{"id":8117,"date":"2020-03-27T03:24:43","date_gmt":"2020-03-27T03:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-origens-de-mindfulness\/"},"modified":"2020-03-27T03:24:43","modified_gmt":"2020-03-27T03:24:43","slug":"as-origens-de-mindfulness","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/03\/27\/as-origens-de-mindfulness\/","title":{"rendered":"AS ORIGENS DE MINDFULNESS &#8211; B. Alan Wallace"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>QUEM SOU EU?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na antiga hist\u00f3ria dos cegos e do elefante[1], um rei reunia um grupo de homens que haviam nascido cegos, mandava que examinassem um elefante e depois descrevessem o que encontrassem. Um deles apalpou a cabe\u00e7a, enquanto outros tocavam individualmente nas presas, na tromba, nas patas e no lombo. Dependendo da parte do elefante que cada um havia tocado, os cegos, um a um, foram descrevendo o elefante como sendo parecido com um pote, uma relha de arado, uma corda, uma pilastra e um muro. Ao ouvirem os diferentes relatos que faziam entre si, come\u00e7aram de imediato a discutir sobre quem tinha raz\u00e3o e a brigar, recorrendo alguns \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a hist\u00f3ria que me vem \u00e0 lembran\u00e7a quando reflito sobre a variedade de respostas, sempre conflitantes, dadas para a antiqu\u00edssima pergunta: quem sou eu? Te\u00f3logos, fil\u00f3sofos e cientistas v\u00eam tentando h\u00e1 s\u00e9culos respond\u00ea-la, mas s\u00f3 raramente chegaram a um acordo. Por qu\u00ea? Ser\u00e1 que o vi\u00e9s particular de cada um emba\u00e7ou o quadro? Ser\u00e1 que suas respostas relativas, suas fontes preferidas de consulta e m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o criaram uma barreira \u00e0 compreens\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, seres humanos, j\u00e1 tivemos bastante tempo para refletir sobre nossa identidade. A B\u00edblia diz que o homem foi criado \u00e0 imagem de Deus. Se \u00e9 verdade, isto deve ser uma coisa boa, pois a B\u00edblia insiste que Deus \u00e9 bom e que sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 boa. Mas h\u00e1 muitos judeus e crist\u00e3os que enfatizam a natureza m\u00e1 do homem e nossa necessidade de olhar al\u00e9m de n\u00f3s mesmos \u2013 para Deus ou Jesus \u2013 em busca de salva\u00e7\u00e3o para corrup\u00e7\u00f5es inatas. Existe abund\u00e2ncia evidente atrav\u00e9s de toda a hist\u00f3ria e no mundo de hoje para sustentar a afirma\u00e7\u00e3o de que os seres humanos s\u00e3o essencialmente maus. N\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, como negar que existe tamb\u00e9m muita coisa boa no mundo. Ent\u00e3o o que \u00e9 mais b\u00e1sico, o bem ou o mal? Ou somos simplesmente uma mistura dos dois? Os te\u00f3logos v\u00eam debatendo h\u00e1 s\u00e9culos essas quest\u00f5es, sem que haja alguma conclus\u00e3o \u00e0 vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bi\u00f3logos nos dizem que os seres humanos evolu\u00edram lentamente, por um processo de sele\u00e7\u00e3o natural, dos primeiros primatas. De uma gera\u00e7\u00e3o a outra, as esp\u00e9cies que est\u00e3o agora vivas se adaptaram gradualmente a seus ambientes em transforma\u00e7\u00e3o para poderem continuar a sobreviver e procriar. Se um indiv\u00edduo sobrevive tempo suficiente para ter descendentes, \u00e9 um sucesso evolutivo. Se n\u00e3o, independentemente do que fez no decorrer de sua vida, \u00e9 um fracasso biol\u00f3gico. Assim, do ponto de vista de um bi\u00f3logo, seres humanos s\u00e3o animais levando a vida sob a influ\u00eancia de seus genes, instintos e emo\u00e7\u00f5es com o objetivo primeiro de sobreviver e procriar. As palavras \u201cbom\u201d e \u201cmau\u201d nada significam em termos cient\u00edficos, exceto at\u00e9 o ponto em que se referem \u00e0 nossa capacidade de permanecermos vivos e fazermos beb\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os psiquiatras, come\u00e7ando com Sigmund Freud, trataram da quest\u00e3o da natureza humana, tamb\u00e9m enfatizaram nossas puls\u00f5es primitivas para o sexo e a domina\u00e7\u00e3o dos outros. Seus pontos de vista se articulam intimamemente com os dos bi\u00f3logos e psic\u00f3logos evolucionistas: embora nosso pensamento consciente possa parecer bastante civilizado e \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo altru\u00edsta, nossos impulsos subconscientes s\u00e3o sombrios, ego\u00edstas e brutais. Mas os cientistas cognitivos n\u00e3o est\u00e3o completamente de acordo com rela\u00e7\u00e3o a este ponto. Nos \u00faltimos dez anos, surgiu a chamada \u201cpsicologia positiva\u201d, que se concentra no florescimento humano e na virtude. \u00c9 um campo novo de pesquisa cient\u00edfica, ainda n\u00e3o respaldado por grande e rigorosa evid\u00eancia emp\u00edrica. Mas esses psic\u00f3logos est\u00e3o levantando quest\u00f5es importantes e expandindo os horizontes de sua \u00e1rea, que tem se concentrado nos \u00faltimos sessenta anos quase exclusivamente nos mentalmente enfermos, nos que sofreram dano cerebral e nas pessoas com sa\u00fade mental normal. S\u00f3 recentemente eles come\u00e7aram a explorar os mais altos potenciais da mente humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante boa parte da primeira metade do s\u00e9culo XX, a psicologia acad\u00eamica nos Estados Unidos foi dominada pelo behaviorismo, que insistia em estudar a natureza humana atrav\u00e9s unicamente do exame do comportamento animal e humano. Os cientistas behavioristas faziam quest\u00e3o de evitar a introspec\u00e7\u00e3o \u2013 a explora\u00e7\u00e3o direta de nossas mentes e experi\u00eancia pessoal. Depois, nos anos 60, quando o behaviorismo come\u00e7ou a declinar, surgiu a psicologia cognitiva, parecendo levar mais a s\u00e9rio a experi\u00eancia subjetiva. Mas foi tamb\u00e9m a \u00e9poca em que a tecnologia de computa\u00e7\u00e3o estava em alta e logo os pesquisadores da \u00e1rea estavam comparando a mente a um computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, avan\u00e7os na tecnologia permitiram que as ci\u00eancias do c\u00e9rebro progredissem como nunca e, desde ent\u00e3o, muitos neurocientistas chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que a mente \u00e9 realmente o c\u00e9rebro ou que a mente \u00e9 o que o c\u00e9rebro faz. Alegam que toda a nossa experi\u00eancia pessoal consiste de fun\u00e7\u00f5es cerebrais, influenciadas pelo resto do corpo, pelo DNA, dieta, comportamento e meio ambiente. Em \u00faltima an\u00e1lise, os seres humanos s\u00e3o rob\u00f4s biologicamente programados, o que implica que, no essencial, n\u00e3o temos mais livre-arb\u00edtrio que quaisquer outros aut\u00f4matos. Nossos programas s\u00e3o simplesmente mais complexos que aqueles das m\u00e1quinas feitas pelo homem. Mas nem todos os neurocientistas concordam. Alguns est\u00e3o agora explorando os efeitos dos pensamentos e do comportamento no c\u00e9rebro. Como geralmente consideram a mente uma propriedade emergente do c\u00e9rebro, o que est\u00e3o dizendo \u00e9 que certas fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro influenciam outras fun\u00e7\u00f5es. Por ora, contudo, n\u00e3o h\u00e1 um consenso claro sobre as implica\u00e7\u00f5es da pesquisa conduzida at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez algu\u00e9m tenha reparado que, em todas essas abordagens, algo crucial foi deixado de lado: nossa experi\u00eancia pessoal do que \u00e9 ser uma criatura humana. Contemplativos no Oriente e no Ocidente, por\u00e9m, exploraram a natureza da mente, da consci\u00eancia e a identidade humana, e creio que iluminaram dimens\u00f5es da realidade que continuam em grande parte inexploradas no mundo moderno. A religi\u00e3o se tornou t\u00e3o dependente da doutrina, e a ci\u00eancia, t\u00e3o materialista, que m\u00e9todos contemplativos de investiga\u00e7\u00e3o costumam ser esquecidos. No mundo moderno, a medita\u00e7\u00e3o, quando praticada, \u00e9 muitas vezes usada apenas para aliviar o stress e superar outros problemas f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos. Mas a medita\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m oferecer algumas das percep\u00e7\u00f5es mais profundas que somos capazes de alcan\u00e7ar sobre a natureza e a identidade humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levando-se em considera\u00e7\u00e3o o senso individual de quem somos, a maioria de n\u00f3s se identifica fortemente com os pap\u00e9is que desempenha na vida cotidiana, por exemplo, pai ou m\u00e3e, c\u00f4njuge, filho, estudante ou pessoa de uma certa profiss\u00e3o. Tais pap\u00e9is s\u00e3o importantes e nos definem em nossas inter-rela\u00e7\u00f5es na sociedade. Mas fora nossas rela\u00e7\u00f5es espec\u00edficas com outras pessoas e os tipos de atividades de que nos ocupamos com regularidade, o que \u00e9 deixado de lado? Quem somos n\u00f3s quando ficamos em sil\u00eancio em casa, nada fazendo al\u00e9m de estarmos presentes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos abordar esta quest\u00e3o de forma pr\u00e1tica nos lan\u00e7ando a uma esp\u00e9cie de expedi\u00e7\u00e3o para as fronteiras da mente. Gosto particularmente da palavra \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d devido \u00e0s suas ra\u00edzes. Ela deriva da palavra latina expeditio, composta da s\u00edlaba ex, que tem a conota\u00e7\u00e3o de \u201csair\u201d ou \u201csoltar-se\u201d, e ped, que significa \u201cp\u00e9s\u201d. Assim, \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d tem a conota\u00e7\u00e3o de nos livrar de um lugar onde nossos \u201cp\u00e9s\u201d est\u00e3o atolados. No tipo de expedi\u00e7\u00e3o que tenho em mente, primeiro reconhecemos que estamos atolados em velhos sulcos que n\u00e3o levam a parte alguma e ent\u00e3o damos passos para nos libertarmos deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos vivendo num mundo fren\u00e9tico em que a maioria de n\u00f3s pensa que, se n\u00e3o est\u00e1 fazendo alguma coisa, mesmo que seja ver televis\u00e3o, est\u00e1 perdendo tempo. Estamos t\u00e3o presos \u00e0s nossas atividades, relacionamentos, pensamentos e emo\u00e7\u00f5es que achamos que isso \u00e9 que h\u00e1 para n\u00f3s. Vamos tirar uma pequena folga. Procure um lugar tranquilo em sua casa e uma poltrona confort\u00e1vel para se sentar por 10 minutos. Sem pensar deliberadamente em nada, veja se consegue simplesmente ter consci\u00eancia do seu corpo e mente. Fique em sil\u00eancio e, sem reagir, deixe as sensa\u00e7\u00f5es do corpo, os pensamentos e as emo\u00e7\u00f5es chegarem \u00e0 sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tique-taque, tique-taque \u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea consegue de fato ficar mentalmente em sil\u00eancio quando quer ou sua mente vomita obsessivamente um pensamento ap\u00f3s o outro? Quando os pensamentos surgem, consegue simplesmente observ\u00e1-los ou se v\u00ea compulsivamente preso neles, a aten\u00e7\u00e3o aprisionada em cada imagem mental e desejo? Est\u00e1 sua mente realmente sob seu controle ou o est\u00e1 controlando, fazendo-o confundir seus pensamentos sobre o mundo com a experi\u00eancia imediata do seu corpo, mente e ambiente? Uma mente calma e clara pode ser de grande utilidade, mas turbulenta e fora de controle pode causar grande dano a n\u00f3s mesmos e aos outros. Assim, a primeira tarefa no caminho da contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 aproveitar o enorme poder da mente e faz\u00ea-lo prestar bons servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS ORIGENS DA CONTEMPLA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A contempla\u00e7\u00e3o no Ocidente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante todo este livro, vou me referir a teorias e pr\u00e1ticas de contempla\u00e7\u00e3o que se originaram essencialmente da antiga filosofia grega, do cristianismo e do budismo. Como veremos, embora cada uma dessas tradi\u00e7\u00f5es tenha caracter\u00edsticas \u00fanicas, h\u00e1 semelhan\u00e7as importantes. A palavra \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d deriva do latim contemplatio, que corresponde ao grego theoria. Ambos os termos se referem a um total zelo por revelar, esclarecer e tornar manifesta a natureza da realidade. Hoje em dia, \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d geralmente significa pensar sobre alguma coisa.