{"id":8036,"date":"2020-02-20T06:57:46","date_gmt":"2020-02-20T06:57:46","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/02\/20\/pensamentos-sem-pensador-mark-epstein-2\/"},"modified":"2020-02-20T06:57:46","modified_gmt":"2020-02-20T06:57:46","slug":"pensamentos-sem-pensador-mark-epstein-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/02\/20\/pensamentos-sem-pensador-mark-epstein-2\/","title":{"rendered":"Pensamentos sem pensador &#8211; Mark Epstein"},"content":{"rendered":"<p style=\"border: 0px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; text-align: justify;\"><strong>Psicoterapia pela Perspectiva Budista<br \/>\n<\/strong><\/br><br \/>\nA pergunta que me fazem com frequ\u00eancia diz respeito \u00e0 maneira pela qual o budismo me influenciou como terapeuta, e como eu o integrei ao meu trabalho. Esta \u00e9 uma pergunta surpreendente, j\u00e1 que o meu prop\u00f3sito inicial n\u00e3o era o de me tornar um \u201cpsicoterapeuta budista\u201d. Eu procurava o conhecimento de ambos os sistemas, oriental e ocidental, simultaneamente. Conheci meus primeiros mestres de medita\u00e7\u00e3o praticamente na mesma \u00e9poca em que iniciei meus estudos sobre a teoria freudiana. Ainda estudante de medicina, viajei para \u00cdndia e sudeste da \u00c1sia e passei semanas em retiro silencioso antes de atender o meu primeiro paciente de terapia. N\u00e3o recebi um ensinamento formal que me preparasse para integrar esses dois conhecimentos e n\u00e3o tive muita escolha quanto a esta quest\u00e3o. Bem de acordo com a natureza extremamente individual da medita\u00e7\u00e3o e da psicoterapia, minhas tentativas de conseguir a integra\u00e7\u00e3o entre os dois sistemas foram, acima de tudo, pessoais.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Esse caminho est\u00e1 longe daquele imaginado pelo grande psic\u00f3logo Willian James. Impressionado com a sua sofistica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, James previu que o budismo exerceria uma grande influ\u00eancia sobre a psicologia do ocidente. Um epis\u00f3dio ocorrido com ele serve de ponto de partida.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">No princ\u00edpio deste s\u00e9culo, durante uma confer\u00eancia na Universidade de Harvard, James interrompeu seu discurso ao reconhecer em meio ao p\u00fablico assistente um monge budista vindo do Sri Lanka: \u2013 Sente-se em minha cadeira \u2013 teria dito o psic\u00f3logo \u2013 o senhor est\u00e1 melhor preparado do que eu para discorrer sobre a Psicologia. O Budismo \u00e9 a psicologia que todos estar\u00e3o estudando daqui vinte e cinco anos.\u201d[i] James foi um dos primeiros a compreender a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica do pensamento budista, mas seu sucesso como adivinho nunca se comparou \u00e0quele obtido como psic\u00f3logo. V\u00e1rios anos antes, em Viena, Freud publicara The Interpretation of Dreams (A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos), e seria a psicologia freudiana, e n\u00e3o o budismo, que viria a exercer um grande impacto no ocidente ao longo das d\u00e9cadas que se seguiram.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca da confer\u00eancia de James, a filosofia oriental apenas come\u00e7ava a exercer sua influ\u00eancia sobre os psic\u00f3logos ocidentais. Nos c\u00edrculos psicanal\u00edticos, o interesse pelo pensamento oriental era comum. Muitos dos colegas e primeiros seguidores de Freud (entre eles Ernest Jones, Otto Rank, Sandor Ferenczi, Franz Alexander, Lou Andreas-Salom\u00e9 e Carl Jung) estavam familiarizados com as ideias do misticismo oriental e procuravam debate-las a partir da perspectiva psicanal\u00edtica. O poeta e escritor franc\u00eas Romain Rolland, devote seguidor dos mestres hindus Ramakrishna e Vivekananda, manteve com seu amigo Freud uma vigorosa correspond\u00eancia a respeito de suas experi\u00eancias meditativas, como aquelas amplamente descritas em Civilization and Its Discontents (O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o). Ainda que um tanto c\u00e9tico, Freud ficou fascinado com os relatos de Rolland e se esfor\u00e7ou para aplicar seu entendimento psicanal\u00edtico \u00e0s experi\u00eancias descritas pelo amigo. Em 1930, Freud escreveu:<br \/>\n\u201cCom a sua orienta\u00e7\u00e3o, devo penetrar a selva Indiana da qual at\u00e9 agora me mantive afastado devido \u00e0 incerta combina\u00e7\u00e3o de amor hel\u00eanico pela propor\u00e7\u00e3o, sobriedade judaica e temor filisteu. Eu j\u00e1 deveria t\u00ea-la enfrentado, pois as plantas deste solo n\u00e3o me s\u00e3o estranhas; escavei at\u00e9 uma profundidade atr\u00e1s de suas ra\u00edzes. