\u00e3o ao entardecer e de repente me lembrar de algo muito est\u00fapido que fiz durante o dia, um erro, algo rid\u00edculo\u2026 Estava t\u00e3o ocupado que me esqueci completamente do que fiz. Ent\u00e3o, neste fim de dia, eu me lembro disso na almofada e n\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria. Seria cruel me conscientizar da minha pr\u00f3pria estupidez sem gentileza. N\u00f3s precisamos de gentileza para ser poss\u00edvel e toler\u00e1vel sustentar uma aten\u00e7\u00e3o receptiva e aberta. Eu preciso renunciar aos julgamentos r\u00edspidos e \u00e0s repreens\u00f5es a meus pensamentos e sentimentos. A a\u00e7\u00e3o de estar cognitivamente consciente \u00e9 imposs\u00edvel sem uma postura de compaix\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nesse sentido, a consci\u00eancia exige gentileza, mas haveria tamb\u00e9m uma\u00a0<em>consequ\u00eancia\u00a0<\/em>da consci\u00eancia metacognitiva? A \u00e9tica da consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 de modo algum moralizante. Imaginemos que eu esteja com muita, muita raiva \u2013 tanta que poderia matar algu\u00e9m. A minha raiva estreita minha consci\u00eancia. Neste estreitamento habita um grande perigo. Quando, ao inv\u00e9s de estreit\u00e1-la, eu consigo abri-la e encarar a minha raiva e examin\u00e1-la sem agir sob o seu dom\u00ednio, impulsivamente \u2013 quando eu consigo perceber o meu pensamento e julgamento trabalhando, sem tom\u00e1-los como realidades \u2013 o que vai acontecer?<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Haver\u00e1 uma maior consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o, da interdepend\u00eancia dos meus pr\u00f3prios motivos, da perspectiva do outro, das causas e consequ\u00eancias das minhas emo\u00e7\u00f5es e escolhas, e de todo o sofrimento envolvido. A compaix\u00e3o surge da consci\u00eancia do sofrimento \u2013 em mim e no outro \u2013 e de nossa interconex\u00e3o. O assassinato, muito provavelmente, n\u00e3o vai acontecer. Uma consci\u00eancia mais sens\u00edvel e ampla ir\u00e1 muito provavelmente conduzir a uma resposta mais adequada aos meandros da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu descobri que muito frequentemente depois do programa de oito semanas, os participantes se veem mais compassivos diante de animais. Eu ouvi muitos relatos, muitas vezes bem-humorados, de tentativas de salvar aranhas que antes seriam imediatamente esmagadas de maneira irrefletida. A princ\u00edpio, eu fiquei surpreso de observar esses resultados do treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>, especialmente uma vez que nenhum elemento da ret\u00f3rica Mahayana de \u201csalvar todos os seres sencientes\u201d \u00e9 encontrado no programa. Mas o simples fato de estar mais consciente torna as pessoas mais sens\u00edveis ao sofrimento do menor dos animais. Frequentemente eu era tocado por estas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 l\u00f3gico que os pesquisadores cognitivos se aproximam da \u00e1rea de um \u00e2ngulo cognitivo. Seria maravilhoso se encontr\u00e1ssemos uma maneira de conceituar e investigar melhor os aspectos compassivos da\u00a0<em>mindfulness<\/em>. Em um trabalho recente de Paul Gilbert,\u00a0<em>Compassion Focused Therapy<\/em>,<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn14\">[14]<\/a>\u00a0encontramos um exemplo deste direcionamento.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ensinando<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Como em muitos aspectos dos ensinamentos, as diferentes tradi\u00e7\u00f5es Budistas adaptaram o modelo da rela\u00e7\u00e3o professor-aluno para a cultura onde o ensinamento acontecia. Na MBCT, esta rela\u00e7\u00e3o entra no mundo da medicina e da psicoterapia. Esta mudan\u00e7a de panorama cultural d\u00e1 origem a muitas armadilhas.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O ensino de\u00a0<em>mindfulness<\/em>, como no ensino de qualquer outra habilidade, \u00e9 encarado como uma intera\u00e7\u00e3o entre a habilidade em si, a capacidade do professor e a capacidade do aluno. O ensinamento deve ser cuidadosamente ajustado \u00e0 capacidade do aluno. O aluno \u00e9 ele mesmo um elemento t\u00e3o definitivo na rela\u00e7\u00e3o quanto o professor.