{"id":8123,"date":"2020-03-27T03:48:33","date_gmt":"2020-03-27T03:48:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/o-que-mindfulness-realmente-significa-bhikku-bodhi\/"},"modified":"2020-03-27T03:48:33","modified_gmt":"2020-03-27T03:48:33","slug":"o-que-mindfulness-realmente-significa-bhikku-bodhi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/o-que-mindfulness-realmente-significa-bhikku-bodhi\/","title":{"rendered":"O QUE MINDFULNESS REALMENTE SIGNIFICA? &#8211; Bhikku Bodhi"},"content":{"rendered":"\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>O QUE MINDFULNESS REALMENTE SIGNIFICA?<br \/>UMA PERSPECTIVA CAN\u00d4NICA<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bhikkhu Bodhi<\/strong><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O prop\u00f3sito deste artigo \u00e9 determinar o significado e a fun\u00e7\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o mindfulness, usando como fonte a investiga\u00e7\u00e3o do C\u00e2none Pali, a cole\u00e7\u00e3o de textos budistas completos mais antiga a sobreviver intacta. Mindfulness \u00e9 um fator chefe da pr\u00e1tica de\u00a0<em>Satipatthana<\/em>, o sistema mais conhecido de medita\u00e7\u00e3o budista. Nas descri\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>Satipatthana<\/em>, dois termos aparecem com recorr\u00eancia: aten\u00e7\u00e3o plena ou mindfulness (<em>sati<\/em>) e compreens\u00e3o clara (<em>sampajanna<\/em>). Uma compreens\u00e3o desses termos fundada em textos can\u00f4nicos n\u00e3o \u00e9 importante apenas de um \u00e2ngulo filol\u00f3gico, mas porque este \u00e2ngulo de compreens\u00e3o traz imensas implica\u00e7\u00f5es na efetiva pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o. A palavra\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0significava, originalmente, \u201cmem\u00f3ria\u201d, mas o Buda ressignificou este termo antigo de modo a alcan\u00e7ar algo em seu ensinamento. Este significado, de acordo com o presente autor, pode ser mais bem caracterizado como \u201cconsci\u00eancia l\u00facida\u201d. O autor questiona a explica\u00e7\u00e3o comum de mindfulness como apenas uma \u201cplena aten\u00e7\u00e3o\u201d, indicando problemas que subsistem por tr\u00e1s das palavras utilizadas nesta express\u00e3o. Ele tamb\u00e9m discute o papel da compreens\u00e3o clara (<em>sampajanna<\/em>) e demonstra que ela serve como uma ponte entre a fun\u00e7\u00e3o observacional do mindfulness e o desenvolvimento do discernimento. Por fim, ele aborda a quest\u00e3o relativa ao mindfulness ser legitimamente extra\u00eddo do contexto tradicional e empregado em prop\u00f3sitos seculares. Ele sustenta que aplica\u00e7\u00f5es n\u00e3o tradicionais de mindfulness s\u00e3o aceit\u00e1veis e mesmo admir\u00e1veis sob a argumenta\u00e7\u00e3o de que ajudam a aliviar o sofrimento humano, mas tamb\u00e9m indica cautela diante de um reducionismo do entendimento de mindfulness e clama por uma investiga\u00e7\u00e3o que respeita a tradi\u00e7\u00e3o religiosa de onde surgiu a pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">1. <strong>Mindfulness e o caminho budista<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrada de pr\u00e1ticas sistem\u00e1ticas de mindfulness nos campos da redu\u00e7\u00e3o do estresse e psicoterapia alterou consideravelmente as perspectivas da medicina moderna quanto \u00e0 nossa capacidade de regular e superar vulnerabilidades humanas. O mindfulness surgiu enquanto uma disciplina terap\u00eautica em 1979, quando Jon Kabat-Zinn inaugurou seu programa de \u201cRedu\u00e7\u00e3o de Estresse Baseado em Mindfulness\u201d, no Centro M\u00e9dico da Universidade de Massachusetts. Desde ent\u00e3o, seu uso na redu\u00e7\u00e3o de dores e estresse foi adotado por centenas de centros m\u00e9dicos, hospitais e cl\u00ednicas ao redor do mundo. A aplica\u00e7\u00e3o do mindfulness em contextos cl\u00ednicos se expandiu para al\u00e9m do \u00e2mbito da redu\u00e7\u00e3o do estresse, alcan\u00e7ando a psicoterapia, onde se provou ser uma poderosa ferramenta para ajudar pacientes a lidar com condi\u00e7\u00f5es como a depress\u00e3o, a ansiedade e o dist\u00farbio compulsivo-obsessivo.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que o uso do mindfulness com interesse m\u00e9dico soe como uma inova\u00e7\u00e3o relativamente moderna, sua raiz data de 25 s\u00e9culos para o ensinamento do pr\u00f3prio Buda, que viveu e ensinou no nordeste da \u00cdndia no s\u00e9culo V a.C. O Buda ofereceu o seu ensinamento, chamado\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0(em s\u00e2nscrito Dharma), n\u00e3o como um conjunto de doutrinas dependentes de f\u00e9, mas como um corpo de princ\u00edpios e pr\u00e1ticas que sustentam os seres humanos em sua busca por felicidade e liberdade espiritual. No cora\u00e7\u00e3o de seus ensinamentos, est\u00e1 um sistema de treinamento que conduz ao discernimento e \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do sofrimento. Este treino se espalhou pela \u00c1sia atrav\u00e9s do Budismo, e conforme o Budismo firmou ra\u00edzes em v\u00e1rios territ\u00f3rios, v\u00e1rias linhas de medita\u00e7\u00e3o floresceram em pa\u00edses nos quais os ensinamentos foram incorporados. Muitas destas linhagens continuam vivas at\u00e9 os dias de hoje, preservadas em monast\u00e9rios e eremit\u00e9rios por monges e monjas dedicados \u00e0 vida contemplativa.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim dos anos 60 e in\u00edcio dos anos 70, o barateamento das viagens a\u00e9reas facilitou um interc\u00e2mbio cultural que teria consequ\u00eancias extensas e de longo alcance. Professores asi\u00e1ticos de Budismo, yoga, e outras disciplinas espirituais chegaram aos Estados Unidos e atra\u00edram seguidores jovens e desencantados com o materialismo, o militarismo e as platitudes do mundo moderno. Jovens ocidentais tamb\u00e9m viajaram \u00e0 \u00c1sia e estudaram medita\u00e7\u00e3o com mestres budistas, retornando aos seus pa\u00edses de origem e iniciando um processo de partilha do que haviam aprendido com seus conterr\u00e2neos. Conforme a medita\u00e7\u00e3o ganhava popularidade, passou a chamar aten\u00e7\u00e3o de profissionais da sa\u00fade, neurocientistas e psicoterapeutas, dando in\u00edcio a um entusiasmado di\u00e1logo entre praticantes da espiritualidade oriental e a ci\u00eancia ocidental.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No cora\u00e7\u00e3o de todos os sistemas cl\u00e1ssicos de medita\u00e7\u00e3o budista est\u00e1 uma disciplina espec\u00edfica que veio a ser conhecida como mindfulness. O pr\u00f3prio Buda deu particular import\u00e2ncia \u00e0 pr\u00e1tica de mindfulness incluindo-a em seu nobre caminho \u00f3ctuplo, a quarta das quatro nobres verdades, nas quais ele sintetizou seu ensinamento: o sofrimento, a sua origem, a cessa\u00e7\u00e3o e as causas da cessa\u00e7\u00e3o. A mindfulness correta (<em>samma sati<\/em>) \u00e9 o s\u00e9timo fator do caminho o qual, localizada entre o esfor\u00e7o correto e a concentra\u00e7\u00e3o correta, conecta a aplica\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica da mente \u00e0 quietude e unifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Os discursos do Buda, conforme preservados nos\u00a0<em>Nikayas Pali<\/em>, as cole\u00e7\u00f5es antigas, empregam um estilo formulaico e mnemonicamente sint\u00e9tico. N\u00f3s ent\u00e3o encontramos a mindfulness correta definida consistentemente atrav\u00e9s de uma f\u00f3rmula determinada, expressa a seguir:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>O que, ent\u00e3o, monges, \u00e9 a mindfulness correta? Aqui, o monge se aplica na contempla\u00e7\u00e3o do corpo enquanto corpo, ardente, compreendendo claramente, atento, tendo removido as ambi\u00e7\u00f5es e o desprazer relativos ao mundo. Ele se engaja na contempla\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es enquanto sensa\u00e7\u00f5es\u2026 contemplando a mente enquanto mente\u2026 contemplando os fen\u00f4menos enquanto fen\u00f4menos, ardentemente, compreendendo com clareza, atento, tendo removido as ambi\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0e o desprazer relativos ao mundo. \u00c9 a isso que chamamos a mindfulness correta.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto mais influente do c\u00e2none pali \u00e9 o da pr\u00e1tica sistem\u00e1tica de mindfulness, o\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>, \u201cDiscurso da Estabiliza\u00e7\u00e3o de Mindfulness\u201d, que abre com uma afirma\u00e7\u00e3o sublinhando tanto o prop\u00f3sito da pr\u00e1tica, como sua metodologia:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Monges, este \u00e9 o caminho de singular dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 a purifica\u00e7\u00e3o dos seres, para a supera\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia e do lamento, para a vit\u00f3ria sobre a dor e o desprazer, para a realiza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo e o alcance do nibbana \u2013 as quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness. Quais s\u00e3o as quatro? Aqui, o monge contempla o corpo enquanto corpo\u2026 as sensa\u00e7\u00f5es enquanto sensa\u00e7\u00f5es\u2026 a mente enquanto mente\u2026 os fen\u00f4menos enquanto fen\u00f4menos, ardentemente, compreendendo com clareza, atento, tendo removido as ambi\u00e7\u00f5es e o desprazer relativos ao mundo. Isso, monges, \u00e9 o caminho da singular dire\u00e7\u00e3o para a purifica\u00e7\u00e3o dos seres\u2026 para a realiza\u00e7\u00e3o do nibbana, as quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta declara\u00e7\u00e3o, o Buda indica o objetivo da pr\u00e1tica \u2013 a extin\u00e7\u00e3o do sofrimento e a obten\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>nibbana\u00a0<\/em>(em s\u00e2nscrito,\u00a0<em>nirvana<\/em>), um estado de bem-aventuran\u00e7a e paz transcendente. O m\u00e9todo \u00e9 os quatro\u00a0<em>satipatthanas<\/em>\u00a0\u2013 as quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness. Da f\u00f3rmula para a mindfulness correta, podemos deduzir dois fatos importantes quanto \u00e0 pr\u00e1tica, um pertencente ao campo objetivo e outro ao campo subjetivo. No campo objetivo, observamos que a mindfulness correta envolve a contempla\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o sobre a pr\u00f3pria experi\u00eancia, aplicada a quatro dom\u00ednios objetivos de corpo, sensa\u00e7\u00f5es, estados mentais e fen\u00f4menos experienciais. O \u00faltimo destes fen\u00f4menos, em\u00a0<em>pali<\/em>, \u00e9 chamado de\u00a0<em>dhamm<\/em>a, uma palavra que podemos entender como designativa dos fen\u00f4menos experiencias organizados em grupos espec\u00edficos determinados pelos objetivos dos ensinamentos do Buda \u2013 \u201co Dhamma\u201d em sentido amplo.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No campo subjetivo, a f\u00f3rmula indica que a estabiliza\u00e7\u00e3o de mindfulness envolve n\u00e3o apenas mindfulness por si mesma, mas uma constela\u00e7\u00e3o de fatores mentais que trabalham em un\u00edssono. Mindfulness, no contexto da pr\u00e1tica de satipatthana, sempre acontece enquanto um aspecto de anupassana, uma palavra que clareia ainda mais o significado de mindfulness. Geralmente anupassana \u00e9 traduzida como \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d, mas tamb\u00e9m \u00e9 interessante entend\u00ea-la mais literalmente, como um ato de efetiva observa\u00e7\u00e3o. A palavra \u00e9 composta do prefixo\u00a0<em>anu<\/em>\u00a0que sugere uma repeti\u00e7\u00e3o ou intimidade, e a base\u00a0<em>passana<\/em>, que significa enxergar. Portanto, mindfulness \u00e9 parte de um processo que envolve uma observa\u00e7\u00e3o \u00edntima e repetitiva de um objeto.