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ultrapassar os limites de nossa pr\u00f3pria natureza.\u201d[ii]<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Compartilhando com Freud destas tr\u00eas caracter\u00edsticas \u2013 \u201camor \u00e0 propor\u00e7\u00e3o, sobriedade jucaica e temor filisteu\u201d -, posso garantir que nenhuma delas \u00e9 capaz de impeder a compreens\u00e3o do enfoque budista. O pr\u00f3prio Freud, mesmo hesitante, deu o melhor de si tentando penetrar a selva Indiana. Sob a influ\u00eancia de Rolland, Freud descreveu o \u201csentimento oce\u00e2nico\u201d como a experi\u00eancia m\u00edstica propot\u00edpica: uma sensa\u00e7\u00e3o de unidade ilimitada e infinita com o universo, que busca a \u201crestaura\u00e7\u00e3o do narcisismo sem limite\u201d e a \u201cressurrei\u00e7\u00e3o do desamparo infantil.\u201d[iii] Esta compara\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia meditativa com o retorno ao seio ou \u00fatero tem-se mantido praticamente incontestada, dentro da comunidade psicanal\u00edtica, desde o coment\u00e1rio de Freud. Embora esta afirma\u00e7\u00e3o de fato encerre parte da verdade, ela n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o os m\u00e9todos investigativos ou anal\u00edticos caracter\u00edsticos do Budismo, muito semelhantes \u00e0 abordagem psicodin\u00e2mica. Enquanto James abria as portas da Psicologia para as importantes contribui\u00e7\u00f5es contribui\u00e7\u00f5es do enfoque budista, Freud as fechou de modo eficaz. Esta atitude n\u00e3o nasceu do desinteresse de Freud em aplicar a investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica aos variados estados meditativos, mas de um desconhecimento b\u00e1sico a respeito daquilo de que a medita\u00e7\u00e3o budista realmente trata.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">James compreendeu algo que as gera\u00e7\u00f5es seguintes de ensa\u00edstas mais influenciados pela psican\u00e1lise n\u00e3o compreenderam: a dimens\u00e3o essencialmente psicol\u00f3gica da experi\u00eancia espiritual budista. Longe de representar um ref\u00fagio m\u00edstico contra as complexidades das experi\u00eancias mentais e emocionais, o enfoque exige que a psique como um todo esteja subordinada \u00e0 consci\u00eancia meditativa. \u00c9 neste ponto que as afinidades com aquilo que viria a se chamar \u201cpsicoterapia\u201d se tornam \u00f3bvias. A medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do mundo; a desacelera\u00e7\u00e3o que a medita\u00e7\u00e3o exige est\u00e1 a servi\u00e7o de um exame mais detalhado dos processos mentais cotidianos. Este exame \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, psicol\u00f3gico. Seu objetivo \u00e9 questionar a verdadeira natureza do eu e acabar com a produ\u00e7\u00e3o de sofrimento ps\u00edquico gerado pela pr\u00f3pria pessoa. \u00c9 isto que v\u00e1rias correntes da psicoterapia t\u00eam procurado alcan\u00e7ar de forma independente, muitas vezes sem se beneficiar da metodologia dos psic\u00f3logos budistas da mente. Enquanto o Budismo foi visto como uma busca m\u00edstica ou transcendental, como um exotismo oriental incompreens\u00edvel ao psiquismo ocidental, como uma busca espiritual de pouca import\u00e2ncia para os nossos complicados apegos neur\u00f3ticos, p\u00f4de ser mantido separado da psicologia tradicional, e seus conceitos puderam ser relegados \u00e0s prateleiras esot\u00e9ricas, sob o t\u00edtulo de \u201cfilosofia oriental.\u201d No entanto, o Budismo tem algo de essencial a ensinar aos psicoterapeutas contempor\u00e2neos, pois h\u00e1 muito vem aperfei\u00e7oando uma t\u00e9cnica de confronta\u00e7\u00e3o e erradica\u00e7\u00e3o do narcisismo humano \u2013 um prop\u00f3sito que apenas recentemente a psicoterapia ocidental come\u00e7ou a contemplar.