[2] Mas os sentidos originais de \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cteoria\u201d estavam relacionados a uma percep\u00e7\u00e3o direta da realidade n\u00e3o pelos cinco sentidos f\u00edsicos ou pelo pensamento, mas pela percep\u00e7\u00e3o mental. Por exemplo, ao observar diretamente os pr\u00f3prios pensamentos, imagens mentais e sonhos, voc\u00ea est\u00e1 usando a percep\u00e7\u00e3o mental, que pode ser refinada e estendida atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o. Como ent\u00e3o a medita\u00e7\u00e3o se relaciona com a contempla\u00e7\u00e3o? A palavra s\u00e2nscrita bhavana corresponde \u00e0 nossa palavra \u201cmedita\u00e7\u00e3o\u201d e significa literalmente \u201ccultivo\u201d. Meditar significa cultivar uma compreens\u00e3o da realidade, um senso de genu\u00edno bem-estar e virtude. Assim, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo gradual de treinamento da mente e leva ao objetivo da contempla\u00e7\u00e3o, onde se ganha discernimento sobre a natureza da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o grega, a pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o pode ser encontrada pelo menos j\u00e1 em Pit\u00e1goras (c. 582-507 a.C.) Ele foi influenciado pela religi\u00e3o \u00f3rfica e seus mist\u00e9rios, que se concentravam em libertar a mente das impurezas e revelar seus recursos mais profundos. Pit\u00e1goras foi o primeiro a se chamar de fil\u00f3sofo, \u201calgu\u00e9m que ama a sabedoria\u201d, rejeitando humildemente o termo sophos ou \u201chomem s\u00e1bio\u201d. E em suas longas viagens atrav\u00e9s da regi\u00e3o mediterr\u00e2nea e al\u00e9m, ele de fato procurou sabedoria, compreens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cerca de 525 a.C., ap\u00f3s uma busca de muitos anos, Pit\u00e1goras mudou-se da ilha grega de Samos para a cidade de Crotone, no sul da It\u00e1lia. L\u00e1 fundou uma sociedade filos\u00f3fica religiosa, onde formava homens e mulheres para levar uma vida bem equilibrada de corpo e de esp\u00edrito vivendo numa comunidade de confiante comunismo. Para purificar as almas, exigia-se que mantivessem elevados padr\u00f5es \u00e9ticos, praticassem exerc\u00edcios f\u00edsicos, mantivessem o celibato, seguissem uma dieta vegetariana e se empenhassem em demorados per\u00edodos de sil\u00eancio e em v\u00e1rios tipos de abstin\u00eancia. A educa\u00e7\u00e3o formal consistia de uma forma\u00e7\u00e3o em m\u00fasica, matem\u00e1tica, astronomia e medita\u00e7\u00e3o. Como nenhum dos textos de Pit\u00e1goras sobreviveu, sabemos pouco sobre os diferentes tipos de medita\u00e7\u00e3o que ele e seus seguidores ensinaram e praticaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pit\u00e1goras \u00e9 talvez mais c\u00e9lebre pelo teorema de Pit\u00e1goras, que diz respeito aos comprimentos relativos dos tr\u00eas lados de um tri\u00e2ngulo ret\u00e2ngulo. Como o teorema j\u00e1 fora formulado no s\u00e9culo VIII a.C., na \u00cdndia, \u00e9 poss\u00edvel que, em suas muitas viagens, Pit\u00e1goras tenha absorvido este e outros m\u00f3dulos de conhecimento, especialmente os relativos \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, de fontes indianas. Ele \u00e9 igualmente bem conhecido por sua cren\u00e7a na reencarna\u00e7\u00e3o, segundo a qual a alma \u00e9 imortal e renasce em corpos tanto humanos quanto animais. Segundo a lenda, Pit\u00e1goras alegava ser capaz de recordar at\u00e9 vinte de suas vidas passadas e das vidas passadas de outras pessoas. Mas n\u00e3o temos meios de saber se suas supostas mem\u00f3rias eram precisas, e se eram, se ele nasceu com esta capacidade ou alcan\u00e7ou atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o. Uma das cita\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas a Pit\u00e1goras \u00e9: \u201cAprenda a ficar em sil\u00eancio \u2026 Deixe sua mente calma ouvir e absorver\u201d, e um interesse b\u00e1sico desta tradi\u00e7\u00e3o meditativa era estar atento \u00e0 \u201charmonia das esferas\u201d, o que combinava temas da m\u00fasica, matem\u00e1tica e astronomia. Ele acreditava que a vida mais elevada \u00e9 aquela devotada \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o apaixonada, solid\u00e1ria, que produz uma esp\u00e9cie de \u00eaxtase sa\u00eddo da percep\u00e7\u00e3o direta da natureza da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As poss\u00edveis origens indianas do teorema de Pit\u00e1goras e sua cren\u00e7a na reencarna\u00e7\u00e3o t\u00eam levado alguns historiadores a concluir que Pit\u00e1goras pode ter sido influenciado por ideias da \u00cdndia, transmitidas atrav\u00e9s da P\u00e9rsia e do Egito. Devemos a maior parte do que sabemos sobre os pitag\u00f3ricos a Arist\u00f3teles (384-322 a.C.). Segundo Arist\u00f3teles, os pitag\u00f3ricos foram os primeiros a promover o estudo da matem\u00e1tica e para eles todas as coisas da natureza eram modeladas segundo n\u00fameros. Realmente os n\u00fameros eram as primeiras coisas no conjunto da natureza e tudo permeavam. Eles concebiam os n\u00fameros em termos de diferentes configura\u00e7\u00f5es de unidades no espa\u00e7o e, com base nisto, conclu\u00edram que os elementos dos n\u00fameros eram os elementos de todas as coisas. Segundo Arist\u00f3teles, \u201cos pitag\u00f3ricos tamb\u00e9m acreditam num \u00fanico tipo de n\u00famero \u2013 o matem\u00e1tico; dizem, por\u00e9m, que dele se formam n\u00e3o subst\u00e2ncias distintas, mas subst\u00e2ncias sens\u00edveis. Pois constroem o Universo inteiro de n\u00fameros \u2013 n\u00e3o, por\u00e9m, n\u00fameros consistindo de unidades abstratas; eles sup\u00f5em que as unidades tenham magnitude espacial\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi dito que Pit\u00e1goras teria admirado o juda\u00edsmo, no qual Deus \u00e9 visto como o \u00fanico governante supremo do Universo, sobre o qual imp\u00f5e suas leis divinas. Segundo o historiador judeu Fl\u00e1vio Josefo (37-c.100\u00a0d.C.) a seita judaica chamada de ess\u00eanios tamb\u00e9m admirava os ensinamentos de Pit\u00e1goras, pois seguia um modo de vida que tinha por modelo a sociedade fundada por ele. Membros desta seita viveram na Judeia de meados do s\u00e9culo II a.C. at\u00e9 o ano 70 d.C., quando foram destru\u00eddos pelos romanos. Como os primeiros pitag\u00f3ricos, os ess\u00eanios se isolavam da sociedade dominante, viviam de forma muito frugal, compartilhavam a propriedade comunal e acreditavam que Deus seria mais bem cultuado se purificassem a mente em vez de lhe oferecerem sacrif\u00edcios de animais. Embora o celibato n\u00e3o fizesse parte da tradi\u00e7\u00e3o hebraica, os ess\u00eanios se esquivavam do casamento (que representava uma amea\u00e7a para a vida comunit\u00e1ria), mas n\u00e3o o condenavam por princ\u00edpio. Praticavam banhos rituais em \u00e1gua fria, ou batismo, e acreditavam num minist\u00e9rio da cura em que o poder vinha atrav\u00e9s das m\u00e3os. Criticando severamente as normas \u00e9ticas das sociedades judaica e romana de seu tempo, acreditavam que o reino de Deus viria em breve e seria anunciado por uma guerra catacl\u00edsmica entre o justo e o pecador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o s\u00e9culo XIX, estudiosos especularam sobre a poss\u00edvel liga\u00e7\u00e3o entre os ess\u00eanios e Jo\u00e3o Batista, bem como entre eles e Jesus, o que sugeriria que pr\u00e1ticas e cren\u00e7as pitag\u00f3ricas influenciaram a primitiva tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Na verdade, o estilo de vida e os ensinamentos de Jo\u00e3o Batista eram notavelmente semelhantes aos dos ess\u00eanios. Levando uma vida celibat\u00e1ria, usando roupas feitas de pelo de camelo e sobrevivendo com uma dieta asc\u00e9tica de gafanhotos e mel silvestre, ele pregava no deserto da Judeia: \u201cArrependei-vos, pois o reino dos c\u00e9us est\u00e1 pr\u00f3ximo\u201d. Como os ess\u00eanios, batizava outras pessoas como uma limpeza ritual de suas impurezas e pecados. Quando abordado por fariseus e saduceus, foi extremamente cr\u00edtico, chamando-os de ra\u00e7a de v\u00edboras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destacando-se entre os judeus que procuraram Jo\u00e3o para serem batizados, estava Jesus de Nazar\u00e9, que o colocou acima de todos os profetas anteriores a ele, dizendo: \u201cEntre os que nasceram de mulher, n\u00e3o surgiu ningu\u00e9m maior do que Jo\u00e3o Batista; contudo, mesmo o menor no reino dos c\u00e9us \u00e9 maior que ele\u201d. J\u00e1 que foi batizado por Jo\u00e3o, podemos presumir que Jesus aceitava seus ensinamentos e, imediatamente ap\u00f3s o batismo, Jesus partiu para o deserto, onde jejuou e rezou por quarenta dias, durante os quais superou as tenta\u00e7\u00f5es do dem\u00f4nio. Quando emergiu dessa solid\u00e3o no deserto, come\u00e7ou a pregar uma mensagem comum aos ess\u00eanios e a Jo\u00e3o Batista: \u201cArrependei-vos, porque o reino dos c\u00e9us est\u00e1 pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo se Fl\u00e1vio Josefo estava correto ao afirmar que os ess\u00eanios seguiam um modo de vida ensinado aos gregos por Pit\u00e1goras, \u00e9 dif\u00edcil saber at\u00e9 que ponto os ess\u00eanios adotaram cren\u00e7as pitag\u00f3ricas, como a reencarna\u00e7\u00e3o, embora sem d\u00favida alguns tamb\u00e9m acreditassem na imortalidade da alma. \u00c9 not\u00e1vel, por\u00e9m, que Jesus tenha declarado que Jo\u00e3o Batista era o profeta Elias. O que aparentemente n\u00e3o sobressaltou seus ouvintes, pois muitos judeus j\u00e1 acreditavam que os profetas podiam reencarnar ou serem \u201cressucitados\u201d. Segundo a B\u00edblia, enquanto ainda vivo, Elias foi apanhado por uma carruagem de fogo com cavalos de fogo e levado para o c\u00e9u num redemoinho. O Novo Testamento declarou que Jo\u00e3o estava imbu\u00eddo do \u201cesp\u00edrito e poder\u201d de Elias, o que poderia facilmente ser interpretado como indica\u00e7\u00e3o de que era uma reencarna\u00e7\u00e3o de Elias. Mas os te\u00f3logos t\u00eam interpretado esses trechos de diferentes maneiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ensinamentos dos pitag\u00f3ricos, por meio de S\u00f3crates (c. 470-399 a.C.) e Plat\u00e3o (c. 427-347 a.C.), foram finalmente assimilados pela escola filos\u00f3fica do neoplatonismo, que foi fundada por Plotino (c. 205-270). Nascido no Egito, Plotino mergulhou durante nove anos no pensamento grego em Alexandria, associando-se depois a uma expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e9rsia, na esperan\u00e7a de estudar os escritos filos\u00f3ficos dos persas e indianos. A aventura militar, por\u00e9m, fracassou e ele nunca chegou a seu destino. Plotino acreditava que era poss\u00edvel atingir a perfei\u00e7\u00e3o e a felicidade humanas neste mundo, o que poderia ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o. O objetivo era alcan\u00e7ar a uni\u00e3o em \u00eaxtase com o Todo, que ele ensinava ser a realidade \u00faltima, transcendendo todas as palavras e conceitos. As En\u00e9adas, sua famosa obra, foi compilada, organizada e editada por Porf\u00edrio (c. 232-305 \u2013 tamb\u00e9m conhecido por sua Vida de Pit\u00e1goras), que relatou que Plotino alcan\u00e7ou essa uni\u00e3o divida quatro vezes durante os seis anos em que estudou com ele. A contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u201cfio\u201d singular que uni o Todo a todas as coisas criadas, que emergem dele, e pela pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o a pessoa passa a conhecer a fonte do seu pr\u00f3prio ser. Como Pit\u00e1goras e S\u00f3crates, Plotino acreditava que as almas individuais reencarnavam, experimentando os resultados de seus comportamentos \u00e9tico e anti\u00e9tico de uma exist\u00eancia para outra at\u00e9 finalmente ficarem totalmente purificadas, encontrando a mais completa felicidade nascida da contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No decorrer dos s\u00e9culos, os escritos de Plotino inspiraram crist\u00e3os, judeus, mu\u00e7ulmanos, bem como fil\u00f3sofos e contemplativos gn\u00f3sticos, sendo Or\u00edgenes (c. 185-254) um dos pensadores mais influentes. Nascido em Alexandria, Or\u00edgenes foi considerado o maior te\u00f3logo crist\u00e3o de seu tempo. Ele tamb\u00e9m acreditava que a alma evolui espiritualmente de uma exist\u00eancia para outra, at\u00e9 que finalmente avan\u00e7a para o conhecimento (gnosis) de Deus por meio da contempla\u00e7\u00e3o (theoria). Desde o s\u00e9culo III, aproximadamente, os contemplativos crist\u00e3os come\u00e7aram a se dedicar \u00e0 vida solit\u00e1ria, meditativa, na parte eg\u00edpcia do deserto do Saara. Muitos se refugiaram ali ap\u00f3s fugir do caos e da persegui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano. Esses primitivos eremitas do deserto, conhecidos como Padres do Deserto, formaram comunidades nas periferias de centros populacionais, longe o suficiente para ficar a salvo da vigil\u00e2ncia imperial, mas ainda suficientemente perto para ter acesso \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora quase todos os primeiros Padres do Deserto fossem analfabetos, Evagrius do Ponto (345-399) foi um estudioso cl\u00e1ssico de educa\u00e7\u00e3o muito elevada e um dos primeiros Padres do Deserto a come\u00e7ar a registrar e sistematizar seus ensinamentos orais. Evagrius era um s\u00f3lido defensor de Or\u00edgenes e adotou os pontos de vista sobre a reencarna\u00e7\u00e3o das almas humanas e sua perfei\u00e7\u00e3o final em uni\u00e3o com Deus. Um de seus principais disc\u00edpulos, Jo\u00e3o Cassiano (c. 360-433), adaptou as obras de Evagrius para seus estudantes ocidentais e fundou a abadia de S\u00e3o V\u00edtor, um complexo com dois monast\u00e9rios, um para homens e outro para mulheres, no sul da Fran\u00e7a. Foi uma das primeiras insititui\u00e7\u00f5es do g\u00eanero no Ocidente e serviu como modelo para o desensolvimento posterior da vida monacal crist\u00e3.<\/p>\n<h4><p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Contempla\u00e7\u00e3o no Oriente<\/strong><\/h4><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tra\u00e7os mais antigos de uma cultura meditativa no mundo se encontram na civiliza\u00e7\u00e3o do vale do Indo, que se estendia do que \u00e9 hoje o Paquist\u00e3o ao vale do Ganges, na \u00cdndia, e alcan\u00e7ou seu apogeu durante o per\u00edodo de 3000 a 2500 a.C. Foram preservados milhares de sinais dessa civiliza\u00e7\u00e3o, gravados em moldes de argila, contendo alguns dos mais antigos registros escritos no mundo. Alguns desses sinais descrevem yogues sentados em cl\u00e1ssicas posturas meditativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 surpreendente o pequeno n\u00famero de refer\u00eancias liter\u00e1rias \u00e0 medita\u00e7\u00e3o antes da \u00e9poca de Gautama, o Buda (c.563-483 a.C.), que foi um contempor\u00e2neo de Pit\u00e1goras. Mas est\u00e1 claro que j\u00e1 havia uma tradi\u00e7\u00e3o muito rica e diversificada de contempla\u00e7\u00e3o, na qual ele mergulhou assim que deixou o lar palaciano, aos 29 anos de idade. Dedicou-se a uma vida de busca contemplativa para escapar do ciclo de nascimento, morte e renascimento, portanto, a cren\u00e7a na reencarna\u00e7\u00e3o parece ter sido comum em seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu primeiro instrutor de medita\u00e7\u00e3o foi Alara Kalama, que era versado em samadhi ou estado meditativo em que a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 retirada dos sentidos f\u00edsicos, os pensamentos s\u00e3o acalmados e a pessoa experimenta uma extraordin\u00e1ria beatitude e serenidade. Desde que, segundo relatos budistas, o tipo de medita\u00e7\u00e3o que Kalama ensinava pode levar ao conhecimento direto, confi\u00e1vel, de vidas passadas, vemos que os meditadores avan\u00e7ados encaravam a reencarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o como quest\u00e3o de cren\u00e7a religiosa, mas como verdade empiricamente verific\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo os primeiros registros budistas, Gautama rapidamente atingiu o samadhi extremamente sublime e refinado ensinado por Alara Kalama, em que sua mente penetrava numa dimens\u00e3o informe da exist\u00eancia desprovida