{"id":8127,"date":"2020-03-27T04:02:15","date_gmt":"2020-03-27T04:02:15","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-dimensoes-cognitivas-de-mindfulness-george-dreyfus\/"},"modified":"2020-03-27T04:02:15","modified_gmt":"2020-03-27T04:02:15","slug":"as-dimensoes-cognitivas-de-mindfulness-george-dreyfus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-dimensoes-cognitivas-de-mindfulness-george-dreyfus\/","title":{"rendered":"AS DIMENS\u00d5ES COGNITIVAS DE MINDFULNESS &#8211; George Dreyfus"},"content":{"rendered":"\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS DIMENS\u00d5ES COGNITIVAS DE MINDFULNESS<br \/><\/strong>Seria mindfulness estar no presente e suspender os julgamentos? Uma discuss\u00e3o das dimens\u00f5es cognitivas de mindfulness.<\/br>\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Georges Dreyfus<\/strong><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo critica a caracteriza\u00e7\u00e3o comum de <em>mindfulness<\/em> enquanto uma pr\u00e1tica voltada exclusivamente ao foco no momento presente e a isen\u00e7\u00e3o de julgamentos na consci\u00eancia \u2013 argumenta-se no sentido de que essa caracteriza\u00e7\u00e3o perde de vista alguns aspectos centrais da pr\u00e1tica de mindfulness, conforme os registros budistas cl\u00e1ssicos, que priorizam n\u00e3o s\u00f3 o presente como tamb\u00e9m o passado. O autor demonstra que, de acordo com essas fontes, o aspecto central da mindfulness n\u00e3o \u00e9 o foco no presente, mas a capacidade de sustentar um objeto meditativo no campo cont\u00ednuo da aten\u00e7\u00e3o, independentemente de o objeto estar ou n\u00e3o no presente. Tamb\u00e9m procura demonstrar que, de acordo com essas fontes, a mindfulness pode ser explicitamente anal\u00edtica, tornando expl\u00edcita a diferen\u00e7a da perspectiva cl\u00e1ssica budista e da compreens\u00e3o moderna de mindfulness enquanto um processo de n\u00e3o julgamento. Conclui que, ainda que a compreens\u00e3o moderna possa ser \u00fatil enquanto um artif\u00edcio operacional voltado para a instru\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, ela n\u00e3o oferece uma base adequada para uma an\u00e1lise te\u00f3rica da mindfulness, uma vez que limita a \u00eanfase em sua natureza reminiscente, no \u00e2mbito da mem\u00f3ria, para privilegiar seu aspecto n\u00e3o conceitual.<\/em><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz apenas alguns anos desde que eu descobri o alcance do conceito de mindfulness na \u00e1rea da psicologia. A princ\u00edpio, foi uma surpresa feliz perceber que um conceito t\u00e3o central da pr\u00e1tica budista vinha sendo utilizado com grande efetividade enquanto um instrumento terap\u00eautico, mas logo o meu entusiasmo deu lugar a uma certa inquieta\u00e7\u00e3o diante das formas com as quais muitos psic\u00f3logos abordavam o assunto, tomando-o como mais ou menos autoexplicativo, ou analisando-o a partir das defini\u00e7\u00f5es superficiais advindas do trabalho de Jon Kabat-Zinn (1990). Impressionou-me o fato de que essas discuss\u00f5es na \u00e1rea da psicologia eram conduzidas sem nenhuma refer\u00eancia s\u00e9ria \u00e0s fontes originais budistas, das quais elas supostamente bebiam. Como um estudioso de budismo, eu sentia que estas discuss\u00f5es perdiam de vista pontos importantes e apresentavam vers\u00f5es da mindfulness que eu tinha dificuldades em reconhecer. Minha tenta\u00e7\u00e3o inicial era apenas encarar estas apresenta\u00e7\u00f5es como ileg\u00edtimas, incapazes de fazer jus \u00e0s ideias encontradas nos textos originais. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o as desqualificava, uma vez que eu acreditava que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em reinterpretar ideias antigas de modo a adapt\u00e1-las a um contexto moderno. Eu entendia o uso terap\u00eautico da mindfulness enquanto uma inven\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o que oferecia ferramentas e conceitos \u00fateis a um contexto de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, mas pensava que todos estariam melhor se fossem abandonadas de uma vez as refer\u00eancias ao budismo e a pretens\u00e3o de apresentar suas ideias e pr\u00e1ticas de maneira aut\u00eantica.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflex\u00f5es posteriores transformaram a minha opini\u00e3o sem, contudo, aliviar meu desconforto. Esta mudan\u00e7a veio como um resultado da minha aten\u00e7\u00e3o crescente \u00e0 imensa multiplicidade de tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Enquanto um acad\u00eamico de estudos religiosos, eu entendo que a pretens\u00e3o de indicar uma \u201cvis\u00e3o budista da mindfulness\u201d deve encontrar resist\u00eancia, uma vez que soa como uma tentativa de privilegiar certas partes da tradi\u00e7\u00e3o em detrimento de outros aspectos menos conhecidos. O budismo \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o plural que evoluiu no decorrer dos s\u00e9culos, passando a incluir uma grande variedade de perspectivas sobre mindfulness. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 uma vis\u00e3o \u00fanica e particular que corresponde \u00e0 \u201cvis\u00e3o budista de mindfulness\u201d. O que frequentemente se apresenta como \u201ca vis\u00e3o budista de mindfulness\u201d \u00e9 geralmente derivada das tradi\u00e7\u00f5es escol\u00e1sticas, em particular das v\u00e1rias vers\u00f5es do\u00a0<em>Abhidharma<\/em>. Essas apresenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o definitivamente importantes para entender algumas ideias budistas fundamentais, mas n\u00e3o podem ser tomadas enquanto um ponto de refer\u00eancia normativo, de modo que as demais apresenta\u00e7\u00f5es sejam julgadas como inaut\u00eanticas. De fato, creio que a ret\u00f3rica da \u201cautenticidade\u201d deve ser encarada com uma boa dose de suspeita. Com muita frequ\u00eancia, trata-se de uma tentativa de recobrar a autoridade e desqualificar outras vis\u00f5es dentro da tradi\u00e7\u00e3o, vis\u00f5es que podem mesmo ser marginais, mas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente ileg\u00edtimas. Portanto, reconhe\u00e7o que algumas das minhas rea\u00e7\u00f5es iniciais ao movimento de mindfulness podem ser reflexos de um desconforto ao ver minha pr\u00f3pria ambi\u00e7\u00e3o de autoridade ser desconsiderada, e minha perspectiva profissional ser ignorada. E, como mencionei mais acima, isso n\u00e3o significa que meu desconforto tenha pacificado.