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">A partir dos \u00faltimos anos da d\u00e9cada de 60 e ao longo da d\u00e9cada de 70, o pensamento oriental tem-se insinuado lentamente na consci\u00eancia psicol\u00f3gica do Ocidente. Alimentada pelo rompimento de Jung com Freud, pela ades\u00e3o dos poetas beat ao Zen, nos anos 50, e pela liga\u00e7\u00e3o entre psicodelia e misticismo oriental, que a contra cultura promove nos anos 60, a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica do pensamento oriental tem sido rotulada \u201calternativa\u201d desde as suas primeiras incurs\u00f5es no ocidente. A influ\u00eancia do pensamento oriental pode ser vista no trabalho do psic\u00f3logo Abraham Maslow e no desenvolvimento da vertente human\u00edstica da psicologia moderna. Al\u00e9m disso, muitos dentre os psicanalistas pioneiros (notadamente, Eric Fromm e Karen Horney) se sentiram atra\u00eddos pelo pensamento budista tardiamente em suas carreiras. Contudo, os universos do pensamento oriental e a corrente principal da psican\u00e1lise ocidental se mantiveram extraordinariamente isolados um do outro, ao longo dos anos. Embora os conceitos de Freud passassem a predominar, assumindo definitivamente o controle da linguagem da psicologia, e a Psican\u00e1lise continuasse a avan\u00e7ar como um f\u00f3rum par a investiga\u00e7\u00e3o da natureza da experi\u00eancia psicol\u00f3gica, aparentemente nenhum dos divulgadores modernos do Budismo no Ocidente \u2013 fossem eles tradutores, autores ou professores \u2013 demonstraram possuir o dom\u00ednio da linguagem da Psican\u00e1lise. Ao apresentar o ponto de vista oriental, geralmente ficavam exclu\u00eddos do compo de interesse da psicoterapia psicodin\u00e2mica, permitindo que os psicoterapeutas mais modernos continuassem a ignor\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Enriquecidos pelas primeiras contribui\u00e7\u00f5es de James, Jung, Aldous Huxley, Alan Watts, Thomas Merton e Joseph Campbell, os amplos contornos do pensamento asi\u00e1tico foram delineados para a mente ocidental. Ao enfatizar a universalidade da \u201cconsci\u00eancia c\u00f3smica\u201d, ou o misticismo de todas as religi\u00f5es, eles fizeram muito para popularizar a id\u00e9ia de \u201cfilosofia perene\u201d, comum a todas as tradi\u00e7\u00f5es espirituais. Estes primeiros exploradores do pensamento oriental reconheceram a natureza psicol\u00f3gica \u00fanica dos textos budistas que estavam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, mas com frequ\u00eancia lhes passavam desapercebidas as diferen\u00e7as entre o enfoque budista e os outros. Tendiam, tamb\u00e9m, a minimizar as t\u00e9cnicas especificamente budistas de investiga\u00e7\u00e3o anal\u00edtica da natureza do eu, t\u00e3o importantes para os terapeutas atuais. Eram generalistas que sintetizavam um grande n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es d\u00edspares, traduzindo-as de forma necessariamente simplificada, para que pudessem ser digeridas por leitores para os quais tudo era novidade. Contudo, dentre os primeiros tradutores, poucos possu\u00edam amplo treinamento nas pr\u00e1ticas de medita\u00e7\u00e3o que distinguem o Budismo de outros m\u00e9todos orientais; e embora respeitassem a lucidez psicol\u00f3gica dos ensinamentos budistas, sua inexperi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psicoterapia cl\u00ednica e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o budista intensiva impediu o desenvolvimento de uma eficaz integra\u00e7\u00e3o entre as duas.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Enquanto isso, com o passar dos anos, a psicoterapia cresceu e se sofisticou e suas semelhan\u00e7as com o pensamento budista se tornaram cada vez mais evidentes. No momento em que a conduta terap\u00eautica deslocava sua aten\u00e7\u00e3o dos conflitos gerados peos impulsos agressivos e sexuais, por exemplo, para uma preocupa\u00e7\u00e3o maior para o desconforto dos pacientes consigo mesmos \u2013 porque, basicamente, n\u00e3o sabem quem s\u00e3o -, a quest\u00e3o do eu surgiu como o ponto em comum entre o Budismo e a Psican\u00e1lise. Embora a tradi\u00e7\u00e3o ocidental se aprimorasse em descrever o que se convencionou chamar de \u201cdilema narcisista\u201d \u2013 a sensa\u00e7\u00e3o de inautenticidade e vazio que impele as pessoas ora a idealizar ora a desvalorizar a si pr\u00f3prias e aos outros -, a aplicabilidade do m\u00e9todo psicanal\u00edtico a tais problemas continuou gerando muitas controv\u00e9rsias. De fato, os terapeutas ocidentais est\u00e3o na peculiar situa\u00e7\u00e3o de terem identificado uma abundante fonte de ang\u00fastia neur\u00f3tica sem terem desenvolvido um tratamento eficaz para ela. Ao atingir este ponto, muitos no campo da psicologia compreenderam, finalmente, as afirma\u00e7\u00f5es de James, e puderam erguer os olhos para os ensinamentos psicol\u00f3gicos de Buda.