de todo o conte\u00fado, exceto uma experi\u00eancia de puro nada. Mas isto n\u00e3o satisfez suas aspira\u00e7\u00f5es de libera\u00e7\u00e3o do ciclo da exist\u00eancia e ele saiu \u00e0 procura de um contemplativo ainda mais perfeito chamado Uddaka Ramaputta, sob cuja orienta\u00e7\u00e3o atingiu um samadhi ainda mais sutil. Mas Gautama reconheceu que apenas esses estados de absor\u00e7\u00e3o meditativa n\u00e3o o faziam atingir sua meta do \u201cestado supremo de paz sublime\u201d gra\u00e7as a um conhecimento da realidade como ela \u00e9. Pois ele descobriu que, ap\u00f3s emergir da medita\u00e7\u00e3o e ingressar no mundo cotidiano, a pessoa continuaria sujeita ao sofrimento e a suas causas subjacentes. Quando reconheceu que atingir esses estados n\u00e3o chegava \u00e0 raiz do problema, Gautama passou anos atormentando o corpo com pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas, incluindo jejum. O objetivo era alcan\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o com uma esp\u00e9cie de dom\u00ednio da mente sobre a mat\u00e9ria. O resultado final, por\u00e9m, foi que o corpo come\u00e7ou a definhar, e as faculdades mentais ficaram prejudicadas. Ele ent\u00e3o percebeu que atingir o samadhi n\u00e3o era o objetivo supremo, embora esses estados refinados de consci\u00eancia pudessem ser usados para investigar, atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o, a natureza do sofrimento e suas causas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os grandes mestres religiosos de toda a hist\u00f3ria, o Buda \u00e9 o \u00fanico que desencoraja a cren\u00e7a de que algo \u00e9 verdadeiro simplesmente porque muita gente diz que \u00e9 ou porque est\u00e1 baseado numa tradi\u00e7\u00e3o de longa data, na autoridade das escrituras, na voz corrente, na especula\u00e7\u00e3o ou na rever\u00eancia por um mestre. Sem d\u00favida a pessoa deve, procurando fazer o melhor poss\u00edvel, testar atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia o que os outros defendem e julgar por si mesma. \u00c9 evidente, ent\u00e3o, que isto \u00e9 precisamente o que Buda fez com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 reencarna\u00e7\u00e3o que predominavam em sua \u00e9poca. Nos mais antigos registros da narrativa de sua conquista da ilumina\u00e7\u00e3o, ele descreve como, com a mente concentrada, purificada, male\u00e1vel e calma, alcan\u00e7ou o \u201cconhecimento direto\u201d da natureza da consci\u00eancia e das ra\u00edzes do sofrimento. Seu primeiro conhecimento direto foi o das circunst\u00e2ncias espec\u00edficas de suas muitas milhares de vidas anteriores no transcurso de in\u00fameras eras de contra\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do mundo. Seu segundo conhecimento direto foi a observa\u00e7\u00e3o contemplativa da sucess\u00e3o de vidas de outros seres, verificando as rela\u00e7\u00f5es entre as a\u00e7\u00f5es e os efeitos \u00e0 medida que eles se conclu\u00edam em vidas subsequentes. E o terceiro conhecimento direto na noite de sua ilumina\u00e7\u00e3o foi a percep\u00e7\u00e3o das Quatro Nobres Verdades: \u201cTive conhecimento direto, como \u00e9 realmente o conhecimento, de que \u2018Isto \u00e9 sofrimento\u2019, de que \u2018Isto \u00e9 a origem do sofrimento\u2019, de que \u2018Isto \u00e9 a cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento\u2019 e de que \u2018Isto \u00e9 o caminho que leva \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento\u2019\u201d. Foi neste ponto que Gautama se tornou um Buda, \u201calgu\u00e9m que despertou\u201d, com a mente completamente liberta de todas as afli\u00e7\u00f5es e obscurecimentos. Nessa percep\u00e7\u00e3o do Nirvana, ele encontrou o estado supremo de paz sublime que estivera procurando e dedicou os restantes 45 anos de sua vida a encaminhar outras pessoas para tal liberdade do sofrimento. Por essa raz\u00e3o, passou a ser conhecido como o \u201cGrande M\u00e9dico\u201d, que mostrava como atingir o verdadeiro bem-estar purificando a mente de afli\u00e7\u00f5es, cultivando a virtude e conquistando um discernimento contemplativo sobre a natureza da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse exame muito breve das origens da medita\u00e7\u00e3o na filosofia grega, no cristianismo e no budismo, encontramos uma s\u00e9rie de temas e percep\u00e7\u00f5es comuns. Mas a orienta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica meditativa \u00e9 diferente em cada tradi\u00e7\u00e3o, assim como as interpreta\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia contemplativa. Os pitag\u00f3ricos acreditavam num Universo ordenado e, embora provavelmente aceitassem o cl\u00e1ssico polite\u00edsmo grego, acreditavam numa divindade superior a todas as outras. Para eles, a medita\u00e7\u00e3o estava intimamente relacionada \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 matem\u00e1tica e \u00e0 astronomia. Para os crist\u00e3os, estava concentrada na uni\u00e3o com o \u00fanico Deus supremo e, para os budistas, que compartilhavam a cren\u00e7a indiana na exist\u00eancia de muitos deuses, a medita\u00e7\u00e3o atendia ao objetivo de alcan\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o do ciclo da exist\u00eancia. Mas no in\u00edcio e no desenvolvimento posterior de cada uma dessas tradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 evidente que a medita\u00e7\u00e3o desempenhou um papel vital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:post-content --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":3} --><\/p>\n<h4><p style=\"text-align: justify;\">A Externaliza\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da Medita\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Embora a contempla\u00e7\u00e3o se encontre na raiz das religi\u00f5es, da filosofia e da ci\u00eancia ocidentais, ela praticamente n\u00e3o desempenha papel algum na ci\u00eancia atual. Isso n\u00e3o \u00e9 resultado de um decl\u00ednio gradual, como no cristianismo, podendo mesmo remontar \u00e0s origens da ci\u00eancia moderna no s\u00e9culo XVII. Nessa \u00e9poca, o mudo sobrenatural \u2013 consistindo de Deus e outras entidades espirituais, como o dem\u00f4nio e anjos, c\u00e9u e inferno \u2013 devia ser aceito como base na autoridade da B\u00edblia. Os te\u00f3logos estavam encarregados de compreender este dom\u00ednio da realidade e as opini\u00f5es deles eram aceitas como artigos de f\u00e9. A alma humana podia ser encarada como espiritual no sentido de que vinha de Deus e tinha livre-arb\u00edtrio, sendo independente do corpo e do ambiente f\u00edsico. Mas era tamb\u00e9m natural no sentido de que governava o corpo e era influenciada pelos sentidos f\u00edsicos. Assim, os aspectos espirituais da alma deviam ser aceitos como artigos de f\u00e9, na medida em que procediam da autoridade divina, e os aspectos naturais eram explicados por fil\u00f3sofos que confiavam principalmente em seus poderes de racioc\u00ednio. Os cientistas tinham a tarefa de compreender o terceiro dom\u00ednio da realidade \u2013 o mundo externo da mat\u00e9ria e das for\u00e7as naturais \u2013 com base em observa\u00e7\u00f5es diretas e experimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A origem da palavra \u201cmedita\u00e7\u00e3o\u201d poder ser identificada na raiz verbal indo-europeia \u201cmed\u201d, que significa \u201cconsiderar\u201d ou \u201cmedir\u201d. Como vimos, no cristianismo primitivo, a medita\u00e7\u00e3o era um meio experiencial de adquirir discernimento direto, contemplativo, sobre a natureza da realidade. Mas na escol\u00e1stica medieval e na filosofia moderna, a medita\u00e7\u00e3o foi reduzida a considera\u00e7\u00f5es racionais, introspectivas. Tendo em vista compreender o universo externo da mat\u00e9ria, a ci\u00eancia elaborou suas pr\u00f3prias \u201cmedita\u00e7\u00f5es\u201d sob a forma de medi\u00e7\u00f5es de processos f\u00edsicos que podem ser confirmadas por todos os observadores competentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Todos os grandes pioneiros da ci\u00eancia no s\u00e9culo XVII eram crist\u00e3os devotos e suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o mundo da natureza podem ser vistas como uma tentativa m\u00edstica de fundir a compreens\u00e3o do mundo natural por parte do homem com a compreens\u00e3o de Deus. Os contemplativos crist\u00e3os desde a \u00e9poca de Agostinho tinham perseguido esse mesmo objetivo e presumido que ele n\u00e3o podia ser realizado nesta vida, apenas no c\u00e9u. Quando, na Europa, a investiga\u00e7\u00e3o contemplativa de olhar-voltado-para-dentro diminuiu, os cientistas conceberam novos m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o de olhar-voltado-para-fora, que, esperavam, pudesse levar \u00e0 compreens\u00e3o divina nesta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Entre esses inovadores, nenhum foi mais influente que Galileu Galilei (1564-1642). Quando crian\u00e7a, Galileu visitou um monast\u00e9rio da ordem camaldulense, que combinava a vida solit\u00e1ria do eremita com a vida severa do monge. Foi atra\u00eddo para esse estilo de vida e quis ingressar na ordem, mas n\u00e3o teria a permiss\u00e3o do pai, que n\u00e3o podia se dar ao luxo de alimentar no filho uma voca\u00e7\u00e3o religiosa que n\u00e3o gerasse renda. Obedecendo \u00e0 vontade do pai, Galileu entrou na Universidade de Pisa para estudar medicina, mas logo se voltou para a matem\u00e1tica e a ci\u00eancia. De um modo geral, desprezava a filosofia escol\u00e1stica, que via como nada al\u00e9m de um conservadorismo arraigado, que desconfiava de ideias inovadoras e novos m\u00e9todos de pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Coube em grande parte a Galileu a responsabilidade de lan\u00e7ar as funda\u00e7\u00f5es do \u201cm\u00e9todo cient\u00edfico\u201d para estudar o mundo material: observa\u00e7\u00f5es sofisticadas, rigorosas, quantitativas de entidades f\u00edsicas, combinadas com a an\u00e1lise matem\u00e1tica dos dados observados. A motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de sua pesquisa era compreender a natureza da cria\u00e7\u00e3o de Deus da pr\u00f3pria perspectiva de Deus, transcendendo as limita\u00e7\u00f5es e ilus\u00f5es dos sentidos humanos. Isto podia ser feito, ele prop\u00f4s, pelo uso do racioc\u00ednio matem\u00e1tico, pois acreditava que a matem\u00e1tica era a pr\u00f3pria linguagem de Deus. Essa interpreta\u00e7\u00e3o te\u00edsta do papel central da matem\u00e1tica na natureza fora defendida s\u00e9culos antes pelos pitag\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Embora Galileu deixasse de bom grado as quest\u00f5es sobrenaturais nas m\u00e3os da Igreja, insistia que o estudo cient\u00edfico do mundo natural tinha de prosseguir de forma livre e independente da autoridade da B\u00edblia e do pensamento grego. Ao dar esse passo revolucion\u00e1rio, reverteu a hierarquia escol\u00e1stica medieval do conhecimento. A observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, que os fil\u00f3sofos costumavam classificar como a forma mais baixa de conhecimento, foi elevada ao n\u00edvel mais alto. A raz\u00e3o era importante para interpretar as descobertas emp\u00edricas e a autoridade da tradi\u00e7\u00e3o s\u00f3 era aceita enquanto n\u00e3o fosse contestada pela observa\u00e7\u00e3o rigorosa ou o racioc\u00ednio seguro. Que enorme mudan\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Galileu abandonou a \u00eanfase aristot\u00e9lica em compreender por que as coisas s\u00e3o do jeito que s\u00e3o e se concentrou em exaustivas observa\u00e7\u00f5es e medidas de como os objetos celestes e terrestres se movem. Os fil\u00f3sofos escol\u00e1sticos de sua \u00e9poca aceitavam de modo n\u00e3o cr\u00edtico a vis\u00e3o de Arist\u00f3teles de que os corpos celestes eram inalter\u00e1veis e se moviam em c\u00edrculos perfeitos, com a Terra no centro. Em 1609, Galileu criou um telesc\u00f3pio com o poder de mostrar imagens vinte vezes ampliadas e, com este novo instrumento, descobriu quatro luas de J\u00fapiter (que giravam em torno de J\u00fapiter, n\u00e3o da Terra), crateras na Lua, manchas solares (mostrando que os corpos celestes n\u00e3o eram imut\u00e1veis) e as fases de V\u00eanus, indicando que ele girava em torno do Sol, n\u00e3o da Terra. Outros astr\u00f4nomos com instrumentos inferiores se queixaram de n\u00e3o serem capazes de confirmar todas essas observa\u00e7\u00f5es. Como resultado, alguns deles questionaram sua validade, enquanto outros chegaram a ponto de afirmar que eram ilus\u00f5es de \u00f3tica criadas pelas lentes de Galileu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Os astr\u00f4nomos medievais estavam h\u00e1 muito familiarizados com a natureza enganosa das apari\u00e7\u00f5es de corpos celestes, especialmente quando se tratava do aparente movimento dos planetas. De acordo com o antigo pensamento grego, presumiam que a Lua, o Sol, os planetas e as estrelas giravam todos em c\u00edrculos perfeitos ao redor da Terra. Durante uma mesma noite, viam-se os planetas movendo-se pelo c\u00e9u de leste para oeste, mas se observados de uma noite para outra, eles geralmente pareciam se mover de oeste para leste contra as estrelas ao fundo. Ocasionalmente, no entanto, o movimento de um planeta pareceria reverter a dire\u00e7\u00e3o e, durante um curto per\u00edodo, ele se moveria de leste para oeste contra as constela\u00e7\u00f5es do fundo. A revers\u00e3o \u00e9 conhecida como \u201cmovimento retr\u00f3grado\u201d. Para explicar essas apari\u00e7\u00f5es enganosas de modo a faz\u00ea-las concordar com o pensamento grego, os primeiros astr\u00f4nomos conceberam um complicado sistema abstrato de epiciclos, por meio do qual os planetas se moviam ao redor de pequenas trilhas circulares que, por sua vez, descreviam \u00f3rbitas circulares mais largas ao redor da Terra. Este, eles acreditavam, era o movimento real, objetivo, dos planetas em contraste com as apar\u00eancias falsas, subjetivas, de seu movimento retr\u00f3grado. Toda essa teoria estava baseada em falsos pressupostos e foi apenas com o uso do telesc\u00f3pio, concentrado nas apari\u00e7\u00f5es enganosas de corpos celestes, que a ci\u00eancia da astronomia p\u00f4de progredir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Quando Galileu apresentou pela primeira vez as descobertas