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u201cestribilho de satipatthana\u201d, diversos fatores mentais entrem neste\u00a0<em>anupassana<\/em>, indicados pela frase \u201cardentemente, compreendendo com clareza, atento\u201d (<em>atapi sampajano satima<\/em>). Cada uma destas palavras, de acordo com os coment\u00e1rios cl\u00e1ssicos, representa um fator mental espec\u00edfico. \u201cArdentemente\u201d (<em>atapi<\/em>) implica em energia, a for\u00e7a para engajamento com a pr\u00e1tica. Atento (<em>sati<\/em>) \u00e9 o elemento de vig\u00edlia, a consci\u00eancia l\u00facida de cada evento que se apresenta em sucessivas ocasi\u00f5es de experi\u00eancia. O fator cognitivo \u00e9 indicado na palavra\u00a0<em>sampajano<\/em>, \u201ccompreendendo com clareza\u201d, uma express\u00e3o relativa ao substantivo\u00a0<em>sampajanna<\/em>, \u201ccompreens\u00e3o clara\u201d.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois termos,\u00a0<em>sato<\/em>\u00a0e\u00a0<em>sampajano<\/em>, frequentemente s\u00e3o encontrados pr\u00f3ximos um do outro, indicando uma afinidade entre os respectivos substantivos,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0ou aten\u00e7\u00e3o\/mindfulness e\u00a0<em>sampajanna<\/em>\u00a0ou compreens\u00e3o clara. Para fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre esses dois, eu descreveria mindfulness enquanto uma consci\u00eancia l\u00facida no campo fenomenal. Este elemento de consci\u00eancia l\u00facida prevalece nos est\u00e1gios inicias da pr\u00e1tica. Mas, com o fortalecimento da mindfulness, a compreens\u00e3o clara sobrep\u00f5e-se e adiciona o elemento cognitivo. Na pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o em discernimento, o meditante claramente compreende a natureza e as qualidades dos fen\u00f4menos emergentes, e os relaciona com a estrutura definida pelos par\u00e2metros do\u00a0<em>Dhamma<\/em>, o ensinamento em seu todo org\u00e2nico. A express\u00e3o \u201ccompreens\u00e3o clara\u201d, portanto, sugere que o meditante n\u00e3o s\u00f3 observe os fen\u00f4menos, mas\u00a0<em>interprete<\/em>\u00a0o campo de presen\u00e7a de modo que os fen\u00f4menos sejam adequados e surgidos em um contexto significativo. Conforme a pr\u00e1tica avan\u00e7a, a compreens\u00e3o clara vai tomando um papel mais importante, eventualmente evoluindo para o discernimento direto (<em>vipassana<\/em>) e a pr\u00f3pria sabedoria (<em>panna<\/em>).<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">2. <strong>O significado de\u00a0<em>sati<\/em><\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Um problema hermen\u00eautico e com implica\u00e7\u00f5es profundas na pr\u00e1tica efetiva da medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 a precis\u00e3o do significado da palavra\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0tanto em geral quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica contemplativa budista. N\u00f3s nos contentamos com a palavra \u201cmindfulness\u201d t\u00e3o despreocupadamente, que podemos perder de vista as nuances do termo em ingl\u00eas, e ainda mais do significado da palavra original em\u00a0<em>pali<\/em>. A palavra mindfulness \u00e9 em si t\u00e3o vaga e el\u00e1stica que se presta quase que como uma cifra na qual podemos ler qualquer significado que desejarmos. Portanto, raramente reconhecemos que a palavra foi escolhida como uma representa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0em ponto espec\u00edfico do tempo, depois que outros termos foram testados e considerados inadequados.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Na psicologia indiana fora do budismo, a palavra\u00a0<em>smirti<\/em>, o equivalente s\u00e2nscrito do\u00a0<em>pali<\/em>\u00a0<em>sati<\/em>\u00b8em geral significa mem\u00f3ria. Tanto que Monier-Williams, em seu Dicion\u00e1rio de s\u00e2nscrito-ingl\u00eas define\u00a0<em>smirti\u00a0<\/em>como \u201clembran\u00e7a, reminisc\u00eancia, pensamento, condu\u00e7\u00e3o \u00e0 mente\u2026 mem\u00f3ria\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn3\">[3]<\/a>. Os discursos do Buda tamb\u00e9m preservam este significado em alguns contextos, como veremos logo mais. Por\u00e9m, n\u00e3o devemos dar uma import\u00e2ncia exagerada a estas min\u00facias. Quando concebendo a terminologia que poderia expressar pontos salientes e pr\u00e1ticas de seu pr\u00f3prio ensinamento, o Buda inevitavelmente teve de se apropriar do vocabul\u00e1rio que estava dispon\u00edvel para ele. Para designar a pr\u00e1tica que se tornou o principal pilar de seu sistema de medita\u00e7\u00e3o, ele escolheu a palavra\u00a0<em>sati<\/em>. Mas aqui,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0n\u00e3o tem o mesmo significado de mem\u00f3ria. O Buda, de fato, subscreveu um novo significado \u00e0 palavra, coerente com seu pr\u00f3prio sistema de psicologia e medita\u00e7\u00e3o. Portanto, seria um erro fundamental insistir na leitura do significado antigo de mem\u00f3ria neste novo contexto.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o seria, por\u00e9m, errado tentar determinar como a palavra\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0adquiriu uma nova aplica\u00e7\u00e3o com base em seu significado anterior. Infelizmente para n\u00f3s, os Nikayas ou compilados de discursos antigos n\u00e3o definem formalmente\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0da maneira clara e expositiva que estamos acostumados a ver em obras modernas ou em estudos acad\u00eamicos de pr\u00e1ticas meditativas. Por quatro s\u00e9culos, as escrituras budistas foram preservadas e transmitidas oralmente, de uma gera\u00e7\u00e3o de recitadores \u00e0 outra. Este m\u00e9todo de transmiss\u00e3o exigia que os compiladores dos discursos do Buda comprimissem os principais pontos em f\u00f3rmulas de repeti\u00e7\u00e3o simples, que eram adequadas a uma f\u00e1cil memoriza\u00e7\u00e3o. Portanto, quando consultamos os textos para encontrar o significado de\u00a0<em>sati<\/em>, o que encontramos de fato, ao inv\u00e9s de explica\u00e7\u00f5es claras e l\u00facidas, s\u00e3o\u00a0<em>demonstra\u00e7\u00f5es operacionais<\/em>\u00a0que indicam, em termos pr\u00e1ticos, como\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0funciona na psicologia e na pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o budistas. \u00c9 a partir dessas demonstra\u00e7\u00f5es que precisamos exprimir as implica\u00e7\u00f5es do significado da palavra, testando-as umas com as outras e avaliando o significado final a partir da reflex\u00e3o pessoal e da experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro estudioso, aparentemente, a representar\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0atrav\u00e9s da palavra inglesa \u201cmindfulness\u201d foi o grande tradutor brit\u00e2nico T. W. Rhys Davids, fundador da Sociedade do Texto Pali. Seus coment\u00e1rios \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Mahasatipatthana Sutta<\/em>\u00a0ainda apontam para uma agudez de an\u00e1lise impressionante:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Etimologicamente, sati significa mem\u00f3ria. Por\u00e9m, como aconteceu com diversas outras express\u00f5es de uso comum da \u00e9poca, uma nova conota\u00e7\u00e3o foi atribu\u00edda a esta palavra, conota\u00e7\u00e3o esta que gerou um novo significado, e torna \u201cmem\u00f3ria\u201d uma tradu\u00e7\u00e3o inadequada e enganosa. A nova palavra se vincula \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 retomada, \u00e0 chamada para mente, \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o de certos fatos espec\u00edficos. Destes, o mais importante \u00e9 a imperman\u00eancia (o surgir a partir de uma causa, e a decad\u00eancia inerente ao surgir) de todos os fen\u00f4menos, corporais e mentais. E ela implicava na aplica\u00e7\u00e3o repetida desta consci\u00eancia a cada experiencia da vida, de um \u00e2ngulo \u00e9tico.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Nikayas empregam duas f\u00f3rmulas recorrentes para ilustrar o significado de\u00a0<em>sati<\/em>. Uma retoma o antigo significado de mem\u00f3ria; a outra se refere a sua ocorr\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos quatro\u00a0<em>satipatthanas<\/em>. N\u00f3s encontramos a primeira no SN 48:9, que oferece uma an\u00e1lise de cinco faculdades espirituais: f\u00e9, energia, mindfulness, concentra\u00e7\u00e3o e sabedoria. O\u00a0<em>sutta<\/em>\u00a0define brevemente cada um destes com uma f\u00f3rmula curta, sendo a \u201cfaculdade de mindfulness\u201d (<em>satindriya<\/em>) a seguinte:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>E o que, monges, \u00e9 a faculdade de mindfulness? Aqui, o nobre disc\u00edpulo \u00e9 atento [mindful], detendo a suprema mindfulness e vig\u00edlia, tendo relembrando e retomado tudo o que foi feito e dito h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. A isso chamamos a faculdade de mindfulness.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o operante em\u00a0<em>pali<\/em>\u00a0aqui \u00e9\u00a0<em>sarita anussarita<\/em>, \u201caquele que relembra e retoma\u201d. Ambas as palavras s\u00e3o substantivos agentes derivados do verbo\u00a0<em>sarati<\/em>, \u201crelembrar\u201d ou \u201ctornar-se atento [mindful]\u201d; o primeiro \u00e9 simples e o segundo \u00e9 prefixado com\u00a0<em>anu<\/em>. Ainda que as duas palavras, tomadas em isolamento, possam ser interpretadas como indicativas de relembrar ou mindfulness, a frase \u201co que foi feito e dito h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s\u201d (<em>cirakatampi cirabhasitampi<\/em>) favorece uma interpreta\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0em termos de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, no\u00a0<em>sutta<\/em>\u00a0seguinte, SN 48:10, as cinco faculdades s\u00e3o definidas uma outra vez. A faculdade de mindfulness \u00e9, a princ\u00edpio, determinada tal qual no\u00a0<em>sutta<\/em>\u00a0anterior, como a habilidade de retomar aquilo que foi feito e dito h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. Mas, em seguida, como que admitindo que esta defini\u00e7\u00e3o \u00e9 inadequada, o texto adiciona uma nova f\u00f3rmula concernente \u00e0s quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness: \u201cele engaja-se contemplando o corpo enquanto corpo\u2026 os fen\u00f4menos enquanto fen\u00f4menos, ardentemente, compreendendo com clareza, atento, tendo removido as ambi\u00e7\u00f5es e o desprazer relativos ao mundo. A isso damos o nome de faculdade de mindfulness\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn6\">[6]<\/a>. Isso indica que os compiladores do texto n\u00e3o se satisfizeram com a defini\u00e7\u00e3o usual de mem\u00f3ria, mas sentiram a necessidade de acresc\u00ea-la a outra defini\u00e7\u00e3o, que abarca a sua conex\u00e3o com a pr\u00e1tica meditativa. O pr\u00f3ximo sutta, SN 48:11, traz a seguinte quest\u00e3o: \u201cO que \u00e9 a faculdade de mindfulness? \u201d e a resposta: \u201co mindfulness obtido com base nas quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness: a isso chamamos a faculdade de mindfulness\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn7\">[7]<\/a>. Aqui, o entendimento de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0como mem\u00f3ria n\u00e3o vem \u00e0 tona em nenhum momento. \u00c9 poss\u00edvel interpretar, por\u00e9m, no