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 nenhum elemento da pr\u00e1tica de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0em que o treinador \u00e9 mais desafiado do que o da investiga\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo. Ser um terapeuta muitas vezes \u00e9 um impedimento ao ensino de\u00a0<em>mindfulness<\/em>. \u00c9 a minha experi\u00eancia no ensino e na supervis\u00e3o de treinadores de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0que terapeutas e m\u00e9dicos geralmente cedem ao seu instinto de oferecer conselhos ou ser am\u00e1veis, amig\u00e1veis e amparadores, de modo que muitas vezes desempoderam a pessoa. O treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>, ao contr\u00e1rio, reconhece a responsabilidade da pr\u00f3pria pessoa por seus pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A investiga\u00e7\u00e3o durante a aula de\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0\u00e9 apenas uma das t\u00e9cnicas para ensinar\u00a0<em>mindfulness<\/em>, do mesmo modo que o escaneamento do corpo ou o intervalo de tr\u00eas minutos de respira\u00e7\u00e3o. A armadilha mais comum \u00e9 enxergar a investiga\u00e7\u00e3o como uma explora\u00e7\u00e3o psicoterap\u00eautica, destinada a enquadrar ou solucionar um problema.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Durante o processo de investiga\u00e7\u00e3o o professor \u00e9 continuamente (ainda que n\u00e3o intencionalmente) desafiado, e \u00e9 f\u00e1cil reagir ao inv\u00e9s de responder. Se surgir medo ou raiva ou tristeza, o professor se envolve com isso com gentileza, sem julgamento, com uma mente aberta. Voc\u00ea aceita enquanto um fato, do mesmo modo que o aluno experiencia sua pr\u00f3pria perspectiva. Voc\u00ea reconhece a perspectiva do participante como a perspectiva dele, sem necessariamente concordar ou se identificar com ela.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como treinadores, \u00e9 demandado de n\u00f3s que encarnemos\u00a0<em>mindfulness<\/em>. N\u00f3s iremos perceber a tend\u00eancia de nossa mente de defender, consolar, concordar, contradizer, reagir. O grupo ir\u00e1 nos encarar e se indagar \u2018o que ele vai fazer a este respeito?\u2019 Responder sem reagir, ao que quer que surja, nos torna um exemplo no processo de ensino de\u00a0<em>mindfulness<\/em>. A nossa forma de responder \u00e9 guiada pela inten\u00e7\u00e3o de ensinar o aluno a se envolver de forma atenta e consciente [<em>mindful<\/em>] com sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. N\u00f3s aceitamos o que o aluno apresenta como a sua perspectiva de mundo e ajudamos a clarificar esta experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O primeiro lugar para aprendermos sobre a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o. Sentar ou deitar sem julgamentos e com gentileza, se envolvendo com o que quer que surja, \u00e9 um treino poderoso. Exatamente a mesma coisa \u00e9 o que acontece com a investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por este motivo \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil ensinar a algu\u00e9m alguma habilidade que n\u00f3s n\u00e3o dominamos em algum n\u00edvel. Tudo come\u00e7a com a nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica: \u201co ensino vem da pr\u00f3pria paix\u00e3o pela pr\u00e1tica\u201d, diz Jon Kabat-Zinn. Thich Nhat Hanh, em uma confer\u00eancia, contou a hist\u00f3ria de um aluno ciumento que o perguntou: \u201cE quando eu estarei pronto para ser um professor?\u201d Sua r\u00e1pida resposta foi: \u201cQuando voc\u00ea estiver feliz\u201d. Um ponto de refer\u00eancia s\u00f3brio e uma boa medida de motiva\u00e7\u00e3o para qualquer um que deseja ensinar\u00a0<em>mindfulness<\/em>.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>\u00a0tem alguns conselhos tocantes para qualquer professor: \u201c[o professor]\u00a0<em>deve entrar na sala do Buda, vestir as vestes do Buda e sentar no trono do Buda<\/em>\u201d. O\u00a0<em>Sutra<\/em>\u00a0explica: \u201c<em>A sala \u00e9 a grande compaix\u00e3o; as vestes s\u00e3o a gentileza e a paci\u00eancia; o trono \u00e9 a vaziez de todos os Dharmas\u201d<\/em>.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0A primeira influ\u00eancia da medita\u00e7\u00e3o Zen em minha pr\u00e1tica cl\u00ednica foi que eu aprendi a ver os meus pacientes n\u00e3o como enfermos, mas como seres que sofrem. Compaix\u00e3o \u00e9 a resposta espont\u00e2nea diante do sofrimento. Gentileza e paci\u00eancia nos ajudam a n\u00e3o reagir automaticamente a comportamentos adversos. Como uma veste, elas nos protegem, mesmo quando o processo de mudan\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil. Vaziez diz respeito \u00e0 abertura que n\u00f3s descobrimos e cultivamos em nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica. Aponta para o discernimento que reconhece a natureza intrinsicamente insubstancial e vazia de todas as coisas \u2013 o fato de elas n\u00e3o serem permanentes e existentes em si mesmas. \u00c9 deste ponto que tudo come\u00e7a.