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas p\u00e1ginas a seguir, eu irei refletir um pouco sobre as raz\u00f5es desse desconforto e examinar os problemas que percebo nas an\u00e1lises mais recentes de mindfulness, baseado em meu entendimento das fontes originais budistas, com as quais tenho familiaridade enquanto um estudioso dos textos interessado em pr\u00e1ticas meditativas e na rela\u00e7\u00e3o do budismo com as discuss\u00f5es cient\u00edficas contempor\u00e2neas. \u00c9 importante deixar claro que a minha discuss\u00e3o quanto a mindfulness n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de oferecer uma vers\u00e3o final e definitiva sobre o conceito budista de mindfulness, uma vez que eu n\u00e3o acredito que tal coisa sequer seja poss\u00edvel. Tamb\u00e9m gostaria de deixar claro que n\u00e3o tenho a inten\u00e7\u00e3o de avaliar criticamente as pr\u00e1ticas terap\u00eauticas que incluem mindfulness, algo que est\u00e1 completamente fora das minhas compet\u00eancias. O que intenciono \u00e9 oferecer uma reflex\u00e3o quanto aos problemas que enxergo na maneira que a mindfulness \u00e9 conceituada na literatura psicol\u00f3gica e perguntar: a mindfulness precisa ser uma pr\u00e1tica de foco no presente e isenta de julgamentos, como parece ser a dimens\u00e3o expressa pela literatura psicol\u00f3gica? Para responder a quest\u00e3o, eu vou come\u00e7ar com um exame da defini\u00e7\u00e3o padr\u00e3o de mindfulness na literatura, que a entende enquanto uma consci\u00eancia n\u00e3o elaborada e n\u00e3o avaliativa, voltada para o presente. Vou procurar demonstrar como essa defini\u00e7\u00e3o reflete as instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas dadas no contexto do treinamento e argumentar no sentido de que ela n\u00e3o oferece uma base para uma boa explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, pois n\u00e3o abarca o aspecto central da mindfulness, que \u00e9 a sustenta\u00e7\u00e3o do objeto meditativo \u2013 uma aten\u00e7\u00e3o sustentada que independe de o objeto meditativo estar ou n\u00e3o no presente. Ao frisar o aspecto de mem\u00f3ria e reminisc\u00eancia da mindfulness, eu enfatizo seu aspecto cognitivo em detrimento do aspecto n\u00e3o conceitual. Argumento adiante que essa habilidade de reten\u00e7\u00e3o \u00e9 proeminente em v\u00e1rios processos cognitivos, nos lembrando de n\u00e3o perder de vista o aspecto mnem\u00f4nico da mindfulness de modo a n\u00e3o confundir instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e defini\u00e7\u00f5es operacionais com an\u00e1lise te\u00f3rica. Eu concluo apontando as consequ\u00eancias de desconsiderar a dimens\u00e3o cognitiva na pr\u00e1tica de mindfulness.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma defini\u00e7\u00e3o padr\u00e3o de mindfulness<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao examinar o que eu considero problem\u00e1tico nas diversas vis\u00f5es de mindfulness na literatura psicol\u00f3gica, obviamente eu n\u00e3o posso falar por todas. N\u00e3o obstante, creio que h\u00e1 algo pr\u00f3ximo de um consenso nesta literatura profissional quanto \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o de mindfulness. Essa perspectiva comum pode ser encontrada nos trabalhos de, por exemplo, S. Bishop, que nos ofereceu uma defini\u00e7\u00e3o que hoje \u00e9 majoritariamente aceita. Segundo Bishop:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Em sentido amplo, mindfulness pode ser descrita como uma consci\u00eancia n\u00e3o elaborada, isenta de julgamento, voltada para o presente, na qual cada pensamento, emo\u00e7\u00e3o ou sensa\u00e7\u00e3o que surja no campo perceptivo \u00e9 reconhecida e aceita tal qual ela \u00e9.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta defini\u00e7\u00e3o, que reflete o ponto de vista do terapeuta, engajado em interven\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, aponta para duas caracter\u00edsticas da mindfulness. Primeiro, enfatiza a natureza n\u00e3o avaliativa da mindfulness enquanto um estado de consci\u00eancia que permite uma observa\u00e7\u00e3o dos estados mentais sem uma identifica\u00e7\u00e3o r\u00edgida com eles, de modo a gerar uma atitude de aceita\u00e7\u00e3o que pode conduzir a mais curiosidade e melhor compreens\u00e3o de si pr\u00f3prio. Isso conduz a um desengajamento de padr\u00f5es habituais de rea\u00e7\u00e3o discursiva e afetiva, de modo a permitir respostas mais refletidas \u00e0s circunst\u00e2ncias dif\u00edceis da vida, ao inv\u00e9s de manter-se preso aos pr\u00f3prios h\u00e1bitos e compuls\u00f5es.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, h\u00e1 uma acentuada \u00eanfase no aspecto \u201cpresente\u201d da mindfulness, que \u00e9 compreendido como um foco no que acontece no momento exato da pr\u00e1tica. A ideia geral \u00e9 que, para nos liberarmos, temos de aquietar a mente e nos desvincular das tend\u00eancias compulsivas que conceituam nossas experi\u00eancias em termos de gosto ou n\u00e3o gosto. Esta \u201cdesautomatiza\u00e7\u00e3o\u201d de nossas tend\u00eancias habituais de julgamento \u00e9 realizada a partir da limita\u00e7\u00e3o do escopo de nossa aten\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 acontecendo no presente momento. Ao inv\u00e9s de constantemente avaliar nossas experi\u00eancias em termos de mem\u00f3rias passadas ou expectativas futuras, n\u00f3s precisamos tomar consci\u00eancia daquilo que est\u00e1 acontecendo no momento, observando nossas experi\u00eancias e rea\u00e7\u00f5es ao inv\u00e9s de gerar elabora\u00e7\u00f5es quanto ao seu conte\u00fado. Desta forma, n\u00f3s seremos capazes de desenvolver um tipo de equanimidade n\u00e3o reativa, que nos permite ver as coisas como s\u00e3o e agir de acordo com a realidade ao inv\u00e9s de sujeitarmo-nos aos nossos padr\u00f5es rotineiros de reatividade avaliativa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 de in\u00edcio, devo constatar que h\u00e1 muito de louv\u00e1vel nesta caracteriza\u00e7\u00e3o de mindfulness. A desautomatiza\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es habituais de reatividade e o despertar de respostas mais amplas certamente \u00e9 uma parte importante da pr\u00e1tica budista, que objetiva liberar a mente de suas compuls\u00f5es internas condutivas ao sofrimento. Tamb\u00e9m \u00e9 n\u00edtido o benef\u00edcio de enfatizar a qualidade de sustenta\u00e7\u00e3o do momento presente na mindfulness, especialmente no in\u00edcio do caminho, quando a mente se encontra prisioneira de uma discursividade desenfreada. Isso n\u00e3o significa dizer, por\u00e9m, que mindfulness \u00e9 necessariamente voltada ao momento presente (como veremos a seguir), nem que \u00e9 necessariamente isenta de qualquer atividade de avalia\u00e7\u00e3o ou julgamento, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que a disciplina de manter a mente est\u00e1vel no momento presente e refrear a tagarelice habitual \u00e9 um est\u00e1gio importante da educa\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a base da pr\u00e1tica meditativa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Permitam-me deixar claro que meu objetivo aqui n\u00e3o \u00e9 criticar a pr\u00e1tica de terapeutas e professores budistas que v\u00eam tentando adaptar conceitos budistas cl\u00e1ssicos a um contexto moderno. Tal adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria e est\u00e1 fora de quest\u00e3o. Eu almejo lan\u00e7ar um olhar cr\u00edtico ao modelo te\u00f3rico que parece pressuposto a esses praticantes, de modo a oferecer uma compreens\u00e3o te\u00f3rica mais adequada aos mecanismos cognitivos envolvidos na pr\u00e1tica de mindfulness. Para fazer isso, irei examinar o trato da mindfulness em algumas fontes budistas cl\u00e1ssicas. Darei \u00eanfase maior, mas n\u00e3o somente, nos claros debates acerca da quest\u00e3o encontrados na tradi\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica de coment\u00e1rios, em particular nas apresenta\u00e7\u00f5es presentes nos v\u00e1rios\u00a0<em>Abhidharmas<\/em>\u00a0(a