sentido de que a\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0enquanto mindfulness, no sentido de uma clareza l\u00facida sobre o presente, permite\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0funcionar como mem\u00f3ria. Ainda que factualmente isso seja uma verdade, os textos n\u00e3o fazem nenhuma sugest\u00e3o nesse sentido, mas simplesmente justap\u00f5em as duas formula\u00e7\u00f5es sem qualquer explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramos esta ambival\u00eancia no significado de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0emergindo em duas exposi\u00e7\u00f5es paralelas dos sete fatores da ilumina\u00e7\u00e3o (<em>satta bojjihanga<\/em>). O primeiro fator da ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 mindfulness (<em>satisambojjhanga<\/em>), que \u00e9 seguido, em ordem, por investiga\u00e7\u00e3o, energia, alegria, tranquilidade, concentra\u00e7\u00e3o e equanimidade. O\u00a0<em>sutta<\/em>\u00a0anterior, SN 46:3, abre com o Buda louvando os benef\u00edcios de se associar com monges totalmente realizados no treinamento, sendo um dos benef\u00edcios o fato de que o monge iniciante poder\u00e1 ouvir\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0destes outros monges mais experientes. Tendo ouvido o\u00a0<em>Dhamma<\/em>, \u201co monge recorda o\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0e pensa sobre ele. Por agir assim, nesta ocasi\u00e3o o monge faz surgir, desenvolve e preenche o fator da ilumina\u00e7\u00e3o do mindfulness\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn8\">[8]<\/a>. Nessa passagem, invis\u00edvel na tradu\u00e7\u00e3o inglesa, mindfulness (<em>sati<\/em>) enquanto um fato de ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 derivado do ato de recordar e refletir sobre o ensinamento recebido. Os dois verbos usados s\u00e3o\u00a0<em>anussarati\u00a0<\/em>e\u00a0<em>anuvitakketi<\/em>. O primeiro \u00e9 uma forma expandida de\u00a0<em>sarati<\/em>, \u201crelembrar\u201d, do qual o substantivo\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 derivado; o segundo \u00e9 a base do substantivo\u00a0<em>vittaka<\/em>\u00a0\u2013 pensamento ou reflex\u00e3o. O discurso continua atrav\u00e9s dos outros seis fatores da ilumina\u00e7\u00e3o e se encerra com a frui\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomado em si mesmo, este texto parece refor\u00e7ar a interpreta\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0como um exerc\u00edcio de mem\u00f3ria. No entanto, em outro\u00a0<em>sutta<\/em>, SN 54:13, o Buda trata cada uma das quatro estabiliza\u00e7\u00f5es de mindfulness como um trampolim para os sete fatores da ilumina\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o, quando um monge \u201cse engaja em contemplar o corpo enquanto corpo\u2026 fen\u00f4menos enquanto fen\u00f4menos, nesta ocasi\u00e3o o monge faz surgir, desenvolve e preenche o fator da ilumina\u00e7\u00e3o do mindfulness\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn9\">[9]<\/a>.\u00a0\u00a0 Uma vez que mindfulness tenha surgido, os outros fatores da ilumina\u00e7\u00e3o adv\u00eam, culminando no \u201cverdadeiro conhecimento e libera\u00e7\u00e3o\u201d. Este texto tem a mesma estrutura do anterior, mas aqui o fator da ilumina\u00e7\u00e3o do mindfulness n\u00e3o emerge\u00a0<em>nem<\/em>\u00a0da mem\u00f3ria e\u00a0<em>nem\u00a0<\/em>de relembrar-se dos ensinamentos recebidos, mas da contempla\u00e7\u00e3o direta de corpo, sensa\u00e7\u00f5es, mente e fen\u00f4menos experienciais.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma palavra em\u00a0<em>pali<\/em>\u00a0usada nos coment\u00e1rios para clarear o significado de\u00a0<em>sati<\/em>, a qual, penso eu, demonstra uma tentativa de assentar o novo papel que est\u00e1 sendo designado \u00e0 essa express\u00e3o. Esta palavra \u00e9\u00a0<em>upatthana<\/em>.\u00a0<em>Upatthana<\/em>\u00a0significa, a princ\u00edpio, \u201cestabelecer, fundar\u201d, que \u00e9 o que fazemos com mindfulness. J\u00e1 nos\u00a0<em>Nikayas<\/em>, a palavra era intimamente conectada com\u00a0<em>sati<\/em>. A express\u00e3o composta\u00a0<em>satipatthana<\/em>\u00a0\u00e9, em si mesma, um agregado das palavras\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0e\u00a0<em>upatthana<\/em>. As quatro\u00a0<em>satipatthanas<\/em>\u00a0s\u00e3o as quatro\u00a0<em>estabiliza\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0de mindfulness, um processo de\u00a0<em>funda\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0de mindfulness, separado em quatro, dados os seus dom\u00ednios espec\u00edficos. Esta an\u00e1lise indica que a estabiliza\u00e7\u00e3o ou estabelecimento de mindfulness n\u00e3o \u00e9 um processo de relembrar o que aconteceu no passado, mas de adotar um posicionamento particular diante da pr\u00f3pria experi\u00eancia. Eu caracterizo este posicionamento enquanto uma\u00a0<em>observa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>vig\u00edlia<\/em>\u00a0diante da pr\u00f3pria experi\u00eancia. \u00c9 poss\u00edvel dizer mesmo que o posicionamento de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0envolve uma \u201ccurvatura\u201d do foco de luminosidade da consci\u00eancia de volta para o sujeito que experiencia em n\u00edvel f\u00edsico, sensorial e psicol\u00f3gico. Este ato de invers\u00e3o serve para iluminar os eventos destas \u00e1reas, elevando-os da zona cinzenta da inconsci\u00eancia para a luminosidade da cogni\u00e7\u00e3o clara.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido de \u201cpresen\u00e7a\u201d pertencente \u00e0 palavra\u00a0<em>upatthana<\/em>\u00a0adv\u00e9m mais explicitamente do trabalho exeg\u00e9tico-can\u00f4nico conhecido como\u00a0<em>Patisambhidamagga<\/em>, o qual interpreta cada uma das cinco faculdades com um outro termo atrav\u00e9s do qual estas faculdades s\u00e3o \u201cdiretamente conhecidas\u201d (<em>abhi\u00f1\u00f1heyyam<\/em>). Portanto, a faculdade de f\u00e9 \u00e9 conhecer diretamente enquanto convic\u00e7\u00e3o; a faculdade de energia, enquanto esfor\u00e7o; a faculdade de mindfulness, enquanto presen\u00e7a (<em>upatthanatthena santidriyam<\/em>); a faculdade de concentra\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o distra\u00e7\u00e3o; e a faculdade de sabedoria, enquanto vis\u00e3o<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn10\">[10]<\/a>. Aqui,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 igualada a\u00a0<em>upatthana,<\/em>\u00a0n\u00e3o no sentido do meditante \u201cestabilizar mindfulness\u201d, mas no sentido de que a mindfulness \u00e9 em si mesma uma a\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a estabilizadora. Mindfulness estabelece a presen\u00e7a do objeto e, portanto, torna-o dispon\u00edvel ao escrut\u00ednio e ao discernimento.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta interpreta\u00e7\u00e3o traz o impacto que a pr\u00e1tica de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0tem no n\u00edvel objetivo. De um \u00e2ngulo, podemos dizer que assinala a \u201cobjetifica\u00e7\u00e3o\u2019\u201d dos objetos que surgem em nossas intera\u00e7\u00f5es cotidianas com o mundo, nas quais tratamos os objetos enquanto fen\u00f4menos efetivamente externos, subservientes de nossas inten\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas. De outro \u00e2ngulo,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0torna o campo objetivo \u201cpresente\u201d para a consci\u00eancia, enquanto um espa\u00e7o de exibi\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas distintas do universo fenom\u00eanico, assim como dos padr\u00f5es e estruturas comuns a todos os fen\u00f4menos condicionados. O efeito em rede \u00e9 que tornar o campo objetivo livre e dispon\u00edvel para a investiga\u00e7\u00e3o. O\u00a0<em>Visuddhimagga<\/em>\u00a0apoia esta hip\u00f3tese quando afirma que\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0tem, enquanto manifesta\u00e7\u00e3o, \u201co encarar direto e preciso do dom\u00ednio da objetividade\u201d (<em>visayabhimukhabbhavapaccupatthana<\/em>)<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn11\">[11]<\/a>. Nesse sentido, podemos caracterizar mindfulness simplesmente como\u00a0<em>consci\u00eancia l\u00facida<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acredito que este \u00e9 o aspecto de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0que prov\u00ea uma conex\u00e3o entre seus dois significados can\u00f4nicos prim\u00e1rios: o de mem\u00f3ria e o de consci\u00eancia l\u00facida dos acontecimentos presentes.\u00a0<em>Sati<\/em>\u00a0torna o objeto apreendido v\u00edvido e distinto diante da mente. Quando o objeto sendo conhecido pertence ao passado \u2013 quando foi apreendido enquanto algo que j\u00e1 foi feito, percebido ou dito \u2013 sua exibi\u00e7\u00e3o v\u00edvida se manifesta na forma de mem\u00f3ria. Quando o objeto \u00e9 um processo corporal tal qual o entrar e sair da respira\u00e7\u00e3o ou o ato de caminhar em c\u00edrculos, ou ainda um evento mental como uma sensa\u00e7\u00e3o ou pensamento, sua exibi\u00e7\u00e3o v\u00edvida toma a forma de uma consci\u00eancia l\u00facida sobre o presente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos\u00a0<em>suttas<\/em>\u00a0<em>pali<\/em>,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0tem ainda outros pap\u00e9is relativos \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, mas estes apenas refor\u00e7am sua caracteriza\u00e7\u00e3o nos termos de consci\u00eancia l\u00facida e exibi\u00e7\u00e3o v\u00edvida. Por exemplo, alguns textos incluem, enquanto tipos de mindfulness, o recordar do Buda (buddhanussati), a contempla\u00e7\u00e3o sobre a repugn\u00e2ncia do corpo (<em>asubhasanna<\/em>), e a mindfulness sobre a morte (<em>maranassati<\/em>); cada um desses traz um dom\u00ednio objetivo v\u00edvido \u00e0 mente. O\u00a0<em>Metta Sutta<\/em>\u00a0faz refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria medita\u00e7\u00e3o em bondade amorosa enquanto um tipo de mindfulness<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn13\">[13]<\/a>. Em cada um destes casos, o objeto \u00e9 um fen\u00f4meno conceitual \u2013 as qualidades do Buda, a repugn\u00e2ncia do corpo, a inevitabilidade da morte, ou os seres que amamos \u2013 no entanto, a postura mental que se engaja nestes fen\u00f4menos \u00e9 designada mindfulness. O que os une, do \u00e2ngulo do sujeito, \u00e9 a lucidez e vivacidade do ato de consci\u00eancia que os abarca, e do \u00e2ngulo do objeto, sua exibi\u00e7\u00e3o v\u00edvida e clara.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do contexto meditativo,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0entra no caminho \u00f3ctuplo em um outro papel que n\u00e3o pode ser ignorado se quisermos apreender seu significado exato \u2013 como uma esp\u00e9cie de \u201cfiador\u201d ou \u201cgarantidor\u201d da corre\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica dos demais fatores. MN 117 faz distin\u00e7\u00e3o entre as formas err\u00f4nea (<em>miccha<\/em>) e corretas (<em>samma<\/em>) dos cinco primeiros fatores do caminho, da vis\u00e3o ao meio de vida. Depois de estabelecer cada distin\u00e7\u00e3o, o texto explica como a vis\u00e3o correta, o esfor\u00e7o correto e a mindfulness correta se estabelecem em associa\u00e7\u00e3o com cada fator do caminho. Tomando a inten\u00e7\u00e3o correta como exemplo, encontramos no texto: \u201centendemos a inten\u00e7\u00e3o err\u00f4nea como \u00e9 e a inten\u00e7\u00e3o correta como \u00e9; assim \u00e9 a vis\u00e3o correta\u2026 fazemos o esfor\u00e7o de abandonar a inten\u00e7\u00e3o err\u00f4nea e de adquirir a inten\u00e7\u00e3o correta: assim \u00e9 o esfor\u00e7o correto. Dotado de mindfulness, abandonamos a inten\u00e7\u00e3o err\u00f4nea e dotado de mindfulness adquirimos e cultivamos a inten\u00e7\u00e3o correta: assim \u00e9 a mindfulness correta\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn14\">[14]<\/a>. A mesma determina\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa com rela\u00e7\u00e3o aos outros fatores, incluindo a fala correta, a a\u00e7\u00e3o correta, o meio de vida correto, de modo que o praticante abrace os constituintes \u00e9ticos do caminho.