feitas atrav\u00e9s de seu telesc\u00f3pio, provando a teoria de Cop\u00e9rnico de que a Terra girava ao redor do Sol, n\u00e3o foi a Igreja que o atacou. De fato, padres e bispos jesu\u00edtas e dominicanos ficaram fascinados com as ovas perspectivas que o telesc\u00f3pio abria e organizaram encontros opulentos com Galileu em Roma, celebrando suas novas descobertas. Padre Clavius, que era o l\u00edder indiscut\u00edvel da astronomia jesu\u00edta, a princ\u00edpio n\u00e3o aceitou as descobertas. Mas assim que obtiveram seus pr\u00f3prios telesc\u00f3pios, ele e seus colegas confirmaram todas as observa\u00e7\u00f5es de Galileu. Quem finalmente colocou a Igreja em conflito com Galileu foram os consultores acad\u00eamicos leigos, que insistiram que Roma tinha o dever de deter Galileu, pois se o deixassem fora de controle ele destruiria todo o sistema universit\u00e1rio ao minar as cren\u00e7as aristot\u00e9licas em que estava baseado. Esses fil\u00f3sofos escol\u00e1sticos recusavam-se at\u00e9 mesmo a olhar por um telesc\u00f3pio, pois insistiam de forma inflex\u00edvel que tudo que fosse visto atrav\u00e9s das lentes que contrariasse suas cren\u00e7as tinha de ser ilus\u00e3o de \u00f3tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">As descobertas de Galileu usando o telesc\u00f3pio transformaram a controv\u00e9rsia sobre os movimentos relativos do Sol e da Terra. De debate intelectual, passou a ser uma quest\u00e3o que podia ser decidida com base em evid\u00eancias. Ele se orgulhava de ter sido o primeiro a construir um telesc\u00f3pio adequado e a apont\u00e1-lo para o c\u00e9u, mas valorizava mais que tudo seu g\u00eanio em fazer observa\u00e7\u00f5es cuidadosas de uma ampla gama de entidades f\u00edsicas,compreendendo o comportamento de suas partes e descrevendo estas em termos de propor\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Enquanto Galileu \u00e9 encarado como o pai da ci\u00eancia moderna pelo papel que desempenhou na cria\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico de investiga\u00e7\u00e3o, o fil\u00f3sofo, matem\u00e1tico e cientista franc\u00eas Ren\u00e9 Descartes (1596-1650) foi denominado pai da filosofia moderna por apresentar a moldura conceitual dentro da qual a pesquisa cient\u00edfica seria conduzida. Depois de obter um diploma em direito conforme o desejo do pai, Descartes abandonou a vida acad\u00eamica e decidiu n\u00e3o procurar nenhum outro conhecimento al\u00e9m daquele que pudesse encontrar dentro de si mesmo ou, ent\u00e3o, no \u201cgrande livro do mundo\u201d. Aos vinte anos de idade, enquanto viajava pela Alemanha pensando em usar a matem\u00e1tica para resolver problemas de f\u00edsica, teve uma vis\u00e3o num sonho atrav\u00e9s da qual \u201cdescobriu os alicerces de uma ci\u00eancia maravilhosa\u201d. Isto se tornou um ponto essencial na experi\u00eancia do jovem Descartes e ele dedicou o resto de sua vida a investigar a rela\u00e7\u00e3o entre a matem\u00e1tica e a natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A base da ci\u00eancia de Descartes foi a proposi\u00e7\u00e3o de que os objetos t\u00eam dois tipos de propriedades. Como subst\u00e2ncias que se estendem no espa\u00e7o, todos os objetos f\u00edsicos t\u00eam comprimento, altura, largura, amplitude, localiza\u00e7\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o e n\u00famero, e, por meio dessas propriedades prim\u00e1rias, podem ser compreendidos em termos matem\u00e1ticos. Os objetos t\u00eam ainda o que \u00e9 chamado de propriedades secund\u00e1rias, como cor, som, gosto, cheiro, calor e frio. Ele acreditava que essas propriedades n\u00e3o existem objetivamente nos objetos f\u00edsicos em si, sendo antes propriedades de nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo ao redor. Quando \u201cclara e nitidamente percebidas\u201d, ele conclu\u00eda que as propriedades objetivas, prim\u00e1rias, podiam ser conhecidas sem sombra de d\u00favida. Ao contr\u00e1rio, comentou Descartes, quando se tratava de propriedades secund\u00e1rias, \u201celas s\u00e3o encontradas em meu pensamento de forma t\u00e3o obscura e confusa que fico sem saber sequer se s\u00e3o verdadeiras ou falsas, apenas aparentes, isto \u00e9, se as ideias que fa\u00e7o dessas propriedades s\u00e3o realmente ideias de coisas reais ou se representam para mim apenas [ideias] que n\u00e3o podem existir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Descartes sugeriu que a distin\u00e7\u00e3o entre propriedades prim\u00e1rias e secund\u00e1rias da mat\u00e9ria \u00e9 necess\u00e1ria para evitar que tiremos falsas conclus\u00f5es sobre a natureza da realidade. Ele estava refutando, especificamente, a suposi\u00e7\u00e3o comumente conhecida como \u201crealismo ing\u00eanuo\u201d, que todos n\u00f3s trazemos da inf\u00e2ncia \u2013 a ideia de que cores, cheiros, gostos e sensa\u00e7\u00f5es t\u00e1teis existem no mundo objetivo, independentemente de nossas percep\u00e7\u00f5es. Conclu\u00eda: \u201cPode ser demonstrado que peso, cor e todas as outras propriedades semelhantes que s\u00e3o percebidas na mat\u00e9ria f\u00edsica podem ser retiradas dela deixando intacta a mat\u00e9ria em si. De onde se segue que sua natureza n\u00e3o depende de nenhuma delas\u201d. O mundo objetivo, na vis\u00e3o de Descartes, \u00e9 realmente sem cor, sem odor, sem sabor e assim por diante. A refuta\u00e7\u00e3o do realismo ing\u00eanuo est\u00e1 de acordo com todas as descobertas cient\u00edficas subsequentes e continua sendo parte integrante da vis\u00e3o cient\u00edfica da natureza como um todo. Embora se acredite que part\u00edculas elementares, \u00e1tomos, mol\u00e9culas, campos eletromagn\u00e9ticos e ondas existiam independentemente de qualquer observador, as imagens visuais que percebemos do mundo ao nosso redor n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1. Como o neurologista Antonio Damasio comenta: \u201cN\u00e3o h\u00e1 imagem do objeto sendo transferida do objeto para a retina e da retina para o c\u00e9rebro\u201d. Tais imagens, n\u00e3o importa o que sejam, existem apenas em nossa mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201cci\u00eancia\u201d se origina da raiz verbal indo-europeia sker, que significa \u201ccortar\u201d ou \u201cseparar\u201d e, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Descartes, a ci\u00eancia moderna come\u00e7ou a tra\u00e7ar uma fronteira n\u00edtida, separando o mundo objetivo do universo f\u00edsico dos mundos subjetivos da experi\u00eancia pessoal dos indiv\u00edduos. Ao fazer esta separa\u00e7\u00e3o absoluta entre o mundo f\u00edsico objetivo e o mundo subjetivo da mente, Descartes, com efeito, passou o mundo material para cientistas e deixou o mundo subjetivo para fil\u00f3sofos e te\u00f3logos. Desde o tempo de Galileu e Descartes, gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicos e bi\u00f3logos seguiram essa distin\u00e7\u00e3o e conseguiram extraordin\u00e1rio progresso na medida e na compreens\u00e3o de realidades objetivas, f\u00edsicas, quantific\u00e1veis. De fato, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, muitos f\u00edsicos acreditavam que sua compreens\u00e3o do mundo f\u00edsico estava completa e perfeita em todos os aspectos principais. Mas a compreens\u00e3o filos\u00f3fica das realidades mentais \u2013 incluindo pensamentos, imagens mentais, emo\u00e7\u00f5es, desejos, dramas e a pr\u00f3pria consci\u00eancia \u2013 n\u00e3o fizera progresso compar\u00e1vel. Os cientistas tinham descoberto m\u00e9todos eficientes com os quais \u201cmeditar\u201d ou medir coisas f\u00edsicas objetivas, mas os fil\u00f3sofos n\u00e3o tinham conseguido conceber m\u00e9todos para observar de maneira rigorosa eventos mentais subjetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">William James (1842-1919), o grande pioneiro americano da psicologia, sentiu que a compreens\u00e3o cient\u00edfica da mente em seu tempo estava praticamente t\u00e3o pouco desenvolvida quanto a f\u00edsica antes de Galileu. Desde 1600, ele observou, os cientistas tinham concebido m\u00e9todos para investigar o mundo externo que podiam ser submetidos \u00e0 an\u00e1lise matem\u00e1tica. Desse modo, quest\u00f5es h\u00e1 muito discutidas por fil\u00f3sofos foram finalmente resolvidas pelos m\u00e9todos emp\u00edricos da ci\u00eancia. Quanto mais a ci\u00eancia progredia, menor o n\u00famero de problemas nas m\u00e3os dos fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A carreira de William James fornece numerosos exemplos que, se seguidos seriamente, poderiam ter levado a psicologia ocidental a uma compreens\u00e3o mais completa e equilibrada da mente do que a que temos hoje. Depois de receber, na juventude, educa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos e na Europa, em 1861 James se matriculou na Laurence Scientific School, em Harvard e, tr\u00eas anos mais tarde, ingressou na Faculdade de Medicina de Harvard, onde se graduou em 1869. Em parte devido ao determinismo biol\u00f3gico em que foi doutrinado durante os estudos m\u00e9dicos, come\u00e7ou a experimentar surtos repetidos de depress\u00e3o severa, que mais tarde descreveu como quedas numa profunda crise \u2026 de espiritualidade, de ser, de sentido e de vontade. Mas em 1870, teve a revela\u00e7\u00e3o de que o livre-arb\u00edtrio, afinal, n\u00e3o era ilus\u00e3o e que podia usar sua vontade para se livrar da depress\u00e3o. Concluiu que n\u00e3o era um mero aut\u00f4mato governado pelos processos biol\u00f3gicos em seu corpo e fez do acreditar no livre-arb\u00edtrio seu primeiro ato de livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">James come\u00e7ou a ensinar anatomia e fisiologia em Harvard em 1873. Dois mais tarde passou a ensinar psicologia e criou em Harvard o primeiro laborat\u00f3rio para estudo cient\u00edfico da mente. Definiu psicologia como \u201ca Ci\u00eancia da Vida Mental, tanto de seus fen\u00f4menos quanto de suas condi\u00e7\u00f5es. Os fen\u00f4menos s\u00e3o as coisas que chamamos de sensa\u00e7\u00f5es, desejos, cogni\u00e7\u00f5es, racioc\u00ednios, decis\u00f5es e assim por diante\u201d. Enquanto os f\u00edsicos estudavam coisas f\u00edsicas que eram acess\u00edveis a todos os observadores competentes, os psic\u00f3logos deviam examinar processos mentais subjetivamente experimentados e as rela\u00e7\u00f5es deles com seus objetos, com o c\u00e9rebro e com o resto do mundo. Mas experi\u00eancias metais s\u00e3o coisas particulares e inacess\u00edveis \u00e0 observa\u00e7\u00e3o direta pelas ferramentas da ci\u00eancia. Ent\u00e3o James prop\u00f4s que a psicologia deveria usar fundamentalmente a introspec\u00e7\u00e3o para estudar os processos mentais. Contudo, a observa\u00e7\u00e3o direta dos estados e processos mentais da pessoa, ele argumentou, deve ser complementada pela pesquisa comparativa, como o estudo do comportamento animal e a ci\u00eancia experimental do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Enquanto James se concentrava na observa\u00e7\u00e3o introspectiva da experi\u00eancia mental consciente, o neurologista austr\u00edaco Sigmund Freud (1856-1939) ficou bem conhecido pelas teorias sobre a mente inconsciente. Seu trabalho pioneiro foi crucial para a cria\u00e7\u00e3o da escola psicanal\u00edtica de psicologia, na qual o terapeuta procura descobrir conex\u00f5es entre os componentes inconscientes dos processos mentais dos pacientes. Com base nos relatos verbais feitos pelos pacientes de suas experi\u00eancias subjetivas no estado desperto e no sonho, Freud procurou sondar os mecanismos ocultos da mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, nem os psic\u00f3logos acad\u00eamicos nem os psicanalistas tinham conseguido elaborar m\u00e9todos rigorosos de observar diretamente os processos mentais. Assim, ap\u00f3s n\u00e3o mais de trinta anos, a introspec\u00e7\u00e3o foi em grande parte abandonada como meio de investigar de forma cient\u00edfica a mente. Houve duas raz\u00f5es principais para isso. Uma delas era que pesquisadores, trabalhando em laborat\u00f3rios diferentes, tinham muita dificuldade em reproduzir as descobertas uns dos outros, pois os pacientes que praticavam a introspec\u00e7\u00e3o tendiam a \u201cperceber\u201d o que os pesquisadores esperavam que experimentassem. N\u00e3o esque\u00e7amos que tamb\u00e9m os psic\u00f3logos n\u00e3o conseguiram um progresso significativo no refino de sua pr\u00f3pria introspec\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a praticavam muito, pelo menos no exerc\u00edcio de sua condi\u00e7\u00e3o profissional. Sem d\u00favida faziam seus pacientes experimentais examinar as pr\u00f3prias mentes, mas sem um treinamento s\u00f3lido, rigoroso, que os capacitasse a fazer observa\u00e7\u00f5es precisas, confi\u00e1veis. Assim, embora os cientistas usassem explicitamente a introspec\u00e7\u00e3o em suas pesquisas, deixavam-na nas m\u00e3os de amadores. A introspec\u00e7\u00e3o nunca se desenvolveu al\u00e9m do n\u00edvel de uma \u201cpsicologia folcl\u00f3rica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A segunda raz\u00e3o fundamental pela qual a introspec\u00e7\u00e3o foi rejeitada pela comunidade cient\u00edfica foi que ela ia contra o veio da pesquisa cient\u00edfica nos trezentos anos anteriores, que tinha se concentrado de forma consistente em realidades objetivas, f\u00edsicas, quantitativas. Nas d\u00e9cadas iniciais do s\u00e9culo XX, as ci\u00eancias naturais tinham se mostrado t\u00e3o bem-sucedidas \u2013 especialmente quando comparadas com a religi\u00e3o e a filosofia \u2013 que um n\u00famero crescente de pessoas identificavam o mundo natural com o mundo f\u00edsico. Em outras palavras, as \u00fanicas coisas que consideravam real eram as coisas que os cientistas podiam medir: isto \u00e9, entidades e processos f\u00edsicos. Qualquer outra coisa era considerada \u201csobrenatural\u201d e, portanto, n\u00e3o existente \u2013 ou pelo menos irrelevante para a pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Com a rejei\u00e7\u00e3o do uso cient\u00edfico da introspec\u00e7\u00e3o, a psicologia acad\u00eamica no mundo de l\u00edngua inglesa deslocou-se para o behaviorismo, que fez tudo que podia para eliminar refer\u00eancias a estados e processos subjetivamente experimentados. John B Watson (1878-1958), um dos pioneiros do behaviorismo americano, declarou que