parte do c\u00e2none budista que analisa o dom\u00ednio da experi\u00eancia senciente e os fen\u00f4menos que comp\u00f5e o universo desta experi\u00eancia [<em>dharma<\/em>], listando-os e agrupando-os em categorias apropriadas de modo a desconstruir o postulado de um sujeito substancial, essencial e duradouro). Mesmo um olhar apressado para essas fontes revela que as defini\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de mindfulness n\u00e3o correspondem \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o de mindfulness enquanto uma experi\u00eancia focada na consci\u00eancia do momento presente e isenta de julgamentos. Ainda que este entendimento n\u00e3o seja estranho \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o ocupa um local central como parecem presumir muitos praticantes de mindfulness modernos. Podemos, ent\u00e3o, nos perguntar como a tradi\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica budista cl\u00e1ssica entende mindfulness e, mais importante, o que podemos aprender dessas fontes cl\u00e1ssicas sobre mindfulness de modo a descortinar caracter\u00edsticas que foram at\u00e9 ent\u00e3o ignoradas na concep\u00e7\u00e3o atual. Antes de fazermos isso, contudo, devemos esclarecer os termos de investiga\u00e7\u00e3o e entendimento e compreender o campo sem\u00e2ntico das palavras que ser\u00e3o usadas nesta discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong><p style=\"text-align: justify;\">Mindfulness,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0e reten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra inglesa\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0\u00e9 uma palavra antiga que indica a qualidade de consci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o. Uma curiosidade que acrescenta na discuss\u00e3o, \u00e9 que ela tamb\u00e9m detinha a conota\u00e7\u00e3o de rememorar, ou manter um prop\u00f3sito em mente, usos que parecem ter se extinguido com o tempo. Esta palavra foi usada para traduzir v\u00e1rios termos budistas \u2013 principalmente a palavra s\u00e2nscrita\u00a0<em>smrti<\/em>\u00a0(pali\u00a0<em>sati<\/em>, tibetano\u00a0<em>dran pa<\/em>). Esses termos s\u00e3o frequentemente usados dentro da tradi\u00e7\u00e3o budista, geralmente considerados centrais na pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com a tradu\u00e7\u00e3o\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0desde que o leitor tenha em mente o alcance sem\u00e2ntico desses termos. Quando exploramos esse alcance, por\u00e9m, nos damos conta de que o entendimento de mindfulness\/<em>sati<\/em>\u00a0enquanto uma consci\u00eancia presente e n\u00e3o avaliativa \u00e9 problem\u00e1tico pois s\u00f3 toca um dos aspectos nos quais o termo original \u00e9 empregado.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra\u00a0<em>smrti<\/em>\u00a0(pali\u00a0<em>sati<\/em>) vem da raiz s\u00e2nscrita\u00a0<em>smr<\/em>, que significa relembrar, manter em mente. Esta palavra pode fazer refer\u00eancia ao ato de se lembrar e manter em mente, como tamb\u00e9m \u00e0quilo que se mant\u00e9m em mente. Por essa raz\u00e3o, a tradi\u00e7\u00e3o hindu algumas vezes chama seus textos mais mundanos de\u00a0<em>smrti<\/em>, aquilo que \u00e9 lembrado, em contraste com os vedas, que s\u00e3o\u00a0<em>sruti<\/em>, aquilo que foi ouvido diretamente. No contexto budista, esta palavra geralmente tem uma um significado mais restrito e diz respeito \u00e0 qualidade da mente quando est\u00e1 relembrando algo ou mantendo em mente algum objeto. O grande escoliasta Buddhaghosa d\u00e1 esta defini\u00e7\u00e3o de<em>\u00a0sati<\/em>\u00a0no contexto cl\u00e1ssico da tradi\u00e7\u00e3o theravada:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Atrav\u00e9s de sati, eles [outros processos mentais] se lembram (saranti), ou ent\u00e3o sati em si mesma se lembra, ou h\u00e1 apenas a rememora\u00e7\u00e3o (sarana). Portanto, a caracter\u00edstica da mindfulness (sati) \u00e9 a n\u00e3o oscila\u00e7\u00e3o; sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 prevenir o esquecimento. \u00c9 manifesta enquanto um estado de vig\u00edlia, ou de estar frente \u00e0 frente com um objeto meditativo. <\/em><\/p>\n<cite> <em>(Nyanamoli Bhikkhu 1976, XIV 141).<\/em> <\/cite><\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta caracteriza\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 significativa por pelo menos tr\u00eas motivos. Primeiro, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de ser impactado pelo obscurantismo do texto, que define a palavra\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0como \u201cn\u00e3o oscila\u00e7\u00e3o\u201d. O que isso significa? Segundo, as v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es sugeridas por Buddhaghosa como \u201cn\u00e3o oscila\u00e7\u00e3o\u201d e \u201clembran\u00e7a\u201d n\u00e3o parecem se encaixar confortavelmente em um \u00fanico conceito. Portanto, ficamos a nos perguntar porque elas est\u00e3o comprimidas em um \u00fanico termo? Terceiro, esse entendimento de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0n\u00e3o parece em nada com a compreens\u00e3o de mindfulness enquanto um foco no momento presente. Aqui h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o clara com a compreens\u00e3o que temos de mindfulness, uma vez que\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de lembrar-se do passado e, portanto, n\u00e3o tem foco exclusivo no presente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando recorremos a outros textos cl\u00e1ssicos encontramos perspectivas de mindfulness que est\u00e3o ainda mais distantes do entendimento contempor\u00e2neo. O\u00a0<em>Perguntas ao Rei Milinda<\/em>, por exemplo, nos confere uma descri\u00e7\u00e3o de mindfulness explicitamente avaliativa. Respondendo \u00e0s quest\u00f5es do rei grego Milinda, o monge Nagasena oferece uma extensa resposta que entende mindfulness como \u201cn\u00e3o divaga\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cassun\u00e7\u00e3o\u201d. Enquanto explicando essa \u00faltima caracteriza\u00e7\u00e3o, ele enfatiza a dimens\u00e3o \u00e9tica de mindfulness, apontando que a fun\u00e7\u00e3o de mindfulness n\u00e3o \u00e9 somente manter-se atento ao que acontece no presente, mas tamb\u00e9m engajar-se em n\u00e3o divaga\u00e7\u00e3o de estados mentais positivos e negativos. Esta \u00eanfase \u00e9tica se encaixa na compreens\u00e3o de mindfulness enquanto assun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 explicada como um exame dos estados mentais ben\u00e9ficos em detrimento dos tantos outros poss\u00edveis (Mendis, 1993, 37-8). Esse entendimento de mindfulness est\u00e1 bem distante da compreens\u00e3o de mindfulness enquanto uma consci\u00eancia n\u00e3o discriminativa, uma vez que, se mindfulness envolve a avalia\u00e7\u00e3o entre estados mentais positivos e negativos, ela deve necessariamente deter aspectos cognitivos e avaliativos \u2013 um contraste direto com a ideia de mindfulness enquanto uma aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o discriminativa do que quer que surja no fluxo da consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante deixar claro que o prop\u00f3sito da discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 jogar um jogo de \u201cpega\u201d acad\u00eamico, apontando para o contraste entre a compreens\u00e3o de mindfulness enquanto uma pr\u00e1tica voltada ao presente e n\u00e3o discriminativa e as maneiras que as fontes cl\u00e1ssicas abordam o conceito. O que, de fato, eu almejo aqui \u00e9 buscar uma conceitua\u00e7\u00e3o melhor de mindfulness de modo a abarcar suas implica\u00e7\u00f5es cognitivas, que correm o risco de se perder na pressa de adequ\u00e1-la a essa compreens\u00e3o de momento presente n\u00e3o discriminativo. Para tanto, creio que ser\u00e1 \u00fatil refletir sobre as maneiras nas quais as fontes cl\u00e1ssicas fazem uso do conceito mindfulness\/<em>sati<\/em>. Como \u00e9 poss\u00edvel que esse termo tenha tantas conota\u00e7\u00f5es diferentes (\u201cn\u00e3o oscila\u00e7\u00e3o\u201d; \u201crelembrar\u201d; \u201cfrente a frente com o objeto\u201d; \u201cassun\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise\u201d etc.)