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">A psicologia budista, n\u00e3o obstante, faz dessa profunda sensa\u00e7\u00e3o de confus\u00e3o da identidade o seu ponto de partida e, indo al\u00e9m, afirma que todos os esfor\u00e7os para atingirmos a sensatez, a certeza e a seguran\u00e7a est\u00e3o destinados, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ao fracasso. N\u00e3o apenas descreve a luta para encontrar o \u201cverdadeiro eu\u201d em termos que impressionaram os psic\u00f3logos do ocidente durante d\u00e9cadas (alguns dos participantes do grupo de Freud estudaram os rec\u00e9m traduzidos textos budistas, interessados pelos conceitos que traziam sobre o narcisismo), mas tamb\u00e9m oferece um m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel na tradi\u00e7\u00e3o ocidental. Na perspectiva budista, a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 insubstitu\u00edvel para libertar o indiv\u00edduo da ang\u00fastia neur\u00f3tica. A psicoterapia pode ser igualmente necess\u00e1ria, especialmente para expor e reduzir os conflitos er\u00f3ticos ou agressivos, mas o di\u00e1logo psicoter\u00e1pico sempre se depara com o problema do eu inquieto e inseguro. A psicoterapia \u00e9 capaz de identificar esse problema, traz\u00ea-lo \u00e0 tona, apontar algumas das car\u00eancias da inf\u00e2ncia que contribui\u00edram para o seu desenvolvimento e ajudar a diminuir a intensidade com que os conflitos er\u00f3ticos e agressivos atrapalham a busca pela satisfa\u00e7\u00e3o do eu, mas n\u00e3o tem sido capaz de conceder a liberdade a partir de um anseio narcisista.<br \/>\nFreud mostrou sinais de reconhecimento dessa defici\u00eancia j\u00e1 no fim da vida, em seu ensaio \u201cAnalysis Terminable or Interminable\u201d (\u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel ou intermin\u00e1vel\u201d), e gera\u00e7\u00f5es de terapeutas e pacientes acabaram por verificar, assim como ele, o relativo al\u00edvio que a psicoterapia tem a oferecer. O Budismo promete claramente mais, e devido a esta promessa, captou a aten\u00e7\u00e3o dos psicoterapeutas, orgulhosos que estavam pela \u201cdescoberta\u201d do narcisismo.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">As pessoas se sentem atra\u00eddas pelo Budismo, mas ele continua enigm\u00e1tico. Percebem que tem algo a lhes dizer, ainda que sintam alguma dificuldade em decodificar sua mensagem em uma forma aplic\u00e1vel ao seu cotidiano. Visto como coisa ex\u00f3tica, estranha e distante, o Budismo continua inexplorado em toda sua potencialidade, e a sua mensagem ainda n\u00e3o foi totalmente assimilada. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 an\u00e1loga \u00e0quela da China de dois mil anos atr\u00e1s, quando o Tao\u00edsmo era a filosofia predominante e o Budismo come\u00e7ava a ser introduzido. Coube \u00e0queles eruditos tao\u00edstas, que tamb\u00e9m se especializaram em medita\u00e7\u00e3o budista, realizar o processo de \u201csinifica\u00e7\u00e3o\u201d do Budismo, produzindo um novo h\u00edbrido \u2013 o Budismo chin\u00eas ou Zen. Na nossa cultura, seria a linguagem psicanal\u00edtica desenvolvida por Freud \u2013 e cuidadosamente cultivada por gera\u00e7\u00f5es de psicoterapeutas ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo \u2013 que viria a se infiltrar na consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o em geral. \u00c9 nesta linguagem que os insights de Buda devem ser apresentados aos ocidentais.