a psicologia n\u00e3o devia ser mais a ci\u00eancia da vida mental, como William James a tinha definido. Como \u201cum ramo experimental puramente objetivo da ci\u00eancia natural\u201d, dizia ele, a psicologia \u201cjamais deveria usar os termos consci\u00eancia, estados mentais, mente, ess\u00eancia, introspectivamente verific\u00e1vel, imagin\u00e1rio e assim por diante\u201d. Este tabu contra a experi\u00eancia subjetiva foi motivado, em parte, pela associa\u00e7\u00e3o da mente (ou alma) com religi\u00e3o e, em parte, pela natureza aparentemente n\u00e3o f\u00edsica dos eventos mentais. A desconfian\u00e7a dos cientistas diante de qualquer coisa religiosa \u00e9 bastante compreens\u00edvel, pois para eles a religi\u00e3o exige uma cren\u00e7a inquestion\u00e1vel na autoridade. A ci\u00eancia, pelo contr\u00e1rio, coloca sua prioridade b\u00e1sica no conhecimento experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Eis o atrito. Pois a evid\u00eancia experimental, para ser encarada como evid\u00eancia emp\u00edrica, tinha de ser verific\u00e1vel \u2013 acess\u00edvel a in\u00fameros observadores competentes. Mas os processos mentais s\u00f3 podem ser observados internamente. N\u00e3o podem ser detectados por nenhum observador externo ou por nenhum dos instrumentos da ci\u00eancia, que s\u00e3o concebidos para medir todos os tipos conhecidos de realidades f\u00edsicas. Consequentemente, os psic\u00f3logos se encontraram num dilema: deviam perseverar no esp\u00edrito do empirismo, que estivera na raiz do progresso cient\u00edfico nos \u00faltimos trezentos anos? Ou deviam se colar \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de objetos f\u00edsicos, externos, o dom\u00ednio da realidade onde a ci\u00eancia desfrutara tanto progresso desde a \u00e9poca de Galileu? Optaram pelo segundo foco, mais estreito. Os behavioristas preferiram estudar o comportamento humano e n\u00e3o quaisquer misteriosas entidades interiores, espirituais, mentais, que n\u00e3o pareciam ter propriedades f\u00edsicas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O behaviorismo, pelo menos como foi desenvolvido na psicologia da pesquisa acad\u00eamica, preocupava-se basicamente em encontrar meios eficientes de compreender a mente humana por meio do comportamento, em vez de inferir conclus\u00f5es sobre a natureza real dos processos mentais. Era como tentar compreender a anatomia e a fisiologia humanas sem jamais executar aut\u00f3psias \u2013 que eram proibidas na medicina medieval. A maioria dos behavioristas tinha bastante consci\u00eancia dos estados mentais, mas achava que a psicologia se desenvolveria mais depressa e com menos digress\u00f5es se deixasse a introspec\u00e7\u00e3o de lado por algum tempo. Contudo, behavioristas mais radicais, come\u00e7ando com Watson, deram um passo adicional ao declarar que os processos mentais, em geral, e a consci\u00eancia, em particular, n\u00e3o existiam absolutamente \u2013 simplesmente porque n\u00e3o tinham propriedades f\u00edsicas! Era um caso n\u00edtido de rejei\u00e7\u00e3o, em que um compromisso ideol\u00f3gico com o materialismo invalidava a evid\u00eancia experimental que n\u00e3o estivesse de acordo com uma cren\u00e7a. Pior ainda, os behavioristas identificaram o comportamento com os pr\u00f3prios processos psicol\u00f3gicos. Os rob\u00f4s exibem um comportamento, mas n\u00e3o est\u00e3o conscientes e n\u00e3o t\u00eam experi\u00eancias subjetivas. Os homens tamb\u00e9m exibem um comportamento; por mais escrupulosa, no entanto, que seja sua avalia\u00e7\u00e3o, o comportamento f\u00edsico por si mesmo n\u00e3o fornece evid\u00eancia sequer da exist\u00eancia das realidades mentais que todos n\u00f3s vivenciamos. A afirma\u00e7\u00e3o de que a experi\u00eancia subjetiva pode ser reduzida a um comportamento objetivo n\u00e3o passa de desonestidade intelectual ou de profunda confus\u00e3o.<br \/>Em 1960, as limita\u00e7\u00f5es de ignorar os processos mentais estavam se tornando cada vez mais n\u00edtidas para os psic\u00f3logos acad\u00eamicos. O novo campo da psicologia cognitiva come\u00e7ou a encarar a experi\u00eancia subjetiva com maior seriedade e, desde a ascens\u00e3o da neuroci\u00eancia cognitiva nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, muita aten\u00e7\u00e3o tem sido dada aos processos cerebrais relacionados com a experi\u00eancia subjetiva. Foi feito grande progresso na identifica\u00e7\u00e3o de partes e fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do c\u00e9rebro que s\u00e3o necess\u00e1rias para a vis\u00e3o, para os demais sentidos f\u00edsicos e para os processos mentais espec\u00edficos, como a mem\u00f3ria, a emo\u00e7\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o. Trata-se de um meio perfeitamente leg\u00edtimo de investigar a experi\u00eancia mental indiretamente, pois se apoia no vigor de quatrocentos anos de pesquisa cient\u00edfica sobre as realidades f\u00edsicas. Mas a verdadeira natureza dos processos mentais em si permanece t\u00e3o misteriosa quanto antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Que liga\u00e7\u00e3o existe entre os processos mentais e cerebrais \u2013 entre nossas experi\u00eancias subjetivas e nosso \u201chardware\u201d f\u00edsico? \u00c9 puramente causal, com os processos cerebrais gerando experi\u00eancia subjetiva? Ou os processos mentais e neurais s\u00e3o realmente a mesma coisa, observada do interior e do exterior? Christof Koch, que trabalha com pesquisa de ponta sobre correlatos neurais da consci\u00eancia, comenta a quest\u00e3o: \u201cAs caracter\u00edsticas dos estados cerebrais e dos estados fenomenais parecem muito diferentes para serem completamente redut\u00edveis uma \u00e0 outra. Desconfio que a conex\u00e3o \u00e9 mais complexa do que tradicionalmente se imagina. Por ora, \u00e9 melhor manter a mente aberta com rela\u00e7\u00e3o a este assunto e se concentrar em identificar os correlatos da consci\u00eancia no c\u00e9rebro\u201d. Como neurocientista com experi\u00eancia profissional, naturalmente ele se apoia naquilo que pratica, a saber, o estudo do c\u00e9rebro. Mas nunca se aprendeu nada sobre a verdadeira natureza da experi\u00eancia subjetiva estudando apenas o c\u00e9rebro. Quando observamos objetivamente estados cerebrais, eles n\u00e3o exibem nenhuma das caracter\u00edsticas dos estados mentais, e quando observamos subjetivamente estados mentais, eles n\u00e3o exibem nenhuma das caracter\u00edsticas da atividade cerebral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Muitos neurocientistas acreditam que os processos mentais se originam no c\u00e9rebro como propriedades emergentes. Uma propriedade emergente surge de uma grande configura\u00e7\u00e3o de componentes, mas n\u00e3o est\u00e1 presente em nenhuma dessas partes individualmente. Por exemplo, uma mol\u00e9cula individual de H2O em temperatura ambiente n\u00e3o \u00e9 fluida. Mas um grande conjunto de mol\u00e9culas de \u00e1gua mostra a propriedade da fluidez. A fluidez \u00e9 uma propriedade f\u00edsica bem-compreendida, que \u00e9 facilmente medida com os instrumentos da tecnologia. Da mesma maneira, muitas propriedades emergentes de entidades f\u00edsicas s\u00e3o elas pr\u00f3prias f\u00edsicas e podem ser medidas, como fluxo sangu\u00edneo e mudan\u00e7as el\u00e9tricas e qu\u00edmicas dentro do c\u00e9rebro. Os processos mentais, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o possuem propriedades f\u00edsicas e n\u00e3o podem ser, sob qualquer forma, objetivamente medidos. J\u00e1 que s\u00e3o radicalmente diferentes de quaisquer outras propriedades emergentes que surgem no mundo f\u00edsico, parece haver pouca justificativa para encar\u00e1-los como propriedades emergentes de qualquer entidade f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Alguns neurocientistas, contudo, negligenciam esses problemas e talvez inadvertidamente deixem a quest\u00e3o obscura ao declarar simplesmente que os processos mentais s\u00e3o a mesma coisa que suas bases neurais. \u00c9 uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel, mas nunca foi demonstrada de modo cient\u00edfico. Portanto, \u00e9 intelectualmente desonesto defender isto como conclus\u00e3o cient\u00edfica; no presente n\u00e3o \u00e9 nada mais que uma opini\u00e3o n\u00e3o verificada. Existe aqui um perigo de verdadeira degenera\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia em pseudoci\u00eancia. Uma das caracter\u00edsticas da pseudoci\u00eancia \u00e9 que ela tenta provar que uma hip\u00f3tese \u00e9 verdadeira, em vez de investigar se \u00e9 verdadeira. A pressuposi\u00e7\u00e3o de que a hip\u00f3tese \u00e9 verdadeira e s\u00f3 precisa ser posta \u00e0 prova substitui a abertura mental que caracteriza o m\u00e9todo cient\u00edfico. Assim, muitos neurocientistas adotaram exatamente essa abordagem pseudocient\u00edfica tentando provar que as experi\u00eancias subjetivas podem ser plenamente compreendidas sob a \u00f3tica de processos f\u00edsicos dentro do c\u00e9rebro. Lembremos que, na Europa do s\u00e9culo XVII, era cren\u00e7a generalizada que a alma tinha atributos tanto sobrenaturais quanto naturais. Em sua insist\u00eancia em compreender a mente humana como uma entidade puramente natural, os cientistas a trataram como se ela devesse ser f\u00edsica, embora ela n\u00e3o apresente atributos f\u00edsicos e n\u00e3o possa ser detectada por qualquer instrumento f\u00edsico. \u00c9 um problema central para todo o estudo cient\u00edfico da mente, que ainda tem de ser resolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Os psic\u00f3logos continuam a estudar a mente indiretamente, questionando pessoas conscientes e observando seu comportamento. Desse modo, investigam diretamente os efeitos f\u00edsicos de processos mentais. E os neurocientistas estudam a mente indiretamente, explorando as basees neurais da experi\u00eancia subjetiva. Dessa maneira, investigam diretamente os correlatos f\u00edsicos de ventos mentais, que podem ser causas ou efeitos. As disciplinas combinadas da psicologia e da neuroci\u00eancia s\u00e3o agora conhecidas como ci\u00eancia cognitiva. Se os pesquisadores deste campo limitassem suas pesquisas ao estudo do comportamento e do c\u00e9rebro, n\u00e3o teriam sequer a ideia da exist\u00eancia da experi\u00eancia subjetiva. O \u00fanico meio de os experimentadores poderem ter certeza de que existem estados mentais \u00e9 experiment\u00e1-los em si mesmos. Isso prova o valor da insist\u00eancia de William James de que a introspec\u00e7\u00e3o seja plenamente incorporada ao estudo cient\u00edfico da mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Os cientistas cognitivos nunca conceberam quaisquer meios sofisticados para examinar os pr\u00f3prios eventos mentais. Deixam tais observa\u00e7\u00f5es para pessoas pagas (geralmente estudantes ainda n\u00e3o formados) que n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o profissional na observa\u00e7\u00e3o ou descri\u00e7\u00e3o de processos mentais. Deixando a introspec\u00e7\u00e3o na m\u00e3o de amadores, os cientistas fazem com que a observa\u00e7\u00e3o direta da mente continue o n\u00edvel da psicologia folcl\u00f3rica. Com rela\u00e7\u00e3o a isso, coloquemos a ci\u00eancia cognitiva no contexto das outras ci\u00eancias naturais. F\u00edsicos experimentais s\u00e3o profissionalmente treinados para observar processos f\u00edsicos, e bi\u00f3logos s\u00e3o profissionalmente treinados para observar processos biol\u00f3gicos. Os cientistas cognitivos assumiram o desafio de compreender os processos mentais, mas ao contr\u00e1rio de todos os outros cientistas naturais n\u00e3o recebem forma\u00e7\u00e3o profissional na observa\u00e7\u00e3o das realidades que compreendem sua \u00e1rea de pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa que as ci\u00eancias cognitivas n\u00e3o tenham aprendido muito sobre a mente. De fato, psic\u00f3logos e neurocientistas aprenderam muito sobre uma ampla gama de processos mentais (alguns deles inacess\u00edveis \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o) e seus correspondentes estados cerebrais. E t\u00eam havido muitas aplica\u00e7\u00f5es valiosas de seu conhecimento no diagn\u00f3stico e tratamento das doen\u00e7as mentais. Os neurocientistas t\u00eam substitu\u00eddo medidas objetivas do c\u00e9rebro por reflex\u00f5es sobre seus sobre seus correspondentes processos mentais subjetivos. Essa abordagem tem produzido grandes insights sobre as bases neurais da mente, mas muito pouca compreens\u00e3o sobre a verdadeira natureza e origens da consci\u00eancia e de todos os outros processos mentais subjetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Durante o s\u00e9culo passado, o fato de os cientistas cognitivos n\u00e3o terem conseguido conceber nenhum meio rigoroso de observar diretamente realidades mentais levou-os \u00e0 conclus\u00e3o similar de que a introspec\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser usada como m\u00e9todo cient\u00edfico de investiga\u00e7\u00e3o. Essa cren\u00e7a, que continua a ser amplamente sustentada por psic\u00f3logos e neurocientistas, ainda justifica a explora\u00e7\u00e3o da mente por meio de comportamento e atividade cerebral. Mas ao minar o valor da introspec\u00e7\u00e3o, ela implicitamente apoia a suposi\u00e7\u00e3o de que os processos mentais realmente nada mais s\u00e3o que processos cerebrais encarados de uma perspectiva subjetiva. A implica\u00e7\u00e3o \u00e9 que processos cerebrais s\u00e3o reais, mas processos mentais s\u00e3o ilus\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Agora, por\u00e9m, com a facilidade de transporte e comunica\u00e7\u00e3o globais, temos um acesso muito maior que em qualquer outra \u00e9poca a toda as civiliza\u00e7\u00f5es do mundo. Em consequ\u00eancia, um n\u00famero rapidamente crescente de cientistas cognitivos est\u00e3o mostrando forte interesse pessoal e profissional em tradi\u00e7\u00f5es contemplativas anteriormente desconhecidas, juntamente com aquelas desenvolvidas no ocidente. Por conseguinte, a secular rejei\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da medita\u00e7\u00e3o pode em breve ser coisa do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":3} --><\/p>\n<h3>Estudos Cient\u00edficos da Medita\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o nossos estados mentais e comportamento determinados inteiramente por influ\u00eancias f\u00edsicas, como atividade cerebral e genes, ou podemos melhorar nossa sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar por meio de nossos pr\u00f3prios esfor\u00e7os, incluindo a medita\u00e7\u00e3o? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental, subjacente a todos os estudos cient\u00edficos da medita\u00e7\u00e3o. Lembremos que William James entrou numa depress\u00e3o profunda, suicida, parcialmente em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 cren\u00e7a \u2013 que era predominante em meados do s\u00e9culo XIX \u2013 de que os seres humanos s\u00e3o meros fantoches jogados de um lado para o outro por processos bioqu\u00edmicos do corpo. Ele conseguiu sair dessa situa\u00e7\u00e3o ao reconhecer que a evid\u00eancia cient\u00edfica que apoia essa hip\u00f3tese reducionista n\u00e3o era conclusiva. A pesquisa dos \u00faltimos poucos anos tornou esta vis\u00e3o rob\u00f3tica da natureza humana ainda mais duvidosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Um dos campos mais fascinantes da pesquisa neurocient\u00edfica nos dias de hoje diz respeito \u00e0 neuroplasticidade ou \u00e0 capacidade que t\u00eam os neur\u00f4nios do c\u00e9rebro de mudar em resposta \u00e0 experi\u00eancia. O que isso significa para n\u00f3s, em nossa vida di\u00e1ria, \u00e9 que podemos realmente mudar o c\u00e9rebro alterando nossos pensamentos, atitudes e comportamento. A pesquisa aponta o c\u00e9rebro como um org\u00e3o em mudan\u00e7a cont\u00ednua, que responde estruturalmente n\u00e3o apenas \u00e0s demandas do ambiente externo, mas tamb\u00e9m a estados gerados internamente, incluindo aspectos da consci\u00eancia. Num experimento pioneiro, neurocientistas da Faculdade de Medicina de Harvard fizeram um grupo de volunt\u00e1rios praticarem diariamente um exerc\u00edcio de piano durante uma semana, enquanto outro grupo apenas imaginava que estivesse fazendo o exerc\u00edcio, mexendo os dedos e tocando as notas mentalmente. No final da semana, o c\u00f3rtex motor, que \u00e9 a regi\u00e3o do c\u00e9rebro que controla os movimentos dos dedos, tinha se tornado mais largo nos verdadeiros executantes, o que era o resultado esperado \u2013 mas a mesma mudan\u00e7a tinha tamb\u00e9m ocorrido no c\u00e9rebro dos executantes virtuais! Imaginar que tinham tocado piano levara a mudan\u00e7as f\u00edsicas mensur\u00e1veis no c\u00e9rebro. Era demais para a velha m\u00e1xima: \u201cN\u00e3o \u00e9 real, est\u00e1 s\u00f3 na sua cabe\u00e7a!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Pesquisadores do Salk Institute for Biological Studies em La Jolla, Calif\u00f3rnia, mostraram que o c\u00e9rebro adulto pode mudar sua estrutura, suas conex\u00f5es e, portanto, suas fun\u00e7\u00f5es \u2013 uma aptid\u00e3o para a mudan\u00e7a que os cientistas durante muito tempo acreditaram que era perdida no in\u00edcio da inf\u00e2ncia. Isso significa que podemos voluntariamente transformar nossa mente e c\u00e9rebro ao longo de toda a nossa exist\u00eancia, escolhendo nosso ambiente, nosso estilo de vida e os tipos de atividade mental em que nos ocupamos. Um dos modos de a neuroplasticidade ocorrer \u00e9 atrav\u00e9s da neurog\u00eanese ou gera\u00e7\u00e3o de novas c\u00e9lulas cerebrais e, ainda mais importante, de novas conex\u00f5es de sinapses. Um c\u00e9rebro humano saud\u00e1vel cont\u00e9m cerca de 100 bilh\u00f5es de c\u00e9lulas nervosas e neur\u00f4nios. Cada neur\u00f4nio tem longas proje\u00e7\u00f5es filamentosas chamadas ax\u00f4nios e dendrites, que transmitem informa\u00e7\u00e3o sob a forma de pulsos el\u00e9tricos. As dentrites levam sinais para os neur\u00f4nios e os ax\u00f4nios levam sinais para outras c\u00e9lulas. A jun\u00e7\u00e3o entre um ax\u00f4nio e uma dentrite \u00e9 chamada de sinapse, sendo a informa\u00e7\u00e3o transmitida atrav\u00e9s das sinapses por mensageiros qu\u00edmicos chamados neurotransmissores. A neurog\u00eanese aumenta as conex\u00f5es entre sinapses e isto, mais que apenas a gera\u00e7\u00e3o de novas c\u00e9lulas cerebrais, tem um impacto real sobre o modo como nossa mente trabalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A neurog\u00eanese nos capacita a fazer novas conex\u00f5es para reconhecer uma novidade; de outro modo, as conex\u00f5es anteriormente estabelecidas podem fazer com que vejamos inclusive coisas novas de um modo antigo, obsoleto. Essa capacidade de criar novas conex\u00f5es declina em geral com a idade, mas pode ser intensificada se vivermos num \u201cambiente enriquecido\u201d, onde encontremos coisas interessantes, novas e desafiadoras para fazer e experimentar. Tal ambiente enriquecido pode tamb\u00e9m incluir o mundo de nossa imagina\u00e7\u00e3o e todas as atividades que realizamos com a mente. A medita\u00e7\u00e3o, portanto, pode ser um dos meios mais eficientes de rejuvenescer o c\u00e9rebro e a mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Descobertas recentes de cientistas da Universidade McGill, em Montreal, desafiam a vis\u00e3o de que os seres humanos s\u00e3o escravos de seus genes, de seus neurotransmissores e da rede el\u00e9trica do c\u00e9rebro. O novo campo que esses pesquisadores est\u00e3o explorando \u00e9 a epigen\u00e9tica, o estudo de mudan\u00e7as funcionais no genoma que n\u00e3o envolvem altera\u00e7\u00f5es no sequenciamento de DNA dos pr\u00f3prios genes. Os genes podem estar muito ativos, pouco ativos ou adormecidos. A extens\u00e3o de sua atividade \u00e9 determinada pelo ambiente qu\u00edmico e isso \u00e9 influenciado, entre outras coisas, pelo cuidado dos pais. Fatores ambientais podem levar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas chamadas fatores de transcri\u00e7\u00e3o, que determinam como os genes influenciam o resto do organismo humano. O gene \u00e9 constitu\u00eddo de dois segmentos: um produz prote\u00ednas e o outro \u00e9 um ponto regulador que liga e desliga o gene. Os fatores de transcri\u00e7\u00e3o interagem com o segundo. Estudos de animais e humanos mostraram que carinhos maternos adequados e baixos n\u00edveis de stress s\u00e3o importantes para produzir n\u00edveis apropriados das subst\u00e2ncias qu\u00edmicas cerebrais necess\u00e1rias \u00e0 sa\u00fade e ao equil\u00edbrio emocionais. Os genes que herdamos de nossos ancestrais, influenciados por milh\u00f5es de anos de sele\u00e7\u00e3o natural, n\u00e3o determinam inevitavelmente nossas personalidades, aptid\u00f5es ou car\u00e1ter. Pelo contr\u00e1rio, nosso comportamento f\u00edsico e mental pode influenciar se nossos genes ficar\u00e3o muito ativos, pouco ativos ou adormecidos. Por exemplo, uma crian\u00e7a pode ter uma predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para o transtorno do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o com hiperatividade (TDAH), mas com treinamento da aten\u00e7\u00e3o, a atividade dos genes relevantes pode ser reduzida ou detida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O stress prejudica a neurog\u00eanese, mas certos tipos de atividades a promovem e \u00e9 a\u00ed que a medita\u00e7\u00e3o pode desempenhar um papel-chave. At\u00e9 recentemente, a maioria dos estudos cient\u00edficos de medita\u00e7\u00e3o eram considerados \u201cci\u00eancia marginal\u201d. Essa \u00e1rea, contudo, come\u00e7ou a atrair aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica no final dos anos 60, quando m\u00e9dicos da Faculdade de Medicina de Harvard e da Universidade da Calif\u00f3rnia em Irvine descobriram que um grupo que praticava Medita\u00e7\u00e3o Transcendental (MT) mostrava uma diminui\u00e7\u00e3o no stress e na ansiedade, relacionado a um consumo mais baixo de oxig\u00eanio e a um ritmo respirat\u00f3rio mais lento. Essa medita\u00e7\u00e3o compreende a concentra\u00e7\u00e3o por 20 minutos ou mais num mantra recitado mentalmente com o objetivo de transcender o estado normal de consci\u00eancia. Os pesquisadores teorizaram que duas atividades \u2013 repeti\u00e7\u00e3o, como na recita\u00e7\u00e3o de uma palavra ou prece, e a desaten\u00e7\u00e3o deliberada a pensamentos concorrentes \u2013 levavam a uma \u201cresposta de relaxamento\u201d. Como resultado de estudos similares durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, esse tipo de medita\u00e7\u00e3o \u00e9 agora um tratamento recomendado para a hipertens\u00e3o, arritmias card\u00edacas, dor cr\u00f4nica, ins\u00f4nia e os efeitos colaterais da terapia do c\u00e2ncer e da AIDS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">A medita\u00e7\u00e3o est\u00e1 se tornando extremamente popular como coadjuvante nas terapias m\u00e9dicas convencionais para o tratamento de uma ampla variedade de doen\u00e7as cr\u00f4nicas, incluindo o c\u00e2ncer, hipertens\u00e3o e psor\u00edase. Pesquisadores da Escola de Medicina de Yale estudaram recentemente os efeitos da medita\u00e7\u00e3o para melhorar a qualidade de vida de pacientes que est\u00e3o morrendo de AIDS. Eles reconheceram que, mesmo nos casos de doen\u00e7a terminal, a qualide de vida continua sendo importante, assim como a qualidade e a serenidade da morte da pessoa. No California Pacific Medical Center em San Francisco, o ZHP, Zen Hospice Project [Projeto Zen de Cuidados Paliativos], foi idealizado para descobrir como a perman\u00eancia junto a residentes terminais afetava o bem-estar dos volunt\u00e1rios do centro e para compreender o papel da pr\u00e1tica espiritual na atenua\u00e7\u00e3o do medo da morte. Nesse projeto, tem sido oferecido um programa de treinamento de 40 horas para orientar os volunt\u00e1rios, com \u00eanfase na compaix\u00e3o, na serenidade de esp\u00edrito, na aten\u00e7\u00e3o plena e na pr\u00e1tica do cuidado \u00e0 cabeceira do doente. Entre os efeitos deste treinamento, constatou-se um sentimento mais forte de compaix\u00e3o e uma diminui\u00e7\u00e3o do medo da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Num estudo relacionado, pesquisadores confirmaram os efeitos ben\u00e9ficos de uma medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena, praticada com regularidade, entre os cuidadores de um abrigo zen. Aten\u00e7\u00e3o Plena, nesse contexto, \u00e9 compreendida como um estado em que a pessoa est\u00e1 extremamente consciente da realidade do momento presente e concentrada nela, aceitando-a e apreciando-a, sem se ver enredada por pensamentos sobre a situa\u00e7\u00e3o ou por rea\u00e7\u00f5es emocionais a ela. Com a medita\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o plena, ensinou-se aos cuidadores do abrigo a concentrar a aten\u00e7\u00e3o na respira\u00e7\u00e3o e a reparar como os pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es apareciam e iam embora. Quando eles percebiam que tinham se perdido nos conte\u00fados da mente \u2013 pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e o tagarelar mental interior \u2013 , eram encorajados a redirecionar suavemente a aten\u00e7\u00e3o para a respira\u00e7\u00e3o at\u00e9 que o n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o fosse estabilizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Com o passar do tempo, os participantes desse estudo descobriram que ia ficando mais f\u00e1cil fazer a aten\u00e7\u00e3o voltar ao momento presente. Ao praticar, durante todo o dia, a medita\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o, prestavam aten\u00e7\u00e3o ao que estavam fazendo e por qu\u00ea. A aten\u00e7\u00e3o plena n\u00e3o era vivenciada como presa ao passado, ao futuro ou ao \u201cagora\u201d, mas como um relaxamento na imediaticidade do que estivesse acontecendo. Como meio de treinamento da mente, aplicaram a aten\u00e7\u00e3o plena \u00e0s tarefas cotidianas do seu servi\u00e7o: cozinhar, lavar para os residentes, alimentar, fazer companhia a eles, ouvir. Os benef\u00edcios que experimentavam, como resultado dessa pr\u00e1tica, inclu\u00edam um senso de inseparabilidade entre cuidadores e residentes, pois encontravam tranquilidade enquanto se ocupavam de suas atividades, deixando de querer que as coisas fossem diferentes, de temer o que pudesse acontecer e mantendo um foco claro por entre as emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ando a trabalhar no fim da d\u00e9cada de 1970, Jon Kabat-Zinn, pesquisador da Cl\u00ednica de Redu\u00e7\u00e3o do Stress do Centro M\u00e9dico da Universidade de Massachusetts, desenvolveu um programa de Redu\u00e7\u00e3o do Stress Baseado na Aten\u00e7\u00e3o Plena (MBSR ), que agora est\u00e1 sendo ensinado em mais de 250 cl\u00ednicas mundo afora. Como Kabat-Zinn assinalou, em 1990, num encontro com o Dalai Lama sobre aten\u00e7\u00e3o plena, emo\u00e7\u00f5es e sa\u00fade, o stress agrava os sintomas de todas as doen\u00e7as conhecidas, do resfriado comum ao c\u00e2ncer. Assim, aliviar o stress com medita\u00e7\u00e3o pode potencialmente ter um impacto enorme em nosso bem-estar f\u00edsico e psicol\u00f3gico. Por exemplo, pesquisadores da Universidade de Toronto mostraram que a medita\u00e7\u00e3o pode impedir a reca\u00edda em depress\u00e3o de pacientes com um hist\u00f3rico de transtornos recorrentes do temperamento e outros estudos sustentam esta descoberta. Um n\u00famero rapidamente crescente de estudos da medita\u00e7\u00e3o em pesquisas importantes de universidades mundo afora est\u00e3o demonstrando seus benef\u00edcios para um conjunto cada vez amplo de problemas psicol\u00f3gicos e f\u00edsicos. Descobriu-se que mesmo breves per\u00edodos de medita\u00e7\u00e3o no decorrer do dia s\u00e3o mais repousantes e saud\u00e1veis para o corpo e a mente do que tirar cochilos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Num desses estudos, Kabat-Zinn juntou-se a Richard Davidson, que chefia o laborat\u00f3rio W. M. Keck para o Mapeamento Funcional do C\u00e9rebro da Universidade de Wisconsin, em Madison. Davidson come\u00e7ou a estudar a rela\u00e7\u00e3o entre as emo\u00e7\u00f5es, o c\u00e9rebro e a medita\u00e7\u00e3o nos anos 70. Kabat-Zinn e Davidson recentemente conduziram um estudo sobre os efeitos de oito semanas de treinamento b\u00e1sico em medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena em um grupo de trabalhadores altamente estressados de uma firma de biotecnologia do Wisconsin. Os resultados preliminares revelaram que aqueles que receberam o treinamento mostraram uma maior