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta explica\u00e7\u00e3o torna problem\u00e1tica a interpreta\u00e7\u00e3o comum de mindfulness enquanto um tipo de consci\u00eancia intrinsicamente destitu\u00edda de discernimento, avalia\u00e7\u00e3o e julgamento. Ainda que esta compreens\u00e3o de mindfulness tenha ganhado cog\u00eancia na literatura popular sobre medita\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o se encaixa perfeitamente nos textos can\u00f4nicos e pode mesmo conduzir a uma vis\u00e3o distorcida de como a pr\u00e1tica de mindfulness \u00e9 realizada. Certamente existem ocasi\u00f5es nas quais o cultivo de mindfulness exige do praticante a suspens\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e julgamento e a ado\u00e7\u00e3o de um posicionamento de observador somente. No entanto, para cumprir o seu papel enquanto membro\u00a0<em>integral<\/em>\u00a0do caminho \u00f3ctuplo, a mindfulness deve trabalhar em conjunto com a vis\u00e3o correta e o esfor\u00e7o correto. Isso implica em dizer que o praticante de mindfulness deve, ocasionalmente, avaliar as qualidades mentais e as a\u00e7\u00f5es pretendidas, examinar o seu valor, e engajar-se em atividade fundada em prop\u00f3sito. Em conjunto com a vis\u00e3o correta, a mindfulness permite ao praticante distinguir as qualidades genu\u00ednas das falsas, as boas das m\u00e1s a\u00e7\u00f5es, os estados mentais ben\u00e9ficos dos prejudiciais. Em conjunto com o esfor\u00e7o correto, ela promove a remo\u00e7\u00e3o de estados mentais prejudiciais e a aquisi\u00e7\u00e3o de qualidades genu\u00ednas. Somente assim a pr\u00e1tica de mindfulness pode estabelecer a funda\u00e7\u00e3o da sabedoria correta e emergir enquanto uma ferramenta para extirpar as ra\u00edzes do sofrimento.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">3. <strong>Mindfulness e aten\u00e7\u00e3o pura<\/strong><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos comentadores que ensinam e praticam a\u00a0<em>vipassana<\/em>\u00a0contempor\u00e2nea procuram subscrever o sabor experimental da mindfulness atrav\u00e9s do uso da express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d. Com algumas reservas (as quais discutirei a seguir), eu acredito que esta caracteriza\u00e7\u00e3o seja aceit\u00e1vel desde que entendida enquanto uma\u00a0<em>diretriz procedimental<\/em>\u00a0para o cultivo de mindfulness de acordo com certos m\u00e9todos. Ela ajuda o meditante iniciante, rec\u00e9m-embarcado neste caminho, na empreitada nada familiar de apropriar-se da maneira adequada de rela\u00e7\u00e3o com o campo fenom\u00eanico. O prop\u00f3sito desta express\u00e3o seria, portanto, pragm\u00e1tico e n\u00e3o doutrin\u00e1rio \u2013 pedag\u00f3gico e n\u00e3o definitivo.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, quando considerada sob a \u00e9gide das fontes can\u00f4nicas, \u00e9 dif\u00edcil ver a express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d enquanto uma descri\u00e7\u00e3o v\u00e1lida a n\u00edvel\u00a0<em>te\u00f3rico<\/em>\u00a0da mindfulness aplic\u00e1vel em suas muitas modalidades. Conforme apontei anteriormente, mindfulness \u00e9 uma qualidade mental vers\u00e1til que pode ser desenvolvida de muitas maneiras diferentes. Conquanto certos m\u00e9todos enfatizem um tipo de consci\u00eancia que pode ser descrita pragmaticamente enquanto \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d, no espectro completo de t\u00e9cnicas meditativas budistas, esta \u00e9 apenas uma dentre um vasto n\u00famero de maneiras alternativas de cultivo de mindfulness, muitas das quais compreendem em seu escopo o uso de pensamento conceitual e uma estrutura espec\u00edfica de valora\u00e7\u00e3o. Vimos acima que a mindfulness pode ser aplicada quando abordamos a repugn\u00e2ncia do corpo, contemplamos sobre a morte, e aplicamos bondade amorosa diante dos seres. O que une todos estes elementos \u2013 e ainda a pr\u00f3pria aten\u00e7\u00e3o pura \u2013 \u00e9 uma qualidade de consci\u00eancia l\u00facida que permite ao objeto se apresentar vividamente, com uma qualidade de presen\u00e7a distinta e determinada.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro problema que adv\u00e9m do uso da express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d a n\u00edvel pedag\u00f3gico \u00e9 o fato de esta express\u00e3o envolver o cruzamento de termos t\u00e9cnicos que na utiliza\u00e7\u00e3o rigorosa de terminologia budista, deveriam ser mantidos separados. Uma tentativa influente de estabelecer uma equival\u00eancia te\u00f3rica entre mindfulness e \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d \u00e9 a passagem no conhecido livro de Ven. Henepola Gunaratana,\u00a0<em>Mindfulness in Plain English<\/em>, citado frequentemente pela internet. Aqui encontramos mindfulness identificada com o breve instante de consci\u00eancia pr\u00e9-conceitual que, na teoria cognitiva budista, precede a investida da designa\u00e7\u00e3o conceitual:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Quando voc\u00ea se torna consciente de alguma coisa, existe um instante breve e fugidio de pura consci\u00eancia exatamente anterior \u00e0 conceitualiza\u00e7\u00e3o de um objeto, precedente \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um estado de aten\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Ordinariamente, este instante tem uma vida curta. \u00c9 a fra\u00e7\u00e3o de segundo existente no focar do olhar sobre um objeto, com posterior encaixe da mente neste objeto \u2013 anterior \u00e0 objetifica\u00e7\u00e3o \u2013 no qual n\u00f3s nos esprememos mentalmente e segregamos o objeto conceitualmente, separando-o do resto da exist\u00eancia fenom\u00eanica. Acontece logo antes de voc\u00ea come\u00e7ar a pensar sobre ele \u2013 antes de sua mente expressar \u201coh, um cachorro!\u201d. Este momento flu\u00eddo, de foco macio dilu\u00eddo em pura consci\u00eancia \u00e9 a mindfulness\u2026 este instante original de mindfulness \u00e9 rapidamente superado. \u00c9 o prop\u00f3sito da medita\u00e7\u00e3o vipassana nos treinar de modo a prolongar este momento de consci\u00eancia.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn15\"><strong>[15]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, o autor enfatiza a qualidade n\u00e3o conceitual e n\u00e3o discursiva de mindfulness, que ele explicitamente identifica com a aten\u00e7\u00e3o pura:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Mindfulness \u00e9 a consci\u00eancia n\u00e3o conceitual. Outra palavra em ingl\u00eas para sati \u00e9 \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d [pure attention]. N\u00e3o \u00e9 pensar. N\u00e3o \u00e9 envolvida em pensamento ou conceitualidade\u2026 \u00e9, pelo contr\u00e1rio, a experi\u00eancia direta e imediata do que acontece, sem nenhum filtro conceitual. Vem antes do pensamento do processo perceptivo.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn16\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas passagens parecem combinar duas utilidades mentais que, na compreens\u00e3o cl\u00e1ssica de cogni\u00e7\u00e3o no budismo, s\u00e3o consideradas como distintas. Uma \u00e9 a apreens\u00e3o pr\u00e9-conceitual de um objeto que ocorre assim que o objeto se expressa no campo cognitivo. Este ato acontece autom\u00e1tica e espontaneamente. \u00c9 um ato eticamente irrelevante, comum ao ladr\u00e3o e ao santo, ao infante e ao intelectual, ao sensualista e ao yogi. Mindfulness, por sua vez, n\u00e3o acontece automaticamente, mas enquanto uma qualidade que deve ser cultivada (<em>bhavetabba<\/em>). Surge quando o processo cognitivo j\u00e1 est\u00e1 um tanto desenvolvido e, longe de ser espont\u00e2nea, se revela a partir de um esfor\u00e7o deliberado e continuado. Tamb\u00e9m det\u00e9m uma dimens\u00e3o \u00e9tica, sendo parte e composta da empreitada de elimina\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 prejudicial e estabiliza\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 de benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda, uma vez que mindfulness cumpre um papel essencial em medita\u00e7\u00f5es tais quais as de relembrar o Buda, da percep\u00e7\u00e3o da repugn\u00e2ncia do corpo, e do reconhecimento da morte, \u00e9 dif\u00edcil ver como mindfulness pode ser essencialmente n\u00e3o conceitual e n\u00e3o discursiva. Em certos tipos de pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, a conceitualiza\u00e7\u00e3o e o pensamento discursivo podem ser suspensos em detrimento de uma observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conceitual, mas h\u00e1 pouca evid\u00eancia no c\u00e2none\u00a0<em>pali<\/em>\u00a0e nos seus coment\u00e1rios que a mindfulness \u00e9,\u00a0<em>por natureza,\u00a0<\/em>destitu\u00edda de aspectos conceituais. Em alguns tipos de pr\u00e1tica de mindfulness, h\u00e1 \u00eanfase maior na observa\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 ocorrendo no presente; em outros, h\u00e1 uma \u00eanfase menor, ou mesmo, nenhuma \u00eanfase neste aspecto.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo neste n\u00edvel observacional, h\u00e1 uma dicotomia em como aplicar a mindfulness. Mindfulness pode ser estabilizada em \u00fanico ponto de observa\u00e7\u00e3o, como a mindfulness voltada para a respira\u00e7\u00e3o, especialmente quando o prop\u00f3sito \u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o (<em>samadhi<\/em>). Mas a mindfulness tamb\u00e9m pode ser ampla e n\u00e3o concentrada, tocando a todos os fen\u00f4menos que surgirem, especialmente quando est\u00e1 no contexto de desenvolver discernimento (<em>vipassana<\/em>). Ainda, existem outros tipos de pr\u00e1ticas de mindfulness que fazem um uso extensivo de conceitualiza\u00e7\u00f5es e pensamento discursivo, mas que aplicam estas ferramentas em uma dire\u00e7\u00e3o diferente do pensamento comum. Ao inv\u00e9s de permitir o pensamento vaguear ao acaso, modulado por emo\u00e7\u00f5es perturbadoras, padr\u00f5es de h\u00e1bito, e necessidades de sobreviv\u00eancia, o meditante deliberadamente faz uso de pensamentos e conceitos para manter o objeto meditativo em mente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">De meu conhecimento, a primeira pessoa a fazer uso da express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d para caracterizar mindfulness foi o monge alem\u00e3o, Ven. Nyanaponika Thera, meu pr\u00f3prio professor espiritual com quem vivi por doze anos em um eremit\u00e9rio no Sri Lanka. Nyanaponika provavelmente foi tamb\u00e9m o primeiro ocidental a explorar a pr\u00e1tica de mindfulness com profundidade, tendo o feito tanto em seu influente livro\u00a0<em>The Heart of Buddhist Meditation<\/em>\u00a0e na brochura\u00a0<em>The Power of Mindfulness<\/em>. Nyanaponika n\u00e3o pretendia fazer uso de \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d como a tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0(ele usou a pr\u00f3pria palavra \u201cmindfulness\u201d), mas ainda assim fez uso do termo para sublinhar o est\u00e1gio inicial da pr\u00e1tica de\u00a0<em>satipatthana<\/em>. Para distinguir os dois componentes da pr\u00e1tica,\u00a0<em>sati\u00a0<\/em>e\u00a0<em>sampajanna<\/em>, ele escreveu que \u201cmindfulness (<em>sati<\/em>) \u00e9 aplicada preeminentemente na postura e pr\u00e1tica da aten\u00e7\u00e3o pura em um estado mental plenamente receptivo, conquanto a compreens\u00e3o clara (<em>sampajanna<\/em>) se faz presente quando qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o \u00e9 exigida, incluindo os pensamentos e reflex\u00f5es ativas diante daquilo que \u00e9 observado\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn17\">[17]<\/a>. Iremos abordar a compreens\u00e3o clara mais abaixo. Por ora, foquemos na aten\u00e7\u00e3o pura.