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Descobri o Budismo quando ainda era um estudante de psiquiatria e comecei , a dedicar-me \u00e0 medita\u00e7\u00e3o antes mesmo de submeter-me \u00e0 psicoterapia ou de excerc\u00ea-la. De fato, tive o meu primeiro contato com o Budismo nas salas de aula da Universidade de Harvard, no pr\u00e9dio da Faculdade de Psicologia \u2013 chamado William James Hall \u2013 onde, cinquenta anos depois, as previs\u00f5es de James come\u00e7aram a se tornar realidade.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\">Comecei a minha argumenta\u00e7\u00e3o falando sobre algo que sempre me impressionou no Budismo: sua perspicaz e abrangente vis\u00e3o a respeito da psique humana. Pois o Budismo, assim como as tradi\u00e7\u00f5es ocidentais que o sucederam s\u00e9culos depois, \u00e9, em sua forma psicol\u00f3gica, a psicologia da profundidade. O Budismo \u00e9 capaz de descrever, em termos que deixariam qualquer psicanalista orgulhoso, a enorme variedade de experi\u00eancias emocionais humanas. Embora n\u00e3o tenha podido vivenciar nenhum dos tr\u00eas caminhos definidos por Freud \u2013 \u201camor \u00e0 propor\u00e7\u00e3o, sobriedade judaica e temor filisteu\u201d -, Buda bem poderia ser o psicanalista original ou, ao menos, o primeiro a usar o modo de investiga\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que Freud mais tarde codificou e desenvolveu. Na descri\u00e7\u00e3o tradicional da Roda da Vida, e novamente, nos ensinamentos das Quatro Nobres Verdades de Buda encontramos os frutos desta investiga\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Inspirado nas palavras do psicanalista ingl\u00eas W. R. Bion, parece insinuar, os ensinamentos de Buda n\u00e3o est\u00e3o necessariamente em desacordo com o enfoque da psicodin\u00e2mica. Algumas vezes, na realidade, s\u00e3o exatamente aquilo que o m\u00e9dico recomendaria.<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\"><strong>Fonte:<\/strong><br \/>\nEpstein, Mark. Pensamentos sem Pensador: uma perspectiva budista para a psicoterapia. Rio de Janeiro: Gryphus, 1996.<br \/>\nDigita\u00e7\u00e3o: Lama Jigme Lhawang<\/p>\n<p style=\"border: 0px; font-family: Roboto, sans-serif; font-size: 18px; line-height: 32.4px; margin-bottom: 1.1em; overflow-wrap: break-word; color: #444444; text-align: justify;\"><strong>Notas:<\/strong><br \/>\n[i] Rick Fields, How the Swans Came to the Lake: A Narrative History of Buddhism in America (Boulder, Colo.: Shambhala, 1981), p. 135.<br \/>\n[ii] Ver correspond\u00eancia de 19 de janeiro de 1930, de Freud a Romain Rolland. In: Letters of Sigmund Freud, ed. Por Ernst Freud (Nova Iorque: Basic Books, 1960), pp. 392-93.<br \/>\n[iii] Sigmund Freud, \u201cCivilization and Its Discontents\u201d, Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, ed. e trad. Por James Strachey (Londres: Hogarth Press and Institute of Psychoanalysis, 1961.)<\/p>\n<p><!--vcv no format--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Psicoterapia pela Perspectiva Budista A pergunta que me fazem com frequ\u00eancia diz respeito \u00e0 maneira pela qual o budismo me influenciou como terapeuta, e como &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/02\/20\/pensamentos-sem-pensador-mark-epstein-2\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Pensamentos sem pensador &#8211; Mark Epstein<\/span> Leia mais \u00bb<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8034,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"","site-content-layout":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[6,8],"class_list":["post-8036","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-ciencia-contemplativa","tag-mark-epstein"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v27.6.1 (Yoast SEO v27.2) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>Pensamentos sem pensador - Mark Epstein - Ci\u00eancia Contemplativa<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/cienciacontemplativa.org\/icc\/2020\/02\/20\/pensamentos-sem-pensador-mark-epstein-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Pensamentos sem pensador - Mark Epstein - Ci\u00eancia Contemplativa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Psicoterapia pela Perspectiva Budista A pergunta que me fazem com frequ\u00eancia diz respeito \u00e0 maneira pela qual o budismo me influenciou como terapeuta, e como &hellip; 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