? O que todas essas conota\u00e7\u00f5es t\u00eam em comum? \u00c9 importante clarificar que a ideia de uma medita\u00e7\u00e3o voltada para o presente e n\u00e3o discriminativa n\u00e3o ser\u00e1 de muita ajuda aqui, uma vez que\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0pode indicar tanto a relembran\u00e7a do passado como a aten\u00e7\u00e3o ao momento presente. Portanto, ao inv\u00e9s de se contentar com esta representa\u00e7\u00e3o de mindfulness, acredito que devemos investigar as maneiras que o conceito funciona cognitivamente, particularmente as maneiras que est\u00e1 vinculado \u00e0 reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da mera aten\u00e7\u00e3o ao objeto.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de mindfulness enquanto reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o pode ser surpreendente dada a aceita\u00e7\u00e3o quase universal da defini\u00e7\u00e3o de mindfulness enquanto uma consci\u00eancia voltada para o presente e n\u00e3o discriminativa. N\u00e3o obstante, a ideia de mindfulness enquanto uma esp\u00e9cie de sustenta\u00e7\u00e3o, diferente da mera aten\u00e7\u00e3o passiva, encaixa-se perfeitamente bem nas descri\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas budistas encontradas no Abhidharma, onde consensualmente se entende que mindfulness enquanto a habilidade da mente de permanecer presente sobre um objeto sem se distrair. Meu argumento vai em dire\u00e7\u00e3o a que \u00e9 esta habilidade retentiva da mente que deve ser considerada como definidora de mindfulness, e n\u00e3o sua suposta concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o conceitual no momento presente. \u00c9 ela que permite \u00e0 mente sustentar um objeto no campo perceptivo, assim como lembrar-se dele posteriormente. Portanto, n\u00e3o deveria ser surpresa que a mindfulness seja apresentada como relevante tanto na sustenta\u00e7\u00e3o de um objeto presente, quanto na sua preserva\u00e7\u00e3o para uma relembran\u00e7a futura. Ambas s\u00e3o formas de sustentar informa\u00e7\u00e3o, portanto descritas enquanto tipos de mindfulness\/<em>sati<\/em>. Tamb\u00e9m incluo no meu argumento o fato de que esta habilidade retentiva \u00e9 central para compreender como mindfulness opera cognitivamente e as transforma\u00e7\u00f5es subsequentes \u00e0 sua aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa habilidade retentiva da mindfulness \u00e9 conectada diretamente \u00e0 mem\u00f3ria funcional, a habilidade da mente de reter e contextualizar informa\u00e7\u00f5es. Quando observamos um objeto, n\u00f3s n\u00e3o somos apresentados a fatias temporais distintas desse objeto. De fato, n\u00f3s o integramos a um fluxo temporal de modo que eles adquiram sentido. Eu n\u00e3o observo uma pessoa se movendo atrav\u00e9s de v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o, mas em fluxo de movimento de um local para o outro. Portanto, a consci\u00eancia det\u00e9m a habilidade de gerar resson\u00e2ncia entre v\u00e1rios processos cognitivos distintos, de modo que a informa\u00e7\u00e3o gerida fa\u00e7a sentido e produz padr\u00f5es coerentes entre si, que podem ou n\u00e3o ser representa\u00e7\u00f5es exatas dos objetos externos, mas s\u00e3o, de qualquer forma, boas o suficiente para guiarmos nossas a\u00e7\u00f5es. Esta gera\u00e7\u00e3o de sentido est\u00e1 intimamente vinculada \u00e0 mem\u00f3ria funcional, a capacidade da mente de preservar e manipular informa\u00e7\u00f5es relevantes de modo a se engajar em atividades fundamentadas e direcionadas.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia aqui n\u00e3o \u00e9 igualar a habilidade retentiva da consci\u00eancia, a mem\u00f3ria funcional e a mindfulness, mas argumentar no sentido de que h\u00e1 uma significativa justaposi\u00e7\u00e3o entre elas que nos ajuda a entender o que Buddhaghosa tinha em mente quando ele define mindfulness enquanto uma \u201cn\u00e3o oscila\u00e7\u00e3o\u201d. Mindfulness \u00e9 a habilidade de sustentar um objeto no campo da aten\u00e7\u00e3o sem perd\u00ea-lo. Tal habilidade n\u00e3o pode ser entendida como um simples processo de ascend\u00eancia onde nossa mente simplesmente permanece aberta ao que quer que surja, mas deve ser encarada insepar\u00e1vel da habilidade descendente da mente de reter e conservar informa\u00e7\u00e3o, de modo que a experi\u00eancia do momento presente possa ser integrada ao fluxo temporal da experi\u00eancia como um todo. Esta habilidade de reten\u00e7\u00e3o da mindfulness \u00e9 uma habilidade natural que a mente det\u00e9m, que pode ser fortalecida com a pr\u00e1tica, mas que existe naturalmente em todas as pessoas, ao menos em determinado grau. \u00c9 esta capacidade descendente de reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 fortalecida com a pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o e que \u00e9 apontada quando falamos sobre modos sustentados de aten\u00e7\u00e3o, nos quais a mente n\u00e3o \u00e9 carregada pelo fluxo pulsante de informa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 capaz de se deter sobre objetos de maneira continuada.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Mindfulness n\u00e3o \u00e9 uma consci\u00eancia n\u00e3o discriminativa focada no presente, mas a concentra\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o em um objeto, conducente \u00e0 reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 processada em termos de significado pelo nosso aparato cognitivo. Portanto, longe de ser limitada ao momento presente e \u00e0 mera suspens\u00e3o de julgamentos, mindfulness \u00e9 uma atividade cognitiva intimamente associada \u00e0 mem\u00f3ria, em particular \u00e0 mem\u00f3ria funcional, \u00e0 habilidade de preservar informa\u00e7\u00f5es relevantes ativas de modo a integr\u00e1-las em padr\u00f5es de significado e usadas para atividades direcionadas (Jha\u00a0<em>et al<\/em>., 2010). Atrav\u00e9s da aten\u00e7\u00e3o concentrada, os praticantes de mindfulness fortalecem seu controle cognitivo a partir do desenvolvimento da habilidade de reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, que os permite enxergar os verdadeiros significados ao inv\u00e9s de ser carregados por suas rea\u00e7\u00f5es. Aquilo que \u00e9 objeto de aten\u00e7\u00e3o pode ser