ativa\u00e7\u00e3o do lobo pr\u00e9-frontal esquerdo, tanto em repouso como quando expostos a desafios emocionais. A maior ativa\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea do c\u00e9rebro est\u00e1 associada a emo\u00e7\u00f5es positivas e stress reduzido, juntamente com melhorias no sistema imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, Davidson e sua equipe t\u00eam estudado contemplativos budistas tibetanos altamente avan\u00e7ados que passaram por um treinamento meditativo de at\u00e9 60 mil horas. Quando os pesquisadores conectaram esses monges a sensores de eletroencefalograma, encontraram um aumento impressionante de ondas gama geradas pelo c\u00e9rebro como um todo e atividade neural intensificada no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal esquerdo, uma \u00e1rea correlacionada ao relato de sensa\u00e7\u00f5es de felicidade. Embora n\u00e3o esteja inteiramente claro como se pode interpretar esses dados em termos de experi\u00eancia humana, eles de fato sugerem que tal treinamento mental desencadeia mecanismos integradores no c\u00e9rebro e pode induzir mudan\u00e7as neurais a curto e a longo prazos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Outro estudo feito por pesquisadores da Universidade de Harvard no Hospital Geral de Massachusetts sugere que a medita\u00e7\u00e3o a longo prazo pode aumentar a espessura do c\u00f3rtex, que \u00e9 a camada externa do c\u00e9rebro. Usando medidas MRI , eles descobriram que medita\u00e7\u00e3o envolvendo aten\u00e7\u00e3o concentrada nos estados e processos mentais da pessoa levava a um engrossamento das regi\u00f5es do c\u00e9rebro associadas \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o e ao processamento sensorial. Diferen\u00e7as na espessura cortical pr\u00e9-frontal eram extremamente pronunciadas nos participantes mais velhos, sugerindo que a medita\u00e7\u00e3o podia compensar a deteriora\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e do foco na observa\u00e7\u00e3o do ambiente relacionados com a idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Psic\u00f3logos da Universidade de Oregon estiveram investigando a possibilidade de treinar crian\u00e7as novas para refor\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o executiva \u2013 a capacidade de regular nossas respostas psicol\u00f3gicas e comportamentais, particularmente em situa\u00e7\u00f5es de conflito. Quando nossas emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o fortemente provocadas, nossa capacidade de aten\u00e7\u00e3o executiva permite que nos mantenhamos concentrados no que \u00e9 importante, sem nos deixarmos levar por pensamentos e mem\u00f3rias compulsivas. Esse aspecto da aten\u00e7\u00e3o sofre um desenvolvimento particularmente r\u00e1pido entre os 2 e 7 anos de idade, mas se acredita que continue a se desenvolver at\u00e9 o in\u00edcio da idade adulta. Num estudo recente, foi dado treinamento a crian\u00e7as entre os 4 e 6 anos de idade (o grupo ideal para estudar esses efeitos de treinamento) destinado a refor\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o executiva. O estudo mostrou, pela primeira vez, que aptid\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o executiva podem ser exercitadas em crian\u00e7as novas, o que pode potencialmente levar a melhores tipos de tratamento para crian\u00e7as com problemas de aten\u00e7\u00e3o e outros problemas comportamentais. Os pesquisadores tamb\u00e9m acreditam que o efeito do treinamento da aten\u00e7\u00e3o pode se estender a habilidades mais gerais, como as medidas por testes de intelig\u00eancia. Em outras palavras, aumentar sua capacidade de aten\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m ajudar a aumentar seu QI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Um dos estudos mais importantes sobre os efeitos da medita\u00e7\u00e3o na aten\u00e7\u00e3o foi recentemente conduzido pela neurocientista Amishi Jha e dois de seus colegas na Universidade da Pensilv\u00e2nia. Eles compararam os efeitos de grupos de meditadores empenhados em dois tipos de treinamento de aten\u00e7\u00e3o plena. O primeiro grupo consistia de principiantes em medita\u00e7\u00e3o que participavam de um curso de redu\u00e7\u00e3o do stress baseada na aten\u00e7\u00e3o plena com oito semanas de dura\u00e7\u00e3o, envolvendo apenas 30 minutos por dia de concentra\u00e7\u00e3o na respira\u00e7\u00e3o, fazendo a aten\u00e7\u00e3o retornar gentilmente ao objeto sempre que ela se desviava. Um segundo grupo compreendia meditadores experientes participando de um retiro de um m\u00eas para a pr\u00e1tica intensiva de medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena, o que faziam de 10 a 12 horas por dia. Um terceiro grupo consistia de pessoas que jamais tinham meditado nem recebido nenhum tipo de treinamento. Na conclus\u00e3o dos respectivos cursos de treinamento, descobriu-se que o primeiro grupo era mais capaz de concentrar sua aten\u00e7\u00e3o no objeto meditativo que o segundo e terceiro grupos, enquanto o segundo grupo era mais competente que o primeiro e o terceiro grupos para adquirir plena consci\u00eancia do ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Embora o treinamento da aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixe de ser um fator essencial para provocar mudan\u00e7as psicol\u00f3gicas positvas, outros aspectos da mente, como desejos, atitudes e emo\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m precisam ser levados em conta. No outono do ano 2000, o Dalai Lama se encontrou com um grupo de psic\u00f3logos cognitivos para explorar o tema das emo\u00e7\u00f5es destrutivas a partir das perspectivas cient\u00edfica e budista. Tive o privil\u00e9gio de servir como um dos int\u00e9rpretes nesse encontro. Ap\u00f3s v\u00e1rios dias de fascinante di\u00e1logo abordando disciplinas e culturas, o Dalai Lama comentou que, por mais \u00fateis que fossem essas discuss\u00f5es, era mais importante que aplic\u00e1ssemos nosso conhecimento e experi\u00eancia coletivos de maneira a que eles trouxessem um benef\u00edcio pr\u00e1tico para o mundo. Um dos participantes, Paul Ekman, professor em\u00e9rito de psicologia da Universidade da Calif\u00f3rnia em San Francisco, querendo se mostrar \u00e0 altura do desafio, deu in\u00edcio ao desenvolvimento do programa Cultivando o Equil\u00edbrio Emocional (CEB ). Tanto ele quanto o Dalai Lama pediram que eu me associasse a esse projeto de pesquisa desde o come\u00e7o. Paul e eu preparamos um programa de treinamento de oito semanas, incluindo interven\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e medita\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o budista. Esse treinamento integrado inclu\u00eda pr\u00e1ticas para refor\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o executiva, a aten\u00e7\u00e3o plena e o cultivo da empatia, do afeto e da compaix\u00e3o. Em 2003, organizamos um estudo piloto e desde ent\u00e3o, sob a dire\u00e7\u00e3o de Margaret Kemeny, outra psic\u00f3loga da UCSF, realizamos dois experimentos cl\u00ednicos em que oferecemos esse treinamento a grupos de professores de escola prim\u00e1ria. Recomendamos que todos os participantes meditassem ao menos 25 minutos por dia e eles foram tamb\u00e9m instru\u00eddos sobre como \u201ctemperar cada dia\u201d com aten\u00e7\u00e3o plena, o que implicava disseminar momentos de medita\u00e7\u00e3o durante todo o dia, por exemplo, enquanto a pessoa estivesse parada num sinal vermelho, esperando numa fila, entre a leitura de mensagens de e-mail e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Descobrimos que a participa\u00e7\u00e3o no treinamento CEB estava associada a significativas e, em muitos casos, espetaculares redu\u00e7\u00f5es da depress\u00e3o, na ansiedade cr\u00f4nica, nas emo\u00e7\u00f5es negativas (como irrita\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e hostilidade) e no pensamento compulsivo. Do lado positivo, esse treinamento resultou em incrementos significativos nas emo\u00e7\u00f5es positivas (como a paci\u00eancia, a empatia, a afei\u00e7\u00e3o e a compaix\u00e3o), na aten\u00e7\u00e3o plena, na aten\u00e7\u00e3o a outros e num sono mais reparador. Esses benef\u00edcios psicol\u00f3gicos foram observados no final do treinamento e cinco meses mais tarde ainda estavam presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Sob a \u00f3tica do sistema nervoso dos participantes, eles experimentavam, como resultado do treinamento, menos \u201cdesgaste\u201d quando confrontados com uma situa\u00e7\u00e3o emocionalmente penosa e retornavam ao equil\u00edbrio com mais rapidez, assim que o epis\u00f3dio se encerrava. As respostas hormonais tamb\u00e9m mudaram para melhor. O cortisol, com frequ\u00eancia mencionado como o \u201chorm\u00f4nio do stress\u201d b\u00e1sico, \u00e9 um horm\u00f4nio esteroide produzido na gl\u00e2ndula suprarrenal em resposta ao stress. \u00c9 necess\u00e1rio para manter processos fisiol\u00f3gicos normais durante per\u00edodos de stress, mas n\u00edveis excessivamente altos de cortisol na corrente sangu\u00ednea podem levar a uma performance cognitiva deteriorada, fun\u00e7\u00e3o suprimida da tireoide, desequil\u00edbrios de a\u00e7\u00facar no sangue, como a hiperglicemia, decr\u00e9scimo da densidade \u00f3ssea e do tecido muscular, e elevada press\u00e3o sangu\u00ednea. Evid\u00eancia recente sugere que n\u00edveis excessivamente baixos de cortisol podem ser associados \u00e0 depress\u00e3o e ao colapso nervoso, assim como ao risco de doen\u00e7as inflamat\u00f3rias. Participantes do treinamento CEB mostraram uma recupera\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida da atividade do cortisol, o que indica que seus sistemas de cortisol podem ter respondido de forma mais flex\u00edvel a situa\u00e7\u00f5es de transtorno emocional. Em suma, esse treinamento refor\u00e7ou a capacidade de os professores prim\u00e1rios se recuperarem em termos psicol\u00f3gicos, vegetativos e hormonais de transtornos emocionais. Dada a natureza altamente estressante de sua profiss\u00e3o, parece prov\u00e1vel que o treinamento mental que os ajudou possa ajudar praticamente todos que est\u00e3o tentando enfrentar as dificuldades da vida moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos mais interessantes da psique humana \u00e9 o que Ekman chama de o per\u00edodo refrat\u00e1rio. Geralmente acontece logo ap\u00f3s alguma experi\u00eancia emocionalmente perturbadora e deixa claro que, durante o tempo de sua dura\u00e7\u00e3o, \u201cnosso pensamento n\u00e3o consegue incorporar informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conserve, justifique ou se ajuste \u00e0 emo\u00e7\u00e3o que estamos sentindo\u201d e isso \u201cdeforma o modo como vemos o mundo e a n\u00f3s mesmos\u201d. Por exemplo, se algu\u00e9m ficou furioso com um colega no trabalho, s\u00f3 conseguir\u00e1, durante o per\u00edodo refrat\u00e1rio, concentrar sua aten\u00e7\u00e3o naqueles aspectos da personalidade e do comportamento dele que sustentem os seus atuais sentimentos de hostilidade. Mesmo que a pessoa se recorde de algum comportamento neutro ou mesmo positivo por parte dele, n\u00e3o poder\u00e1 deixar de v\u00ea-lo sob uma luz negativa, podendo ficar, durante algum tempo, cego para todas as suas virtudes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo refrat\u00e1rio, a medita\u00e7\u00e3o se torna uma esp\u00e9cie de \u201cpainel de instrumentos para as emo\u00e7\u00f5es\u201d, capacitando a pessoa a conferir os medidores e concluir objetivamente se est\u00e1 prestes a superaquecer, para que n\u00e3o seja apanhada de surpresa quando sua mente come\u00e7ar a ferver. A base neural dessas rea\u00e7\u00f5es emocionais \u00e9 o sistema l\u00edmbico, que \u00e9 conectado ao c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Agindo sobre o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, a medita\u00e7\u00e3o pode ajudar a restaurar nosso equil\u00edbrio emocional quando ficamos transtornados pelo medo ou pela raiva. Para a maioria de n\u00f3s, passa-se apenas um quarto de segundo entre o evento desencadeador e a resposta da am\u00edgdala ou centro do medo. Nessa fra\u00e7\u00e3o de segundo, nossas emo\u00e7\u00f5es t\u00eam tempo de fazer submergir nosso julgamento e elas frequentemente o fazem. A medita\u00e7\u00e3o \u2013 que traz crescente sensibilidade a tais rea\u00e7\u00f5es \u2013 nos proporciona a oportunidade de quebrar essa n\u00edtida rea\u00e7\u00e3o em cadeia, permitindo que reconhe\u00e7amos \u201ca centelha antes da chama\u201d. Desse modo podemos come\u00e7ar a fazer op\u00e7\u00f5es mais informadas sobre as emo\u00e7\u00f5es a que devemos dar vaz\u00e3o e as que n\u00e3o devemos deixar que se manifestem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:group --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">O treinamento da medita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser \u00fatil para ampliar uma vasta cole\u00e7\u00e3o de outras virtudes humanas, incluindo a qualidade simples da bondade. Durante o encontro com o Dalai Lama em 2000, Paul Ekman teve a oportunidade de passar alguns minutos numa conversa cara a cara com ele. \u201cEle segurou minhas m\u00e3os enquanto convers\u00e1vamos\u201d, Ekman recordou, \u201ce fui tomado de um sentimento de generosidade e uma sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica na totalidade do corpo, que n\u00e3o tenho palavras para descrever.\u201d Depois de lutar contra o rancor e a c\u00f3lera durante a maior parte da vida adulta, Ekman diz agora que compreende o que \u00e9 realmente ter disposi\u00e7\u00e3o para estar alegre e otimista quase todo todo dia. Aos 72 anos de idade, ele comentou recentemente: \u201cSe eu tivesse uns trinta anos a menos, assumiria como tarefa cient\u00edfica tentar explicar o que aconteceu naquele dia\u201d. Ele est\u00e1 \u00e1vido por saber como o Dalai Lama curou-o literalmente de uma hora para a outra do temperamento explosivo que o mantivera durante anos na psican\u00e1lise. Com esse objetivo em mente, entrevistou recentemente outras oito pessoas que passaram por transforma\u00e7\u00f5es semelhantes depois de um encontro com o Dalai Lama.