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Manejando interven\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No vasto tesouro de hist\u00f3rias Budistas, a seguinte p\u00e9rola \u00e9 encontrada:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Sempre que perguntavam algo ao Mestre Zen Gutei, ele apenas estendia um dedo. Certa vez ele tinha um jovem atendente a quem um visitante dirigiu uma pergunta \u2013 \u201cO que \u00e9 o Zen que o seu Mestre est\u00e1 ensinando?\u201d O jovem tamb\u00e9m estendeu um dedo. Ao ouvir esta hist\u00f3ria, Gutei decepou o dedo do jovem com uma faca. Conforme o jovem sa\u00eda correndo, esgoelando e em p\u00e2nico, Gutei o chamou. Quando o jovem se voltou para ele, Gutei estendeu seu dedo. O jovem subitamente atingiu a ilumina\u00e7\u00e3o.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn16\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para confort\u00e1-lo desde j\u00e1: esta hist\u00f3ria nunca aconteceu de fato. Professores Zen n\u00e3o andam por a\u00ed carregando facas e muito menos decepando dedos. Este tipo de hist\u00f3ria did\u00e1tica, chamadas de\u00a0<em>koans<\/em>, deliberadamente e com grande senso de humor, desafiam nossas preconcep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta hist\u00f3ria \u00e9 sobre, entre outras coisas, manejar interven\u00e7\u00f5es. Gutei, em seu ensinamento, parecia obedecer a um protocolo muito simples para sua interven\u00e7\u00e3o: ele apenas estendia um dedo. Mas quando nosso \u201caprendiz de feiticeiro\u201d segue o mesmo protocolo do seu mestre, ele falha miseravelmente. O mesmo comportamento, ao menos \u00e9 o que parece, claramente n\u00e3o carrega o mesmo significado. Apenas quando o protocolo \u00e9 quebrado (o que \u00e9 simbolizado com o dedo cortado), ele entende o prop\u00f3sito da coisa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O comportamento ilustrado neste\u00a0<em>koan<\/em>\u00a0definitivamente n\u00e3o \u00e9 um protocolo a ser imitado no treino em\u00a0<em>mindfulness<\/em>! Mas quando n\u00f3s nos perguntarmos por qual atitude a investiga\u00e7\u00e3o h\u00e1bil poderia ser reconhecida por um observador, esta hist\u00f3ria nos alerta a n\u00e3o sermos demasiado superficiais em nossa compreens\u00e3o do que de fato est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tr\u00eas Joias<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No centro de todas as tradi\u00e7\u00f5es Budistas est\u00e1 o que n\u00f3s chamamos de Tr\u00eas Joias: Buda, Dharma e Sangha.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Buda originalmente faz refer\u00eancia \u00e0 pessoa hist\u00f3rica. Em anos posteriores, o significado mudou da pessoa para aquilo que ela representa. Jon Kabat-Zinn \u00e0s vezes mostra uma fotografia de uma grande est\u00e1tua do Buda em suas palestras e sugere \u00e0 audi\u00eancia que isto n\u00e3o deve ser compreendido enquanto uma deidade, mas como um estado mental particular \u2013 o do despertar.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dharma \u00e9 o ensinamento e a pr\u00e1tica. Conforme demonstra a hist\u00f3ria do Budismo, \u00e9 um processo de cont\u00ednua reformula\u00e7\u00e3o de acordo com as necessidades atuais daqueles \u00e0 nossa frente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sangha \u00e9 a comunidade, significando originalmente a comunidade de mon\u00e1sticos (monges e monjas) e se estendendo a todos os envolvidos nesta comunidade. Existe uma forte sensa\u00e7\u00e3o de que isto n\u00e3o \u00e9 uma coisa individual ou particular. O grupo \u00e9 importante. N\u00f3s apoiamos uns aos outros quando praticamos juntos. \u00c9 por este motivo que \u00e9 t\u00e3o poderoso ensinar\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0em grupos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m temos a comunidade de professores e pesquisadores de\u00a0<em>mindfulness<\/em>. N\u00f3s tamb\u00e9m somos uma sangha. Minha esperan\u00e7a \u00e9 que esta sangha, conforme cres\u00e7a e se torne mais e mais enraizada na ci\u00eancia ocidental e na pr\u00e1tica cl\u00ednica, n\u00e3o perca todos os la\u00e7os com a riqueza de suas antigas ra\u00edzes Budistas. Ainda h\u00e1 muito o que aprender desta tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Portanto, quero encerrar este texto, como uma oferenda \u00e0 sangha, com um belo di\u00e1logo entre o Buda e Ananda:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Ananda disse ao Aben\u00e7oado: \u201cisto \u00e9 metade da vida sagrada, Soberano: amizade admir\u00e1vel, companhia admir\u00e1vel, camaradagem admir\u00e1vel.