preservado pela mem\u00f3ria funcional e, ent\u00e3o, tornar-se pass\u00edvel de uma avalia\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa conex\u00e3o entre mindfulness, mem\u00f3ria funcional e discrimina\u00e7\u00e3o adequada se torna evidente quando olhamos para o ensinamento fundacional do Buda sobre mindfulness \u2013 o\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>. Esse texto complexo, supostamente registro das pr\u00f3prias palavras do Buda (diferente do\u00a0<em>Abhidharma<\/em>, que \u00e9 uma sistematiza\u00e7\u00e3o das palavras do fundador), introduz uma pr\u00e1tica complexa para desenvolver mindfulness diante de quatro eixos: mindfulness de corpo, sensa\u00e7\u00f5es, consci\u00eancia e fatores mentais (as quatro aplica\u00e7\u00f5es de mindfulness,\u00a0<em>satipatthana<\/em>). Para cada uma das quatro aplica\u00e7\u00f5es, o discurso explica como mindfulness deve ser praticada. Quanto ao corpo, o texto descreve diversas contempla\u00e7\u00f5es que devem ser conduzidas quanto \u00e0s atividades de corpo, respira\u00e7\u00e3o, posturas e composi\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s posturas, por exemplo, o texto explica o desenvolvimento de mindfulness baseado na consci\u00eancia sobre a postura. O texto diz: \u201c\u2026quando andando, h\u00e1 consci\u00eancia \u201ce estou andando\u201d, quando em parado\u2026\u201d (Analayo, 2003, 5). Do mesmo modo, quando lidando com atividades de corpo, respira\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00f5es e outros objetos de contempla\u00e7\u00e3o, o discurso enfatiza o desenvolvimento de presen\u00e7a mental diante do que est\u00e1 sendo contemplado, de modo que o praticante se mantenha vivamente consciente da experi\u00eancia que est\u00e1 atravessando. Portanto, fica bem claro que para o\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>, mindfulness n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica n\u00e3o discriminativa de centraliza\u00e7\u00e3o no presente, mas envolve a habilidade da mente de perceber e reter qualquer experi\u00eancia em que esteja engajada, de modo a desenvolver uma compreens\u00e3o clara desta experi\u00eancia e uma habilidade de retomar esta experi\u00eancia no futuro. Esse aspecto discriminativo da pr\u00e1tica de mindfulness se torna mais evidente na passagem de\u00a0<em>Perguntas ao Rei Milinda<\/em>\u00a0discutida mais acima, na qual mindfulness \u00e9 descrita enquanto a capacidade de discriminar entre qualidades positivas e negativas. Para entender melhor o papel e dimens\u00e3o desta forma de mindfulness discriminativa, pode ser \u00fatil ampliar o escopo de nossa investiga\u00e7\u00e3o e incluir, mesmo que de maneira breve, uma descri\u00e7\u00e3o das maneiras com as quais o\u00a0<em>Abhidharma<\/em>\u00a0apresenta toda a gama e diversidade de modos de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma fenomenologia da aten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0<em>Abhidharma<\/em>\u00a0oferece uma rica an\u00e1lise dos v\u00e1rios aspectos da mente, entendendo-os enquanto compostos de s\u00e9ries de estados mentais tempor\u00e1rios. Cada estado mental surge a partir da depend\u00eancia de v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es (por exemplo, a consci\u00eancia imediatamente anterior, o objeto, a base sensorial). Tendo surgido, ele executa sua fun\u00e7\u00e3o e se dissolve, dando origem ao pr\u00f3ximo estado mental, formando, assim, uma cadeia ou fluxo de consci\u00eancia, similar ao fluxo de consci\u00eancia ao estilo de William James. Cada estado \u00e9 entendido enquanto um momento de consci\u00eancia (<em>citta, sems<\/em>) dotado de v\u00e1rias caracter\u00edsticas, os fatores mentais (<em>caitasika, sems byung<\/em>). Aten\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 descrita como consci\u00eancia (<em>vijnana, rnam shes<\/em>), tem primazia uma vez que \u00e9 a partir dela que se estabelece o v\u00ednculo com o objeto, conquanto os fatores mentais qualifiquem essa aten\u00e7\u00e3o\/consci\u00eancia como agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, focada ou dispersa, tranquila ou agitada, positiva ou negativa etc.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses fatores mentais pertencem a v\u00e1rios aspectos da opera\u00e7\u00e3o mental. Alguns (sensa\u00e7\u00f5es) pertencem ao dom\u00ednio afetivo, conquanto outros (inten\u00e7\u00f5es) s\u00e3o conativos ou cognitivos (distin\u00e7\u00f5es) em sua natureza. Em uma simplifica\u00e7\u00e3o grosseira, podemos dizer que o\u00a0<em>Abhidharma<\/em>\u00a0entende que esses v\u00e1rios aspectos operam simultaneamente e que eles nada mais s\u00e3o do que qualidades que caracterizam epis\u00f3dios de consci\u00eancia. Entre essas qualidades, uma parcela razo\u00e1vel est\u00e1 contida no dom\u00ednio da aten\u00e7\u00e3o \u2013 um aspecto importante dos processos mentais analisados no Abhidharma. Para o\u00a0<em>Abhidharma<\/em>, a aten\u00e7\u00e3o come\u00e7a em um estado pr\u00e9vio de orienta\u00e7\u00e3o (<em>manasikara<\/em>, tamb\u00e9m traduzido como\u00a0<em>aten\u00e7\u00e3o<\/em>). Isto se refere \u00e0 habilidade mental autom\u00e1tica e anterior \u00e0 aten\u00e7\u00e3o propriamente dita de voltar-se para um objeto e selecion\u00e1-lo. Bhikkhu Bodhi explica: \u201cAten\u00e7\u00e3o (ou orienta\u00e7\u00e3o) \u00e9 o fator mental respons\u00e1vel por advertir a mente de um objeto, de modo que, assim, o objeto se torne presente na consci\u00eancia. Sua caracter\u00edstica \u00e9 a condu\u00e7\u00e3o dos estados mentais associados ao objeto. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 unir os estados mentais associados ao objeto\u201d (Bodhi 2000, 81). Todo estado mental, contanto que seja consciente, det\u00e9m um grau m\u00ednimo de foco sobre um objeto. Portanto, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator onipresente, \u00e9 dizer, todo estado mental o det\u00e9m em algum n\u00edvel. Diz respeito \u00e0 apreens\u00e3o pr\u00e9-atentiva que se d\u00e1 quando o objeto atrai nossa aten\u00e7\u00e3o antes de ser tomado para um exame mais \u00edntimo.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse processo atentivo continua com mindfulness e concentra\u00e7\u00e3o meditativa (<em>samadhi<\/em>). Mindfulness \u00e9 descrita, conforme expusemos anteriormente, como a reten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o de modo que a mente n\u00e3o seja carregada pelo objeto. Vasubandhu entende que ela \u00e9 universal, conquanto Asanga limita sua presen\u00e7a \u00e0 estados de mente operativos, argumentando que ela n\u00e3o existe em estados de consci\u00eancia sutis. N\u00e3o obstante, ambos concordam que ela \u00e9 um aspecto fundamental da mente \u2013 colocar aten\u00e7\u00e3o sobre um objeto livre de divaga\u00e7\u00f5es. A orienta\u00e7\u00e3o volta a mente para o objeto, conquanto mindfulness retenha este objeto e sustente a presen\u00e7a da mente sobre ele. A concentra\u00e7\u00e3o completa esta an\u00e1lise do tratamento do Abhidharma quanto \u00e0 aten\u00e7\u00e3o. Concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 a habilidade de manter-se focado em e unificado a um objeto (Rahula ,1980, 8). Ainda que essa habilidade seja desenvolvida com