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nyanaponika define aten\u00e7\u00e3o pura sucintamente desta forma:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Aten\u00e7\u00e3o pura \u00e9 a consci\u00eancia clara e singular sobre o que acontece de fato conosco a n\u00edvel externo e interno, nos intervalos sucessivos de nossa percep\u00e7\u00e3o. Chama-se \u201cpura\u201d porque diz respeito aos fatos puros e nus da percep\u00e7\u00e3o, conforme apresentados atrav\u00e9s dos cinco sentidos ou da mente\u2026 Quando diante das impress\u00f5es sensoriais dos seis sentidos, a aten\u00e7\u00e3o ou mindfulness \u00e9 mantida pura e l\u00edmpida, registrando os fatos observados, sem reagir a eles por a\u00e7\u00e3o de corpo, fala ou mente, que pode ser um posicionamento de rela\u00e7\u00e3o consigo (desejar, rejeitar etc.), um julgamento ou reflex\u00e3o.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn18\"><strong>[18]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio de alguns professores contempor\u00e2neos de\u00a0<em>vipassana<\/em>, Nyanaponika n\u00e3o considerava a \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d como n\u00e3o conceitual e n\u00e3o verbal. O sistema de medita\u00e7\u00e3o de discernimento\u00a0<em>Mahasi Sayadaw<\/em>, que ele praticava, frisa a import\u00e2ncia de designar com precis\u00e3o os constituintes da experi\u00eancia do meditante, e Nyanaponika desenvolveu esta metodologia em seu pr\u00f3prio estilo, fundado em seu ac\u00famen psicol\u00f3gico profundo. Ainda que ele considere o aspecto de abertura, receptividade e n\u00e3o julgamento inerente \u00e0 aten\u00e7\u00e3o pura, ele tamb\u00e9m sublinha que designa\u00e7\u00e3o verbal precisa da experi\u00eancia cumpre um papel essencial nas tr\u00eas tarefas de conhecer, formatar e purificar a mente.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<em>The Power of Mindfulness<\/em>\u00a0Nyanaponika chama este processo de \u201climpar o sal\u00e3o da mente\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn19\">[19]<\/a>. Ele escreve que este processo requer um exame dos \u201ccantos obscuros e polu\u00eddos da mente\u201d, que s\u00e3o \u201cos esconderijos de nossos inimigos mais perigosos\u201d \u2013 as m\u00e1culas mentais da gan\u00e2ncia, \u00f3dio e delus\u00e3o. Este exame se d\u00e1 a partir da mindfulness da aten\u00e7\u00e3o pura, que envolve chamar as coisas por seu verdadeiro nome:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>O olhar calmo e cuidadoso da mindfulness descobre os dem\u00f4nios em suas tocas. A pr\u00e1tica de cham\u00e1-los por seus verdadeiros nomes tira-os da obscuridade, para a luminosidade da consci\u00eancia. Ali, eles ficar\u00e3o acanhados e tentar\u00e3o se justificar, ainda que neste est\u00e1gio de aten\u00e7\u00e3o pura, eles n\u00e3o foram sujeitos a nenhuma inspe\u00e7\u00e3o mais profunda, al\u00e9m da investiga\u00e7\u00e3o do nome e da identidade. Se trazidos \u00e0 luz enquanto ainda em um estado incipiente, eles ser\u00e3o incapazes de suportar o escrut\u00ednio e ir\u00e3o desvanecer. Portanto, uma vit\u00f3ria inicial sobre eles \u00e9 poss\u00edvel, ainda que em um est\u00e1gio bem prim\u00e1rio da pr\u00e1tica.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn20\"><strong>[20]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que eu enxergue diferen\u00e7as significativas entre a interpreta\u00e7\u00e3o de Nyanaponika de mindfulness e as interpreta\u00e7\u00f5es correntes em apresenta\u00e7\u00f5es populares de medita\u00e7\u00e3o, eu ainda acredito que foi um erro da parte dele usar a express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d para descrever este est\u00e1gio preliminar de medita\u00e7\u00e3o. Digo isto por duas raz\u00f5es \u2013 uma relativa \u00e0 palavra \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d e a outra a palavra \u201cpura\u201d.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas reservas quanto \u00e0 palavra \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d derivam do uso desta palavra enquanto referencial de outro termo t\u00e9cnico na an\u00e1lise budista da mente,\u00a0<em>manasikara<\/em>, que designa uma fun\u00e7\u00e3o mental, cujo papel \u00e9 bem diferente do da mindfulness. A principal fun\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>manasikara<\/em>\u00a0\u00e9 o voltar da mente para um objeto. \u00c9 uma atividade espont\u00e2nea e autom\u00e1tica, exercida sempre que um objeto penetra uma faculdade sensorial ou surge em uma \u201cporta mental\u201d. \u00c9 traduzida como \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d, no sentido do voltar da aten\u00e7\u00e3o ao objeto \u2013 da advert\u00eancia da mente quanto ao objeto.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn21\">[21]<\/a>\u00a0Este, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o sentido de\u00a0<em>sati<\/em>. Ao explicar\u00a0<em>sati,<\/em>\u00a0mesmo que a n\u00edvel rudimentar a partir da express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d, Nyanaponika mescla seu significado com o de\u00a0<em>manasikara<\/em>. Mas, conquanto\u00a0<em>manasikara\u00a0<\/em>\u00e9 predominante na g\u00eanese do processo cognitivo,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0se expressa posteriormente, sustentando a aten\u00e7\u00e3o sobre o objeto consciente e o expressando vividamente a partir da cogni\u00e7\u00e3o l\u00facida.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nyanaponika foi um estudioso perspicaz do sistema psicol\u00f3gico budista conhecido como Abhidhamma e sua escolha da palavra \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d para caracterizar\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0n\u00e3o pode ter sido um descuido. Eu suponho que a raz\u00e3o subjacente a esta escolha foi a mescla de palavras nas duas l\u00ednguas europeias que ele escrevia: alem\u00e3o e ingl\u00eas. Em seus trabalhos iniciais, escritos em alem\u00e3o, ele traduziu\u00a0<em>sati\u00a0<\/em>como\u00a0<em>achtsamkeit<\/em>, significando \u201creflexivo, consciente, mindfulness\u201d<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn22\">[22]<\/a>. Portanto, conquanto \u201cmindfulness\u201d pode vir a ser considerado como sin\u00f4nimo de \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d no sentido de uma aten\u00e7\u00e3o sustentada, quando encontramos a express\u00e3o sintetizada em \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d, surge o risco de confus\u00e3o entre\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0e\u00a0<em>manasikara<\/em>, mindfulness deliberada e a a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de voltar a aten\u00e7\u00e3o a um objeto mental. Creio ter sido esta confus\u00e3o de dois termos t\u00e9cnicos que levou Gunaratana, na passagem citada mais acima, a identificar mindfulness com este breve momento de conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conceitual que precede o surgimento de conceitos e pensamentos discursivos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas reservas quanto ao uso de \u201cpura\u201d para qualificar este tipo de aten\u00e7\u00e3o est\u00e3o mais vinculadas ao \u00e2mbito filos\u00f3fico. Eu entendo que a express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d pode ser usada a n\u00edvel pragm\u00e1tico para guiar um praticante iniciante no m\u00e9todo de estabiliza\u00e7\u00e3o da mindfulness, e isto \u00e9 presumidamente o que Nyanaponika pensou quando ele escreveu que \u201ca aten\u00e7\u00e3o ou mindfulness \u00e9 mantida pura e l\u00edmpida, registrando os fatos observados, sem reagir a eles por a\u00e7\u00e3o de corpo, fala ou mente\u201d. Contudo, de uma perspectiva te\u00f3rica, a possibilidade de uma atividade de aten\u00e7\u00e3o, ou mesmo qualquer atividade mental, ser preservada literalmente \u201cpura\u201d \u00e9 question\u00e1vel. Na minha vis\u00e3o, qualquer ato intencional \u00e9 necessariamente sujeito a um vasto conjunto de determinantes, externos e internos, que governam o seu funcionamento. Ele ocorre\u00a0<em>incorporado<\/em>\u00a0na biografia e personalidade da pessoa que o pratica, e ocorre\u00a0<em>afixado<\/em>\u00a0a um contexto em particular \u2013 hist\u00f3rico, social e cultural \u2013 que o orienta especificamente e que vincula sua identidade.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos, por exemplo, fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre as orienta\u00e7\u00f5es conceituais, dependendo se a pr\u00e1tica \u00e9 exercida por um budista tradicional, que subscreve \u00e0 vis\u00e3o de mundo budista, ou por um ocidental contempor\u00e2neo, que faz uso da medita\u00e7\u00e3o em um contexto secular, de uma perspectiva hol\u00edstica. A diferen\u00e7a \u00e9 pontuada com eleg\u00e2ncia por Gil Fronsdal:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Ao inv\u00e9s de enfatizar a ren\u00fancia ao mundano, eles [os professores ocidentais laicos] enfatizam o engajamento e a liberdade dentro do mundo. Ao inv\u00e9s de frisar a rejei\u00e7\u00e3o do corpo, os professores ocidentais acolhem o corpo como parte do \u00e2mbito hol\u00edstico de sua pr\u00e1tica. Ao inv\u00e9s de enfatizar prop\u00f3sitos espirituais absolutos como a completa ilumina\u00e7\u00e3o, a cessa\u00e7\u00e3o do ciclo de renascimentos, ou o alcance de estados mentais sagrados, muitos professores ocidentais enfatizam os benef\u00edcios imediatos da mindfulness e presen\u00e7a equ\u00e2nime e imperturb\u00e1vel diante das vicissitudes da vida.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn23\"><strong>[23]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que estas diferentes orienta\u00e7\u00f5es ir\u00e3o alterar o formato e o fluxo da experi\u00eancia de mindfulness. Poderia surgir o argumento de que consci\u00eancia sobre a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 consci\u00eancia sobre a respira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o obstante quem esteja respirando. Ainda que isto seja indiscut\u00edvel, eu ainda acredito ser prov\u00e1vel que, uma vez que o meditante supere este est\u00e1gio preliminar, pressuposi\u00e7\u00f5es e expectativas inevitavelmente v\u00e3o se apresentar.