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201cN\u00e3o diga isso, Ananda. N\u00e3o diga isso. Amizade admir\u00e1vel, companhia admir\u00e1vel, camaradagem admir\u00e1vel \u00e9, na verdade, a integridade da vida sagrada. Quando um monge tem pessoas admir\u00e1veis como amigas, companheiras e camaradas, \u00e9 esperado que ele desenvolva e persiga o nobre caminho \u00f3ctuplo.\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftn17\"><strong>[17]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BENSON, H., B. A. ROSNER, B. R. MARZETTA, e H. M. KLEMCHUK. 1974.\u00a0<em>Decreased bloodpressure in pharmacologically treated hypertensive patients who regularly elicited the relaxation response.<\/em>\u00a0The Lancet 1 (7852): 289\u201391.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">CHADWICK, P., S. HUGHES, D. RUSSELL, I. RUSSELL, e D. DAGNAN. 2009.\u00a0<em>Mindfulness<\/em><em>\u00a0groups for distressing voices and paranoia: A replication and randomized feasibility trial<\/em>. Behavioural and Cognitive Psychotherapy 37 (4): 403\u201312.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">GILBERT, PAUL. 2010.\u00a0<em>Compassion focused therapy<\/em>. London and New York: Routledge.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">KABAT-ZINN, J. 1990.\u00a0<em>Full castastrophe living: the program of the Stress Reduction Clinic at the University of Massachusetts Medical Center<\/em>. New York: Dell Publishing.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">KEOWN. 1992\/2001.\u00a0<em>The nature of Buddhist ethics<\/em>. Basingstoke, UK: Macmillan\/Palgrave.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">REEVES, GENE. Trad. 2009.\u00a0<em>The Lotus Sutra, a contemporary translation of a Buddhist classic<\/em>. Wisdom Publications.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">TEASDALE, J. D., R. G. MOORE, H. HAYHURST, M. POPE, S. WILLIAMS, e Z. V. SEGAL. 2002.\u00a0<em>Metacognitive awareness and prevention of relapse in depression: Empirical evidence.<\/em>\u00a0Journal of Consulting Clinical Psychology 70 (2): 275\u201387.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">THICH NHAT HANH. 1990. Pref\u00e1cio. Em\u00a0<em>Full castastrophe living: the program of the stress reduction clinic at the University of Massachusetts medical center.<\/em>\u00a0por J. Kabat-Zinn New York: Dell Publishing.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Edel Maex \u00e9 um psiquiatra e aluno zen.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Kabat-Zinn (1990).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Thich Nhat Hanh (1990).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>, cap\u00edtulo 12. Existem muitas tradu\u00e7\u00f5es do ingl\u00eas do\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>\u00a0em ingl\u00eas \u2013 uma das mais belas \u00e9 de Reeves (2009).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0<em>Udana<\/em>, 5.5<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus,\u00a0<\/em>cap\u00edtulo 3.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0<em>Kalama Sutta: Angutara Nikaya<\/em>, 3.65.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0<em>Samyatta Nikaya<\/em>\u00a056.11.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0Teasdale et al., (2002).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0Benson et al., (1974).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0<em>Anguttara Nikaya<\/em>, V. 57.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0Chadwick et al., (2009).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref13\">[13]<\/a>\u00a0Keown (1992\/2001).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref14\">[14]<\/a>\u00a0Gilbert (2010).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref15\">[15]<\/a>\u00a0<em>Sutra do L\u00f3tus<\/em>, cap\u00edtulo 10.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref16\">[16]<\/a>\u00a0Mumonkan, caso 3.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/25\/as-raizes-budistas-de-mindfulness\/#_ftnref17\">[17]<\/a>\u00a0<em>Samyutta Nikaya<\/em>, XLV. 2.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS RA\u00cdZES BUDISTAS DO TREINO EM\u00a0MINDFULNESS:UMA VIS\u00c3O DE PRATICANTE[1] Edel Maex Resumo.\u00a0O livro de Jon Kabat-Zinn,\u00a0Viver a Cat\u00e1strofe Total,\u00a0habilmente traduziu conceitos Budistas tradicionais para uma &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-raizes-budistas-do-treino-em-mindfulness-edel-maex\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">AS RA\u00cdZES BUDISTAS DO TREINO EM MINDFULNESS: UMA VIS\u00c3O DE PRATICANTE &#8211; 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