a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, ela existe naturalmente na mente, uma vez que nada mais \u00e9 do que a habilidade da consci\u00eancia de se fixar em um objeto. Vasubandhu entende que ela \u00e9 um fator universal; j\u00e1 Asanga a exclui dos estados sutis. Ainda assim, ambos concordam quanto a sua centralidade no processo da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses dois fatores (mindfulness e concentra\u00e7\u00e3o) trabalham em coopera\u00e7\u00e3o, fortalecendo e aprimorando as qualidades da aten\u00e7\u00e3o. Ambos correspondem ao estado no qual n\u00f3s intencionalmente detectamos um objeto e o trazemos ao campo da plena aten\u00e7\u00e3o: a habilidade da mente de focar um objeto e ret\u00ea-lo. Por\u00e9m, esses dois fatores tamb\u00e9m operam de maneiras diferentes. Concentra\u00e7\u00e3o aprimora a habilidade seletiva da orienta\u00e7\u00e3o pr\u00e9-atentiva. Ela estabiliza a mente no objeto, mas tende a restringir a extens\u00e3o do campo de considera\u00e7\u00e3o consciente. Em si mesma, conduz a um foco mais profundo, por\u00e9m mais estreito. Mindfulness, por outro lado, amplia a extens\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o de modo que nos tornamos conscientes das caracter\u00edsticas da experi\u00eancia (Analayo, 2003, 63\u20134). Portanto, conforme o\u00a0<em>Abhidharma<\/em>, aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um meio de selecionar determinados est\u00edmulos sensoriais e focar nestes est\u00edmulos, mas tamb\u00e9m implica em uma fun\u00e7\u00e3o cognitiva, que agrupa os v\u00e1rios aspectos de um objeto de modo a gerar um significado a partir desse agrupamento. Aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a cola cognitiva que une as diversas qualidades elementares de um fen\u00f4meno e transforma essas qualidades em formas e objetos identific\u00e1veis, dotados de significado no campo de nossa experi\u00eancia. Entendo que esta habilidade cognitiva de unir diversos aspectos do processo perceptivo \u00e9 um aspecto central da mindfulness, conforme o entendimento de autores cl\u00e1ssicos como Buddhaghosa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, esse entendimento de mindfulness enquanto um foco retentivo n\u00e3o abarca todos os significados poss\u00edveis de mindfulness. Lembremos, por exemplo, da men\u00e7\u00e3o encontrada no\u00a0<em>Perguntas ao Rei Milinda,\u00a0<\/em>que \u00e9 expressamente discriminativa, em um papel que parece ultrapassar a mera reten\u00e7\u00e3o cognitiva de um objeto. Para entender esta forma de mindfulness, precisamos considerar o papel de outro aspecto de sua pr\u00e1tica, que \u00e9 o desenvolvimento de compreens\u00e3o clara (<em>samprajnana, sampajanna<\/em>). Este n\u00e3o \u00e9 um fator mental separado, mas uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o (<em>prajna, panna<\/em>) intimamente ligada a mindfulness que permite \u00e0 mente observar, compreender e avaliar o que precisa ser avaliado. \u00c9 entendida como um elemento central da pr\u00e1tica de mindfulness pois prov\u00ea a compreens\u00e3o derivada de uma aten\u00e7\u00e3o minuciosa \u00e0 experi\u00eancia. Pode, portanto, ser descrita como uma aten\u00e7\u00e3o ou mindfulness dotada de sabedoria, que deriva do cultivo desta faculdade. Esta\u00a0<em>mindfulness de sabedoria<\/em>\u00a0deve ser diferenciada, portanto, do que iremos chamar, a partir de agora, de\u00a0<em>mindfulness de funda\u00e7\u00e3o<\/em>, a habilidade mais prim\u00e1ria da mente de reter um objeto. A mindfulness de funda\u00e7\u00e3o \u00e9 a base do aspecto mais cognitivo que \u00e9 a mindfulness de sabedoria, que, por sua vez, \u00e9 central \u00e0 pr\u00e1tica de mindfulness, conforme o entendimento da tradi\u00e7\u00e3o budista, no qual o objetivo n\u00e3o \u00e9 atingir estados elevados de consci\u00eancia a partir da pr\u00e1tica de concentra\u00e7\u00e3o, mas desenvolver uma compreens\u00e3o clara da imperman\u00eancia dos estados de corpo e mente; do sofrimento e do n\u00e3o eu, assim como desfazer os nossos h\u00e1bitos que resultam em sofrimento. \u00c9 a mindfulness de funda\u00e7\u00e3o que gera esta compreens\u00e3o, a partir da aten\u00e7\u00e3o minuciosa ao emergir e dissolver dos estados de corpo e mente. O verdadeiro objetivo da pr\u00e1tica de mindfulness \u00e9 o desenvolvimento desta compreens\u00e3o \u2013 a observa\u00e7\u00e3o crua dos estados mentais no surgimento, sem autoidentifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es budistas concordem em enfatizar a centralidade da compreens\u00e3o clara na pr\u00e1tica de mindfulness, elas abordam a quest\u00e3o de maneiras diferentes. A tradi\u00e7\u00e3o Theravada n\u00e3o parece colocar muita \u00eanfase na natureza introspectiva da compreens\u00e3o clara, que \u00e9 descrita simplesmente enquanto um conhecimento do que se passa. Este conhecimento pode dizer respeito ao corpo, \u00e0 mente, \u00e0 respira\u00e7\u00e3o, assim como a outros objetos (Wallace e Bodhi, 2006, 10). A tradi\u00e7\u00e3o s\u00e2nscrita conforme, por exemplo, Shantideva, parece colocar mais foco na sua natureza introspectiva. Compreens\u00e3o clara se torna ent\u00e3o o conhecimento reflexivo sobre os estados de mente e corpo. Shantideva a descreve como \u201co exame repetido do corpo e da mente\u201d (Batchelor, 1979, V.108, 59). Do mesmo modo, pensadores tibetanos como Tsongkhapa entendem a compreens\u00e3o clara (<em>shes bzhin<\/em>) como especialmente voltada para a observa\u00e7\u00e3o do funcionamento da mente durante a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o (Tsongkhapa, 2002, 57\u201371). A met\u00e1fora utilizada \u00e9 a do vigilante, cujo olhar n\u00e3o \u00e9 cont\u00ednuo, mas dispon\u00edvel em qualquer ocasi\u00e3o para capturar os eventos assim que eles acontecem. O desenvolvimento de mindfulness nos torna muito mais h\u00e1beis neste tipo de observa\u00e7\u00e3o. Ainda que de in\u00edcio demor\u00e1ssemos a detectar quando a mente estava fora do eixo na medita\u00e7\u00e3o, com o desenvolvimento da mindfulness n\u00f3s encurtamos o tempo necess\u00e1rio para detectar a emerg\u00eancia de distra\u00e7\u00f5es e outros obst\u00e1culos na mente. Quando nos tornamos proficientes na pr\u00e1tica, ganhamos a habilidade de detectar estes obst\u00e1culos quase no momento em que eles surgem. Quando entendida assim, compreens\u00e3o clara se torna como que uma habilidade meta-atentiva de monitorar os estados mentais. \u00c9 uma parte essencial do desenvolvimento da aten\u00e7\u00e3o, baseada n\u00e3o apenas na habilidade de focar em objeto (jogadores de videogame tamb\u00e9m conseguem fazer isso), mas na modula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, corrigindo o vaguear da mente e trazendo-a outra vez para o objeto. A tradi\u00e7\u00e3o tibetana enquadra este tipo de mindfulness de sabedoria com o termo\u00a0<em>dran shes<\/em>, a combina\u00e7\u00e3o da habilidade retentiva da mindfulness de funda\u00e7\u00e3o (<em>dran pa<\/em>) com a habilidade de fazer uso da compreens\u00e3o clara (<em>shes bzhin<\/em>) para compreender o que est\u00e1 se passando na mente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse tipo de mindfulness de sabedoria que eventualmente conduz o praticante a um discernimento mais profundo quanto \u00e0 gera\u00e7\u00e3o e dissolu\u00e7\u00e3o dos estados mentais. \u00c9 apenas considerando este estilo de mindfulness que seremos capazes de compreender todo o largo escopo da pr\u00e1tica de mindfulness e perceber suas implica\u00e7\u00f5es cognitivas.