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s de pensar na mindfulness como exclusivamente \u201cpura\u201d, eu prefiro pensar nela como um espectro com variadas densidades de conte\u00fado conceitual \u2013 de \u201cdenso\u201d para \u201cleve\u201d para \u201czero\u201d \u2013 a depender do estilo espec\u00edfico de mindfulness sendo praticado. O pr\u00f3prio sistema\u00a0<em>satipatthana<\/em>\u00a0cont\u00e9m este tipo de varia\u00e7\u00e3o. Em alguns exerc\u00edcios\u00a0<em>satipatthana<\/em>, o contexto determinante e a orienta\u00e7\u00e3o podem ser \u201cdensos\u201d e em outros, \u201cleves\u201d. Por exemplo, na contempla\u00e7\u00e3o da repugn\u00e2ncia do corpo, na da aten\u00e7\u00e3o aos quatro elementos, ou nas medita\u00e7\u00f5es sobre a morte, a orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao desencanto e \u00e0 ren\u00fancia \u00e9 altamente carregada desde o in\u00edcio. J\u00e1 no come\u00e7o, a mindfulness trabalha em conex\u00e3o \u00edntima com o pensamento e a investiga\u00e7\u00e3o (<em>vittaka\u00a0<\/em>e\u00a0<em>vicara<\/em>), que exigem um exerc\u00edcio sofisticado de atividade conceitual. O estilo de medita\u00e7\u00e3o em discernimento ensinado por Mahasi Sayadaw tem um uso muito mais leve de conceitualiza\u00e7\u00e3o. O meditante inicia simplesmente observando a expans\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o do abd\u00f4men a partir da respira\u00e7\u00e3o, e gradualmente migra para a observa\u00e7\u00e3o do que quer que surja no campo perceptivo.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn24\">[24]<\/a>\u00a0Em um sistema que almeja a realiza\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>jhanas<\/em>, o conte\u00fado conceitual ser\u00e1 muito mais rarefeito e efetivamente se dissipar\u00e1 com a realiza\u00e7\u00e3o efetiva do\u00a0<em>jhana<\/em>, com a mindfulness tornando-se mais pura e clara.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, se a mindfulness deve se conectar com a \u201cmindfulness correta\u201d (<em>samma sati<\/em>) do nobre caminho \u00f3ctuplo, ela deve estar vinculada a uma teia de fatores que a oferecem dire\u00e7\u00e3o e prop\u00f3sito. Enquanto um componente deste caminho, ela deve ser guiada pela vis\u00e3o correta, o primeiro fator do caminho, que vincula a pr\u00e1tica \u00e0 compreens\u00e3o. Ela deve ser direcionada pela inten\u00e7\u00e3o correta, o segundo fator, que \u00e9 a aspira\u00e7\u00e3o pelo desencantamento, benevol\u00eancia e inofensividade. Ela deve estar fundamentada nos tr\u00eas fatores \u00e9ticos da fala correta, a\u00e7\u00e3o correta e meio de vida correto. E deve atuar em conjunto com o esfor\u00e7o correto (<em>samma vayama<\/em>), o engajamento em eliminar os estados mentais negativos e despertar e preencher as qualidades positivas.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, a express\u00e3o \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d parece defeituosa em dois sentidos: primeiro, porque combina os dois fatores mentais distintos\u00a0<em>sati\u00a0<\/em>e\u00a0<em>manasikara<\/em>; segundo, porque nenhum ato cognitivo \u00e9 inteiramente purificado de fatores que o canalizam em dire\u00e7\u00e3o e significado. Quanto \u00e0 pr\u00e1tica de\u00a0<em>satipatthana<\/em>, \u00e9 poss\u00edvel mesmo falar a respeito de diferentes graus de colora\u00e7\u00e3o \u2013 diferentes \u201cdensidades\u201d de um determinado contexto meditativo. No entanto, eu n\u00e3o considero poss\u00edvel a algu\u00e9m abandonar todas as determinantes e alcan\u00e7ar um estado de absoluta abertura, vacuidade e indetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">4. O que dizem os\u00a0<em>suttas<\/em><\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, ainda que eu tenha reservas sobre o uso de \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d enquanto uma express\u00e3o alternativa para\u00a0<em>sati<\/em>, se consideramos\u00a0<em>como<\/em>\u00a0a mindfulness \u00e9 praticada no sistema definido pelo\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>, n\u00f3s iremos encontrar evid\u00eancias substanciais para a ideia de que o prop\u00f3sito inicial de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0\u00e9 \u201cmanter uma apreens\u00e3o pura dos fatos observados\u201d, t\u00e3o livre quanto poss\u00edvel de elabora\u00e7\u00f5es conceituais\u00a0<em>distorcidas<\/em>. O problema, do meu ponto de vista, n\u00e3o \u00e9 com a conceitualiza\u00e7\u00e3o em si, mas com a conceitualiza\u00e7\u00e3o que atribui qualidades equivocadas aos objetos e \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia. Um evento experiencial pode ser compreendido enquanto um campo distribu\u00eddo em dois polos, o dado objetivo e a a\u00e7\u00e3o subjetiva que o reconhece a n\u00edvel cognitivo. Ordinariamente, em fun\u00e7\u00e3o da atividade espont\u00e2nea da consci\u00eancia obscurecida, esta polaridade \u00e9 reificada em uma dualidade grosseira entre sujeito e objeto. O polo subjetivo aparenta coalescer em um \u201ceu\u201d substancialmente existente, um\u00a0<em>self<\/em>\u00a0que permeia o pano de fundo da experi\u00eancia enquanto uma entidade aut\u00f4noma e independente. O polo objetivo se apresenta enquanto um objeto dispon\u00edvel \u201cpara mim\u201d, pronto para servir ou se opor aos meus prop\u00f3sitos; torna-se ent\u00e3o, um objeto de potencial desejo ou avers\u00e3o. Este processo \u00e9 o que nos\u00a0<em>suttas<\/em>\u00a0indicamos como \u201cfeitura do eu\u201d e \u201cfeitura do meu\u201d (<em>ahamkara mamamkara<\/em>). \u00c9 tarefa da medita\u00e7\u00e3o desagregar esta estrutura atrav\u00e9s da penetra\u00e7\u00e3o na natureza desprovida de essencialidade de todos os fen\u00f4menos, sejam eles pertencentes aos polos objetivos ou subjetivos da experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que apenas\u00a0<em>panna<\/em>\u00a0ou sabedoria possam erradicar estas distor\u00e7\u00f5es cognitivas,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0contribui na sua identifica\u00e7\u00e3o. Ao jogar luz na senda da experi\u00eancia fenom\u00eanica,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0ilumina os objetos sem a sobreposi\u00e7\u00e3o habitual de elabora\u00e7\u00f5es conceituais distorcidas, que obscurecem sua verdadeira natureza. A instru\u00e7\u00e3o inicial de mindfulness sobre a respira\u00e7\u00e3o, o primeiro exerc\u00edcio de contempla\u00e7\u00e3o sobre o corpo, \u00e9 um exemplo adequado. O meditante senta, sustenta o corpo ereto e estabelece a mindfulness a sua frente. Ent\u00e3o, \u201capenas em mindfulness ele inspira, apenas em mindfulness ele expira\u201d (<em>sato va assasati, sato passasati<\/em>). A express\u00e3o\u00a0<em>sato va<\/em>\u00a0\u00e9 enf\u00e1tica:\u00a0<em>apenas<\/em>,\u00a0<em>somente<\/em>,\u00a0<em>simplesmente\u00a0<\/em>em um estado de mindfulness. Aqui,\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0n\u00e3o poderia significar \u201crelembrar\u201d, que \u00e9 o seu sentido original. A \u00fanica coisa que o meditante deve lembrar \u00e9 de manter a respira\u00e7\u00e3o em mente. A respira\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que acontece no presente e n\u00e3o no passado, o que implica em dizer que\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0aqui \u00e9 uma aten\u00e7\u00e3o destinada a um evento presente e n\u00e3o uma relembran\u00e7a do passado.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A instru\u00e7\u00e3o prossegue: \u201cquando o monge inspira profundamente, ele reconhece \u2018eu inspiro profundamente\u2019; quando o monge expira profundamente, ele reconhece \u2018eu expiro profundamente\u2019\u201d. O mesmo \u00e9 apontado para as respira\u00e7\u00f5es curtas. A palavra-chave aqui \u00e9\u00a0<em>pajanati<\/em>\u00a0\u2013 \u201creconhece\u201d. Este verbo \u00e9 a base do substantivo\u00a0<em>panna<\/em>, que \u00e9 traduzido geralmente como sabedoria, mas aqui fica claro que nesta altura\u00a0<em>panna<\/em>\u00a0enquanto sabedoria ainda n\u00e3o emergiu. O que acontece, de fato, \u00e9 apenas um discernimento simples, mesmo simpl\u00f3rio, da qualidade da respira\u00e7\u00e3o. Podemos identificar duas fases envolvidas neste processo. Primeiro, mindfulness, enquanto uma qualidade de\u00a0<em>upatthana<\/em>\u00a0ou consci\u00eancia l\u00facida, ilumina a presen\u00e7a da respira\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quase que simultaneamente, uma cogni\u00e7\u00e3o simples, indicada por\u00a0<em>pajanati<\/em>, entra em cena e registra a respira\u00e7\u00e3o enquanto inspira\u00e7\u00e3o ou expira\u00e7\u00e3o, profunda ou curta. Podemos entender este processo como uma atividade rudimentar de\u00a0<em>sampajanna<\/em>, compreens\u00e3o clara.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo m\u00e9todo \u00e9 encontrado nas sess\u00f5es que tocam sensa\u00e7\u00f5es e estados mentais. Quando o meditante experiencia uma sensa\u00e7\u00e3o em particular \u2013 agrad\u00e1vel, desagrad\u00e1vel ou neutra \u2013 ele reconhece esta sensa\u00e7\u00e3o. Quando um estado mental em particular emerge \u2013 uma mente luxuriosa, raivosa, deludida ou mesmo uma mente n\u00e3o luxuriosa, pac\u00edfica e clara \u2013 o meditante apenas reconhece o estado mental tal qual ele \u00e9. Na minha vis\u00e3o, o papel de\u00a0<em>sati<\/em>\u00a0ou mindfulness nestas contempla\u00e7\u00f5es \u00e9 de abrir os conte\u00fados do campo experiencial; o papel de\u00a0<em>sampjanna<\/em>, compreens\u00e3o clara, \u00e9 determinar e definir os conte\u00fados tais quais s\u00e3o.\u00a0<em>Sampajanna<\/em>\u00a0avan\u00e7a e come\u00e7a a se transformar em\u00a0<em>panna<\/em>\u00a0na sess\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o sobre a gera\u00e7\u00e3o e dissolu\u00e7\u00e3o de cada tipo de objeto. Este momento explicitamente vincula estas pr\u00e1ticas \u00e0 estrutura geral dos ensinamentos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a quarta contempla\u00e7\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos (<em>dhamma-nupassana<\/em>), a situa\u00e7\u00e3o fica mais complexa e ent\u00e3o a compreens\u00e3o clara ganha proemin\u00eancia. A primeira divis\u00e3o desta se\u00e7\u00e3o trabalha com os cinco obst\u00e1culos: o desejo sensual, a m\u00e1 vontade, a sonol\u00eancia, a inquieta\u00e7\u00e3o e a d\u00favida. Uma vez mais mindfulness abre o campo experiencial e a compreens\u00e3o clara reconhece a presen\u00e7a ou aus\u00eancia de um obst\u00e1culo em particular. Quando a mindfulness e a compreens\u00e3o clara se unem na condu\u00e7\u00e3o desta fun\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria,\u00a0<em>panna<\/em>, no sentido de sabedoria, entra em cena e subjuga o obst\u00e1culo sob o princ\u00edpio da condicionalidade. O meditante precisa compreender como o obst\u00e1culo surge, como ele \u00e9 abandonado, e como \u00e9 poss\u00edvel evitar que ele surja uma vez mais no futuro.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Sequ\u00eancias similares s\u00e3o encontradas nos exerc\u00edcios subsequentes dos cinco agregados, das seis bases de sentido internas e externas, dos sete fatores da ilumina\u00e7\u00e3o e das quatro nobres verdades. Em cada um destes casos, h\u00e1 muito mais envolvido do que apenas \u201caten\u00e7\u00e3o pura\u201d ao fluxo imediato da experi\u00eancia. De fato, \u00e9 necess\u00e1ria uma investiga\u00e7\u00e3o de modo a gerar a compreens\u00e3o de como certos fatores surgem, como s\u00e3o eliminados ou fortalecidos, e no caso dos fatores positivos, como eles s\u00e3o efetivamente consumados. Por for\u00e7a da necessidade, o praticante adota certos esquemas conceituais enquanto matrizes atrav\u00e9s das quais ele percebe o v\u00f3rtice da experi\u00eancia \u2013 esquemas que adequam os fen\u00f4menos ao m\u00f3dulo de an\u00e1lise do Dhamma e impulsionam a pr\u00e1tica no sentido almejado, a realiza\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>nibbana<\/em>. Neste cen\u00e1rio, dire\u00e7\u00e3o, contexto e orienta\u00e7\u00e3o, longe de serem dispens\u00e1veis, tem um impacto decisivo na opera\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de mindfulness.