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Tive meu primeiro encontro particular com o Dalai Lama no outono de 1971, quando estava morando em Dharamsala, na \u00cdndia. Esse primeiro encontro teve um impacto profundo sobre mim, que foi refor\u00e7ado oito anos mais tarde, quando tive a oportunidade de servir como seu int\u00e9rprete num giro de confer\u00eancias pela Europa, pouco antes de sua primeira visita aos Estados Unidos. Percebi que estar dia ap\u00f3s em sua presen\u00e7a era como habitar numa esfera de generosidade, que trazia com ela uma sensa\u00e7\u00e3o de serenidade e bem-estar que eu jamais havia vivenciado antes. Quem quer que tenha encontrado pessoas t\u00e3o extraordin\u00e1rias n\u00e3o pode deixar de perguntar: elas nascem assim ou ser\u00e1 que os excepcionais atributos de sabedoria e compaix\u00e3o podem ser cultivados com treinamento? Ao refletir sobre sua vida, o Dalai Lama deixou bem claro que sua pr\u00e1tica espiritual, incluindo medita\u00e7\u00e3o di\u00e1ria durante mais de cinquenta anos, transformou-lhe a mente de forma profunda, sob muitos e ben\u00e9ficos aspectos. Todo ano ele viaja pelo mundo, ensinando pr\u00e1ticas meditativas que se apoiam em 2500 anos de experi\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o budista, assim como em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:group --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Um n\u00famero de cientistas cognitivos que cresce rapidamente, em especial os que est\u00e3o penas no \u00ednicio da carreira, v\u00eam expressando interesse em combinar os m\u00e9todos cient\u00edficos da psicologia e da neuroci\u00eancia com as abordagens contemplativas do budismo e outras tradi\u00e7\u00f5es. Desejam explorar a mente de m\u00faltiplas perspectivas. Desde 2003, o Instituto Mente e Vida (Mind and Life Institute), que tem patrocinado encontros sobre budismo e ci\u00eancia com o Dalai Lama desde 1987, vem realizando semin\u00e1rios de ver\u00e3o, com uma semana de dura\u00e7\u00e3o, assistidos por estudantes graduados e p\u00f3s-graduados nas ci\u00eancias da mente e humanidades. Durante esses semin\u00e1rios intensivos, veteranos pesquisadores compartilham as descobertas de suas pesquisas mais recentes sobre medita\u00e7\u00e3o, enquanto estudiosos e contemplativos budistas ensinam doutrina budista e medita\u00e7\u00e3o a todos os participantes. Desse modo, est\u00e1 emergindo uma nova gera\u00e7\u00e3o de \u201ccientistas contemplativos\u201d, pessoas com treinamento profissional tanto nas ci\u00eancias cognitivas quanto na teoria e pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Seguindo par\u00e2metros semelhantes, no inverno de 2007, o Instituto Santa B\u00e1rbara para Estudos da Consci\u00eancia come\u00e7ou a realizar uma s\u00e9rie de retiros de medita\u00e7\u00e3o especificamente para cientistas com pesquisas nos campos da psicologia e neuroci\u00eancia. Durante o s\u00e9culo XIX, as ci\u00eancias da mente procuraram se distanciar de qualquer coisa associada \u00e0 religi\u00e3o ou mesmo \u00e0 filosofia. Mas agora, cientistas da \u00e1rea est\u00e3o mostrando uma abertura e uma curiosidade sem precedentes para aprender mais sobre os benef\u00edcios fisiol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos da medita\u00e7\u00e3o e para explorar uma poss\u00edvel import\u00e2ncia na investiga\u00e7\u00e3o da natureza da mente a partir de dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph {\"className\":\"texto-justificado\"} --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Isso pode assinalar um momento realmente decisivo na hist\u00f3ria da ci\u00eancia, que durante seus primeiros quatrocentos anos fixou a aten\u00e7\u00e3o exclusivamente no mundo objetivo, f\u00edsico. No futuro, o foco unificado da pesquisa cient\u00edfica objetiva, dirigida para fora, e da pesquisa contemplativa, dirigida para dentro, com certeza trar\u00e1 um aprofundamento sem precedentes de nossa compreens\u00e3o da natureza e dos potenciais da consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":4} --><\/p>\n<h4>Fonte:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Wallace, B. Alan. Mente em Equil\u00edbrio: A Medita\u00e7\u00e3o na Ci\u00eancia, no Budismo e no Cristianismo. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Digita\u00e7\u00e3o: Lama Jigme Lhawang<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Notas:<br \/>[1] D.M. Strong, trad., The Udana, or the Solemn Utterances of the Buddha (Oxford, Pali Text Society, 1994), 68-9.<br \/>[2] O autor se refere \u00e0 palavra \u201ccontemplation\u201d que, em ingl\u00eas, tem o sentido de \u201creflex\u00e3o\u201d mais n\u00edtido do que em portugu\u00eas. (N. do T.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><p style=\"text-align: justify;\">Josef Pieper, Happiness and Contemplation, trad. Richard e Clara Winston (Chicago, Henry Regnery Co., 1966), 73.<br \/>Baudhayana Sulbasutra, in T.A. Sarasvati Amma, Geometry in Ancient and Medieval India (Nova D\u00e9lhi, Motilal Banarsidass, 1979), 14-5.<br \/>Metaphysics, XIII, 6, 1080b16.<br \/>H. St. J. Thackeray, R. Marcus, A. Wikgren e L. H. Feldman, trad., Josephus (Loeb Classical Library) (Londres, Heinemann, 1956).<br \/>Mateus 3, 1-10.<br \/>Mateus 11, 11.<br \/>Mateus, 4, 17.<br \/>Mateus, 11, 13-14; Mateus 17, 12-14; Mateus 17, 10-13; Lucas 1, 17.<br \/>Reis 2, 2, 11.<br \/>Ver Thomas Merton, Cassian and The Fathers: Initiation Into the Monastic Tradition (Kalamazoo, Mich., Cistercian Publications, 2005).<br \/>Anguttara Nikaya III, 65; Kalama Sutta: The Buddha\u2019s Charter of Free Inquiry, trad. Soma Thera (Kandy, Sri Lanka, Buddhist Publications Society, 1981).<br \/>Bhikkhu Nanamoli, The Life of the Buddha According to the Pali Canon (Kandy, Sri Lanka, Buddhist Publications Society, 1992), 10-29.<br \/>Dava Sobel, Galileo\u2019s Daughter: A Historical memoir of Science, Faith, and Love (Nova York, Penguin, 2000), 326.<br \/>Ren\u00e9 Descartes, Discourse on the Method of Rightly Conducting One\u2019s Reason and Seeking the Truth in the Sciences, trad. Ian Maclean (Nova York, Oxford University Press, 2006).<br \/>Ren\u00e9 Descartes, Discourse on Method; Meditations on the First Philosophy; Principles of Philosophy, trad. John Veitch (Londres, Everyman, 1994), 1,66.<br \/>Ren\u00e9 Descartes, A Discourse on Method; Meditations on the First Philosophy; Principles of Philosophy, trad. John Veitch (Londres, Everyman, 1994), 1,66.<br \/>Ibid., 2,4.<br \/>Antonio Damasio, The Feeling of What Happens: Body and Emotion in the Making of Consciousness (Nova York, Harcourt, 1999), 321.<br \/>William James, A Plea for Psychology as a Science\u201d, Philosophical review 1 (1892), 146.<br \/>William James, Some Problems of Philosophy: A Beginning of an Introduction to Philosophy (Londres, Longmans, Green, 1911), 22-4.<br \/>William James, The Principles of Psychology (Nova York, Dover, 1950), 1,1.<br \/>Ibid., I,185, 197-98.<br \/>Cf. Kurt Danziger, \u201cThe History of Introspection Reconsidered\u201d, Journal of the History of the Behavioral Sciences 16 (1980), 241-62.<br \/>Phillip H. Wiebe, \u201cReligious Experience, Cognitive Science, and the Future of Religion\u201d, in The Oxford Handbook of Religion and Science, org. Phillip Clayton e Zachary Simpson (Nova York, Oxford University Press, 2006, 505.<br \/>John B. Watson, \u201cPsychology as a Behaviorist Views it\u201d, Psychological Review 20 (1913), 158, 166.<br \/>Cf. Patricia Churchland e Terence J. Sejenowski, \u201cNeural Representation and Neural Computation\u201d, in Mind and Cognition: A reader, org. William G. Lycan (Oxford, Blackwell, 1990), 227.<br \/>B. F. Skinner, Science and Human Behavior (Nova York, Macmillan, 1953).<br \/>John B. Watson, Behaviorism (1913; reedi\u00e7\u00e3o, Nova York, Norton, 1970).<br \/>Christof Koch, The Quest for Consciousness: A Neurobiological Approach (Englewook, Colo., Roberts and Co., 2004), 18-9.<br \/>Paul Ekman, Emotions Revealed: Recognizing Faces and Feelings to Improve Communication and Emotional Life (Nova York, Bantam Doubleday, 2002).<br \/>Katherine Ellison, \u201cMastering Your Own Mind\u201d, Psychology Today (out. 2006);\u00a0<a href=\"http:\/\/www.psychologytoday.com\/\">http:\/\/www.psychologytoday.com<\/a>\u00a0(clique em \u201cMastering Your Own Mind\u201d).<br \/>Sharon Begley, Train Your Mind, Change Your Brain: How a New Science Reveals Our Extraordinary Potential to Transform Ourselves (Nova York, Ballantine, 2007).<br \/>Herbert Benson, The Relaxation Response (Nova York, Avon, 1976).<br \/>C. R. MacLean, et al., \u201cEffects of the Transcendental Meditation Program on Adaptive Mechanisms: Changes in Hormone Levels and Responses to Stress After Four Months of Practice\u201d, Psychoneuroendocrinology, 22, n0 4 (maio 1997), 277-95.<br \/>R. Bonadonna, \u201cMeditation\u2019s Impact on Chronic Illness\u201d, Holistic Nursing practice 17, no 6 (nov.-dez. 2003), 309-19.<br \/>Anne Bruce e Betty Davies, \u201cMindfulness in Hospice Care: Practicing Meditation-in-Action\u201d, Qualitative Health Research 15, no 10 (2005), 1329-1344. Ver tamb\u00e9m Bruce A. Davies, \u201cMindfulness in Hospice Care: Practicing Meditation-in-Action\u201d, Qualitative Health Research 15, no 10 (dez. 2005), 1329-1344.; T. A. Richards, D. Oman, J. Hedberg, C. E. Thoresen e J. Bowden, \u201cA Qualitative Examination of a Spirituality-Based Intervention and Self-Management in the Workplace\u201d, Nursing Science Quarterly 19, no 3 (julho 2006), 231-39; Denise Barham, \u201cThe Last 48 Hours of Life: A Case Study of Symptom Control for a Patient Taking a Buddhist Approach to Dying\u201d, International Journal of Palliative Nursing 9, no 6 (junho 2003), 245; Maria Wasner, Christine Longaker, Martin Johannes Fegg e Gian Domenico Borasio, \u201cEffects of Spiritual Care Training for Palliative Care Professionals\u201d, Palliative Medicine 19 (2005), 99-104.<br \/>S. Bishop, \u201cWhat Do We Really Know About Mindfulness-Based Stress Reduction?\u201d, Psychosomatic Medicine 64 (2002), 71.<br \/>Iniciais da sigla em ingl\u00eas: Mindfulness-Based Stress Reduction. (N. do T.)<br \/>Daniel Goleman, org. Healing Emotions: Conversations with the Dalai Lama on Mindfulness, Emotions and Health (Boston, Shambhala, 1997).<br \/>Zindel V. Segal, et al., Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression: A New Approach to Preventing Relapse (Nova York, Guilford, 2002); Zindel V. Segal, et al., \u201cMindfulness-Based Cognitive Therapy: Theoretical Rationale and Empirical Status\u201d, in Mindfulness and Aceceptance: Expanding the Cognitive-Behavioral Tradition, org. S.C. Hayes et al. (Nova York, Guilford, 2004); John D. Teasdale et al., \u201cPrevention of Relapse\/Recurrence in Major Depression by Mindfulness Based Cognitive Therapy\u201d, Journal of Consulting and Clinical Psychology 68, no 4 (ago. 2000), 615-23\/ M. Speca et al., \u201cA Randomized Wait-List Controlled Clinical Trial: The Effect of a Mindfulness Meditation-Based Stress Reduction Program on Mood and Symptoms of Stress in Cancer Outpatients\u201d, Psychosomatic Medicine 62, no 5 (set.-out. 2000), 613-22\/ G. Bogart, \u201cThe Use of Meditation in Psychotherapy: A review of the Literature, American Journal of Psychotherapy 45, no 3 (julho 1991), 383-412.<br \/>Ver\u00a0<a href=\"http:\/\/www.investigatingthemind.org\/\">http:\/\/www.investigatingthemind.org\/<\/a>\u00a0.<br \/>Richard J. Davidson et al., \u201cAlterations in Brain and Immune Function Produced by Mindfulness Meditation\u201d, Psychosomatic Medicine 65, no 4 (julho-ago. 2003), 564-70.<br \/>Antoine Lutz, Laurence L. Greischar, Nancy B. Rawlings, Mattieu Ricard e Richard J. Davidson, \u201cLong-term Meditators Self-Induced High-Amplitude Gamma Synchrony During Mental Practice\u201d, Proceedings of the National Academy of Science 101, no 46 (16 nov. 2004), 16369-16373.<br \/>Ver\u00a0<a href=\"http:\/\/lazar-meditation-research.info\/lazar.html\">http:\/\/lazar-meditation-research.info\/lazar.html<\/a><br \/>Sigla de magnetic resonance imaging, imagens por resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. (N. do T.)<br \/>S. W. Lazar, C. E. Kerr, R. H. Wasserman, J. R. Gray, D. N. Greve, M. T. Tread-way, M. Mc-Garvey, B. T. Quinn, J. A. Dusek, H. Benson, S. L. Rauch, C. I. Moore e B. Fischl, \u201cMeditation Experience Is Associated with Increased Cortical Thickness\u201d, Neuroreport 16 (2005), 893-97.<br \/>M. R. Rueda, M. K. Rothbart, B. D. McCandliss, L. Saccomanno e M. I. Posner, Proceedings of the National Academy of Science USA 102 (2005), 14931-14936; Karla Homboe e Mark H. Johnson, \u201cEducating Executive Attention\u201d, Proceedings of the National Academy of Science 102, no 41 (11 out. 2005), 14479-14480.<br \/>Amish P. Jha, Jason Krompinger e Michael J. Baime, \u201cMindfulness Training Modifies Subsystems of Attention\u201d, Cognitive, Affective and Behavioral Neuroscience 7, no 2 (2007), 109-19; Heleen A. Slagter, Antoine Lutz, Lawrence L. Greischar, Andrew D. Francis, Sander Nieuwenhuls, James M. Davis e Richard J. 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Alan Wallace e Shauna Shapiro, \u201cMental Balance and Well-Being: Building Bridges Between Buddhism and Western Psychology\u201d, American Psycholologist 161, no 7 (out. 2006), 690-701;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sbiinstitute.com\/mentalbalance.pdf\">http:\/\/www.sbiinstitute.com\/mentalbalance.pdf<\/a><br \/>Daniel Goleman, org., Destructive Emotions: A Scientific Dialogue with the Dalai Lama (Nova York, Times Books, 2003), 39-40.<br \/>Iniciais da sigla em ingl\u00eas: Cultivating Emotional Balance. (N. do T.)<br \/>Paul Ekman, Emotions Revealed: Recognizing Faces and Feelings to Improve Communication and Emotional Life (Nova York, Times Books, 2003), 39-40.<br \/>Katherine Ellison, \u201cMastering Your Own Mind\u201d, Psychology Today (out. 2006);\u00a0<a href=\"http:\/\/www.psychologytoday.com\/\">http:\/\/www.psychologytoday.com<\/a>\u00a0(clique em Mastering your Own Mind).<br \/>Louis Sahagun, \u201cThe Dalai Lama Has It \u2013 but Just What Is It?\u201d, Los Angeles Times, 9 dez., 2006, B2.<br \/>The Dalai Lama, Freedom in Exile: The Autobiography of the Dalai Lama (Nova York, Harper-Collins, 1990).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!-- \/wp:paragraph --><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUEM SOU EU? 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