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o: consequ\u00eancias de ignorar a natureza cognitiva de mindfulness<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esperamos que, a esta altura, tenhamos adquirido uma compreens\u00e3o mais profunda do escopo e do alcance sem\u00e2ntico do conceito escol\u00e1stico budista mindfulness. Entendemos que a mindfulness em seu n\u00edvel mais fundamental (mindfulness de funda\u00e7\u00e3o) \u00e9 a habilidade da mente de reter um objeto e n\u00e3o se distrair dele. Essa habilidade de reter o objeto \u00e9 o que permite a mente coloc\u00e1-lo em foco para posteriormente rememorar-se dele. Tamb\u00e9m \u00e9 o que conduz ao desenvolvimento da compreens\u00e3o clara, um aspecto decisivo da pr\u00e1tica de mindfulness que permite ao praticante discriminar entre os v\u00e1rios aspectos de sua experi\u00eancia e discernir, por exemplo, entre os fatores mentais positivos e negativos, conforme est\u00e1 expl\u00edcito no texto\u00a0<em>Perguntas ao Rei Milinda<\/em>. Esse tipo de mindfulness de sabedoria difere da mindfulness de funda\u00e7\u00e3o uma vez que explicitamente inclui aspectos de compreens\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o de um objeto. A mindfulness de funda\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada ao aspecto retentivo, que fornece uma base para compreens\u00e3o clara. A mindfulness de sabedoria \u00e9 mais ampla, incluindo de modo mais expl\u00edcito qualidades discriminativas e, muitas vezes, uma dimens\u00e3o introspectiva, conquanto a mindfulness de funda\u00e7\u00e3o seja limitada ao aspecto retentivo, a partir do qual vem a avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica de foco retentivo (mindfulness de funda\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 o objetivo, mas um meio para um fim de natureza mais explicitamente cognitiva. O objetivo n\u00e3o \u00e9 obter um estado mental mais calmo e focado, n\u00e3o obstante o qu\u00e3o ben\u00e9fico esse estado venha a ser, mas estabilizar a mente de modo a ganhar uma compreens\u00e3o mais profunda da natureza transit\u00f3ria e mut\u00e1vel dos estados corporais e mentais, e assim nos permitir liberar nossa mente de h\u00e1bitos e tend\u00eancias que nos vinculam ao sofrimento. Na terminologia budista escol\u00e1stica cl\u00e1ssica, isso significa dizer que mindfulness e concentra\u00e7\u00e3o s\u00e3o desenvolvidas no intuito de obter\u00a0<em>insight<\/em>\u00a0ou discernimento (<em>vipasyana, vipassana<\/em>) sobre a imperman\u00eancia, o sofrimento e o n\u00e3o eu relativo aos nossos agregados de corpo e mente, liberando, ent\u00e3o, nossa mente das m\u00e1culas. Esse entendimento do complexo corpo-mente surge em um est\u00e1gio preliminar da compreens\u00e3o clara, que \u00e9 eminentemente conceitual. Mas, para ser genuinamente eficiente, o discernimento deve operar em um n\u00edvel n\u00e3o conceitual. \u00c9 aqui que mindfulness cumpre um papel essencial. Quando somos capazes de nos manter \u00edntimos de nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia e compreend\u00ea-la como impermanente, temos condi\u00e7\u00f5es de mudar sua signific\u00e2ncia e observ\u00e1-la de um outro \u00e2ngulo. Obtemos, assim, um discernimento direto de sua natureza impermanente, discernimento esse que surge a partir da aten\u00e7\u00e3o profunda e da compreens\u00e3o clara, mas vai al\u00e9m da apreens\u00e3o conceitual. Desse modo, percebemos num n\u00edvel experiencial a imperman\u00eancia dos estados de corpo e mente, como tamb\u00e9m o sofrimento e o n\u00e3o eu, de modo que a qualidade substancial e hipnotizante de nossas experi\u00eancias \u00e9 dilu\u00edda, tornando os eventos prazerosos meros lampejos sobre os quais n\u00e3o depositamos expectativas de satisfa\u00e7\u00e3o permanente, e as experi\u00eancias desprazerosas apenas obst\u00e1culos tempor\u00e1rios, superando sua percep\u00e7\u00e3o enquanto fracassos angustiantes. Esse giro cognitivo \u00e9 baseado no desenvolvimento de mindfulness, a habilidade retentiva a partir da qual temos condi\u00e7\u00f5es de gerar significado em nossas experi\u00eancias. Por sua vez, a mindfulness conduz \u00e0 compreens\u00e3o clara, que opera no n\u00edvel conceitual e resulta em um discernimento n\u00e3o conceitual mais profundo, atrav\u00e9s do qual a transforma\u00e7\u00e3o decisiva acontece. Portanto, a mudan\u00e7a no foco da aten\u00e7\u00e3o leva a mudan\u00e7a no conte\u00fado cognitivo, algo que \u00e9 inteiramente \u00f3bvio, mas que parece ter se perdido na pressa de encaixar mindfulness na sua compreens\u00e3o enquanto um foco n\u00e3o discriminativo no presente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Torna-se claro agora que a compreens\u00e3o moderna de mindfulness enquanto um foco n\u00e3o discriminativo no presente, ainda que n\u00e3o completamente equivocada, reflete apenas uma parcela do significado mais amplo da express\u00e3o. Apenas em alguns contextos, principalmente, mas n\u00e3o exclusivamente, o da pr\u00e1tica do iniciante, a mindfulness pode ser identificada com uma aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o elaborada ao que surge no momento presente. Tal esp\u00e9cie de aten\u00e7\u00e3o, voltada para o presente e n\u00e3o discriminativa, \u00e9 apenas uma das modalidades de mindfulness, cujo escopo \u00e9 um tanto mais amplo, incluindo habilidades expl\u00edcitas de rememora\u00e7\u00e3o e habilidades cognitivas de discernimento de estados de corpo e mente. Tamb\u00e9m observamos que a identifica\u00e7\u00e3o da mindfulness com este estado de consci\u00eancia presente e n\u00e3o discriminativo ignora, ou pelo menos subestima, as implica\u00e7\u00f5es cognitivas da mindfulness, sua habilidade de compilar os v\u00e1rios aspectos da experi\u00eancia de modo a gerar uma compreens\u00e3o clara da natureza dos estados f\u00edsicos e mentais. Atrav\u00e9s dessa \u00eanfase exagerada no aspecto presente e no suposto problema da conceitualidade, os autores contempor\u00e2neos arriscam apresentar uma compreens\u00e3o apenas parcial de mindfulness enquanto uma esp\u00e9cie de quietude unidimensional e meramente terap\u00eautica. Creio ser importante n\u00e3o perder de vista que mindfulness n\u00e3o \u00e9 apenas uma t\u00e9cnica de terapia, mas uma capacidade natural que ocupa um papel central em nosso processo cognitivo. Este \u00e9 o aspecto que parece ser ignorado quando resumimos mindfulness a essa consci\u00eancia fixa no momento presente e n\u00e3o discriminativa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentemente me vem a impress\u00e3o de que o problema desse tipo de abordagem adv\u00e9m da falha em distinguir defini\u00e7\u00f5es operacionais destinadas \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e as descri\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. N\u00e3o h\u00e1 problema algum em instruir os praticantes para que permane\u00e7am conscientes de seus estados f\u00edsicos e mentais conforme