<\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">5. Compreens\u00e3o clara<\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que eu tenha dito mais acima que a compreens\u00e3o clara tem um papel mais proeminente na contempla\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos experiencias, o estribilho concernente \u00e0 mindfulness correta demonstra que a compreens\u00e3o clara esteve presente em algum n\u00edvel em toda a opera\u00e7\u00e3o. A f\u00f3rmula prev\u00ea que a compreens\u00e3o clara \u00e9 uma constante, presente em cada exerc\u00edcio desde o in\u00edcio. Seja contemplando o corpo, as sensa\u00e7\u00f5es, os estados mentais ou as experi\u00eancias fenom\u00eanicas, o meditante engaja-se \u2018ardentemente, compreendendo com clareza, atento\u2019.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Nikayas, existem duas passagens recorrentes que descrevem a pr\u00e1tica da compreens\u00e3o clara. A passagem mais frequente \u00e9 uma se\u00e7\u00e3o separada do\u00a0<em>Satipatthana Sutta<\/em>, compilada na contempla\u00e7\u00e3o sobre o corpo:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>E como, monges, se exercita a compreens\u00e3o clara? O monge age com compreens\u00e3o clara quando vai adiante e retorna; quando olha para frente e olha ao redor; quando estica e retrai os membros; quando veste seu manto e carrega o manto junto da tigela; quando come, quando bebe, quando mastiga sua comida e saboreia; quando defeca e urina; quando caminha, fica em p\u00e9, senta, acorda, fala e mant\u00e9m o sil\u00eancio. \u00c9 assim que o monge exercita a compreens\u00e3o clara.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn25\"><strong>[25]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomada fora de contexto, esta passagem pode dar a impress\u00e3o que a compreens\u00e3o clara diz respeito apenas \u00e0s atividades cotidianas com as quais deliberadamente nos engajamos. Por\u00e9m, um par de\u00a0<em>suttas<\/em>\u00a0destinados a monges doentes em uma enfermaria, mostra que a mindfulness e a compreens\u00e3o clara unidas conduzem ao discernimento e \u00e0 libera\u00e7\u00e3o. Em duas ocasi\u00f5es separadas, o Buda visita a enfermaria e instrui os monges a manterem um estado de mindfulness e compreenderem claramente o que est\u00e1 acontecendo. Ele explica \u201cmindfulness\u201d a partir da f\u00f3rmula comum das quatro\u00a0<em>satipatthanas<\/em>\u00a0e a \u201ccompreens\u00e3o clara\u201d pela f\u00f3rmula acima. Ent\u00e3o, ele declara que o monge que mant\u00e9m mindfulness e compreende com clareza os fen\u00f4menos ir\u00e1 compreender a origina\u00e7\u00e3o interdependente das sensa\u00e7\u00f5es, contemplar sobre sua imperman\u00eancia e renunciar \u00e0 lux\u00faria, \u00e0 avers\u00e3o e \u00e0 ignor\u00e2ncia, no que ele, enfim, realiza o\u00a0<em>nibbana<\/em>.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn26\">[26]<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra passagem sobre compreens\u00e3o clara tem uma \u00eanfase diferente. Descreve a compreens\u00e3o clara n\u00e3o como um discernimento da atividade do dia a dia, mas como uma cogni\u00e7\u00e3o reflexiva dos eventos mentais:<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>E como um monge exercita a compreens\u00e3o clara? O monge compreende as sensa\u00e7\u00f5es conforme elas surgem, se sustentam presentes, e cessam. Compreende os pensamentos conforme eles surgem, se sustentam presentes, e cessam. Compreende as percep\u00e7\u00f5es conforme eles surgem, se sustentam presentes, e cessam. \u00c9 assim que o monge exercita a compreens\u00e3o clara.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn27\"><strong>[27]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Este estado de contempla\u00e7\u00e3o evidentemente aponta para um ponto de inflex\u00e3o no qual\u00a0<em>sampajanna<\/em>\u00a0amadurece para\u00a0<em>panna<\/em>, no qual compreens\u00e3o clara se torna discernimento da imperman\u00eancia, conhecimento direto da gera\u00e7\u00e3o e dissolu\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Os coment\u00e1rios\u00a0<em>pali<\/em>\u00a0explicam consistentemente a aplica\u00e7\u00e3o em quatro n\u00edveis da compreens\u00e3o clara: (1) enquanto um instrumento que discerne o prop\u00f3sito das nossas a\u00e7\u00f5es; (2) enquanto prud\u00eancia na escolha dos meios; (3) enquanto um engajamento com o sujeito meditativo; e (4) enquanto um discernimento dos fen\u00f4menos em sua verdadeira natureza. Podemos correlacionar as duas primeiras aplica\u00e7\u00f5es com a compreens\u00e3o clara das atividades cotidianas no mundo, como descrito na primeira f\u00f3rmula. A terceira pode ser interpretada enquanto compreens\u00e3o clara referenciada na palavra\u00a0<em>sampajano<\/em>\u00a0e no estribilho\u00a0<em>satipatthana<\/em>. E a quarta obviamente aponta a transforma\u00e7\u00e3o de compreens\u00e3o clara em genu\u00edno discernimento.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn28\">[28]<\/a><\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\">6. Expandindo para novas fronteiras<\/h4>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Mindfulness percorreu um logo caminho desde sua terra natal, no nordeste da \u00cdndia. Atravessou a ilha do Sri Lanka, as bacias hidrogr\u00e1ficas do sudeste asi\u00e1tico, os monast\u00e9rios nas montanhas da China, Coreia e Jap\u00e3o e os long\u00ednquos eremit\u00e9rios himalaicos. Mas o ponto mais recente de sua jornada \u00e9 sem paralelo. Nos dias de hoje, a medita\u00e7\u00e3o budista foi pin\u00e7ada de seu habitat tradicional, da doutrina e f\u00e9 budistas, e transplantada para uma cultura secular inclinada a resultados pragm\u00e1ticos. Aqui, ela tem encontrado resid\u00eancia em centros de medita\u00e7\u00e3o urbanos e mesmo hospitais, cl\u00ednicas e centros terap\u00eauticos. Seus professores e praticantes provavelmente usam roupas urbanas e despojadas ou ainda jalecos ao inv\u00e9s dos robes de cor de a\u00e7afr\u00e3o; provavelmente det\u00eam diplomas em medicina e psicologia e n\u00e3o em filosofia e hagiografia budista. A medita\u00e7\u00e3o tem sido ensinada para ensinar as pessoas a se liberarem n\u00e3o do ciclo de nascimento e morte, mas das perturba\u00e7\u00f5es das press\u00f5es financeiras e sociais, dist\u00farbios ps\u00edquicos e relacionamentos dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme especialistas em redu\u00e7\u00e3o de estresse e psicoterapeutas buscam por alternativas para ajudar seus pacientes a lidar com dor, m\u00e1goa e estresse, o antigo sistema de mindfulness oferece uma promessa estimulante. Partid\u00e1rios do budismo tradicional analisam a adapta\u00e7\u00e3o secular da mindfulness com sentimentos mistos. Conquanto alguns aplaudam a aplica\u00e7\u00e3o da mindfulness a uma variada gama de campos, de centros m\u00e9dicos a escolas secund\u00e1rias, chegando mesmo a pris\u00f5es de seguran\u00e7a m\u00e1xima, outras reagiram com ceticismo, se n\u00e3o com cr\u00edticas penetrantes. Muitos praticantes sinceros, ainda indecisos, se debatem com quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser respondidas a partir dos textos can\u00f4nicos: \u201cestaria o\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0puro sendo dilu\u00eddo para fins seculares, reduzido \u00e0 mera terapia? N\u00e3o seria o resultado dessa adapta\u00e7\u00e3o uma melhoria meramente sams\u00e1rica, que n\u00e3o conduz \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do ciclo de renascimentos? Algu\u00e9m j\u00e1 atingiu a ilumina\u00e7\u00e3o em um centro m\u00e9dico? \u201d<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha cren\u00e7a pessoal \u00e9 que devemos encontrar um equil\u00edbrio entre aprecia\u00e7\u00e3o e cautela. Existe o perigo real de cientistas que investigam as pr\u00e1ticas contemplativas orientais serem capturados por premissas materialistas anteriores, passando a explicar a efic\u00e1cia das pr\u00e1ticas num n\u00edvel reducionista, com base exclusivamente na neurofisiologia. Existe o perigo real de que o desafio contemplativo seja reduzido a uma quest\u00e3o de adquirir uma certa habilidade ou aprimorar uma certa t\u00e9cnica, dispensando, portanto, qualidades como f\u00e9, aspira\u00e7\u00e3o, devo\u00e7\u00e3o e ren\u00fancia, todas integrais \u00e0 \u201ctomada de ref\u00fagio\u201d. No entanto, eu n\u00e3o acho que devemos nos alarmar com a adapta\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas budistas para fins seculares. Trago uma declara\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Buda poucas semanas antes de sua morte: \u201cO Tathagata n\u00e3o fecha as m\u00e3os de professor com respeito aos ensinamentos\u201d.<a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftn29\">[29]<\/a>\u00a0Esta frase indica que ele ensinou tudo o que era importante sem se apoiar em nenhuma doutrina esot\u00e9rica, mas eu gosto de interpretar suas palavras no sentido de que os ensinamentos est\u00e3o dispon\u00edveis a quem quer que veja utilidade neles, mesmo que para fins seculares.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinto que, se psicoterapeutas podem adotar pr\u00e1ticas de mindfulness budistas para ajudar as pessoas a vencerem sua ansiedade e seu estresse, \u00e9 altamente recomend\u00e1vel que eles trabalhem nesse sentido. Se m\u00e9dicos descobrem que a mindfulness pode ajudar as pessoas a lidarem com a dor e a doen\u00e7a, isso \u00e9 maravilhoso \u2013 e sofrendo eu mesmo de dores cr\u00f4nicas, concedo um louvor extra ao seu trabalho. Se ativistas pela paz descobrem que a medita\u00e7\u00e3o em bondade amorosa os ajuda a se tornar mais pac\u00edficos em sua milit\u00e2ncia, novamente, isso \u00e9 espl\u00eandido. E se um empres\u00e1rio descobre que sua pr\u00e1tica Zen o ajuda a considerar melhor e mais humanamente os seus clientes, novamente isso \u00e9 digno de m\u00e9rito e aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 inevit\u00e1vel que a mindfulness e ainda outras pr\u00e1ticas derivadas do budismo ir\u00e3o encontrar novas aplica\u00e7\u00f5es no Ocidente moderno, no qual as vis\u00f5es de mundo e estilos de vida s\u00e3o t\u00e3o diferentes daqueles do sudeste e leste da \u00c1sia. Se essas pr\u00e1ticas beneficiam aqueles que n\u00e3o aceitam integralmente a cosmovis\u00e3o budista, n\u00e3o vejo motivos para se doer com o direito dessas pessoas de adot\u00e1-las. Ao contr\u00e1rio \u2013 sinto que estas pessoas que adaptam o\u00a0<em>Dhamma\u00a0<\/em>a novos prop\u00f3sitos s\u00e3o merecedores de admira\u00e7\u00e3o por seu pioneirismo e coragem. Desde que ajam com prud\u00eancia e inten\u00e7\u00f5es compassivas, deixem que fa\u00e7am o uso do\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0em qualquer dire\u00e7\u00e3o que beneficie os outros.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, penso que \u00e9 nossa responsabilidade, enquanto herdeiros do\u00a0<em>Dhamma<\/em>, lembrar esses experimentadores que eles entraram em um santu\u00e1rio considerado sagrado pelos budistas. Portanto, essas pessoas devem conduzir suas investiga\u00e7\u00f5es com humildade e gratid\u00e3o \u2013 respeito pela sua fonte. Elas devem reconhecer que, ainda que o\u00a0<em>Dhamma<\/em>\u00a0ofere\u00e7a a todos os que se aproximam a oportunidade de colher aquilo que desejarem, esta colheita adv\u00e9m de uma fonte de sabedoria sagrada que nutriu incont\u00e1veis esp\u00edritos atrav\u00e9s dos s\u00e9culos e cujas \u00e1guas ainda sustentam a sua pot\u00eancia para aqueles que desfrutam de sua nascente nos dias de hoje.