eles surgem no momento presente, abstendo-se de julgamentos. Como explicamos antes, esta \u00e9 uma maneira bastante \u00fatil de desenvolver mindfulness, uma vez que nos desengajamos dos padr\u00f5es habituais de discursividade e reatividade que geralmente governam nossas a\u00e7\u00f5es. Mas a cren\u00e7a de que essas instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas podem oferecer modelos te\u00f3ricos do funcionamento de mindfulness me parece uma confus\u00e3o um tanto grave. Mindfulness n\u00e3o deve ser conceituada enquanto uma mera aten\u00e7\u00e3o ao momento presente, pois ela envolve tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de habilidades cognitivas essenciais. Mindfulness \u00e9 essencial \u00e0 pr\u00e1tica budista n\u00e3o s\u00f3 porque oferece um n\u00edvel de autoaceita\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio \u00e0 sa\u00fade mental, mas porque resulta em transforma\u00e7\u00f5es cognitivas profundas e liberadoras. Dessa perspectiva, torna-se importante distinguir a compreens\u00e3o amadurecida provinda da mindfulness dos padr\u00f5es discriminativos e reativos que dominam nossas mentes antes da transforma\u00e7\u00e3o pela pr\u00e1tica. Esses padr\u00f5es reativos s\u00e3o prejudiciais n\u00e3o porque s\u00e3o discriminativos, mas justamente por serem reativos, sendo resultados de h\u00e1bitos de fixa\u00e7\u00e3o a experi\u00eancias agrad\u00e1veis e rejei\u00e7\u00e3o a experi\u00eancias desagrad\u00e1veis. Modo geral, a maior parte de nossos julgamentos est\u00e1 dominado por esse padr\u00e3o desequilibrado. N\u00f3s adotamos ideias, atitudes e objetos, n\u00e3o a partir de uma pondera\u00e7\u00e3o madura, mas pela simples afinidade \u2013 pelo \u201cgosto\u201d. A pr\u00e1tica da consci\u00eancia n\u00e3o discriminativa, portanto, \u00e9 \u00fatil enquanto uma disciplina que afrouxa essa reatividade e cria espa\u00e7o que permite julgamentos amadurecidos. Portanto, \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista o papel do modo n\u00e3o discriminativo de mindfulness. Ele n\u00e3o \u00e9 o fim em si, mas um meio h\u00e1bil que permite o enfraquecimento das respostas autom\u00e1ticas que geralmente nos governam, criando espa\u00e7o para atitudes adequadas.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que as consequ\u00eancias dessa abordagem equivocada de mindfulness podem ser encontradas claramente na literatura recente de ci\u00eancia cognitiva. Nesse \u00e2mbito, mindfulness \u00e9 quase sempre introduzida enquanto uma terapia, como uma t\u00e9cnica de relaxamento, um m\u00e9todo psicol\u00f3gico de autoaceita\u00e7\u00e3o. Quase nunca encontramos aspectos cognitivos em sua apresenta\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia desses aspectos \u00e9 gritante em uma parcela consider\u00e1vel da literatura concernente \u00e0 consci\u00eancia das inten\u00e7\u00f5es, seu papel na execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e a dimens\u00e3o de sua presen\u00e7a no campo causal. Sinto-me perplexo ao me dar conta de que jamais vi a ideia de mindfulness ser mencionada nesse contexto, ou de t\u00ea-la visto aplicada em experimentos relevantes. Pois me parece que os praticantes de mindfulness seriam excelentes candidatos para experimentos e discuss\u00f5es dessa natureza, uma vez que eles possuem a habilidade de colocar aten\u00e7\u00e3o em seus estados f\u00edsicos e mentais. Portanto, eles supostamente s\u00e3o capazes de distinguir mais claramente entre suas inten\u00e7\u00f5es aquelas que motivam suas a\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o. Ao menos assim funciona na teoria, e verificar ou falsificar esse tipo de hip\u00f3tese parece a coisa \u00f3bvia a fazer. No entanto, muito pouco foi produzido nesta dire\u00e7\u00e3o. Creio que a indiferen\u00e7a de cientistas cognitivos diante da mindfulness \u00e9 devida, em grande medida, \u00e0 forma como o conceito foi teorizado na literatura psicol\u00f3gica, que enfatiza sua dimens\u00e3o n\u00e3o discriminativa e subestima sua dimens\u00e3o cognitiva. Penso que devemos corrigir esta situa\u00e7\u00e3o, de modo que a import\u00e2ncia real do conceito de mindfulness no contexto budista possa ser evidenciada, e participar do di\u00e1logo interdisciplinar que vem sendo travado no intuito de atingir uma compreens\u00e3o melhor da mente e suas habilidades.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0Cortesia da equipe de tradu\u00e7\u00f5es Contemplativas: Trad. Alexandre Chami Filho, Revis\u00e3o: Alex Mour\u00e3o e Lama Jigme Lhawang<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">ANALAYO. 2003. Satipatthana: The direct path to realization. Birmingham: Windhorse.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BATCHELOR, S. 1977. A guide to the Bodhisattva\u2019s way of life. Dharamsala: Library of Tibetan Works and Archives.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BISHOP, S., M. LAU, S. SHAPIRO, L. CARLSON, N. ANDERSON, J. CARMODY, Z. SEGAL, S. ABBEY,<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">SPECA, D. VELTING, and G. DEVINS. 2004. Mindfulness: A Proposed Definition. Clinical Psychology: Science and Practice 11: 230\u201341.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BODHI, BHIKKHU, ed. 2000. A comprehensive manual of Abhidhamma. Seattle: BPS Pariyatti Editions.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">GETHIN, R. 2001. The Buddhist path to awakening. Oxford: Oneworld Publications.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">JHA, A., E. STANLEY, and M. BAIME. 2010. Examining the protective effects of mindfulness training on working memory capacity and affective experience. Emotion 10 (1): 54\u201364.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">KABAT-ZINN, J. 1990. Full catastrophe living. New York: Dell.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">MENDIS, N. K. G. 1993. The questions of King Milianda: An abridgment of the Milindapanha. Kandy, Sri Lanka: Buddhist Publication Society.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">NYANAMOLI BHIKKHU, trans. 1976. The path of purification (Visuddhimagga). Boston, MA: Shambala.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">PALMER, S. 1999. Vision science. Cambridge: MIT.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">POUSSIN, L. DE LA VALLE\u00b4E. 1971. L\u2019Abhidharmakosha. Bruxelles: Institut Belge des Hautes Etudes Chinoises.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">RAHULA, W. 1980. Le compendium de la super-doctrine d\u2019Asan\u02d9ga. Paris: Ecole Francaise d\u2019Extreme Orient.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">TSONGKHAPA. 2002. The great treatise on the stages of the path to enlightment. Ithaca: Snow Lion.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">WALLACE, A., and BHIKKHU BODHI. 2006. The nature of mindfulness and its role in Buddhist meditation. A correspondence between B. Alan Wallace and Bhikkhu Bodhi. N\u00e3o publicado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS DIMENS\u00d5ES COGNITIVAS DE MINDFULNESSSeria mindfulness estar no presente e suspender os julgamentos? Uma discuss\u00e3o das dimens\u00f5es cognitivas de mindfulness. 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