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0Cortesia da equipe de Tradu\u00e7\u00f5es Contemplativas: Trad. Alexandre Chami Filho, Revis\u00e3o: Alex Mour\u00e3o e Lama Jigme Lhawang<\/strong><\/p>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h4>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BODHI, BHIKKHU, trans. 2000. The connected discourses of the Buddha: A translation of the Samyutta Nikaya. Boston, MA: Wisdom Publications.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">BODHI, BHIKKHU, trans. 1989, reprint 2008. The fruits of recluseship: The Samannaphala<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Sutta and its commentaries. Sri Lanka: Buddhist Publication Society.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">FRONSDAL, GIL. 1995. Treasures of the Theravada: Recovering the riches of our tradition.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Inquiring Mind 12 (1).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">GUNARATANA, HENEPOLA. 2002. Mindfulness in plain English. Boston, MA: Wisdom Publications.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">MAHASI SAYADAW. 1971, reprint 2006. Practical insight meditation. Kandy, Sri Lanka: Buddhist Publication Society.\u00a0<a href=\"http:\/\/books.google.com\/\">http:\/\/books.google.com\/<\/a>\u00a0(refer\u00eancias das p\u00e1ginas online).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">MONIER-WILLIAMS, MONIER. reprint. 2005. Sanskrit-English dictionary. Delhi: Motilal Banarsidass.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">NANAMOLI, BHIKKHU, and BHIKKHU BODHI, trans. 1995. The middle length discourses of the Buddha: A translation of the Majjhima Nikaya. Boston, MA: Wisdom Publications.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">NANAMOLI, BHIKKHU, trans. 1964. The path of purification (Visuddhimagga). Reprint 1991, Kandy, Sri Lanka: Buddhist Publication Society.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">NYANAPONIKA THERA. 1962. The heart of Buddhist meditation. London: Riders. (Reprint 1992, Kandy, Sri Lanka, Buddhist Publication Society).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">NYANAPONIKA THERA. 1968. The power of mindfulness. Kandy, Sri Lanka: Buddhist Publication Society.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.buddhanet.net\/pdf_file\/powermindfulness.pdf\">http:\/\/www.buddhanet.net\/pdf_file\/powermindfulness.pdf<\/a><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">(refer\u00eancias das p\u00e1ginas online).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">RHYS DAVIDS, T. W., and C. A. F. trans. 1910. Dialogues of the Buddha. London: Pali Text Society.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.levityisland.com\/buddhadust\/www.buddhadust.org\/TheSatipatthana\/SettingUpMindfulness.htm\">http:\/\/www.levityisland.com\/buddhadust\/www.buddhadust.org\/TheSatipatthana\/SettingUpMindfulness.htm<\/a>.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">WALSHE, MAURICE, trans. 1995. The long discourses of the Buddha: A translation of the D\u0131gha Nikaya. Boston, MA: Wisdom Publication.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>AP\u00caNDICE<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><em>Abrevia\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as refer\u00eancias de textos em Pali s\u00e3o de edi\u00e7\u00f5es publicadas pela Pali Text Society. As refer\u00eancias can\u00f4nicas se d\u00e3o a partir do n\u00famero do\u00a0<em>sutta<\/em>, seguido do volume e da p\u00e1gina da edi\u00e7\u00e3o da PTS, seguido do t\u00edtulo e do n\u00famero da p\u00e1gina da s\u00e9rie \u201cTeachings of the Buddha\u201d da Wisdom Publications. A minha tradu\u00e7\u00e3o do Anguttara Nikaya ainda est\u00e1 se desenvolvendo e, portanto, n\u00e3o foi referenciada.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">AN Anguttara Nikaya<br \/>CDB Connected Discourses of the Buddha (Bodhi 2000)<br \/>DN D\u0131gha Nikaya<br \/>LDB Long Discourses of the Buddha (Walshe 1995)<br \/>MLDB Middle Length Discourses of the Buddha (Nanamoli and Bodhi 1995)<br \/>MN Majjhima Nikaya<br \/>Patis Patisambhidamagga<br \/>AS Samyuktagama<br \/>SN Samyutta Nikaya<br \/>Sn Suttanipata<br \/>T Taisho Chinese Tripitaka (CBETA edition)<br \/>Vism Visuddhimagga<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0DN 22.21 (II 313; LDB 348-49). MN 141.30 (III 252; MLDB 1100-1101). SN 45:8<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\">(V 9-10; CDB 1529). Ver o ap\u00eandice.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0DN 22.1 (II 290; LDB 335). MN 10.1 (I 55; MLDB 145).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Monier-Williams (2005, 1272).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Rhys Davids (1910). Citado da vers\u00e3o n\u00e3o paginada dispon\u00edvel online.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0SN V 197 (CDB 1671). A f\u00f3rmula tamb\u00e9m ocorre em AN 5:14 e AN 7:4 como uma defini\u00e7\u00e3o para \u201cpoder da mindfulness\u201d. Interessante apontar que os paralelos chineses ao SN 48:9 (SA 646 em T II 182b19) e AN 5:14 (SA 675 at T II 185c12) definem a faculdade e o poder de mindfulness, respectivamente, com fundamento nas quatro bases de mindfulness. Isto deve ter resultado da padroniza\u00e7\u00e3o feita na \u00e9poca, quando o significado antigo \u2018mem\u00f3ria\u2019 saiu ainda mais de cena.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0SN V 198 (CDB 1672).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0SN V 200 (CDB 1673).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0SN V 67 (CDB 1571)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0SN V 329-33 (CDB 1780-85)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0Patis I 20. Ainda que inclu\u00eddo no C\u00e2none Pali, o\u00a0<em>Patisambidamagga<\/em>\u00a0obviamente data de um per\u00edodo posterior aos velhos Nikayas, que cont\u00e9m os discursos do Buda. O trabalho teve uma influ\u00eancia significativa no\u00a0<em>Visuddhimagga<\/em>, o qual frequentemente o cita.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0Vism 464. Ver Nanamoli (1991, 14.141)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0Aqui, eu hesito em usar a palavra \u201cconsci\u00eancia\u201d sem qualifica\u00e7\u00e3o como uma tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>sati,<\/em>\u00a0uma vez que esta palavra foi escolhida para representar um n\u00famero vasto de termos t\u00e9cnicos em Pali, desde\u00a0<em>vinnana\u00a0<\/em>(consci\u00eancia) at\u00e9\u00a0<em>citta<\/em>\u00a0(mente), chegando ainda a\u00a0<em>sati, sampajanna\u00a0<\/em>e\u00a0<em>vijja<\/em>\u00a0(conhecimento penetrante).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref13\">[13]<\/a>\u00a0O relembrar do Buda est\u00e1 no AN 6:10, AN 6:25, etc. A contempla\u00e7\u00e3o da repugn\u00e2ncia do corpo est\u00e1 em DN 22.5 (LDB 337) e MN 10.10 (MLDB 147) e ainda em outros. A consci\u00eancia da morte est\u00e1 em AN 6:19 e AN 6:20. Sn v. 151 fala sobre a medita\u00e7\u00e3o da bondade amorosa:\u00a0<em>etam satim adhittheyya\u00a0<\/em>\u201co praticante deve se determinar em mindfulness\u201d.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref14\">[14]<\/a>\u00a0MN 117.10-15 (III 72-73; MLDB 935-36)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref15\">[15]<\/a>\u00a0Gunaratana (2002, 138, it\u00e1licos meus).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref16\">[16]<\/a>\u00a0Gunaratana (2002, 140).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref17\">[17]<\/a>\u00a0Nyanaponika (1962, 29). Aqui e mais acima eu tomo a liberdade de usar letras min\u00fasculas para iniciar alguns termos t\u00e9cnicos budistas que Nyanaponika, seguindo o costume alem\u00e3o, usou mai\u00fasculas.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref18\">[18]<\/a>\u00a0Nyanaponika (1962, 30). Uma defini\u00e7\u00e3o quase id\u00eantica pode ser encontrada em Nyanaponika (1968, vii).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref19\">[19]<\/a>\u00a0Nyanaponika (1968, 1).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref20\">[20]<\/a>\u00a0Nyanaponika (1968, 8).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref21\">[21]<\/a>\u00a0<em>Manasikara\u00a0<\/em>tamb\u00e9m aparece em outro contexto, quando det\u00e9m os prefixos\u00a0<em>ayoniso<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>yoniso. Ayoniso manasikara<\/em>\u00a0significa \u201creflex\u00e3o descuidada\u201d \u2013 se relacionar com um objeto de modo a fazer surgir obscurecimentos at\u00e9 ent\u00e3o inexistentes.\u00a0<em>Yoniso manasikara<\/em>\u00a0\u00e9 o oposto: \u201creflex\u00e3o cuidadosa\u201d em um objeto que previne o surgimento de obscurecimentos e purifica as m\u00e1culas.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref22\">[22]<\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/en.bab.la\/dictionary\/german-english\/achtsamkeit\">http:\/\/en.bab.la\/dictionary\/german-english\/achtsamkeit<\/a>.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref23\">[23]<\/a>\u00a0Fronsdal (1995).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref24\">[24]<\/a>\u00a0Ver Mahasi Sayadaw (1971, 3\u201312)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref25\">[25]<\/a>\u00a0DN 22.4 (II 292; LDB 337). MN 10.8 (I 57; MLDB 147). A mesma passagem aparece em outros discursos de treino progressivo. Ver, por exemplo: DN 2.65 (I 70-71; LDB 100); MN 27.16 (I 181; MLDB 274); AN 4:198 (II 210).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref26\">[26]<\/a>\u00a0SN 36.7, 36.8 (IV 210-14; CDB 1266-69).<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref27\">[27]<\/a>\u00a0SN 47:35 (V 180-81; CDB 1657). Ver ainda AN 4:41 (II 45), que chama isto de desenvolvimento da concentra\u00e7\u00e3o que conduz \u00e0 mindfulness e \u00e0 compreens\u00e3o clara.<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref29\">[29]<\/a>\u00a0DN 16.2.25 (II 100; LDB 245)<\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/contemplativescience.wordpress.com\/2018\/07\/29\/o-que-mindfulness-realmente-significa\/#_ftnref28\">[28]<\/a>\u00a0Os quatro tipos de compreens\u00e3o clara s\u00e3o discutidos exaustivamente em Nyanaponika (1962, 45\u201355). Eu traduzi a explica\u00e7\u00e3o comentada em Bodhi (2008, 94\u2013130).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O QUE MINDFULNESS REALMENTE SIGNIFICA?UMA PERSPECTIVA CAN\u00d4NICA Bhikkhu Bodhi O prop\u00f3sito deste artigo \u00e9 determinar o significado e a fun\u00e7\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o mindfulness, usando como &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/o-que-mindfulness-realmente-significa-bhikku-bodhi\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">O QUE MINDFULNESS REALMENTE SIGNIFICA? &#8211; Bhikku Bodhi<\/span> Leia mais \u00bb<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8125,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"","site-content-layout":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[19,14,16],"class_list":["post-8123","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-bhikku-bodhi","tag-mindfulness","tag-modulo-1"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v27.6.1 (Yoast SEO v27.2) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>O QUE MINDFULNESS REALMENTE SIGNIFICA? 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